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Ilustração de abertura do capítulo 3: A pedra que explodiu no céu com 30 Hiroshimas

Capítulo 3A pedra que explodiu no céu com 30 Hiroshimas

Energia cinética e o quadrado da velocidade

Uma pedra de 18 metros entrou na atmosfera a 18,6 km por segundo e explodiu a 23 km de altura com cerca de 30 vezes a energia de Hiroshima: o estrago não veio do tamanho, veio do quadrado de uma velocidade.

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O caso: dezoito metros a dezoito quilômetros por segundo

Manhã de 15 de fevereiro de 2013, cidade de Chelyabinsk, na Rússia. Uma pedra do espaço do tamanho de uma casa — cerca de 18 metros de diâmetro e 11 mil toneladas — entra na atmosfera a 18,6 km por segundo. Isso é mais de 50 vezes a velocidade de um avião de passageiros.

Perfil de altitude visto de lado. Uma trajetória tracejada desce inclinada da direita para a esquerda, entrando na atmosfera; a 23,3 km de altura, uma explosão marcada por um círculo de raios. Abaixo, no nível do solo, o desenho de uma cidade, e arcos concêntricos que descem da explosão até ela: a onda de choque. Cotas: 18 m de diâmetro, 18,6 km/s, 23,3 km.
Figura 3.1 — A pedra nunca tocou o chão: explodiu a 23 km de altura, e a onda de choque desceu até a cidade.

A pedra nunca tocou o chão. O ar, comprimido na frente dela, aqueceu e quebrou a rocha, que se desfez numa explosão a 23,3 km de altura. A energia liberada foi estimada pela agência espacial americana em cerca de 440 mil toneladas de TNT — perto de 30 vezes a energia da bomba de Hiroshima. A onda de choque chegou à cidade segundos depois, quebrou janelas numa área de cerca de 500 km² e feriu mais de 1.600 pessoas, quase todas por estilhaços de vidro.

De onde veio tanta energia, se a pedra nem era tão grande? A resposta está na velocidade — e não na velocidade simplesmente, mas no quadrado dela. O capítulo 1 terminou com um número que apareceu por acaso: o trabalho para parar o caminhão deu exatamente metade da massa vezes o quadrado da velocidade. Esse número tem nome: energia cinética. Ela mede o estrago que um movimento é capaz de fazer — e explica por que o pequeno e rápido pode assustar mais que o grande e lento.

Energia cinética: o preço de um movimento

Para pôr um corpo parado em movimento, alguma força precisa realizar trabalho sobre ele. Para pará-lo, alguma força precisa realizar o mesmo trabalho, com sinal trocado. Esse valor, que o movimento "guarda" enquanto dura, é a energia cinética.

Definição

Energia cinética

Um carro de 1.000 kg a 20 m/s, com a seta da velocidade à frente. Ao lado, uma barra vertical de energia cinética, sem seta, na altura de 200 mil joules. Embaixo, a conta: Ec = 1.000 × 20 × 20 ÷ 2 = 200.000 J.
Figura 3.2 — A velocidade é seta; a energia cinética é barra: um carro de uma tonelada a 72 km/h guarda 200 mil joules.

Um carro de 1.000 kg a 20 m/s (72 km/h): Ec = 1.000 × 20² ÷ 2 = 1.000 × 400 ÷ 2 = 200.000 J, ou 2 × 105 J. O caminhão de 40 toneladas do capítulo 1, à mesma velocidade, tinha 40 vezes isso: 8 × 106 J — exatamente o trabalho que a argila precisou realizar para pará-lo.

Atenção

Velocidade tem seta; energia cinética, não

A velocidade é vetor: tem direção e sentido. A energia cinética usa só o módulo da velocidade, elevado ao quadrado, e perde qualquer informação de direção. Por isso ela nunca é negativa, e por isso somar energias cinéticas de dois corpos é somar números, não setas.

O quadrado da velocidade

A massa entra na conta de forma simples: dobrar a massa dobra a energia cinética. A velocidade, não. Como ela aparece ao quadrado, dobrar a velocidade quadruplica a energia cinética, e triplicá-la multiplica a energia por nove.

