
Capítulo 1A pista que para um caminhão sem freio
Trabalho de uma força
Um caminhão sem freio entra numa caixa de argila e para em menos de 150 metros, sem ninguém pisar em nada: uma força modesta, ao longo de uma distância grande, pagou o preço de parar quarenta toneladas.
Neste capítulo você vai
- Calcular o trabalho de uma força constante com o cosseno do ângulo entre a força e o caminho
- Reconhecer as forças que não trabalham e ler o sinal do trabalho: a favor, contra ou de lado
- Medir o trabalho como a área sob o gráfico da força e somar o trabalho de várias forças
Assista ao episódio 1
Este capítulo acompanha o episódio 1 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.
O caso: cento e cinquenta metros de argila
Descida da serra na BR-376, no km 667 do litoral do Paraná, sentido Santa Catarina. Um caminhão carregado desce a serra e o freio não responde. O motorista não tem pedal, não tem marcha que segure, e à frente vem uma curva. À direita, uma pista lateral com o chão quadriculado: a área de escape. Ele entra.

A pista leva a uma caixa de concreto de 150 m de comprimento e 1,1 m de profundidade, cheia de argila expandida — bolinhas leves de barro cozido, as mesmas dos vasos de planta. O caminhão afunda até o eixo, as rodas empurram a argila para a frente e para os lados, e em alguns segundos ele para, antes do fim da caixa. Sem freio, sem motorista pisando em nada. A caixa foi inaugurada em novembro de 2019 e, em cinco anos, recebeu 272 veículos em apuros — 554 pessoas que desceram a serra e chegaram em casa.
O que parou o caminhão? Não foi um muro: um muro para em centímetros, e ninguém sai dele inteiro. Foi uma força modesta — a argila empurrando contra — que agiu ao longo de uma distância grande. É essa a conta que este capítulo monta: força vezes distância, com um cuidado a mais sobre o ângulo, e um nome para o resultado. O nome é trabalho, e o número que sai dele, no caso do caminhão, é a primeira peça da ideia que dá nome à série inteira: energia.
Trabalho: força ao longo do caminho
Na linguagem de todo dia, trabalho é qualquer esforço: segurar uma mala parada cansa, e alguém diria que dá trabalho. Na física, a palavra tem um sentido estreito e exato. Uma força só realiza trabalho quando o corpo em que ela age se desloca, e o trabalho mede quanto dessa força foi aplicada ao longo do caminho.

Quando a força aponta exatamente na direção e no sentido do deslocamento, a conta é a mais simples de todas: o trabalho W é o módulo da força vezes a distância percorrida.
Definição
Trabalho de uma força constante (força na direção do movimento)
- Trabalho = força × distância: W = F × d.
- A unidade é o joule (J): 1 J = 1 N × 1 m, o trabalho de uma força de 1 newton ao longo de 1 metro.
- Trabalho é escalar: tem valor e sinal, mas não tem direção. Nas figuras deste livro ele nunca ganha seta — aparece como número, barra ou área.
Um joule é pouco. Levantar do chão até a mesa, a 1 m, um pacote de 100 g — um celular pequeno, uma maçã — custa cerca de 1 J: o peso é 0,1 kg × 10 m/s² = 1 N, e a distância é 1 m. Empurrar uma caixa pesada por uma sala dá centenas de joules. Parar um caminhão, como a seção final vai mostrar, dá milhões. Por isso os joules costumam vir acompanhados de potências de dez, do jeito que a série anterior ensinou a escrever.

Atenção
Parado, não trabalha
Segurar uma mala de 20 kg por dez minutos cansa os braços, mas, se a mala não sai do lugar, a força da mão sobre ela realiza trabalho zero: a distância é zero. O cansaço é dos músculos, que se contraem e relaxam o tempo todo por dentro; a mala não recebeu nada.
Força inclinada: só a sombra no caminho trabalha
Nem sempre a força aponta para onde o corpo vai. Quem puxa uma mala de rodinhas pela alça puxa inclinado: um pouco para a frente, um pouco para cima. A mala anda na horizontal. Quanto dessa força trabalha?

