Mecânica IISumário
Ilustração de abertura do capítulo 12: A sonda que empurrou um asteroide

Capítulo 12A sonda que empurrou um asteroide

Energia e quantidade de movimento juntas

Quinhentos e oitenta quilos a seis quilômetros por segundo contra uma pedra de cento e sessenta metros: o asteroide mudou de velocidade menos de três milímetros por segundo — e foi o bastante para tirar meia hora de uma órbita de doze horas.

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O caso: a sonda que empurrou um asteroide

Vinte e seis de setembro de 2022, 23 h 14 min no horário universal. A sonda DART, da NASA, com cerca de 580 kg, viaja a 6 km/s — uns 21 600 km/h, pela conversão do capítulo 1 da Mecânica I: 6 000 m/s × 3,6. O alvo é Dimorphos, uma pedra de uns 160 m de diâmetro que gira em torno de outra maior, Didymos, de uns 780 m. A câmera da sonda transmite a superfície de pedras crescendo no quadro; então a imagem some. A sonda bateu. Nunca foi projetada para voltar.

Esquema fora de escala: o asteroide Didymos, grande, ao centro; a lua Dimorphos, pequena, numa órbita circular ao redor dele; a sonda chegando pela esquerda com a seta da velocidade de 6 km/s apontando para Dimorphos.
Figura 12.1 — Um sistema duplo: Dimorphos dá uma volta em Didymos a cada 11 h 55 min. A sonda mira a lua, não o asteroide maior.

Antes do impacto, Dimorphos dava uma volta completa em Didymos a cada 11 h 55 min. Nas semanas seguintes, telescópios na Terra mediram o novo período: 11 h 23 min. A volta ficou 32 minutos mais curta; a medição refinada meses depois deu 33 min 15 s. A meta mínima da missão era encurtar a órbita em 73 segundos — o resultado foi mais de 25 vezes isso. Pela primeira vez, a humanidade mudou de propósito o movimento de um corpo celeste.

Todo o teste cabe nas duas grandezas que esta série construiu. A energia cinética da sonda diz o tamanho do estrago: cratera, calor, pedras arremessadas. A quantidade de movimento diz quanto o alvo mudou de velocidade — e aqui está a surpresa da conta: 580 kg contra bilhões de quilos rendem uma mudança de milímetros por segundo, e foram esses milímetros que tiraram meia hora de uma órbita de doze horas. As fontes divergem um pouco na massa (de 500 a 580 kg) e na velocidade (6,1 a 6,6 km/s); este capítulo usa cerca de 580 kg e 6 km/s, e diz quando um valor é só didático. Este é o último capítulo da série, e ele não ensina uma lei nova: ele usa todas as anteriores num caso só, da energia da sonda ao extrato final de onde essa energia foi parar.

A energia cinética da sonda

O capítulo 3 mostrou que a energia cinética cresce com o quadrado da velocidade: Ec = ½·m·v². É por isso que uma sonda leve carrega tanta energia: 6 km/s é cerca de dezoito vezes a velocidade do som no ar (340 m/s), e o quadrado de dezoito passa de trezentos.

Uma barra horizontal representa a energia cinética da sonda, 1,04 vezes 10 elevado a 10 joules. Abaixo, em escala, duas barras de comparação: 2,5 toneladas de TNT e 530 chuveiros elétricos ligados por uma hora. Nenhuma seta: energia é escalar.
Figura 12.2 — A energia da sonda como barra: o mesmo saldo de duas toneladas e meia de TNT ou de 530 chuveiros ligados por uma hora.

Definição

Energia cinética (revisão)

Sistema: a sonda, sozinha; instante: o último segundo antes do toque. Ec = ½ × 580 × (6 000)² = ½ × 580 × 3,6 × 10⁷ = 1,04 × 10¹⁰ J. Dez bilhões de joules. Para dar tamanho a esse número, vale a comparação do capítulo 3: uma tonelada de TNT libera 4,18 × 10⁹ J, então a sonda chegou com 1,04 × 10¹⁰ ÷ 4,18 × 10⁹ ≈ 2,5 toneladas de TNT em energia de movimento. Ou, na moeda do capítulo 2: um chuveiro de 5 500 W ligado por uma hora consome 5 500 × 3 600 = 1,98 × 10⁷ J, e 1,04 × 10¹⁰ ÷ 1,98 × 10⁷ ≈ 530 — uns quinhentos chuveiros ligados por uma hora inteira, tudo entregue num instante.

