
Capítulo 10A sonda que roubou velocidade de Júpiter
Assistência gravitacional e o fecho da mecânica celeste
Mil novecentos e setenta e sete. Uma sonda passa por Júpiter e sai dez quilômetros por segundo mais rápida, sem gastar combustível. Ninguém empurrou. Foi a gravidade — e ela pagou a conta com o planeta.
Neste capítulo você vai
- Ver a passagem por um planeta como uma colisão elástica sem toque: a bola contra o trem, com ganho máximo de 2V
- Medir quem paga: o que a sonda ganha, Júpiter perde — um milímetro, em dez bilhões de anos
- Acompanhar a energia em relação ao Sol cruzar o zero, a elipse virar hipérbole — e fechar a série em cinco peças
Assista ao episódio 10
Este capítulo acompanha o episódio 10 da série no canal — o último. Assista antes ou depois da leitura.
O caso: duas sondas gêmeas e um planeta que pagou a conta
Mil novecentos e setenta e sete. Duas sondas gêmeas partem da Terra com dezesseis dias de diferença, cada uma com pouco mais de oitocentos quilos, no topo de um foguete de mais de seiscentas toneladas. Uma delas passa por Júpiter dois anos depois e sai de lá dez quilômetros por segundo mais rápida — 36 000 km/h a mais — sem gastar combustível: nenhum motor foi ligado. A outra, hoje, quarenta e nove anos depois da partida, está a 171 vezes a distância da Terra ao Sol: 25,6 bilhões de quilômetros, andando a 16,9 km/s. É a coisa mais distante que a humanidade já construiu, e ainda manda sinal. A luz leva quase um dia para chegar nela.

Ninguém empurrou. A única força sobre a sonda, durante a passagem, foi a gravidade de Júpiter — a mesma lei do capítulo 4, que fez a maçã cair, a Lua girar e, no capítulo 9, o mar subir dos dois lados. Aqui ela foi usada de propósito, como ferramenta, por gente que fez a conta com anos de antecedência e acertou a passagem por um planeta a centenas de milhões de quilômetros. A manobra tem nome: assistência gravitacional, ou estilingue gravitacional.
O capítulo 9 terminou com uma pergunta: se ninguém empurrou a sonda, de onde veio essa velocidade — e quem ficou mais devagar? A resposta ocupa este capítulo, o último do livro, e junta três ideias de livros diferentes: a colisão elástica e a conservação da quantidade de movimento, do livro da Mecânica II; a energia no campo gravitacional, com o zero no infinito, do capítulo 8; e a velocidade de escape, que aqui muda de centro — sai da Terra e vai para o Sol. No fim, a série inteira cabe em cinco peças.
A colisão sem toque: no referencial do planeta
Comece pela parte que parece não dar nada. Isole a sonda: sobre ela, durante a passagem, há uma força só — a atração de Júpiter, apontando para o centro dele. Nenhum motor, nenhum contato. No diagrama de corpo livre, essa seta única é a resultante.
Agora escolha o referencial: o do planeta, como se Júpiter estivesse parado. Vista dali, a sonda vem de longe, a gravidade a puxa, ela acelera enquanto se aproxima, faz a curva em volta do planeta e vai embora, perdendo velocidade enquanto se afasta. Quando chega, desce o poço de energia potencial do capítulo 8; quando sai, sobe o mesmo poço. A energia mecânica em relação ao planeta se conserva — a gravidade é a única força e não dissipa nada —, de modo que, de volta à mesma distância de onde veio, a sonda tem a mesma energia cinética que tinha na chegada. No referencial do planeta, ela entra e sai com a mesma velocidade; só a direção mudou.

Isso tem nome no livro da Mecânica II: é uma colisão elástica, de coeficiente de restituição e = 1, aquela em que a velocidade de afastamento é igual à de aproximação. A diferença é que aqui ninguém encosta em ninguém: a gravidade faz o papel da mola, comprimindo na chegada e devolvendo na saída. Se a história acabasse aí, não haveria ganho nenhum — a sonda teria só mudado de rumo. O ganho vem do que faltou dizer: o planeta anda.
