Mecânica IISumário
Ilustração de abertura do capítulo 4: A montanha-russa que não tem motor

Capítulo 4A montanha-russa que não tem motor

Energia potencial gravitacional e conservação

Um cabo puxa o trem até 94 metros e solta: daí em diante não há motor, e dois quilômetros de trilho a 150 km/h são pagos por uma subida só.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 4

Este capítulo acompanha o episódio 4 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 4 no YouTube

professorcanario.com.br/m2/c4/video

O caso: noventa e quatro metros, e depois nada

Num parque às margens de um grande lago, no norte dos Estados Unidos, uma montanha-russa inaugurada em 2000 foi a primeira do mundo a passar dos 300 pés de altura. Um cabo de aço engata no meio do trem e o puxa, numa rampa de 45°, até o topo: 94 metros, em pouco mais de 20 segundos. Lá em cima, o cabo solta.

Perfil lateral simplificado do trilho. À esquerda, a rampa de subida puxada pelo cabo, até 94 m; depois, uma queda quase vertical de 91 m até o vale, e a seguir morros cada vez mais baixos, até a estação no fim. Cotas: 94 m de altura, 91 m de queda, 2.010 m de trilho, 150 km/h no vale.
Figura 4.1 — Um cabo sobe o trem até 94 m e solta. O resto do percurso é pago por essa subida.

A partir daí não há motor nenhum. O trem despenca 91 metros numa descida de 80°, chega ao vale a 150 km/h, sobe morros, faz curvas, percorre ao todo 2.010 metros de trilho e volta à estação 2 minutos e 20 segundos depois de ter saído. Tudo isso sem um único empurrão depois do topo.

Quem pagou a viagem? A resposta é a subida. O cabo realizou trabalho contra o peso do trem, e esse trabalho ficou guardado na altura. Na descida, a altura devolve o que recebeu, na forma de velocidade. Este capítulo dá nome a essa energia guardada — a energia potencial gravitacional —, mostra que, sem atrito, a soma da energia de altura com a de velocidade não muda, e fecha uma conta que a série anterior deixou em aberto: a altura mínima para um carrinho completar um loop.

Energia potencial gravitacional

O capítulo 1 mostrou que, quando uma caixa de 20 kg sobe 3 m, o peso realiza −600 J; quando ela desce os mesmos 3 m, o peso devolve +600 J. Subir guarda; descer devolve. O que fica guardado entre uma coisa e outra é a energia potencial gravitacional.

Definição

Energia potencial gravitacional

Um carrinho de montanha-russa de 500 kg parado no alto de um trilho, a 90 m acima do vale. Uma cota marca os 90 m. Ao lado, uma barra de energia potencial, sem seta, com 450 mil joules, e a conta: Ep = 500 × 10 × 90 = 450.000 J.
Figura 4.2 — Parado no alto, o carrinho não tem energia cinética — mas tem 450 mil joules guardados na altura.

Um carrinho de 500 kg no alto do trilho, a 90 m do vale: Ep = 500 × 10 × 90 = 450.000 J. Parado, ele não tem energia cinética nenhuma. Mas não está sem energia: tem 450 mil joules prontos para virar velocidade, bastando que o trilho desça.

Atenção

Corpo parado pode ter energia

"Parado não tem energia" é falso. Parado não tem energia cinética. Um carrinho no topo, uma pedra na beira do barranco, a água numa represa: todos têm energia potencial, e ela vira movimento assim que o caminho abrir.

O zero é você quem escolhe

Altura em relação a quê? Ao chão, à mesa, ao nível do mar, ao fundo de um poço? A energia potencial depende dessa escolha — e a física aceita qualquer uma, desde que ela seja declarada antes da conta e mantida até o fim.

Uma pedra de 2 kg sobre a borda de um poço. Duas réguas: à esquerda, o zero no chão, e a pedra está a 3 m, com Ep de 60 J; à direita, o zero no fundo do poço, 5 m abaixo do chão, e a pedra está a 8 m, com Ep de 160 J. Quando a pedra cai até o chão, as duas réguas medem a mesma perda: 60 J.
Figura 4.3 — Duas escolhas de zero, dois valores de Ep — e a mesma diferença quando a pedra cai.

Uma pedra de 2 kg está a 3 m do chão, na borda de um poço de 5 m de profundidade. Com o zero no chão, Ep = 2 × 10 × 3 = 60 J. Com o zero no fundo do poço, a altura é 8 m e Ep = 2 × 10 × 8 = 160 J. Qual está certo? Os dois. O valor da energia potencial não tem significado sozinho; o que a física usa é a diferença entre dois pontos. Se a pedra cai até o chão, ela perde 60 J nas duas escolhas: de 60 para 0, ou de 160 para 100.

Dica ENEM

Dica ENEM: declare o zero antes de escrever mgh

Toda conta de energia potencial começa com uma frase: "o zero da altura é o chão" (ou o vale, ou a mesa). Escolha o ponto mais baixo do problema: assim nenhuma energia potencial sai negativa e a conta fica mais limpa.