Gráfico da energia cinética de um carro de 1.000 kg contra a velocidade, de 0 a 40 m/s. A curva é uma parábola que sobe cada vez mais inclinada. Marcas: a 10 m/s, 50 mil joules; a 20 m/s, 200 mil; a 30 m/s, 450 mil; a 40 m/s, 800 mil. Setas mostram que de 20 para 40 m/s a energia fica quatro vezes maior.
Figura 3.3 — Dobrou a velocidade, quadruplicou a energia: a parábola da energia cinética.
velocidadeenergia cinéticacomparada a 10 m/s
10 m/s (36 km/h)50.000 J1 vez
20 m/s (72 km/h)200.000 J4 vezes
30 m/s (108 km/h)450.000 J9 vezes
40 m/s (144 km/h)800.000 J16 vezes

A série anterior já tinha tropeçado nesse quadrado sem saber o nome dele. No capítulo da marca de pneu, um carro a 108 km/h deixou 90 m de borracha no asfalto; a 54 km/h — metade da velocidade — a marca teria só 22,5 m, um quarto. A frenagem cresce com o quadrado da velocidade porque é a energia cinética que o atrito precisa tirar, e ela cresce com o quadrado.

Atenção

Dobrar a velocidade não dobra a energia

É o erro conceitual mais comum deste capítulo. Com o dobro da velocidade, a energia cinética fica quatro vezes maior — e a distância de frenagem também. Por isso 20 km/h a mais numa estrada fazem tanta diferença num acidente.

O teorema do trabalho e da energia cinética

O capítulo 1 mostrou que o trabalho da força resultante é o preço de mudar um movimento. Agora esse preço tem uma fórmula exata: o trabalho da força resultante é igual à variação da energia cinética.

Definição

Teorema do trabalho e da energia cinética

De onde vem isso? Da equação de Torricelli, a da série anterior: v² = v0² + 2 × a × d. Multiplique os dois lados por m e divida por 2: m × v² ÷ 2 = m × v0² ÷ 2 + m × a × d. O último termo é a força resultante (m × a) vezes a distância: o trabalho. O que sobra de cada lado é a energia cinética final e a inicial. O teorema é Torricelli com a massa dentro.

Um bloco de 2 kg sobre um piso liso é empurrado por uma força resultante ao longo de um trecho. Na entrada, a velocidade é 3 m/s e a barra de energia cinética vale 9 J; na saída, a velocidade é 5 m/s e a barra vale 25 J. Entre as duas barras, o degrau de 16 J, rotulado: trabalho da força resultante.
Figura 3.4 — O trabalho da resultante é o degrau entre as duas barras de energia cinética.

Um bloco de 2 kg passa de 3 m/s para 5 m/s. A energia cinética vai de 2 × 9 ÷ 2 = 9 J para 2 × 25 ÷ 2 = 25 J. O trabalho da força resultante foi 25 − 9 = 16 J — sem saber que força era essa, nem por quanto tempo ela agiu, nem em que distância. Essa é a força do teorema: ele pula o meio da história e compara só o começo e o fim.

Frear é tirar energia cinética

Quando um carro freia até parar, a energia cinética final é zero. Pelo teorema, o trabalho da força que freia é igual a menos a energia cinética inicial. Se a força for constante, ela vezes a distância de frenagem dá essa energia: força × distância = m × v² ÷ 2.

À esquerda, a barra de energia cinética de um carro de 1.000 kg a 30 m/s, com 450 mil joules. À direita, o gráfico da força de atrito contra a posição: uma faixa de 5.000 N ao longo de 90 m, pintada, com a área igual a 450 mil joules. Uma seta liga a barra à área: o atrito tira exatamente essa energia.
Figura 3.5 — A área da força de atrito na distância de frenagem é a energia cinética que o carro tinha.

É a marca de pneu vista pela energia. O carro de 1.000 kg a 30 m/s (108 km/h) tem 1.000 × 900 ÷ 2 = 450.000 J. Ele para em 90 m. A força de atrito média, então, vale 450.000 ÷ 90 = 5.000 N. A mesma força, a 15 m/s (54 km/h), só precisaria tirar um quarto da energia — 112.500 J —, e isso ela faz em 112.500 ÷ 5.000 = 22,5 m. Os mesmos números da série anterior, agora pela conta da energia.