Definição
A passagem vista do planeta
- Sistema: a sonda. Uma força só: a atração do planeta, para o centro dele — é a resultante.
- Referencial do planeta: a energia mecânica da sonda se conserva; ela desce e sobe o mesmo poço de potencial.
- A sonda entra e sai com a mesma velocidade (em módulo); só a direção muda.
- É uma colisão elástica (e = 1) sem contato: velocidade de afastamento igual à de aproximação.
Atenção
O referencial vem antes da conta
"A sonda ganhou velocidade" e "a sonda saiu com a mesma velocidade" são as duas verdadeiras — em referenciais diferentes. Vista do planeta, a velocidade de saída é igual à de entrada. Vista do Sol, é maior. Toda frase sobre velocidade neste capítulo só faz sentido depois de dizer em relação a quê; é a mesma regra do sistema e do instante declarados, que o livro da Mecânica II exigiu antes de qualquer conta de conservação.
A bola contra o trem: o ganho de 2V
Troque Júpiter por um trem e a sonda por uma bola de tênis, e a conta cabe em três linhas. Uma bola vai a 10 m/s contra um trem que vem a 5 m/s em sentido contrário. Passe para o referencial do trem: dali, a bola se aproxima a 10 + 5 = 15 m/s. A batida no para-choque é elástica — não perde nada —, então a bola volta a 15 m/s em relação ao trem. Agora volte para o chão: a bola se afasta do trem a 15 m/s, e o trem anda a 5 m/s no mesmo sentido; para quem está parado na estação, a bola sai a 15 + 5 = 20 m/s.

Entrou com 10, saiu com 20: ganhou duas vezes a velocidade do trem. A regra geral, para um corpo leve que bate de frente num corpo muito mais pesado que vem a V:
v(depois) = v(antes) + 2 × V
Júpiter é o trem; a sonda é a bola; a estação é o Sol. Júpiter dá a volta no Sol a 13 km/s. Uma sonda que batesse "de frente" nele — chegando no sentido contrário e saindo de volta exatamente pela direção em que o planeta anda — ganharia 2 × 13 = 26 km/s. Esse é o teto. O ganho real das sondas de 1977 foi de cerca de 10 km/s, porque elas não chegaram de frente: passaram de lado, e a gravidade dobrou o caminho só em parte.
Para voltar do referencial do planeta ao referencial do Sol, a operação é uma soma de setas: à velocidade de saída vista do planeta soma-se, ponta com cauda, a velocidade do próprio planeta. Se a sonda sai na direção em que o planeta anda, as duas setas se alinham e a soma é a maior possível. Se sai de lado, a soma é menor. E se a sonda passa por trás do planeta de modo a sair contra o movimento dele, a soma fica menor que a de entrada: ela perde velocidade — e isso também se usa de propósito, como se verá em Netuno. O ângulo decide quanto do teto a sonda leva, e até o sinal.
Definição
O ganho do estilingue
- No referencial do planeta: entra com u, sai com u. No referencial do Sol: soma-se a velocidade V do planeta à entrada e à saída.
- Batida de frente (o caso da bola e do trem): v(depois) = v(antes) + 2 × V — o ganho máximo é duas vezes a velocidade do planeta.
- Bola a 10 m/s, trem a 5 m/s: chega a 15 e volta a 15 (visto do trem); sai a 20 m/s (visto do chão).
- Júpiter, a 13 km/s: teto de 26 km/s; ganho real de cerca de 10 km/s. O ângulo de saída decide o tamanho e o sinal.
Dica ENEM
Dica ENEM: a bola na parede que anda
O ENEM e os vestibulares cobram a ideia com bolas, raquetes e paredes: "uma bola a 8 m/s bate elasticamente numa parede pesada que vem ao encontro dela a 3 m/s; com que velocidade a bola volta?" — vista da parede, chega a 11 e volta a 11; no chão, 11 + 3 = 14 m/s, que é 8 + 2 × 3. Os distratores: 8 m/s (esqueceu que a parede anda), 11 m/s (ficou no referencial da parede) e 5 m/s (subtraiu). Se a parede se afasta em vez de vir, o sinal troca: a bola volta mais devagar.
