Mecânica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 14: O astronauta flutua porque está caindo

Capítulo 14O astronauta flutua porque está caindo

Dinâmica do movimento circular

A 400 km de altura a Terra ainda puxa com quase 90% da força que faz aqui no chão. Mesmo assim o astronauta flutua — não porque a gravidade sumiu, mas porque ele está caindo, junto com a estação, há décadas, sem nunca chegar ao chão. O globo da morte do circo obedece à mesma conta.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 14

Este capítulo acompanha o episódio 14 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

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O caso: a estação que cai há décadas

A Estação Espacial Internacional dá uma volta na Terra a cada 92 minutos, a 400 km de altura. Lá dentro, os astronautas flutuam: soltam uma caneta e ela fica parada no ar, dormem presos à parede, bebem água em bolhas. A explicação que todo mundo dá é "lá não tem gravidade". E ela está errada. A 400 km de altura a Terra ainda puxa com quase 90% da força que faz aqui no chão: quem tem 700 N de peso na superfície tem cerca de 620 N lá em cima. Se a estação parasse no lugar, ela cairia como uma pedra.

A Terra desenhada como um disco azul, e, bem perto da superfície, num arco cinza que é a órbita, a estação espacial em esquema, sem marcas. Sobre a estação, duas setas: a velocidade, salmão, tangente à órbita, com 7,7 km/s; e o peso, azul, apontando para o centro da Terra. Um cartão diz: 400 km de altura, gravidade a 90% da do chão, uma volta a cada 92 minutos.
Figura 14.1 — A estação não está longe da gravidade: está a 400 km de uma Terra de 6 371 km de raio. O que a segura no céu é a velocidade — 7,7 km/s, quase 28 000 km/h — e o que a mantém na curva é o peso.

Então por que o astronauta flutua? Porque está caindo. A estação inteira cai, o tempo todo, em direção ao centro da Terra — e ao mesmo tempo anda de lado tão depressa, a 7,7 km/s, que a curva da queda acompanha a curva do planeta. Ela cai e nunca chega ao chão. O astronauta cai junto, com a mesma aceleração, e por isso o piso nunca precisa empurrá-lo: a normal some, a balança marcaria zero, e ele flutua sem ter perdido um newton de peso. É a cena do elevador de cabo arrebentado do capítulo 12, só que em volta do mundo, há décadas.

Este capítulo fecha o livro juntando as suas peças. O movimento circular do capítulo 8 dizia que toda curva tem aceleração para o centro, v² ÷ R. A segunda lei do capítulo 10 diz que aceleração exige resultante. Junte as duas e nasce a pergunta deste capítulo: quem faz a força para o centro? Na curva de estrada é o atrito, na lombada e no globo da morte é a normal com o peso, no satélite é o peso sozinho. A resposta muda de cena em cena, mas a conta é uma só — e a última seção mostra que a mesma fórmula que segura a moto no globo da morte segura a estação no céu.

Força centrípeta: um papel, não uma força nova

O capítulo 8 já tinha avisado: um corpo em movimento circular uniforme tem velocidade de módulo constante, mas a direção muda a cada instante, e mudar a direção é acelerar. A aceleração aponta para o centro da curva e vale a = v² ÷ R: é a aceleração centrípeta, a única do MCU. O vetor velocidade é a seta tangente, como no capítulo 2; a aceleração é a seta perpendicular a ela, para dentro. São duas setas independentes, como as do capítulo 7: uma diz para onde o corpo vai, a outra diz para onde ele está sendo desviado.

Uma pista circular vista de cima, com um carro pequeno em três posições. Em cada posição, a velocidade, seta salmão, é tangente à pista, e a aceleração centrípeta, seta céu tracejada, aponta para o centro. No centro, um ponto e a letra R até a pista. Um cartão: a igual a v² ÷ R, sempre para o centro.
Figura 14.2 — Em qualquer ponto da curva, a velocidade é tangente e a aceleração aponta para o centro. A segunda lei exige uma resultante nessa mesma direção.