Dica ENEM

Dica ENEM: frenagem pela energia, sem relógio

Se a questão dá a massa, a velocidade e a distância de frenagem e pede a força (ou dá a força e pede a distância), use força × distância = m × v² ÷ 2. O tempo não entra. E lembre: a velocidade em m/s, não em km/h.

A escala de uma pedra do céu

Agora a pedra de Chelyabinsk. Com massa de 11.000 toneladas, isto é, 1,1 × 107 kg, e velocidade de 18,6 km/s, isto é, 1,86 × 104 m/s, a energia cinética é:

Ec = 1,1 × 107 × (1,86 × 104)² ÷ 2 ≈ 1,1 × 107 × 3,46 × 108 ÷ 2 ≈ 1,9 × 1015 J.

Um número assim só faz sentido com uma régua. Os físicos que estudam explosões usam uma unidade própria: a quilotonelada de TNT (kt), a energia de mil toneladas do explosivo, que vale 4,18 × 1012 J. A pedra, então, carregava 1,9 × 1015 ÷ 4,18 × 1012 ≈ 455 kt. A estimativa da agência espacial, feita com a luz e o som da explosão medidos por sensores, foi de cerca de 440 kt. Uma conta de uma linha chega a 3% da medida.

Uma régua de energias em potências de dez, de 10 elevado a 5 até 10 elevado a 15 joules. Marcados: o carro a 72 km/h, 2 vezes 10 elevado a 5 J; o caminhão do capítulo 1, 8 vezes 10 elevado a 6 J; a bomba de Hiroshima, cerca de 6 vezes 10 elevado a 13 J; a pedra de Chelyabinsk, cerca de 1,9 vezes 10 elevado a 15 J.
Figura 3.6 — Do carro à pedra do céu: dez potências de dez de energia cinética.

A bomba de Hiroshima tem estimativas entre 13 e 16 kt; com 15 kt, a pedra valeu 440 ÷ 15 ≈ 29 — cerca de 30 Hiroshimas. E de onde veio essa energia toda, se a pedra tinha a massa de uns 275 caminhões como o do capítulo 1? Da velocidade. A 18,6 km/s, cada quilograma da pedra carregava 1,86 × 104 ao quadrado, dividido por 2: cerca de 1,7 × 108 J — mais de 40 vezes a energia de um quilograma de TNT. É o quadrado da velocidade trabalhando em escala de céu.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de energia cinética, o cuidado antes de tudo é a velocidade em m/s: o quadrado de um número em km/h dá um resultado 13 vezes maior, e errado.

Exemplo 1 — Dobrou a velocidade

Um carro de 1.000 kg anda a 20 m/s e depois a 40 m/s. Qual é a energia cinética nas duas velocidades? Quantas vezes ela aumentou?

Fórmula. Ec = m × v² ÷ 2

Substituição. a 20 m/s: 1.000 × 400 ÷ 2 ; a 40 m/s: 1.000 × 1.600 ÷ 2

Resultado. 2 × 105 J ; 8 × 105 J — quatro vezes mais

Conferência. a velocidade dobrou (fator 2) e a energia multiplicou por 2² = 4.

Exemplo 2 — A pedra de Chelyabinsk

Uma pedra de 1,1 × 107 kg entra na atmosfera a 1,86 × 104 m/s. Qual é a energia cinética, em joules e em quilotoneladas de TNT (1 kt = 4,18 × 1012 J)?

Fórmula. Ec = m × v² ÷ 2 ; energia em kt = Ec ÷ 4,18 × 1012

Substituição. Ec = 1,1 × 107 × 3,46 × 108 ÷ 2 ; 1,9 × 1015 ÷ 4,18 × 1012

Resultado. Ec ≈ 1,9 × 1015 J ≈ 455 kt

Conferência. a medida foi cerca de 440 kt; a conta de uma linha erra por 3%. Com Hiroshima em 15 kt, 440 ÷ 15 ≈ 29: cerca de 30.

Exemplo 3 — O teorema no bloco

Um bloco de 2 kg passa de 3 m/s para 5 m/s. Qual foi o trabalho da força resultante sobre ele?