Quem paga: Júpiter um milímetro atrás
Velocidade não aparece do nada, e o livro da Mecânica II tem a regra para dizer de onde ela veio: num sistema isolado, a quantidade de movimento total se conserva. O sistema aqui é a sonda mais Júpiter, e os instantes são antes e depois da passagem; a força entre os dois é interna ao sistema — ação e reação, pela terceira lei. O que um ganha de quantidade de movimento, o outro perde.
A sonda ganhou m × Δv = 800 kg × 1,0 × 104 m/s = 8,0 × 106 kg·m/s. Júpiter perdeu exatamente isso. Só que Júpiter tem 1,9 × 1027 kg, e a perda de velocidade dele é esse número dividido pela massa: ΔV = 8,0 × 106 ÷ 1,9 × 1027 = 4,2 × 10−21 m/s. Nenhum instrumento mede isso.

Um número desse tamanho não cabe na cabeça, então troque a pergunta: quanto Júpiter fica atrás de onde estaria, depois de muito tempo andando esse nada mais devagar? Tome dez bilhões de anos, 3,2 × 1017 s — cerca de duas vezes a idade do Sistema Solar. A defasagem é a perda de velocidade vezes o tempo: 4,2 × 10−21 × 3,2 × 1017 = 1,3 × 10−3 m. Em dez bilhões de anos, Júpiter fica um milímetro atrás de onde estaria se a sonda nunca tivesse passado. (Atrás na posição, ao longo da órbita — o planeta não muda de tamanho.)
A energia conta a mesma história. Para ir de 10 para 20 km/s, a sonda ganhou ½ × 800 × (20 000² − 10 000²) = 1,2 × 1011 J de energia cinética — uns 33 000 kWh. A energia cinética de Júpiter em sua órbita é de 1,6 × 1035 J: a sonda levou uma fração menor que 10−24 disso. A conta fecha nos dois livros-caixa, o do momento e o da energia: o que a sonda ganha, o planeta perde. Só trocou quem é o gigante — no capítulo 12 do livro da Mecânica II, uma sonda pequena empurrou um asteroide; aqui, um planeta enorme empurrou uma sonda pequena, e sentiu tão pouco quanto o trem sente a bola.
Definição
A troca
- Sistema: sonda + planeta. Instantes: antes e depois da passagem. A força entre os dois é interna: o momento total se conserva.
- m × Δv = M × ΔV: a sonda ganha 800 × 104 = 8,0 × 106 kg·m/s; Júpiter perde o mesmo.
- ΔV de Júpiter = 8,0 × 106 ÷ 1,9 × 1027 = 4,2 × 10−21 m/s; em 10 bilhões de anos (3,2 × 1017 s), fica 1,3 mm atrás de onde estaria.
- A energia também sai do planeta: 1,2 × 1011 J para a sonda, de um total de 1,6 × 1035 J de Júpiter.
Atenção
O estilingue não cria energia do nada
É o erro que as questões conceituais mais exploram. A sonda não recebe energia "da gravidade", como se o campo fosse uma fonte: no referencial do planeta, a gravidade devolve na saída exatamente o que deu na chegada. O ganho no referencial do Sol existe porque o planeta está em movimento e cede uma parte minúscula da quantidade de movimento e da energia dele. O erro oposto também cai: "o planeta não sente nada". Sente — um milímetro em dez bilhões de anos. Pequeno demais para medir não é o mesmo que zero, e é esse quase-nada que faz a conservação fechar.
A energia cruza o zero: a elipse vira hipérbole
Agora o que essa velocidade a mais compra, visto pela energia — com o sistema, o instante e o zero declarados: o sistema é a sonda e o Sol, o instante é a saída de Júpiter, e o zero da energia potencial está no infinito, como no capítulo 8.