Agora entra a segunda lei do capítulo 10. Se há aceleração, há resultante, e ela tem a direção da aceleração: F = m × v² ÷ R, apontando para o centro. Essa resultante ganhou um nome, força centrípeta, e o nome engana mais gente do que ajuda. Ela não é uma força nova que aparece quando o corpo faz curva. É um papel: o papel de "puxar para o centro", que alguma força de verdade tem de fazer. Na curva plana, quem faz esse papel é o atrito; na moto do globo da morte, a normal e o peso; no satélite, o peso; numa pedra girando presa a um barbante, a tração. Se ninguém fizer o papel, não há curva: o corpo segue reto, pela primeira lei do capítulo 9.

Definição

Força centrípeta

Um corpo de massa m que descreve uma curva de raio R com velocidade v precisa de uma resultante para o centro de módulo F = m × v² ÷ R.

Atenção

A centrípeta não é uma seta a mais

O erro mais comum deste capítulo é desenhar o diagrama de corpo livre, colocar as forças reais e acrescentar "a centrípeta" como mais uma seta. Não. Desenhe as forças reais — atrito, normal, peso, tração —, some as que apontam na direção do centro e iguale a soma a m × v² ÷ R. A centrípeta é o lado direito da equação, não o esquerdo. O método do capítulo 10 continua o mesmo: "sem DCL, sem conta" — só que agora a resultante já tem direção e módulo conhecidos antes da conta começar.

A curva plana: o atrito é a centrípeta

Um carro faz uma curva de raio 100 m numa pista horizontal a 20 m/s, que são 72 km/h. Olhe as forças sobre ele: o peso para baixo, a normal para cima, e, na horizontal, só o atrito entre o pneu e o chão. Não há mais nada apontando para o centro. Então é o atrito que faz o papel da centrípeta — o capítulo 12 já tinha dito que a curva só existe porque o pneu agarra. O carro quer seguir reto, e o chão o puxa para dentro a cada instante.

Um carro visto de trás, numa pista plana, no meio de uma curva cujo centro fica à esquerda. Sobre o carro, três setas: o peso, azul, 10 000 N para baixo; a normal, céu, 10 000 N para cima; e o atrito, salmão, 4 000 N apontando para a esquerda, para o centro da curva. Um cartão: a igual a 20² ÷ 100 igual a 4 m/s²; F igual a 1 000 × 4 igual a 4 000 N.
Figura 14.3 — Na curva plana a única força horizontal é o atrito, e é ele que aponta para o centro. Para 1 000 kg a 20 m/s em 100 m de raio, o pneu precisa de 4 000 N.

A conta é a da caixa: a aceleração centrípeta é 20² ÷ 100 = 400 ÷ 100 = 4 m/s², e, para um carro de 1 000 kg, a resultante para o centro é 1 000 × 4 = 4 000 N. Esse é o atrito que os pneus precisam fazer. Ele é estático, como o do capítulo 12: o pneu rola sem escorregar, e o atrito vale o que precisa, até o teto µ × N. Aqui a normal iguala o peso, 10 000 N, então o teto é µ × 10 000. Para a curva dar certo, 4 000 tem de caber no teto: µ × 10 000 ≥ 4 000, ou seja, µ ≥ 0,4. Asfalto seco, com µ perto de 0,8, sobra; no gelo negro do capítulo 12, com µ de 0,2, o teto é 2 000 N, o pneu não consegue os 4 000 N, e o carro sai pela tangente.