A resposta usa a ferramenta do capítulo de vetores da série anterior: decompor. A força inclinada vale o mesmo que duas forças retas, uma na direção do caminho e outra perpendicular a ele. A componente na direção do caminho trabalha inteira; a perpendicular não trabalha nada (a próxima seção mostra por quê). E a componente na direção do caminho é a força vezes o cosseno do ângulo entre a força e o deslocamento.
Definição
Trabalho de uma força constante (caso geral)
W = F × d × cos θ, em que θ é o ângulo entre a força e o deslocamento.
- F × cos θ é a componente da força na direção do caminho — a sombra da força no chão.
- Com θ = 0°, cos θ = 1 e a fórmula volta a ser F × d.
Com o triângulo de sempre, sen 37° = 0,6 e cos 37° = 0,8: uma corda que puxa com 100 N, inclinada 37°, puxa para a frente com 100 × 0,8 = 80 N. Arrastando a caixa por 10 m, o trabalho é 80 × 10 = 800 J — e não os 1.000 J de quem esqueceu o ângulo. Os outros 60 N, verticais, só aliviam o chão: a caixa não sobe, e eles não entram na conta.
Dica ENEM
Dica ENEM: o ângulo é entre a força e o deslocamento
O cosseno usa o ângulo entre a força e o caminho, não entre a força e a parede, nem o ângulo da rampa por reflexo. Antes de multiplicar, desenhe as duas setas saindo do mesmo ponto — a da força e a do deslocamento — e meça o ângulo entre elas.
Força perpendicular não trabalha
Se o ângulo entre a força e o caminho é de 90°, o cosseno é zero e o trabalho também. Não é detalhe de conta; é o jeito de a natureza dizer que uma força de lado não empurra nem segura o movimento, só muda a direção dele ou sustenta o corpo.

Três casos que a prova adora, todos com trabalho zero:
- A bandeja no corredor. O garçom caminha em linha reta, com a bandeja na mesma altura. A mão empurra para cima; a bandeja anda na horizontal. Ângulo de 90°: a força da mão não realiza trabalho sobre a bandeja, por maior que seja o corredor.
- A normal no chão plano. Um carro anda numa estrada reta e plana. O chão empurra o carro para cima; o carro anda para a frente. A normal não trabalha — e o peso, pelo mesmo motivo, também não.
- A força que faz girar. Uma pedra presa a um barbante gira em círculo com velocidade de módulo constante. A força do barbante aponta sempre para o centro, e o movimento é sempre tangente ao círculo. O barbante não acelera nem freia a pedra; só vira a direção dela. Trabalho zero, volta após volta — o mesmo vale para um satélite em órbita circular.
Atenção
Trabalho não é "força vezes distância" sem olhar o ângulo
A frase curta engana. Força vezes distância só vale quando a força está na direção do caminho. Uma força perpendicular ao deslocamento, por maior que seja, realiza trabalho zero.
Positivo, negativo ou zero
O cosseno não fica só entre 0 e 1: para ângulos acima de 90°, ele é negativo. Isso dá ao trabalho um sinal, e o sinal tem significado físico.

| ângulo entre F e d | cos θ | trabalho |
|---|---|---|
| 0° (a favor) | 1 | positivo: a força ajuda |
| 90° (de lado) | 0 | zero: não ajuda nem atrapalha |
| 180° (contra) | −1 | negativo: a força atrapalha |
Trabalho positivo é o da força que empurra a favor do movimento: o motor puxando o carro, a mão empurrando a caixa. Trabalho negativo é o da força que age contra o movimento: o atrito de uma caixa arrastada, o freio, a argila da área de escape. O atrito que se opõe ao escorregamento aponta sempre contra o deslizamento, e por isso o trabalho dele, nesse caso, é sempre negativo.
O peso na subida e na descida
O peso aponta sempre para baixo. Quando uma caixa de 20 kg sobe 3 m, o peso (200 N) aponta contra o deslocamento, e o trabalho do peso é −200 × 3 = −600 J. Quando a mesma caixa desce os mesmos 3 m, o peso aponta a favor: +600 J. Subir e voltar ao mesmo lugar dá, para o peso, trabalho total zero — uma observação pequena que vira ferramenta grande no capítulo da montanha-russa.