A energia potencial da sonda em relação ao Sol é negativa: U = −G × M × m ÷ r. Na distância de Júpiter, 7,8 × 1011 m, com G × M do Sol = 1,33 × 1020 m³/s², isso dá −1,7 × 108 J para cada quilograma de sonda. A energia cinética é positiva: a 10 km/s, ½ × v² = 0,5 × 108 J por quilograma. A soma, −1,2 × 108 J/kg, é negativa — e o capítulo 8 ensinou a ler esse sinal: energia mecânica negativa quer dizer presa. Presa não é parada; é que ela volta. A sonda que saiu da Terra estava numa elipse em torno do Sol, com o Sol num foco, como qualquer planeta do capítulo 1.

Então vem Júpiter. A posição da sonda quase não muda durante a passagem — a potencial continua em −1,7 × 108 J/kg —, mas a velocidade em relação ao Sol passa de cerca de 10 para mais de 20 km/s, e a cinética quadruplica: 2,0 × 108 J/kg. A soma agora é +0,3 × 108 J/kg. A barra cruzou o zero.
Energia mecânica positiva em relação ao Sol significa que a sonda tem mais do que o necessário para chegar ao infinito: ela vai se afastar para sempre, perdendo velocidade sem nunca zerar. A trajetória deixa de ser uma curva fechada. A elipse vira hipérbole — a curva que entra, dobra uma vez e sai; a elipse que não fecha. As leis de Kepler dos capítulos 1 a 3 falavam de órbitas que se repetem; a hipérbole é o caso em que não há período, porque não há volta. E um cometa que passe uma única vez pelo Sol e suma faz o mesmo: energia positiva, caminho aberto, sem data para voltar.
Definição
Presa ou livre: o sinal da energia
- Energia mecânica em relação ao centro, com o zero no infinito: E = ½ × m × v² − G × M × m ÷ r.
- E negativa: presa ao centro — trajetória fechada (círculo ou elipse), tem período, volta.
- E positiva: livre — trajetória aberta (hipérbole), não tem período, não volta. E = 0 é a fronteira: a velocidade de escape.
- Em Júpiter, por quilograma: antes, 0,5 × 108 − 1,7 × 108 = −1,2 × 108 J; depois, 2,0 × 108 − 1,7 × 108 = +0,3 × 108 J.
Dica ENEM
Dica ENEM: trajetória fechada ou aberta
A questão dá a velocidade de um corpo numa certa distância do Sol (ou da Terra) e pergunta o destino dele. Compare com a velocidade de escape naquela distância: abaixo dela, energia negativa, órbita fechada, o corpo volta; acima, energia positiva, trajetória aberta, não volta. Não é preciso calcular a energia: basta a comparação de velocidades. Os distratores dizem que o corpo "escapa quando a gravidade acaba" (ela nunca acaba) ou que o resultado depende da massa do corpo (não depende: o m aparece nos dois termos e cancela).
O escape do Sol a cada distância
Onde fica esse zero, em velocidade? A velocidade de escape do capítulo 8, v = √(2 × G × M ÷ r), vale para qualquer centro e qualquer distância. Lá o centro era a Terra e a distância, o raio dela: 11,2 km/s. Aqui o centro é o Sol, e a distância é a da órbita de Júpiter: v = √(2 × 1,33 × 1020 ÷ 7,8 × 1011) = √(3,41 × 108) = 1,85 × 104 m/s, 18,5 km/s.

Repare em dois números. Júpiter orbita o Sol a 13,1 km/s — a velocidade de órbita circular do capítulo 6, √(G × M ÷ r), com o M do Sol —, e o limiar de escape naquela distância é exatamente √2 vezes isso, como no capítulo 8: 13,1 × 1,41 = 18,5. E a sonda, que chegou a Júpiter a cerca de 10 km/s em relação ao Sol, saiu com mais do dobro: acima dos 18,5. Foi ali, naquela passagem, que ela deixou de pertencer ao Sol.