Vire a pergunta ao contrário: qual é a velocidade máxima da curva? É a velocidade em que o atrito bate no teto: m × v² ÷ R = µ × m × g. A massa aparece dos dois lados e some, e sobra v máxima = √(µ × g × R). Com µ = 0,4 e R = 100 m: √(0,4 × 10 × 100) = √400 = 20 m/s. Com a pista molhada e µ = 0,2, √(0,2 × 10 × 100) = √200 ≈ 14 m/s, uns 51 km/h. O carro pesado e o carro leve têm a mesma velocidade máxima na mesma curva: o pesado precisa de mais atrito, mas também tem mais normal, e a razão fica igual.

Definição

A curva plana

Numa pista horizontal, a única força que aponta para o centro é o atrito estático entre o pneu e o chão:

Dica ENEM

Dica ENEM: a velocidade máxima não depende da massa

Quando a prova pergunta se um caminhão carregado pode fazer a curva mais rápido ou mais devagar que um carro, a resposta é: na mesma velocidade. A massa entra em m × v² ÷ R e entra em µ × m × g, e cancela. O que muda a velocidade máxima é o raio (curva mais fechada, velocidade menor) e o piso (molhado, µ menor). A conta de v máxima = √(µ × g × R) é a favorita do examinador porque tem raiz quadrada: a alternativa "sem a raiz" está sempre lá, com 400 no lugar de 20.

Lombada e depressão: a normal muda

Agora a curva é vertical. Um carro passa pelo alto de uma lombada arredondada, de raio 20 m, a 10 m/s. No topo, as forças sobre o carro são só duas: o peso para baixo, a normal para cima. O centro da curva está embaixo do carro, então "para o centro" é para baixo: a resultante para o centro é o peso menos a normal, e ela tem de valer m × v² ÷ R. Escrevendo, P − N = m × v² ÷ R, ou seja, N = m × (g − v² ÷ R). A normal fica menor que o peso: o chão empurra menos, o carro fica "mais leve" no topo, e o estômago sobe.

Duas cenas lado a lado. À esquerda, o alto de uma lombada, com um carro no topo: o peso, azul, para baixo, e a normal, céu, mais curta, para cima; o centro da curva está marcado abaixo, e um cartão diz: N igual a m vezes (g menos v² ÷ R), a normal diminui. À direita, o fundo de uma depressão, com o carro no ponto mais baixo: o peso para baixo e a normal, mais comprida, para cima; o centro da curva está acima, e o cartão diz: N igual a m vezes (g mais v² ÷ R), a normal aumenta.
Figura 14.4 — Na lombada, o centro está embaixo e a normal cede. Na depressão, o centro está em cima e a normal cresce. A resultante para o centro é sempre m × v² ÷ R.

Com os números: a aceleração centrípeta é 10² ÷ 20 = 100 ÷ 20 = 5 m/s², e a normal é m × (10 − 5) = 5 × m — metade do peso. Para um carro de 1 000 kg, o chão empurra com 5 000 N em vez de 10 000 N. E se o carro for mais rápido? A normal cai mais. Ela chega a zero quando v² ÷ R iguala g, isto é, quando v = √(g × R) = √(10 × 20) = √200 ≈ 14 m/s, uns 51 km/h: nessa velocidade o chão não empurra mais nada, e acima dela o carro decola — o peso sozinho não consegue fazer o carro curvar tão fechado, e ele segue em voo.

No fundo de uma depressão é o contrário. O centro da curva está em cima, então "para o centro" é para cima: N − P = m × v² ÷ R, e N = m × (g + v² ÷ R). A normal fica maior que o peso, e é ela que a balança marcaria: o mesmo carro de 1 000 kg a 10 m/s numa depressão de 20 m de raio recebe do chão 1 000 × (10 + 5) = 15 000 N, uma vez e meia o peso. É a versão em curva do elevador acelerando para cima do capítulo 12.