Trabalho é área
A série anterior mostrou que a área sob o gráfico da velocidade mede o deslocamento. O trabalho tem o mesmo truque: a área sob o gráfico da força (na direção do caminho) contra a posição mede o trabalho. Com força constante, o gráfico é uma linha horizontal, e a área é um retângulo: altura F, base d, área F × d.

A vantagem do gráfico aparece quando a força muda ao longo do caminho — e quase toda força de verdade muda. A fórmula F × d deixa de valer, mas a área continua valendo: basta somar os pedaços. Uma força que cresce de 0 a 100 N nos primeiros 2 m e depois fica constante em 100 N por mais 3 m realiza um trabalho igual a um triângulo mais um retângulo: 100 × 2 ÷ 2 + 100 × 3 = 100 + 300 = 400 J. O triângulo vai voltar no capítulo do arco e flecha, onde a força de uma mola cresce exatamente assim.

Atenção
Área abaixo do eixo conta com sinal negativo
Força contra o movimento aparece no gráfico abaixo do eixo, e a área dela entra na soma com sinal de menos. É o gráfico da área de escape: uma faixa inteira abaixo do eixo.
Trabalho total e o preço de parar
Num corpo agem, em geral, várias forças: a que puxa, o atrito, o peso, a normal. Cada uma realiza o seu trabalho, com o seu sinal. O trabalho total é a soma deles — e dá o mesmo que o trabalho da força resultante, porque somar as forças antes ou somar os trabalhos depois é a mesma conta.

Agora o caminhão. Suponha um caminhão de 40 toneladas — um valor de exemplo, dentro do limite legal, não um dado de um acionamento real — que entra na caixa a 72 km/h, isto é, 20 m/s, e para em 100 m. A série anterior entrega a desaceleração pela equação de Torricelli, sem relógio: a = v² ÷ (2 × d) = 400 ÷ 200 = 2 m/s². Pela segunda lei de Newton, a força média da argila contra o caminhão é F = m × a = 40.000 × 2 = 80.000 N. Ela age ao longo de 100 m, contra o movimento: W = −80.000 × 100 = −8.000.000 J, ou −8 × 106 J.

Oito milhões de joules, e a argila pagou todos eles, em 100 m, sem esquentar um disco de freio. Repare num detalhe da conta: −8 × 106 J é exatamente metade da massa vezes o quadrado da velocidade, com sinal trocado — 40.000 × 20² ÷ 2 = 8 × 106. Não é coincidência. Esse número tem nome próprio e vai ganhar o capítulo 3 inteiro. Por ora, basta a frase: o trabalho da força resultante é o preço do movimento — o que é preciso pagar para criar uma velocidade, ou para tirá-la.
Exemplos resolvidos
Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de trabalho há um passo antes: desenhar a força e o deslocamento saindo do mesmo ponto e ler o ângulo entre eles.
Exemplo 1 — A caixa empurrada
Uma pessoa empurra uma caixa com uma força horizontal de 200 N, na direção e no sentido do movimento, ao longo de 5 m. Qual é o trabalho dessa força?
Fórmula. W = F × d × cos θ, com θ = 0° (cos 0° = 1)
Substituição. W = 200 × 5 × 1
Resultado. W = 1.000 J
Conferência. é a área do retângulo de 200 N por 5 m no gráfico da força. Força a favor, trabalho positivo.
Exemplo 2 — A corda inclinada
Uma caixa é arrastada 10 m no chão horizontal por uma corda que faz 37° com o chão e puxa com 100 N. Qual é o trabalho da força da corda? E o da componente vertical? (sen 37° = 0,6; cos 37° = 0,8)
Fórmula. W = F × d × cos θ ; componente vertical: perpendicular ao caminho, cos 90° = 0
Substituição. W = 100 × 10 × 0,8 ; W vertical = 60 × 10 × 0
Resultado. W = 800 J ; W vertical = 0
Conferência. 800 J é menos que os 1.000 J de quem esquece o ângulo. Os 60 N verticais aliviam o chão, mas não trabalham.
Exemplo 3 — O peso na subida e na descida
Uma caixa de 20 kg é erguida 3 m e depois baixada de volta os mesmos 3 m. Qual é o trabalho do peso na subida, na descida e no total? (g = 10 m/s²)
Fórmula. peso P = m × g ; W do peso = P × d × cos θ (θ = 180° na subida, 0° na descida)
Substituição. P = 20 × 10 = 200 N ; subida: 200 × 3 × (−1) ; descida: 200 × 3 × 1
Resultado. subida: −600 J ; descida: +600 J ; total: 0
Conferência. ida e volta ao mesmo lugar, e o peso fica sem saldo. Essa observação é a semente da energia potencial.
Exemplo 4 — A caixa de argila
Um caminhão de 40 t entra na área de escape a 72 km/h e para em 100 m. Qual é a força média da argila sobre ele e o trabalho dessa força?
Fórmula. v = 72 ÷ 3,6 ; a = v² ÷ (2 × d) (Torricelli) ; F = m × a ; W = F × d × cos 180°
Substituição. v = 20 m/s ; a = 400 ÷ 200 ; F = 40.000 × 2 ; W = 80.000 × 100 × (−1)
Resultado. a = 2 m/s² ; F = 80.000 N ; W = −8 × 106 J
Conferência. 40.000 × 20² ÷ 2 = 8 × 106, o mesmo número. E os 100 m cabem nos 150 m da caixa, com 50 m de folga.