O escape muda com a distância, e na direção boa para quem quer ir embora: como r está no denominador, quanto mais longe, menor a velocidade necessária. Ela cai com a raiz da distância — quatro vezes mais longe, metade.
| onde (distância ao Sol) | escape do Sol |
|---|---|
| órbita da Terra (1 UA) | 42,1 km/s |
| órbita de Júpiter (5,2 UA) | 18,5 km/s |
| órbita de Netuno (30 UA) | 7,7 km/s |
| a 171 UA | 3,2 km/s |
A regra de bolso para o Sol: divida os 42,1 km/s da órbita da Terra pela raiz da distância em UA. Em Júpiter, 42,1 ÷ √5,2 = 18,5. A 171 UA, 42,1 ÷ √171 = 42,1 ÷ 13,1 = 3,2 km/s. É por isso que um estilingue em Júpiter vale tanto: partir da órbita da Terra direto para fora do Sistema Solar exigiria 42,1 km/s em relação ao Sol; chegando a Júpiter, 18,5 bastam — e o próprio Júpiter fornece a diferença.
Definição
A velocidade de escape, em qualquer centro
- v = √(2 × G × M ÷ r), com o M do centro e r medido do centro. Não depende da massa de quem escapa.
- É √2 vezes a velocidade de órbita circular na mesma distância: em Júpiter, 13,1 × 1,41 = 18,5 km/s.
- Cai com a raiz da distância: quatro vezes mais longe, metade. Para o Sol: 42,1 km/s ÷ √(distância em UA).
- Abaixo dela, energia negativa (presa); acima, energia positiva (livre).
Atenção
Escapar não é chegar aonde a gravidade acaba
A gravidade do Sol não acaba em lugar nenhum: a 171 UA ela continua puxando a sonda para trás, e a sonda continua perdendo velocidade. Escapar é uma questão de energia: ter, numa certa distância, energia cinética maior do que a energia que falta para chegar ao infinito. Quem tem, nunca para; quem não tem, uma hora inverte o movimento e volta. E a velocidade de escape é sempre a de um lugar: 42,1 km/s na órbita da Terra, 3,2 km/s a 171 UA. Dizer "a velocidade de escape do Sol" sem dizer onde não é dizer nada.
Quatro estilingues, um limite e uma sonda que não volta
As duas sondas partiram em agosto e setembro de 1977: a Voyager 2 primeiro, a Voyager 1 dezesseis dias depois. Os planetas de fora estavam dispostos de um jeito que só se repete a cada 175 anos — um depois do outro, do mesmo lado do Sol —, e a Voyager 2 aproveitou para fazer quatro estilingues em sequência.

| planeta (ano) | ganho |
|---|---|
| Júpiter (1979) | cerca de +10 km/s |
| Saturno (1981) | cerca de +5 km/s |
| Urano (1986) | cerca de +2 km/s |
| Netuno (1989) | cerca de −2 km/s |
Em Netuno, a última parada, ela perdeu velocidade: passou por trás do planeta, de propósito, para ver de perto a lua Tritão. O ângulo decide também o sinal. Doze anos de viagem, quatro planetas, e o combustível de bordo só serviu para pequenos ajustes de mira.
Há um limite em cada passagem, e ele é o capítulo 9. A sonda ganha mais quando passa mais perto, porque a gravidade dobra mais o caminho. Mas perto demais, a diferença de força entre uma ponta e a outra do corpo — a maré — cresce com o inverso do cubo da distância, e num corpo grande o bastante venceria o que o mantém inteiro. Longe demais, a gravidade quase não dobra a trajetória, e o ganho míngua. A distância de cada passagem foi escolhida dentro dessa janela, com anos de antecedência, por quem fez a conta.
A Voyager 1 fez só dois estilingues, em Júpiter e em Saturno, e por isso saiu mais rápida e mais reta. Hoje ela está a 171 UA: 171 × 1,5 × 1011 m = 2,56 × 1013 m, 25,6 bilhões de quilômetros. Ali o escape do Sol é de 3,2 km/s, e ela anda a 16,9 — mais de cinco vezes o necessário. A energia mecânica dela em relação ao Sol é positiva, +1,4 × 108 J por quilograma, e vai continuar positiva: ela nunca volta. Um sinal de rádio enviado da Terra, viajando à velocidade da luz, leva 2,56 × 1013 ÷ 3,0 × 108 = 8,5 × 104 s para chegar: 23,7 horas, quase um dia — e a resposta, outro dia. Em 2012 ela cruzou a bolha do vento do Sol e entrou no espaço entre as estrelas, ainda transmitindo.