Energia mecânica: o extrato de duas contas

Some a energia de velocidade com a de altura e você tem a energia mecânica: Em = Ec + Ep. Quando só o peso realiza trabalho, ela não muda: o que a altura perde, a velocidade ganha, e vice-versa. É como um extrato bancário com duas contas, em que o dinheiro só troca de conta e o saldo total fica igual.

Definição

Conservação da energia mecânica

Toda conta de conservação começa, neste livro, com duas declarações — o equivalente do "referencial declarado" da série anterior: qual é o sistema (o trem e a Terra) e quais são os dois instantes comparados (antes: o topo; depois: o vale). Sem as duas frases, a conta não começa.

Quatro posições do mesmo carrinho num trilho: no topo, parado; a meio caminho da descida; no vale; e no alto de uma colina menor. Embaixo de cada posição, uma barra empilhada: a parte de energia potencial e a parte de energia cinética mudam de tamanho de um ponto para outro, mas a barra inteira tem sempre a mesma altura, 450 mil joules.
Figura 4.4 — O extrato de energia: a altura vira velocidade e volta a ser altura, e o total não muda.

A velocidade no vale depende só da altura

Com o zero no vale, o carrinho parte do topo, a uma altura h, com velocidade praticamente zero. No vale, toda a energia potencial virou cinética:

m × g × h = m × v² ÷ 2, e então v = √(2 × g × h).

A massa cancela: um trem vazio e um trem lotado chegam ao vale com a mesma velocidade. O formato do trilho também não entra: uma descida íngreme, uma suave ou uma cheia de curvas levam à mesma velocidade no fim, se a altura for a mesma. Só muda o tempo que se leva para chegar.

Três trilhos diferentes partem da mesma altura de 45 m e chegam ao mesmo nível: um quase vertical, um inclinado reto e um em curvas suaves. No fim de cada um, o velocímetro marca o mesmo valor, 30 m/s.
Figura 4.5 — Três caminhos, a mesma altura, a mesma velocidade no fim: a conservação não olha o caminho.

Na montanha-russa do caso, a queda é de 91 m: v = √(2 × 10 × 91) = √1.820 ≈ 42,7 m/s, isto é, cerca de 154 km/h. A velocidade medida no vale é 150 km/h. A diferença de 4 km/h não é erro da conta: é o atrito das rodas e a resistência do ar, que tiram um pouco de energia mecânica ao longo da queda e a transformam em calor. Essa diferença tem um capítulo próprio, o dos freios.

Atenção

A conservação vale só sem atrito

Quando o atrito ou a resistência do ar realizam trabalho, a energia mecânica diminui — não some, vira calor. Nos exercícios, o enunciado diz "despreze os atritos" justamente para que a conservação valha.

O preço do loop

A série anterior terminou com um globo da morte e uma pergunta: qual é a altura mínima para um carrinho completar um loop sem cair? A resposta tem duas peças, uma de cada série.

Um trilho desce de uma altura h e entra num loop circular de raio R. No topo do loop, o carrinho aparece de cabeça para baixo, com o peso apontando para o centro e a velocidade tangente. Cotas: o topo do loop está a 2R do chão; o ponto de partida, a 2,5R. Para R = 10 m, h mínima = 25 m.
Figura 4.6 — O preço do loop: para um raio de 10 m, a partida precisa estar a pelo menos 25 m.

A peça da série anterior. No topo do loop, na velocidade mínima, o trilho quase não empurra; só o peso faz o papel de força centrípeta: m × g = m × v² ÷ R. Então, no topo, v² = g × R. Para um loop de 10 m de raio, v = √(10 × 10) = 10 m/s. Menos que isso, o carrinho descola do trilho.

A peça deste capítulo. O carrinho parte do repouso a uma altura h e chega ao topo do loop, que fica a 2R do chão, com v² = g × R. Conservação, com o zero no chão: m × g × h = m × g × 2R + m × g × R ÷ 2. A massa e o g cancelam, e sobra h = 2,5 × R.

Para R = 10 m, a altura mínima é 25 m. Esse é o preço que o globo da morte da série anterior cobrava para existir: uma altura de largada de duas vezes e meia o raio, paga antes do loop.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de conservação há duas frases antes dos três tempos: o sistema e o zero ("o carrinho e a Terra; o zero é o vale") e os dois instantes ("antes: o topo; depois: o vale").

Exemplo 1 — A energia guardada no topo

Um carrinho de 500 kg está parado no topo de uma montanha-russa, 90 m acima do vale. Sistema: carrinho e Terra; zero no vale. Qual é a energia potencial dele? (g = 10 m/s²)

Fórmula. Ep = m × g × h

Substituição. Ep = 500 × 10 × 90

Resultado. Ep = 450.000 J = 4,5 × 105 J

Conferência. é o trabalho que o cabo precisou realizar contra o peso para subir o carrinho (sem contar os atritos da subida).

Exemplo 2 — A velocidade no vale

O carrinho do Exemplo 1 desce do topo até o vale, sem atrito. Antes: o topo, parado; depois: o vale. Com que velocidade ele chega?