Definição

Lombada e depressão

No ponto mais alto de uma lombada e no mais baixo de uma depressão, as forças são só o peso e a normal, e a resultante para o centro vale m × v² ÷ R:

O peso não muda em nenhum dos dois: m × g é o mesmo. O que muda é quanto o chão precisa empurrar.

ponto da curvapara o centronormal
curva planaatritoN = P
topo da lombadaP − Nmenor que P
fundo da depressãoN − Pmaior que P

A tabela é o resumo do capítulo 12 levado para a curva: a normal não é sempre igual ao peso. Ela vale o que a situação exige — e numa curva vertical a situação exige que a soma das forças na direção do centro dê m × v² ÷ R.

O globo da morte e o loop

No circo, uma moto roda por dentro de uma esfera de aço, o globo da morte; na montanha-russa, o carrinho passa de cabeça para baixo num loop. O ponto perigoso é o topo: lá, tanto o peso quanto a normal apontam para baixo — e para baixo, no topo, é para o centro. As duas forças ajudam a fazer a curva: N + P = m × v² ÷ R.

Uma esfera desenhada de perfil, o globo da morte, com uma moto pequena no ponto mais alto, de cabeça para baixo, e outra no ponto mais baixo. No topo, duas setas para baixo, para o centro: o peso, azul, e a normal, céu, saindo da parede da esfera. No fundo, o peso para baixo e a normal, mais longa, para cima. Um cartão: no topo, N + P igual a m v² ÷ R; velocidade mínima igual a raiz de g × R.
Figura 14.5 — No topo do globo, a parede e o peso puxam juntos para o centro. Quanto mais devagar a moto, menos a parede precisa empurrar — até o limite em que ela não empurra nada, e a moto se solta.

Quanto mais devagar a moto passa pelo topo, menos resultante precisa, e a parede empurra menos. O limite é a parede não empurrar nada: N = 0. Aí só o peso faz a curva: m × g = m × v² ÷ R, e a massa some de novo: v mínima = √(g × R). Num globo de 10 m de raio, v mínima = √(10 × 10) = √100 = 10 m/s, que são 36 km/h. Abaixo disso a moto se desprende da parede e cai por dentro do globo — a esfera não tem como "segurar" a moto, porque a normal só empurra, nunca puxa.

Observe que é a mesma fórmula da lombada, √(g × R), com o significado invertido: na lombada é a velocidade máxima antes de decolar; no topo do loop é a mínima para não cair. Nas duas, é a velocidade em que o peso, sozinho, faz exatamente a curva.

Atenção

No topo, o peso ajuda

A intuição diz que o peso "puxa a moto para baixo e por isso ela cai". No topo do globo, "para baixo" é para o centro: o peso é parte da centrípeta, e é ele que faz a moto curvar. A moto só cai se a velocidade for pequena demais para a curva que o raio pede. No ponto mais baixo é o contrário, como na depressão: a parede empurra para cima com N = m × (g + v² ÷ R), bem mais que o peso — a moto que passa pelo fundo a 20 m/s num globo de 10 m recebe da parede 200 × (10 + 40) = 10 000 N, se moto e piloto tiverem 200 kg: cinco vezes o peso.

A sensação de ser jogado para fora

Todo passageiro conhece a cena: o carro vira à esquerda e o corpo "vai" para a direita, contra a porta. Parece que uma força empurra para fora da curva. Essa impressão tem um nome popular, força centrífuga, e este é o único lugar do livro em que ele aparece — porque ela não entra em nenhum diagrama de corpo livre e em nenhuma conta. Ela é uma sensação, e nasce do referencial, o assunto do capítulo 1 e do capítulo 9: depende de onde você olha.

Duas cenas do mesmo carro numa curva para a esquerda, vistas de cima. À esquerda, vista de fora: o carro curva, e o passageiro, um círculo, tende a seguir em linha reta, tracejada, pela primeira lei; a porta o empurra para o centro com uma seta salmão. À direita, a mesma cena vista de dentro do carro: o passageiro parece ir para a direita, contra a porta. Um cartão: de fora, ninguém empurra para fora; a porta empurra para dentro.
Figura 14.6 — De fora, o passageiro só tende a seguir reto, e a porta o desvia para dentro. De dentro do carro, que está girando, a mesma cena parece um empurrão para fora. A única força real é a da porta.