O queEnergia
a sonda a 6 km/s1,04 × 10¹⁰ J
1 t de TNT4,18 × 10⁹ J
chuveiro por 1 h1,98 × 10⁷ J

Dica ENEM

Dica ENEM: ordem de grandeza da energia cinética

Antes de qualquer conta, escreva a velocidade em m/s e eleve ao quadrado: (6 × 10³)² = 36 × 10⁶ = 3,6 × 10⁷. O quadrado é onde a prova esconde a potência de dez. Com 580 kg, a ordem de grandeza é 10¹⁰ J; quem esquece de elevar ao quadrado acha 10⁶ e escolhe a alternativa errada com toda a confiança.

Só que a energia não diz para onde o asteroide vai. Ela diz quanto pode ser transformado: em calor, em cratera, em pedras voando. Para saber quanto Dimorphos mudou de velocidade, é preciso a outra grandeza.

A quantidade de movimento da sonda

O capítulo 8 apresentou a quantidade de movimento, p = m·v, e o capítulo 9 mostrou a sua propriedade mais forte: num sistema isolado, ela se conserva, sempre, em qualquer colisão. É um vetor: tem a direção e o sentido da velocidade, e no desenho é sempre uma seta.

A sonda vista de lado com uma seta grossa de quantidade de movimento, 3,5 vezes 10 elevado a 6 quilograma metro por segundo, apontando para Dimorphos. Ao lado, um cartão compara: energia, escalar, barra; quantidade de movimento, vetor, seta.
Figura 12.3 — A quantidade de movimento da sonda é uma seta: tem para onde apontar. A energia, não.

Definição

Quantidade de movimento (revisão)

Para a sonda: p = 580 × 6 000 = 3,48 × 10⁶ ≈ 3,5 × 10⁶ kg·m/s, apontando para Dimorphos. Compare os dois números da sonda: a energia tem o quadrado da velocidade, a quantidade de movimento tem a velocidade uma vez só. Por isso os dois não crescem juntos: dobrar a velocidade dobra p e quadruplica Ec. E a diferença de natureza é a que decide o desenho.

GrandezaNaturezaDesenho
energia cinéticaescalarbarra
quantidade de movimentovetorseta
impulsovetorseta

Atenção

Escalar nunca ganha seta

Energia, trabalho e potência são escalares: um número com unidade, sem direção. Desenhá-los como seta é o erro visual que a série veta desde o capítulo 1. Quantidade de movimento e impulso são vetores, e a seta deles diz para onde o alvo vai ser empurrado. Se a questão pede "para onde", a resposta está no vetor; se pede "quanto estrago", está no escalar.

O pêndulo balístico de trás para a frente

O capítulo 10 resolveu o pêndulo balístico: uma bala leve e rápida entra num bloco pesado, fica presa, e os dois saem juntos com uma velocidade pequena, dada pela conservação da quantidade de movimento. O DART é o mesmo problema de trás para a frente. A bala não fica presa no bloco: ela empurra o bloco, e o bloco é uma montanha. A física é a mesma; só trocou quem é o gigante.

Dois painéis. Em cima, o pêndulo balístico do capítulo 10: a bala com sua seta de quantidade de movimento entra num bloco pendurado, e o conjunto sai com uma seta curta. Embaixo, a sonda com a mesma seta entra em Dimorphos, muito maior, e o asteroide sai com uma seta minúscula, com a cota de 0,8 mm/s e a escala declarada.
Figura 12.4 — Em cima, a bala e o bloco; embaixo, a sonda e a montanha. A mesma lei, com o gigante trocado de lado.