Fórmula. m × g × h = m × v² ÷ 2, então v = √(2 × g × h)

Substituição. v = √(2 × 10 × 90) = √1.800

Resultado. v ≈ 42,4 m/s ≈ 153 km/h

Conferência. a massa de 500 kg não entrou na conta. Com os 91 m reais da queda, dá cerca de 154 km/h; a medida, 150 km/h, mostra o atrito tirando um pouco.

Exemplo 3 — O preço do loop

Um carrinho parte do repouso e entra num loop de 10 m de raio, sem atrito. Qual é a velocidade mínima no topo do loop e a altura mínima de partida?

Fórmula. no topo, v² = g × R ; conservação: g × h = g × 2R + g × R ÷ 2, então h = 2,5 × R

Substituição. v = √(10 × 10) ; h = 2,5 × 10

Resultado. v = 10 m/s ; h = 25 m

Conferência. no topo do loop, a 20 m, o carrinho tem Ep por quilograma de 200 J e Ec por quilograma de 50 J: 250 J, o mesmo que 10 × 25 lá no alto.

Exemplo 4 — Dois zeros, a mesma diferença

Uma pedra de 2 kg está 3 m acima do chão, na borda de um poço de 5 m de profundidade. Qual é a energia potencial com o zero no chão e com o zero no fundo do poço? Quanto ela perde ao cair até o chão?

Fórmula. Ep = m × g × h ; perda = Ep antes − Ep depois

Substituição. zero no chão: 2 × 10 × 3 ; zero no fundo: 2 × 10 × 8 ; perda: 60 − 0 ou 160 − 100

Resultado. 60 J ou 160 J ; a perda é 60 J nas duas escolhas

Conferência. o valor da Ep depende do zero; a diferença, não.

O Exemplo 5 em desenho: o trilho parte do topo a 90 m, desce ao vale e sobe uma colina de 40 m. No alto da colina, a barra empilhada mostra 200 mil joules de energia potencial e 250 mil de cinética, somando os mesmos 450 mil do topo; a velocidade é cerca de 31,6 m/s.
Figura 4.7 — No alto da colina, a energia do topo se divide entre altura e velocidade.

Exemplo 5 — No alto da colina

Depois do vale, o carrinho de 500 kg do Exemplo 1 sobe uma colina de 40 m. Sem atrito, com que velocidade ele passa pelo alto da colina? Antes: o topo, a 90 m e parado; depois: o alto da colina.

Fórmula. m × g × 90 = m × g × 40 + m × v² ÷ 2, então v = √(2 × g × 50)

Substituição. v = √(2 × 10 × 50) = √1.000

Resultado. v ≈ 31,6 m/s ≈ 114 km/h

Conferência. Ep na colina = 500 × 10 × 40 = 200.000 J; Ec = 500 × 1.000 ÷ 2 = 250.000 J; a soma, 450.000 J, é a mesma do topo.

Radar ENEM

O ENEM cobra conservação da energia em cenas de parque, esporte e cotidiano: a montanha-russa, o skate na pista em U, o pêndulo, o salto com vara. A pergunta favorita é a velocidade no ponto mais baixo, ou a altura que um corpo alcança com certa velocidade.

Uma pista de skate em forma de U. O skatista parte do repouso na borda, a 5 m de altura, e passa pelo fundo com velocidade v. Num cartão marcado como certo, v = raiz de 2 vezes 10 vezes 5 = 10 m/s. Riscado com um X, o cartão 100 m/s: o distrator de quem esqueceu a raiz.
Figura 4.8 — Altura vira velocidade: raiz de 2gh. O 100 está lá para quem esqueceu a raiz quadrada.

Um skatista parte do repouso da borda de uma pista em U, a 5 m de altura. Sem atrito, no fundo: v = √(2 × 10 × 5) = √100 = 10 m/s. O distrator é 100 m/s, de quem esqueceu a raiz. Outros formatos frequentes: a altura máxima de um corpo lançado para cima, que é a mesma conta ao contrário (h = v² ÷ 2g); o pêndulo, que troca altura por velocidade a cada oscilação; e o salto com vara, em que a velocidade da corrida vira altura.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: energia potencial gravitacional é m vezes g vezes h, do sistema corpo e Terra, com o zero declarado; energia mecânica é cinética mais potencial; só com o peso trabalhando, ela se conserva; no vale, v é raiz de 2gh, sem depender da massa nem do caminho; o loop exige partida a 2,5R.
Figura 4.9 — O capítulo em cinco peças.
  1. Energia potencial gravitacional é Ep = m × g × h — do sistema corpo + Terra, com o zero declarado antes da conta.
  2. Energia mecânica é a soma: Em = Ec + Ep.
  3. Se só o peso realiza trabalho, a energia mecânica se conserva: a altura vira velocidade e volta a ser altura.
  4. Partindo do repouso, a velocidade depois de descer h é √(2 × g × h) — sem depender da massa nem do caminho.
  5. O preço do loop: para completar uma volta de raio R, o carrinho precisa partir de 2,5 × R.

Se for guardar uma frase só, guarde o cabo: ele pagou a viagem inteira em vinte segundos de subida, e a altura devolveu tudo.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 4

professorcanario.com.br/m2/c4/lista