Olhe de fora, de cima, parado em relação ao chão. O passageiro, pela primeira lei, quer seguir reto. O carro curva para a esquerda, sai de baixo dele, e a porta, que está no caminho, o empurra para a esquerda, para o centro — essa é a força real, e é ela que faz o papel da centrípeta no passageiro. Ninguém o empurrou para a direita; ele só continuou reto enquanto o carro virava. Agora olhe de dentro, sentado no banco. Você gira junto com o carro, e no seu referencial o passageiro "andou" para a direita sem que nada o empurrasse. O referencial que gira inventa esse empurrão para fora, porque ele mesmo está acelerando. Neste livro as contas são feitas sempre de fora, num referencial parado ou em velocidade constante, onde as leis de Newton valem como estão escritas: lá só existem as forças reais, e todas elas apontam para o centro ou não têm nada a ver com a curva.

Definição

Referencial e sensação

O satélite: o astronauta flutua porque cai

Agora o caso. Tire o atrito, tire a parede, tire a normal. Sobra um corpo com uma força só: o peso. Uma pedra jogada de lado cai numa curva e bate no chão. Jogue mais forte, e ela vai mais longe antes de bater. Jogue forte o suficiente — e a curva da queda fica tão aberta quanto a curva da Terra: a pedra cai, cai, e o chão vai se afastando embaixo dela na mesma medida. Ela nunca chega. Isso é uma órbita, e a Estação Espacial é essa pedra.

Uma montanha alta sobre uma Terra desenhada como um disco, à moda do desenho de Newton. Do topo da montanha saem três trajetórias tracejadas em céu: as duas primeiras caem e batem no chão cada vez mais longe; a terceira dá a volta inteira no planeta e fecha um círculo. Uma seta azul sobre a pedra da terceira trajetória aponta para o centro da Terra: o peso. Um cartão: jogue rápido o bastante e a pedra cai sem nunca chegar ao chão.
Figura 14.7 — A pedra de Newton: cada trajetória é uma queda. Na velocidade certa, a curva da queda acompanha a curva da Terra, e a pedra vira satélite — sem nenhuma força além do peso.

O diagrama de corpo livre do satélite tem uma seta só, o peso, apontando para o centro da Terra. Então o peso é a resultante, e a resultante de uma curva é m × v² ÷ R. Com o peso escrito como m × g, onde g é a gravidade naquela altura: m × g = m × v² ÷ R. A massa some outra vez, e v = √(g × R) — a mesma fórmula do topo do globo da morte, porque é a mesma situação: a normal é zero e só o peso faz a curva. O R aqui é o raio da órbita, medido do centro da Terra, não do chão: 6 371 km de raio da Terra mais 400 km de altura dão cerca de 6 770 km. Com números redondos, R ≈ 7 × 106 m e g ≈ 8 m/s²: v = √(8 × 7 × 106) = √(5,6 × 107) ≈ 7,5 × 103 m/s, uns 7,5 km/s. Com os números reais da estação, feitos no Exemplo 5, dá 7,7 km/s e uma volta a cada 92 minutos. Nenhum motor está ligado: a estação anda de graça, pela primeira lei, e só o peso a desvia.

E o astronauta? Ele também é um corpo com uma força só. O peso dele, a 400 km, é m × 8,7: para 80 kg, cerca de 700 N — nada de zero. Esse peso é exatamente a resultante de que ele precisa para fazer a mesma curva que a estação, na mesma velocidade. Sobra alguma força para o piso fazer? Nenhuma. A normal é zero: ele e a estação caem juntos, com a mesma aceleração, como o passageiro e o elevador de cabo arrebentado do capítulo 12. Sem normal, nada o pressiona contra o chão, e a sensação é de flutuar. O capítulo 10 disse que massa não é peso; aqui está a prova final: o astronauta tem os mesmos 80 kg de sempre, quase o mesmo peso de sempre, e ainda assim flutua — não porque a gravidade sumiu, mas porque ele está caindo, e o chão cai junto.