Antes da conta, o que a série exige: sistema e instantes. Sistema: sonda + Dimorphos. A gravidade de Didymos age sobre os dois, mas durante o impacto, que dura uma fração de segundo, essa força externa não tem tempo de mudar nada — o sistema é isolado enquanto a colisão dura. Instante inicial: um segundo antes do toque, Dimorphos em repouso no referencial dele mesmo. Instante final: a sonda incorporada ao asteroide (na conta mais simples, sem nenhuma pedra voando).

Definição

A conta do pêndulo invertido

A massa de Dimorphos não foi pesada; foi estimada, supondo a mesma densidade de Didymos: cerca de 4,3 × 10⁹ kg, quatro bilhões de quilos. Então Δv = 3,48 × 10⁶ ÷ 4,3 × 10⁹ ≈ 0,00081 m/s — cerca de 0,8 mm/s. Menos de um milímetro por segundo: em um dia inteiro, uns 70 metros. É a mesma conta do pêndulo: a razão entre a massa da bala e a do bloco decide quanto da velocidade sobrevive, e aqui a razão é 580 ÷ 4,3 × 10⁹, uma parte em sete milhões.

Atenção

Sistema e instantes antes de toda conta de conservação

Escreva quem está no sistema (sonda + Dimorphos), quando é o "antes" (o toque) e quando é o "depois" (os dois juntos). Sem isso, a conservação vira uma igualdade sem dono: não se sabe de quem é o p que se conserva nem contra o que o Δv é medido. Didymos fica de fora do sistema porque a força dele não tem tempo de agir durante o choque — e isso também tem de ser dito.

Dica ENEM

Dica ENEM: a pequena muda a grande

Quando um corpo leve bate num pesado e fica com ele, a velocidade final é o p do leve dividido pela massa total: Δv = m·v ÷ (m + M). O tropeço é usar a energia: quem iguala ½·m·v² a ½·M·Δv² acha uma velocidade dezenas de vezes maior — e errada, porque numa colisão em que os corpos ficam juntos a energia cinética não se conserva. Conserve a seta, não a barra.

Por que deu mais que a conta: as pedras que voaram

A conta do pêndulo dá 0,8 mm/s. O valor medido foi cerca de 2,7 mm/s, mais de três vezes maior. A sonda não empurrou o asteroide só com a própria quantidade de movimento: o impacto abriu uma cratera e arremessou toneladas de pedra para trás, no sentido de onde a sonda veio. Cada pedra que sai para trás leva quantidade de movimento para trás — e, pela conservação, o asteroide ganha a mesma quantidade para a frente. É o canhão do capítulo 9 e a lula que nada para trás: o recuo. Dimorphos foi empurrado pela sonda e, além disso, recuou das próprias pedras.

Dimorphos visto de lado no instante do impacto. À esquerda, uma nuvem de fragmentos saindo para trás, cada um com uma seta curta de quantidade de movimento apontando para a esquerda. À direita, a seta do asteroide para a frente, composta de duas partes: a seta da sonda e, somada a ela, a seta do recuo das pedras. Um rótulo diz: fator beta de cerca de 3,6.
Figura 12.5 — As pedras saem para trás; o asteroide recua para a frente. O empurrão total foi cerca de 3,6 vezes o da sonda sozinha.

Definição

O fator beta

Com beta ≈ 3,6, o empurrão total foi 3,6 × 3,48 × 10⁶ ≈ 1,25 × 10⁷ kg·m/s, e a mudança de velocidade, 3,6 × 0,8 ≈ 2,9 mm/s. O medido, 2,7 mm/s, fica dentro da faixa: a diferença é a incerteza da massa do asteroide e do próprio beta. O importante não é o segundo algarismo. É que a conta da série, com um fator para as pedras, explica o que os telescópios viram.

Atenção

A sonda não precisou de nada para empurrar

No vácuo não há ar, chão, nada em que se apoiar — e a sonda empurrou o asteroide assim mesmo. Nenhuma lei pede apoio: a quantidade de movimento se conserva no sistema, e é isso que empurra. O canhão recua sem precisar de ar atrás dele; o foguete anda no vácuo pela mesma razão; as pedras de Dimorphos saíram para um lado e o asteroide foi para o outro. Quem diz que "no espaço não tem onde empurrar" está repetindo o erro que a série vetou desde o capítulo 9.