Fórmula. trabalho resultante = Ec final − Ec inicial

Substituição. 2 × 25 ÷ 2 − 2 × 9 ÷ 2 = 25 − 9

Resultado. 16 J

Conferência. positivo, porque o bloco acelerou. Se a força resultante valesse 8 N, esse trabalho teria sido feito em 16 ÷ 8 = 2 m.

Exemplo 4 — A marca de pneu pela energia

Um carro de 1.000 kg a 108 km/h freia até parar em 90 m. Qual é o trabalho do atrito e a força média de atrito?

Fórmula. v = 108 ÷ 3,6 ; trabalho do atrito = 0 − m × v² ÷ 2 ; F = |trabalho| ÷ d

Substituição. v = 30 m/s ; trabalho = −1.000 × 900 ÷ 2 ; F = 450.000 ÷ 90

Resultado. trabalho = −4,5 × 105 J ; F = 5.000 N

Conferência. 5.000 N ÷ 1.000 kg = 5 m/s², a desaceleração do asfalto seco da série anterior.

Exemplo 5 — A moto e o carro

Uma moto de 200 kg a 30 m/s e um carro de 1.000 kg a 12 m/s. Qual dos dois tem mais energia cinética?

Fórmula. Ec = m × v² ÷ 2

Substituição. moto: 200 × 900 ÷ 2 ; carro: 1.000 × 144 ÷ 2

Resultado. moto: 90.000 J ; carro: 72.000 J — a moto tem mais

Conferência. a massa da moto é 5 vezes menor, mas a velocidade é 2,5 vezes maior, e 2,5² = 6,25 é maior que 5.

O Exemplo 5 em desenho: uma moto de 200 kg a 30 m/s e um carro de 1.000 kg a 12 m/s, lado a lado, cada um com a seta da velocidade. Ao lado de cada veículo, a barra de energia cinética: a da moto, 90 mil joules, mais alta que a do carro, 72 mil joules.
Figura 3.7 — Cinco vezes mais leve, duas vezes e meia mais rápida — e com mais energia cinética.

Radar ENEM

O ENEM cobra energia cinética quase sempre por comparação: o que acontece com a energia (ou com a distância de frenagem) quando a velocidade dobra, triplica ou cai pela metade. O formato favorito é a segurança no trânsito.

Dois carros iguais freiam com a mesma força: o de cima a 40 km/h deixa 10 m de marca; o de baixo a 80 km/h deixa 40 m. Num cartão, marcado como certo: dobrou a velocidade, a frenagem ficou quatro vezes maior. Riscado com um X, o cartão 20 m: o distrator de quem dobrou a distância junto com a velocidade.
Figura 3.8 — Dobrou a velocidade, quadruplicou a frenagem. O 20 m está na alternativa para quem esqueceu o quadrado.

Um carro a 40 km/h precisa de 10 m para parar; a 80 km/h, com o mesmo freio, precisa de 40 m — não 20. Outros formatos que aparecem: o teorema do trabalho e da energia numa frenagem ou num arranque (a força vezes a distância é a variação da energia cinética); a ordem de grandeza de um meteoro, de um projétil ou de um veículo; e a comparação entre massa e velocidade — quem tem mais energia, o leve e rápido ou o pesado e lento.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: energia cinética é m vezes v ao quadrado dividido por 2, em joules, e é escalar; dobrou a velocidade, quadruplicou a energia; o trabalho da resultante é a variação da energia cinética; frear é o atrito tirando a energia cinética, e força vezes distância dá m v ao quadrado sobre 2; a pedra de Chelyabinsk carregava cerca de 1,9 vezes 10 elevado a 15 joules.
Figura 3.9 — O capítulo em cinco peças.
  1. Energia cinética é Ec = m × v² ÷ 2, em joules — escalar, nunca negativa, sem seta.
  2. Dobrou a velocidade, a energia cinética quadruplicou; triplicou, ficou nove vezes maior.
  3. O trabalho da força resultante é a variação da energia cinética: Ec final menos Ec inicial.
  4. Frear é o atrito tirando a energia cinética: força × distância = m × v² ÷ 2.
  5. Na escala do céu, 18 metros a 18,6 km/s valem cerca de 1,9 × 1015 J — cerca de 30 Hiroshimas.

Se for guardar uma frase só, guarde a pedra: o que fez o estrago não foi o tamanho; foi o quadrado de uma velocidade.

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