Definição

O satélite em órbita circular

Atenção

"Gravidade zero" não existe a 400 km

A gravidade a 400 km de altura vale g × (R ÷ (R + h))², com R = 6 371 km o raio da Terra: (6 371 ÷ 6 771)² ≈ 0,885, uns 88,5% do valor no chão — "cerca de 90%". O que é zero na estação é a normal, não o peso. A palavra certa para a cena é queda livre: o corpo se move só sob a ação do peso, como a pena e o martelo do capítulo 6. Uma órbita é uma queda livre que nunca termina.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo, antes dos três tempos, vêm os passos do capítulo 10: desenhar as setas das forças reais sobre o corpo, marcar o centro da curva e escolher esse sentido como positivo, e escrever "soma das forças para o centro = m × v² ÷ R". A centrípeta é o lado direito; nunca é uma seta a mais. Velocidades em m/s, raios em metros; e no satélite o raio é medido do centro da Terra.

Exemplo 1 — A curva plana

Um carro de 1 000 kg faz uma curva horizontal de raio 100 m a 20 m/s (g = 10 m/s²). Qual é a aceleração centrípeta, qual força faz o papel da centrípeta e quanto ela vale, e qual é o menor coeficiente de atrito que permite a curva?

Fórmula. a = v² ÷ R ; atrito = m × a ; teto do atrito: µ × N, com N = m × g ; µ mínimo = atrito ÷ N

Substituição. a = 20² ÷ 100 = 400 ÷ 100 ; atrito = 1 000 × 4 ; N = 1 000 × 10 = 10 000 ; µ = 4 000 ÷ 10 000

Resultado. a = 4 m/s² ; atrito (a centrípeta) = 4 000 N ; µ mínimo = 0,4

Conferência. com µ = 0,4, v máxima = √(0,4 × 10 × 100) = √400 = 20 m/s, exatamente a velocidade do carro: ele está no limite. Um carro de 2 000 kg precisaria de 8 000 N de atrito, mas teria 20 000 N de normal, e o mesmo µ = 0,4. Na pista molhada, com µ = 0,2, o teto cai para 2 000 N e a velocidade máxima para √(0,2 × 10 × 100) = √200 ≈ 14 m/s.

Exemplo 2 — A lombada

Um carro de 1 000 kg passa pelo ponto mais alto de uma lombada de raio 20 m a 10 m/s (g = 10 m/s²). Qual é a força normal no topo? E a que velocidade o carro decolaria?

Fórmula. para o centro (para baixo): P − N = m × v² ÷ R → N = m × (g − v² ÷ R) ; decola quando N = 0: v = √(g × R)

Substituição. v² ÷ R = 10² ÷ 20 = 100 ÷ 20 = 5 ; N = 1 000 × (10 − 5) ; v = √(10 × 20) = √200

Resultado. N = 5 000 N, metade do peso ; v de decolagem ≈ 14 m/s (uns 51 km/h)

Conferência. 10 000 − 5 000 = 5 000 N de resultante para baixo, e 1 000 × 5 = 5 000 N. A 14 m/s, v² ÷ R = 200 ÷ 20 = 10 = g, e a normal zera. No fundo de uma depressão de mesmo raio, à mesma velocidade, o sinal inverte: N = 1 000 × (10 + 5) = 15 000 N.

Exemplo 3 — O globo da morte

Uma moto roda por dentro de um globo da morte de raio 10 m (g = 10 m/s²). Qual é a menor velocidade com que ela pode passar pelo topo sem se desprender da parede?