De milímetros por segundo a minutos de órbita

Dimorphos dá uma volta de uns 7,5 km — o perímetro de uma órbita de 1 189 m de raio — em 11 h 55 min, o que dá uma velocidade orbital de uns 17 cm/s. Os 2,7 mm/s do empurrão são 1,6% disso. O que a gravidade fez com esse 1,6% é o que a próxima série vai contar; aqui basta a frase: órbita menor, período menor. A sonda bateu contra o movimento orbital, freou a lua um pouco, e uma lua mais lenta cai para uma órbita mais apertada, que se completa em menos tempo.

Duas órbitas circulares concêntricas em torno de Didymos, fora de escala: a de antes, com raio de 1 189 m e período de 11 h 55 min, e a de depois, um pouco menor, com raio de 1 152 m e período de 11 h 23 min. Uma cota mostra os 32 minutos de diferença.
Figura 12.6 — A órbita encolheu 37 metros e o período caiu 32 minutos. Quem fez essa conversão foi a gravidade de Didymos.
Órbitaantesdepois
período11 h 55 min11 h 23 min
raio1 189 m1 152 m

Os números da tabela vieram de telescópios na Terra, que mediram o brilho do par de asteroides: cada vez que Dimorphos passa na frente ou atrás de Didymos, a luz cai um pouco, e o intervalo entre as quedas é o período. Uma diferença de 32 minutos em 715 é de 4,5% — grande o bastante para não deixar dúvida. Contra a meta de 73 s, os 32 min = 1 920 s são 1 920 ÷ 73 ≈ 26 vezes mais.

Dica ENEM

Dica ENEM: o que se mede não é o que se calcula

A prova gosta de dar o que foi medido (o período, a marca de frenagem, a altura do rebote) e pedir o que foi calculado a partir da conservação (a velocidade, a energia, o empurrão). Separe os dois: o medido entra como dado; o calculado sai da lei. No DART, o medido é o período e o calculado é o Δv — e o elo entre eles é a gravidade, que ainda não está nesta série.

O extrato final: para onde foi a energia

A quantidade de movimento fechou a conta do "para onde". A energia fecha a do "quanto sobrou". Sistema: sonda + Dimorphos; antes: a sonda a 6 km/s, com 1,04 × 10¹⁰ J; depois, na conta sem pedras: o asteroide inteiro a 0,8 mm/s. Quanto dessa energia continuou sendo movimento? A fração que sobrevive no pêndulo balístico é m ÷ (m + M), aqui 580 ÷ 4,3 × 10⁹ ≈ 1,35 ÷ 10⁷. Então Ec depois ≈ 1,04 × 10¹⁰ × 1,35 ÷ 10⁷ ≈ 1,4 × 10³ J. De dez bilhões de joules, mil e quatrocentos ficaram como movimento do asteroide — sete milhões de vezes menos. É a energia de erguer uma pessoa de 70 kg a 2 m de altura: 70 × 10 × 2 = 1 400 J.

Extrato de energia em barras. À esquerda, a barra do antes: energia cinética da sonda, 1,04 vezes 10 elevado a 10 joules. À direita, a barra do depois, dividida: uma fatia invisível de 1,4 vezes 10 elevado a 3 joules de movimento do asteroide e o restante como calor, cratera e pedras arremessadas. Nenhuma seta.
Figura 12.7 — O extrato da colisão: quase toda a energia virou calor, cratera e pedras. A quantidade de movimento, essa, se conservou inteira.

E o resto? Alguém dirá que foi "energia perdida". Não foi: virou calor na rocha e no metal, virou a cratera aberta, virou a energia cinética de milhares de toneladas de pedra arremessadas — a nuvem que os telescópios viram durante semanas. A energia total se conservou; o que não se conservou foi a energia cinética, como em toda colisão em que os corpos se deformam e ficam juntos. É a regra dos capítulos 9, 10 e 11: a quantidade de movimento se conserva sempre; a energia cinética, só na colisão elástica.

Atenção

Energia não some: ela se transforma

A energia total não diminui numa colisão: ela se transforma e se transfere. A parte que deixa de ser cinética vira térmica, deformação e movimento de fragmentos, e cada uma dessas parcelas pode ser medida. Diga "a energia cinética diminuiu" e diga para onde foi.