Falta fechar um arco aberto no capítulo 6. O satélite, lá, era uma pedra que cai e erra o chão a cada volta. A sonda também cai: a única força sobre ela é a atração do Sol, puxando para trás, o tempo inteiro. Só que a velocidade dela é tão grande que ela erra o Sol de uma vez e erra para sempre — não há segunda volta para tentar de novo. Preso ou livre é só isso: quanto você erra.
Dica ENEM
Dica ENEM: unidade astronômica e tempo da luz
Questões de ordem de grandeza pedem conversões simples. A unidade astronômica (UA) é a distância média da Terra ao Sol: 1,5 × 1011 m, 150 milhões de quilômetros. A luz leva 1,5 × 1011 ÷ 3,0 × 108 = 500 s, cerca de 8 minutos, do Sol à Terra. Para qualquer distância em UA, multiplique: 171 UA são 171 × 500 s = 85 500 s, quase 24 horas. O distrator troca quilômetro por metro (erra por mil) ou esquece que a pergunta era o tempo de ida e volta.
Exemplos resolvidos
Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Neste capítulo, antes dos três tempos vêm o sistema, o instante e o referencial. As constantes: G × M do Sol = 1,33 × 1020 m³/s² (6,67 × 10−11 × 2,0 × 1030), 1 UA = 1,5 × 1011 m, Júpiter a 5,2 UA (7,8 × 1011 m) com 1,9 × 1027 kg, velocidade da luz 3,0 × 108 m/s. A sonda entra nas contas com 800 kg.

Exemplo 1 — A bola contra o trem e o teto de Júpiter
Uma bola a 10 m/s bate de frente, sem perdas, num trem que vem a 5 m/s. Com que velocidade ela sai, vista do chão? Qual seria o ganho máximo de uma sonda que passa por Júpiter, que orbita o Sol a 13 km/s?
Fórmula. referencial do trem: chega a v + V e volta a v + V ; referencial do chão: v(depois) = (v + V) + V = v(antes) + 2 × V ; ganho máximo = 2 × V
Substituição. v(depois) = 10 + 2 × 5 ; ganho máximo em Júpiter = 2 × 13 km/s
Resultado. v(depois) = 20 m/s ; ganho máximo = 26 km/s
Conferência. vista do trem, a bola chega a 15 m/s e volta a 15 m/s; somando os 5 m/s do trem, 20. Ela ganhou 10 m/s, duas vezes a velocidade do trem. Em Júpiter o ganho real foi de cerca de 10 km/s, 38% do teto: a sonda passou de lado, não de frente. A massa da bola não entrou — desde que o trem seja muito mais pesado que ela.
Exemplo 2 — Quem paga: Júpiter um milímetro atrás
Uma sonda de 800 kg ganha 10 km/s ao passar por Júpiter (1,9 × 1027 kg). Quanto Júpiter perde de velocidade, e quanto fica atrás de onde estaria depois de 10 bilhões de anos (3,2 × 1017 s)?
Fórmula. sistema: sonda + Júpiter; antes e depois da passagem: m × Δv = M × ΔV → ΔV = m × Δv ÷ M ; defasagem: Δx = ΔV × t
Substituição. ΔV = 800 × 1,0 × 104 ÷ 1,9 × 1027 = 4,2 × 10−21 m/s ; Δx = 4,2 × 10−21 × 3,2 × 1017
Resultado. ΔV ≈ 4,2 × 10−21 m/s ; Δx ≈ 1,3 × 10−3 m = 1,3 mm
Conferência. 800 × 104 = 8,0 × 106 kg·m/s é o que a sonda ganhou e o que o planeta perdeu. 4,2 × 3,2 = 13,4, e 10−21 × 1017 = 10−4: 13,4 × 10−4 m, 1,3 mm. Com os valores exatos (815 kg, 1,898 × 1027 kg) dá 1,4 mm. É uma defasagem de posição ao longo da órbita, acumulada em dez bilhões de anos — não uma mudança de tamanho.
