
Capítulo 4A montanha-russa que não tem motor
Energia potencial gravitacional e conservação
Um cabo puxa o trem até 94 metros e solta: daí em diante não há motor, e dois quilômetros de trilho a 150 km/h são pagos por uma subida só.
Neste capítulo você vai
- Calcular a energia potencial gravitacional com o nível de referência declarado
- Usar a conservação da energia mecânica para achar velocidades e alturas sem olhar o caminho
- Fechar o preço do loop: a altura mínima de partida é duas vezes e meia o raio
Assista ao episódio 4
Este capítulo acompanha o episódio 4 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.
O caso: noventa e quatro metros, e depois nada
Num parque às margens de um grande lago, no norte dos Estados Unidos, uma montanha-russa inaugurada em 2000 foi a primeira do mundo a passar dos 300 pés de altura. Um cabo de aço engata no meio do trem e o puxa, numa rampa de 45°, até o topo: 94 metros, em pouco mais de 20 segundos. Lá em cima, o cabo solta.

A partir daí não há motor nenhum. O trem despenca 91 metros numa descida de 80°, chega ao vale a 150 km/h, sobe morros, faz curvas, percorre ao todo 2.010 metros de trilho e volta à estação 2 minutos e 20 segundos depois de ter saído. Tudo isso sem um único empurrão depois do topo.
Quem pagou a viagem? A resposta é a subida. O cabo realizou trabalho contra o peso do trem, e esse trabalho ficou guardado na altura. Na descida, a altura devolve o que recebeu, na forma de velocidade. Este capítulo dá nome a essa energia guardada — a energia potencial gravitacional —, mostra que, sem atrito, a soma da energia de altura com a de velocidade não muda, e fecha uma conta que a série anterior deixou em aberto: a altura mínima para um carrinho completar um loop.
Energia potencial gravitacional
O capítulo 1 mostrou que, quando uma caixa de 20 kg sobe 3 m, o peso realiza −600 J; quando ela desce os mesmos 3 m, o peso devolve +600 J. Subir guarda; descer devolve. O que fica guardado entre uma coisa e outra é a energia potencial gravitacional.
Definição
Energia potencial gravitacional
- Um corpo de massa m a uma altura h acima de um nível de referência tem Ep = m × g × h.
- A unidade é o joule. Com g = 10 m/s², 1 kg a 1 m de altura guarda 10 J.
- A energia potencial é do sistema corpo + Terra, não do corpo sozinho: ela existe porque a Terra puxa o corpo. Nas figuras, é uma barra, nunca seta.

Um carrinho de 500 kg no alto do trilho, a 90 m do vale: Ep = 500 × 10 × 90 = 450.000 J. Parado, ele não tem energia cinética nenhuma. Mas não está sem energia: tem 450 mil joules prontos para virar velocidade, bastando que o trilho desça.
Atenção
Corpo parado pode ter energia
"Parado não tem energia" é falso. Parado não tem energia cinética. Um carrinho no topo, uma pedra na beira do barranco, a água numa represa: todos têm energia potencial, e ela vira movimento assim que o caminho abrir.
O zero é você quem escolhe
Altura em relação a quê? Ao chão, à mesa, ao nível do mar, ao fundo de um poço? A energia potencial depende dessa escolha — e a física aceita qualquer uma, desde que ela seja declarada antes da conta e mantida até o fim.