Fórmula. no topo, para o centro (para baixo): N + P = m × v² ÷ R ; limite N = 0: m × g = m × v² ÷ R → v mínima = √(g × R)

Substituição. v mínima = √(10 × 10) = √100

Resultado. v mínima = 10 m/s, que são 36 km/h

Conferência. a 10 m/s, v² ÷ R = 100 ÷ 10 = 10 m/s² = g: o peso sozinho faz a curva e a parede não empurra nada. A 20 m/s, v² ÷ R = 40 m/s², e a parede precisa completar: N = m × (40 − 10) = 30 × m, três vezes o peso. É por isso que o piloto se sente pesado no fundo e leve no topo.

Exemplo 4 — O satélite com números redondos

Um satélite descreve uma órbita circular de raio 7 × 106 m, medido do centro da Terra, numa altura em que a gravidade vale cerca de 8 m/s². Qual é a velocidade da órbita?

Fórmula. única força, o peso, é a centrípeta: m × g = m × v² ÷ R → v = √(g × R)

Substituição. v = √(8 × 7 × 106) = √(5,6 × 107)

Resultado. v ≈ 7,5 × 103 m/s, uns 7,5 km/s

Conferência. 7 500² = 5,6 × 107, e 5,6 × 107 ÷ 7 × 106 = 8 m/s², a gravidade da órbita. A massa do satélite não entrou: um parafuso solto ao lado da estação faz a mesma órbita, na mesma velocidade. O período dessa órbita seria T = 2 × π × R ÷ v = 2 × 3,14 × 7 × 106 ÷ 7,5 × 103 ≈ 5,9 × 103 s, uns 98 minutos; a estação real, mais baixa e mais rápida, dá a volta em menos tempo.

A Terra como um disco azul com o raio de 6 371 km marcado do centro até a superfície, e a órbita da estação, um arco cinza a 400 km, com o raio total de 6 770 km marcado do centro. A estação, em esquema, no arco, com a velocidade, salmão, tangente, 7,7 km/s, e o peso, azul, para o centro. Um cartão: g igual a 8,7 m/s² na órbita; v igual a raiz de g × R; T igual a 2πR ÷ v igual a 92 min.
Figura 14.8 — O Exemplo 5 em desenho: o raio da órbita é medido do centro da Terra, e a gravidade usada é a da altura da órbita, 8,7 m/s².

Exemplo 5 — A Estação Espacial com os números reais

A Estação Espacial Internacional orbita a cerca de 400 km de altura, onde a gravidade vale 8,7 m/s²; com o raio da Terra de 6 371 km, o raio da órbita é cerca de 6 770 km. Qual é a velocidade da estação, e quanto ela leva para dar uma volta? Compare o resultado com os números redondos do Exemplo 4 e explique a diferença.

Fórmula. v = √(g × R) ; uma volta é o perímetro da órbita: T = 2 × π × R ÷ v

Substituição. R = 6,77 × 106 m ; v = √(8,7 × 6,77 × 106) = √(5,9 × 107) ; T = 2 × 3,14 × 6,77 × 106 ÷ 7,7 × 103

Resultado. v ≈ 7,7 × 103 m/s = 7,7 km/s (quase 28 000 km/h) ; T ≈ 5,5 × 103 s ≈ 92 min

Conferência. a diferença para o Exemplo 4 é só dos números redondos, g = 8 e R = 7 × 106, que dão 7,5 km/s; com os valores reais da órbita, 8,7 m/s² e 6,77 × 106 m, saem os 7,7 km/s e os 92 minutos por volta que a estação de fato tem. A gravidade a 400 km sai de 9,8 × (6 371 ÷ 6 771)² = 9,8 × 0,885 ≈ 8,7 m/s², uns 89% da do chão: por isso "cerca de 90%".