Exemplo 3 — O escape do Sol na órbita de Júpiter
Qual é a velocidade de escape do Sol na distância da órbita de Júpiter, 7,8 × 1011 m? Compare com a velocidade orbital de Júpiter, 13,1 km/s.
Fórmula. centro: o Sol; zero da energia no infinito: ½ × m × v² = G × M × m ÷ r → v = √(2 × G × M ÷ r)
Substituição. v = √(2 × 1,33 × 1020 ÷ 7,8 × 1011) = √(3,41 × 108)
Resultado. v ≈ 1,85 × 104 m/s = 18,5 km/s
Conferência. 18 500² = 3,42 × 108, bateu. A razão 18,5 ÷ 13,1 = 1,41 é √2, como no capítulo 8: o escape é sempre √2 vezes a velocidade de órbita circular na mesma distância. A massa da sonda cancelou. A sonda, que chegou a cerca de 10 km/s e saiu com mais de 20, cruzou esse limiar na passagem.
Exemplo 4 — A sonda mais distante ainda pode voltar?
A Voyager 1 está a 171 UA do Sol e se afasta a 16,9 km/s. Sabendo que o escape do Sol na órbita da Terra (1 UA) é 42,1 km/s, calcule o escape a 171 UA e decida se ela volta.
Fórmula. v de escape cai com a raiz da distância: v(r) = v(1 UA) ÷ √(r em UA)
Substituição. v = 42,1 ÷ √171 = 42,1 ÷ 13,1
Resultado. v ≈ 3,2 km/s — a sonda anda a 16,9 km/s, mais de cinco vezes isso: não volta
Conferência. 13,1² = 172, perto de 171. A razão 16,9 ÷ 3,2 = 5,3. A distância em metros é 171 × 1,5 × 1011 = 2,56 × 1013 m, 25,6 bilhões de quilômetros, e a luz leva 2,56 × 1013 ÷ 3,0 × 108 = 8,5 × 104 s, 23,7 horas, para percorrê-la. A 16,9 km/s, a sonda se afasta 3,6 UA a cada ano.
Exemplo 5 — A energia que cruza o zero
Na distância de Júpiter (7,8 × 1011 m do Sol), calcule a energia mecânica por quilograma de uma sonda em relação ao Sol quando ela anda a 10 km/s e quando anda a 20 km/s.
Fórmula. sistema: sonda e Sol; zero no infinito: E ÷ m = ½ × v² − G × M ÷ r
Substituição. G × M ÷ r = 1,33 × 1020 ÷ 7,8 × 1011 = 1,7 × 108 J/kg ; a 10 km/s: ½ × (1,0 × 104)² − 1,7 × 108 ; a 20 km/s: ½ × (2,0 × 104)² − 1,7 × 108
Resultado. a 10 km/s: E ÷ m = −1,2 × 108 J/kg (presa) ; a 20 km/s: E ÷ m = +0,3 × 108 J/kg (livre)
Conferência. ½ × 108 = 0,5 × 108 e ½ × 4,0 × 108 = 2,0 × 108; dobrar a velocidade quadruplica a cinética. A potencial não mudou, porque a sonda está na mesma distância do Sol. O sinal troca exatamente quando a velocidade passa pelos 18,5 km/s do Exemplo 3 — a velocidade de escape é o zero da energia escrito em velocidade.
Radar ENEM
A assistência gravitacional aparece no ENEM de quatro formas. A conceitual da troca: de onde vem a velocidade da sonda — do movimento do planeta, com conservação da quantidade de movimento e da energia do sistema; o que a sonda ganha, o planeta perde. A do destino: energia mecânica negativa, trajetória fechada; positiva, aberta — e a velocidade de escape é a fronteira. A do escape em distâncias diferentes: v = √(2 × G × M ÷ r), que cai com a raiz da distância e não depende da massa de quem escapa. E a de ordem de grandeza: a unidade astronômica e o tempo que a luz leva para percorrê-la.