Uma pedra de 2 kg está a 3 m do chão, na borda de um poço de 5 m de profundidade. Com o zero no chão, Ep = 2 × 10 × 3 = 60 J. Com o zero no fundo do poço, a altura é 8 m e Ep = 2 × 10 × 8 = 160 J. Qual está certo? Os dois. O valor da energia potencial não tem significado sozinho; o que a física usa é a diferença entre dois pontos. Se a pedra cai até o chão, ela perde 60 J nas duas escolhas: de 60 para 0, ou de 160 para 100.
Dica ENEM
Dica ENEM: declare o zero antes de escrever mgh
Toda conta de energia potencial começa com uma frase: "o zero da altura é o chão" (ou o vale, ou a mesa). Escolha o ponto mais baixo do problema: assim nenhuma energia potencial sai negativa e a conta fica mais limpa.
Energia mecânica: o extrato de duas contas
Some a energia de velocidade com a de altura e você tem a energia mecânica: Em = Ec + Ep. Quando só o peso realiza trabalho, ela não muda: o que a altura perde, a velocidade ganha, e vice-versa. É como um extrato bancário com duas contas, em que o dinheiro só troca de conta e o saldo total fica igual.
Definição
Conservação da energia mecânica
- Energia mecânica: Em = Ec + Ep.
- Se as únicas forças que realizam trabalho são o peso (e a força elástica, do capítulo seguinte), a energia mecânica se conserva: Ec + Ep no início = Ec + Ep no fim.
- A normal do trilho não atrapalha: ela é perpendicular ao movimento em cada ponto e não realiza trabalho.
Toda conta de conservação começa, neste livro, com duas declarações — o equivalente do "referencial declarado" da série anterior: qual é o sistema (o trem e a Terra) e quais são os dois instantes comparados (antes: o topo; depois: o vale). Sem as duas frases, a conta não começa.

A velocidade no vale depende só da altura
Com o zero no vale, o carrinho parte do topo, a uma altura h, com velocidade praticamente zero. No vale, toda a energia potencial virou cinética:
m × g × h = m × v² ÷ 2, e então v = √(2 × g × h).
A massa cancela: um trem vazio e um trem lotado chegam ao vale com a mesma velocidade. O formato do trilho também não entra: uma descida íngreme, uma suave ou uma cheia de curvas levam à mesma velocidade no fim, se a altura for a mesma. Só muda o tempo que se leva para chegar.

Na montanha-russa do caso, a queda é de 91 m: v = √(2 × 10 × 91) = √1.820 ≈ 42,7 m/s, isto é, cerca de 154 km/h. A velocidade medida no vale é 150 km/h. A diferença de 4 km/h não é erro da conta: é o atrito das rodas e a resistência do ar, que tiram um pouco de energia mecânica ao longo da queda e a transformam em calor. Essa diferença tem um capítulo próprio, o dos freios.
Atenção
A conservação vale só sem atrito
Quando o atrito ou a resistência do ar realizam trabalho, a energia mecânica diminui — não some, vira calor. Nos exercícios, o enunciado diz "despreze os atritos" justamente para que a conservação valha.
O preço do loop
A série anterior terminou com um globo da morte e uma pergunta: qual é a altura mínima para um carrinho completar um loop sem cair? A resposta tem duas peças, uma de cada série.

A peça da série anterior. No topo do loop, na velocidade mínima, o trilho quase não empurra; só o peso faz o papel de força centrípeta: m × g = m × v² ÷ R. Então, no topo, v² = g × R. Para um loop de 10 m de raio, v = √(10 × 10) = 10 m/s. Menos que isso, o carrinho descola do trilho.
A peça deste capítulo. O carrinho parte do repouso a uma altura h e chega ao topo do loop, que fica a 2R do chão, com v² = g × R. Conservação, com o zero no chão: m × g × h = m × g × 2R + m × g × R ÷ 2. A massa e o g cancelam, e sobra h = 2,5 × R.
Para R = 10 m, a altura mínima é 25 m. Esse é o preço que o globo da morte da série anterior cobrava para existir: uma altura de largada de duas vezes e meia o raio, paga antes do loop.
Exemplos resolvidos
Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de conservação há duas frases antes dos três tempos: o sistema e o zero ("o carrinho e a Terra; o zero é o vale") e os dois instantes ("antes: o topo; depois: o vale").
Exemplo 1 — A energia guardada no topo
Um carrinho de 500 kg está parado no topo de uma montanha-russa, 90 m acima do vale. Sistema: carrinho e Terra; zero no vale. Qual é a energia potencial dele? (g = 10 m/s²)
Fórmula. Ep = m × g × h
Substituição. Ep = 500 × 10 × 90
Resultado. Ep = 450.000 J = 4,5 × 105 J
Conferência. é o trabalho que o cabo precisou realizar contra o peso para subir o carrinho (sem contar os atritos da subida).
Exemplo 2 — A velocidade no vale
O carrinho do Exemplo 1 desce do topo até o vale, sem atrito. Antes: o topo, parado; depois: o vale. Com que velocidade ele chega?
Fórmula. m × g × h = m × v² ÷ 2, então v = √(2 × g × h)
Substituição. v = √(2 × 10 × 90) = √1.800
Resultado. v ≈ 42,4 m/s ≈ 153 km/h
Conferência. a massa de 500 kg não entrou na conta. Com os 91 m reais da queda, dá cerca de 154 km/h; a medida, 150 km/h, mostra o atrito tirando um pouco.
Exemplo 3 — O preço do loop
Um carrinho parte do repouso e entra num loop de 10 m de raio, sem atrito. Qual é a velocidade mínima no topo do loop e a altura mínima de partida?
Fórmula. no topo, v² = g × R ; conservação: g × h = g × 2R + g × R ÷ 2, então h = 2,5 × R
Substituição. v = √(10 × 10) ; h = 2,5 × 10
Resultado. v = 10 m/s ; h = 25 m
Conferência. no topo do loop, a 20 m, o carrinho tem Ep por quilograma de 200 J e Ec por quilograma de 50 J: 250 J, o mesmo que 10 × 25 lá no alto.
Exemplo 4 — Dois zeros, a mesma diferença
Uma pedra de 2 kg está 3 m acima do chão, na borda de um poço de 5 m de profundidade. Qual é a energia potencial com o zero no chão e com o zero no fundo do poço? Quanto ela perde ao cair até o chão?
Fórmula. Ep = m × g × h ; perda = Ep antes − Ep depois
Substituição. zero no chão: 2 × 10 × 3 ; zero no fundo: 2 × 10 × 8 ; perda: 60 − 0 ou 160 − 100
Resultado. 60 J ou 160 J ; a perda é 60 J nas duas escolhas
Conferência. o valor da Ep depende do zero; a diferença, não.