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos. O primeiro é a curva plana: dão o raio e o coeficiente de atrito e pedem a velocidade máxima, ou dão a velocidade e pedem o atrito — sempre com a alternativa "sem a raiz" e a alternativa "depende da massa" à espreita. O segundo é a normal na lombada, na depressão ou no loop: N = m × (g − v² ÷ R) no topo, N = m × (g + v² ÷ R) no fundo, e a velocidade √(g × R) em que a normal zera. O terceiro é o conceitual: "a força centrípeta é o papel de outra força", "no MCU há aceleração", "o que se sente na curva não é força". O quarto é a imponderabilidade: por que o astronauta flutua — e a resposta que a prova quer é "queda livre", nunca "ausência de gravidade".

O alto de uma lombada de raio 40 m com um carro no topo a 10 m/s. Setas: o peso, azul, para baixo, e a normal, céu, mais curta, para cima. Ao lado, o cartão correto: v² ÷ R igual a 2,5 m/s², N igual a m × (10 − 2,5) igual a 0,75 × P; e, riscado com um X, o cartão N igual a P.
Figura 14.9 — O distrator favorito: 'a normal é igual ao peso'. No topo da lombada ela é menor, porque o peso precisa sobrar para fazer a curva. Aqui, 75% do peso.

Veja a versão que mais aparece: um carro passa pelo topo de uma lombada de raio 40 m a 10 m/s, e a prova pergunta a razão entre a normal e o peso. A aceleração centrípeta é 10² ÷ 40 = 2,5 m/s², e N = m × (10 − 2,5) = 7,5 × m, contra P = 10 × m: a normal vale 0,75 do peso. Entre as alternativas está "igual ao peso", para quem esqueceu que o carro está fazendo curva, e "1,25 do peso", para quem somou em vez de subtrair — a conta da depressão aplicada à lombada.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a curva exige resultante para o centro, m v² ÷ R; a centrípeta não é força nova, é o papel de atrito, normal, tração ou peso; curva plana, atrito; lombada, N diminui; loop, v mínima é raiz de g R; ser jogado para fora é sensação de quem gira, não força; o satélite cai, e por isso flutua.
Figura 14.10 — O capítulo em cinco peças — e o livro inteiro na quinta.
  1. Toda curva exige uma resultante para o centro, de módulo m × v² ÷ R: é a segunda lei aplicada à aceleração centrípeta do MCU.
  2. Força centrípeta não é força nova: é o papel que o atrito, a normal, a tração ou o peso fazem — e ela nunca entra no diagrama de corpo livre como seta extra.
  3. Curva plana: o atrito faz a curva e v máxima = √(µ × g × R). Lombada: a normal diminui, N = m × (g − v² ÷ R). Topo do loop: v mínima = √(g × R).
  4. A impressão de ser jogado para fora é inércia vista de dentro de um referencial que gira; nas contas, feitas de fora, só existem as forças reais.
  5. O satélite tem uma força só, o peso, e ela é a centrípeta: v = √(g × R). O astronauta cai junto, a normal é zero — e por isso flutua, com quase todo o peso de sempre.

Se for guardar uma frase só, guarde a do título: o astronauta flutua porque está caindo. E se for guardar o livro inteiro, guarde o caminho que ele fez: primeiro aprendemos a medir o movimento — unidades, vetores, velocidade, aceleração, a queda, a curva; depois aprendemos a explicá-lo, com três leis e um diagrama de corpo livre. Descrever e explicar o movimento acabou aqui.

Duas perguntas ficaram abertas, de propósito. A primeira está no globo da morte: a moto só passa pelo topo com √(g × R), e para chegar lá com essa velocidade ela precisa partir de uma altura mínima, paga antes do loop. A curva cobra um preço para existir, e esse preço tem nome: energia. Medi-lo é o assunto da Mecânica II. A segunda está no satélite: a estação é uma pedra que cai e nunca chega ao chão — e a mesma queda segura a Lua em volta da Terra e a Terra em volta do Sol. Quem faz a conta dessa força, a gravitação, é também a Mecânica II. Este livro termina onde o próximo começa: com um corpo caindo em curva, e alguém perguntando quanto isso custa.

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