Exemplo 5 — Quatro forças, uma soma
Uma caixa é puxada 4 m num chão horizontal por uma força horizontal de 50 N, contra um atrito de 20 N. Qual é o trabalho de cada força e o trabalho total?
Fórmula. W = F × d × cos θ para cada força ; W total = soma dos trabalhos = força resultante × d
Substituição. força que puxa: 50 × 4 × 1 ; atrito: 20 × 4 × (−1) ; peso e normal: cos 90° = 0 ; resultante: (50 − 20) × 4
Resultado. +200 J ; −80 J ; 0 e 0 ; W total = +120 J
Conferência. 200 − 80 + 0 + 0 = 120 J, o mesmo que 30 N × 4 m. Total positivo: a caixa sai mais rápida do que entrou.
Radar ENEM
O ENEM cobra trabalho quase sempre com uma força inclinada ou com uma força que não trabalha escondida na cena. O formato favorito é o carrinho, a mala ou o trenó puxado por uma corda oblíqua.

Um carrinho é empurrado 10 m com uma força de 50 N inclinada 37° abaixo da horizontal: o trabalho é 50 × 10 × 0,8 = 400 J, e o distrator é 500 J. Outros formatos que aparecem: a pergunta conceitual sobre qual força não realiza trabalho (a normal, a força que faz girar, a mão do garçom); o gráfico da força contra a posição, com a pergunta pela área; e a frenagem, em que o trabalho do atrito é negativo e o enunciado quer o módulo.
Dica ENEM
Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas
- Esquecer o cosseno — força inclinada trabalha só com a componente no caminho (Exemplo 2).
- Dar trabalho a quem está de lado — normal, força que faz girar e mão do garçom não trabalham.
- Perder o sinal — força contra o movimento dá trabalho negativo; o atrito que freia, também (Exemplos 3 e 4).
- Somar módulos no trabalho total — os sinais entram na soma (Exemplo 5).
Resumo em cinco peças

- Trabalho é W = F × d × cos θ, medido em joules — um escalar, sem seta.
- Força perpendicular ao caminho não trabalha: a normal no chão plano, a força que faz girar, a mão que carrega a bandeja.
- Força a favor do movimento trabalha positivo; contra, negativo; o atrito que freia, sempre negativo.
- Trabalho é a área sob o gráfico da força contra a posição — e a área continua valendo quando a força muda.
- O trabalho da força resultante é o preço do movimento: parar o caminhão custou 8 milhões de joules.
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