Essa é a última peça da série. Trabalho paga a mudança de energia; energia se transforma e se conserva no total; potência é o ritmo da transformação; quantidade de movimento se conserva sempre num sistema isolado; impulso e colisão decidem o estrago. Uma sonda de 580 kg usou todas de uma vez para mover uma montanha por 2,7 mm/s — e quem transformou esse quase nada em meia hora de órbita foi outra força, que a série não cobrou: quem mandava naquela órbita era a gravidade.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nas contas de conservação há um passo antes dos três: declarar o sistema e os instantes. Nos cinco exemplos abaixo, o sistema é sonda + Dimorphos e os instantes são o último segundo antes do toque e o primeiro depois.

Exemplo 1 — A energia cinética da sonda

A sonda tem cerca de 580 kg e chega a 6 km/s. Qual é a sua energia cinética no instante do impacto?

Fórmula. Ec = ½ × m × v²

Substituição. v = 6 km/s = 6 000 m/s ; Ec = ½ × 580 × (6 000)² = ½ × 580 × 3,6 × 10⁷

Resultado. Ec = 1,04 × 10¹⁰ J, cerca de 10¹⁰ J

Conferência. 1,04 × 10¹⁰ ÷ 4,18 × 10⁹ ≈ 2,5 toneladas de TNT. Quem esquece o quadrado acha 580 × 6 000 ÷ 2 = 1,74 × 10⁶ J, seis mil vezes menos — a ordem de grandeza denuncia.

Exemplo 2 — A quantidade de movimento da sonda

Com os mesmos 580 kg e 6 000 m/s, qual é a quantidade de movimento da sonda?

Fórmula. p = m × v

Substituição. p = 580 × 6 000

Resultado. p = 3,48 × 10⁶ kg·m/s ≈ 3,5 × 10⁶ kg·m/s, apontando para Dimorphos

Conferência. a energia tem 10¹⁰ e a quantidade de movimento tem 10⁶ — não são a mesma coisa nem crescem juntas. A unidade confere: kg × m/s = kg·m/s, sem o joule.

A conta do pêndulo invertido em desenho: a seta de quantidade de movimento da sonda, 3,48 vezes 10 elevado a 6, é dividida pela massa de Dimorphos, 4,3 vezes 10 elevado a 9 quilogramas, e devolve uma seta minúscula de 0,8 milímetro por segundo ao lado do asteroide, com a escala declarada.
Figura 12.8 — O Exemplo 3 em desenho: a seta da sonda dividida pela massa da montanha.

Exemplo 3 — O pêndulo invertido, sem pedras

Dimorphos tem massa estimada em 4,3 × 10⁹ kg e está em repouso no referencial adotado. A sonda de 580 kg bate a 6 000 m/s e fica incorporada. Qual é a variação de velocidade do asteroide?

Fórmula. sistema sonda + Dimorphos, isolado durante o choque ; m × v = (m + M) × Δv ⇒ Δv = m × v ÷ (m + M) ≈ m × v ÷ M

Substituição. Δv = 3,48 × 10⁶ ÷ 4,3 × 10⁹

Resultado. Δv ≈ 0,00081 m/s ≈ 0,8 mm/s, no sentido em que a sonda vinha

Conferência. os 580 kg somados a 4,3 × 10⁹ kg não mudam a divisão; a razão das massas é uma parte em sete milhões, e a velocidade cai na mesma proporção: 6 000 ÷ 7,4 × 10⁶ ≈ 0,0008 m/s.

Exemplo 4 — Com as pedras: o fator beta

O material arremessado multiplicou o empurrão por beta ≈ 3,6. Qual é a variação de velocidade prevista, e como ela se compara com os 2,7 mm/s medidos?