Veja a versão conceitual mais comum: "uma sonda espacial, ao passar próximo de um planeta, tem sua velocidade em relação ao Sol aumentada sem uso de combustível; esse aumento se deve…" — à interação gravitacional com o planeta em movimento, com transferência de quantidade de movimento e de energia do planeta para a sonda. As erradas falam em "energia criada pelo campo", "empuxo do planeta" ou "ausência de atrito no espaço". Se a questão pedir o diagrama, desenhe a sonda isolada: uma força só, a atração do planeta, para o centro dele. E, quando houver número, a conta costuma ser a da bola e da parede: v(depois) = v + 2 × V.
Dica ENEM
Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas
- "A gravidade do planeta dá energia à sonda" — no referencial do planeta a energia da sonda é a mesma na entrada e na saída; o ganho vem do movimento do planeta.
- "O planeta não é afetado" — é: perde o momento e a energia que a sonda ganha. Só que a massa dele é enorme.
- "A sonda escapou porque saiu do alcance da gravidade" — a gravidade não tem alcance; escapou porque a energia mecânica é positiva.
- "Sonda mais pesada precisa de mais velocidade para escapar" — v = √(2 × G × M ÷ r) não tem a massa da sonda.
- "A velocidade de escape é a mesma em qualquer distância" — cai com a raiz de r: 42,1 km/s a 1 UA, 18,5 a 5,2 UA.
- "Energia negativa quer dizer parada" — quer dizer presa: a órbita fecha.
- "Passar por um planeta sempre aumenta a velocidade" — depende do lado: por trás, a sonda perde.
Uma conferência rápida para as questões de conta: no estilingue, m × Δv = M × ΔV; no escape, v² × r = 2 × G × M, o dobro do v² × r da órbita circular. E, nas conceituais, a frase completa é: no referencial do planeta a sonda entra e sai com a mesma velocidade; no do Sol ela sai mais rápida porque o planeta anda; o que ela ganha em momento e em energia, o planeta perde; se a energia mecânica em relação ao Sol fica positiva, a trajetória se abre e ela não volta.
Resumo em cinco peças
Este é o último capítulo, e as cinco peças desta vez são as do livro inteiro: forma, causa, lugar, energia, troca.

- A forma (Kepler): as órbitas são elipses com o Sol num foco; a linha do Sol ao planeta varre áreas iguais em tempos iguais; e T² é proporcional a a³ para todos os corpos do mesmo centro.
- A causa (Newton): uma lei só, F = G × M × m ÷ r², a mesma para a maçã, para a Lua e para a sonda — e as três leis de Kepler saem dela.
- O lugar: g = G × M ÷ r² muda com a distância e com o mundo; em órbita, cai-se e erra-se o chão, com v = √(G × M ÷ r): mais longe, mais devagar.
- A energia: no campo, com o zero no infinito, ela é negativa para quem está preso e positiva para quem está livre; v = √(2 × G × M ÷ r) separa os dois, e não depende da massa de quem escapa.
- A troca: maré e estilingue são a mesma lei vista pela diferença e pela troca. A maré cobra da rotação da Terra; o estilingue cobra do planeta. Quem ganha, alguém paga.
Se for guardar uma frase só, guarde a última: quem ganha, alguém paga. Kepler mediu a forma das órbitas sem saber a causa; Newton deu a causa numa linha; e quem a escreveu nunca viu uma sonda — mas a conta que ele deixou levou duas delas para fora do Sistema Solar, à custa de um milímetro de Júpiter.
E há uma ponta solta, que é de outro livro. A sonda só saiu do chão porque um foguete de mais de seiscentas toneladas ficou em pé numa torre, em equilíbrio, sem tombar, até o instante de partir. Segurar o que está parado tem uma física própria: a gravidade que esta série seguiu até fora do Sistema Solar é a mesma que derruba o que está mal apoiado, e descobrir onde fica o ponto de apoio é o começo de tudo. É o assunto da Mecânica IV — Equilíbrio e Fluidos, que abre com dois guindastes que tombaram sobre uma cidade inteira, com uma ponte pendurada no gancho.
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