Fórmula. Δp do asteroide = beta × p da sonda ; Δv = beta × (m × v ÷ M)

Substituição. Δp = 3,6 × 3,48 × 10⁶ ; Δv = 3,6 × 0,8 mm/s

Resultado. Δp ≈ 1,25 × 10⁷ kg·m/s ; Δv ≈ 2,9 mm/s, contra 2,7 mm/s medidos

Conferência. o medido está entre o que dá beta = 2,2 (1,8 mm/s) e beta = 4,9 (3,9 mm/s). Beta menor que 1 seria impossível: as pedras saem para trás e só podem somar ao empurrão.

Exemplo 5 — Quanta energia cinética sobrou

Na conta sem pedras do Exemplo 3, o asteroide de 4,3 × 10⁹ kg ficou a 0,8 mm/s. Que fração da energia cinética da sonda continuou como energia cinética, e quanto é isso em joules?

Fórmula. fração = m ÷ (m + M) ; Ec depois = Ec antes × fração

Substituição. fração = 580 ÷ 4,3 × 10⁹ ≈ 1,35 ÷ 10⁷ ; Ec depois = 1,04 × 10¹⁰ × 1,35 ÷ 10⁷

Resultado. Ec depois ≈ 1,4 × 10³ J — de 1,04 × 10¹⁰ J, sobraram 1 400 J como movimento

Conferência. pela fórmula direta, ½ × 4,3 × 10⁹ × (0,00081)² ≈ 1,4 × 10³ J, o mesmo valor. O resto virou calor, cratera e pedras.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos, e nenhum deles pede sonda nem asteroide. O primeiro é ordem de grandeza de energia e de quantidade de movimento: a velocidade ao quadrado numa e uma vez só na outra. O segundo é a colisão em que os corpos ficam juntos — a bala no bloco, o vagão que engata, o carro que bate e arrasta — com a velocidade final pela conservação de p. O terceiro é a pergunta "por que o pequeno muda o grande", quase sempre em texto: a resposta é a divisão pela massa do alvo. O quarto é o que se conserva: a quantidade de movimento sempre, a energia cinética só quando a colisão é elástica.

Uma bala de 20 g a 400 m/s entra num bloco de 1,98 kg pendurado. A seta de quantidade de movimento da bala, 8 quilograma metro por segundo, vira a seta do conjunto, com velocidade de 4 m/s. Ao lado, riscado com um X, o cartão do distrator: 40 m/s, obtido por quem conserva a energia cinética.
Figura 12.9 — A bala no bloco: 4 m/s pela conservação da quantidade de movimento. Os 40 m/s da alternativa errada vêm de conservar a energia.

Um exemplo do segundo formato, com os números que a prova gosta: uma bala de 20 g a 400 m/s se aloja num bloco de 1,98 kg, e os dois saem juntos. Sistema: bala + bloco; antes: a bala em voo; depois: os dois juntos. Conservação: 0,02 × 400 = 2,00 × V, logo V = 8 ÷ 2 = 4 m/s. E o distrator? Quem iguala as energias cinéticas escreve ½ × 0,02 × 400² = ½ × 2 × V², acha V² = 1 600 e V = 40 m/s — dez vezes o valor certo, na alternativa mais tentadora. A energia cinética antes era 1 600 J; depois, ½ × 2 × 4² = 16 J. Os outros 1 584 J viraram calor e deformação no bloco — e continuam na conta.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças da série: trabalho é o preço e energia é o saldo; sem atrito o saldo se conserva e com atrito parte vira calor; potência é o ritmo; a quantidade de movimento se conserva sempre em sistema isolado e a energia cinética nem sempre; impulso e colisão, o tempo e o coeficiente de restituição decidem o estrago.
Figura 12.10 — A série em cinco peças.
  1. Trabalho é o preço; energia é o saldo: W paga a mudança de Ec, Ep e Eel.
  2. Sem atrito, o saldo mecânico se conserva; com atrito, parte vira calor — e é medida.
  3. Potência é o ritmo: energia por tempo, em watts. O kWh é energia, não potência.
  4. Quantidade de movimento se conserva sempre em sistema isolado; energia cinética, nem sempre.
  5. Impulso e colisão: o tempo da força e o coeficiente e decidem o estrago.

Se for guardar uma frase só, guarde a sonda: 580 kg a 6 km/s moveram uma montanha por 2,7 mm/s — e a gravidade fez o resto.

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