Exemplo 5 — No alto da colina
Depois do vale, o carrinho de 500 kg do Exemplo 1 sobe uma colina de 40 m. Sem atrito, com que velocidade ele passa pelo alto da colina? Antes: o topo, a 90 m e parado; depois: o alto da colina.
Fórmula. m × g × 90 = m × g × 40 + m × v² ÷ 2, então v = √(2 × g × 50)
Substituição. v = √(2 × 10 × 50) = √1.000
Resultado. v ≈ 31,6 m/s ≈ 114 km/h
Conferência. Ep na colina = 500 × 10 × 40 = 200.000 J; Ec = 500 × 1.000 ÷ 2 = 250.000 J; a soma, 450.000 J, é a mesma do topo.
Radar ENEM
O ENEM cobra conservação da energia em cenas de parque, esporte e cotidiano: a montanha-russa, o skate na pista em U, o pêndulo, o salto com vara. A pergunta favorita é a velocidade no ponto mais baixo, ou a altura que um corpo alcança com certa velocidade.

Um skatista parte do repouso da borda de uma pista em U, a 5 m de altura. Sem atrito, no fundo: v = √(2 × 10 × 5) = √100 = 10 m/s. O distrator é 100 m/s, de quem esqueceu a raiz. Outros formatos frequentes: a altura máxima de um corpo lançado para cima, que é a mesma conta ao contrário (h = v² ÷ 2g); o pêndulo, que troca altura por velocidade a cada oscilação; e o salto com vara, em que a velocidade da corrida vira altura.
Dica ENEM
Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas
- Esquecer a raiz — v = √(2gh), não 2gh (Radar).
- Fazer a massa entrar na velocidade — ela cancela: pesado e leve chegam juntos.
- Usar o zero errado — declare o zero antes; o que importa é a diferença de altura (Exemplo 4).
- Dar o loop com h = 2R — no topo o carrinho precisa de velocidade; a altura mínima é 2,5R (Exemplo 3).
Resumo em cinco peças

- Energia potencial gravitacional é Ep = m × g × h — do sistema corpo + Terra, com o zero declarado antes da conta.
- Energia mecânica é a soma: Em = Ec + Ep.
- Se só o peso realiza trabalho, a energia mecânica se conserva: a altura vira velocidade e volta a ser altura.
- Partindo do repouso, a velocidade depois de descer h é √(2 × g × h) — sem depender da massa nem do caminho.
- O preço do loop: para completar uma volta de raio R, o carrinho precisa partir de 2,5 × R.
Se for guardar uma frase só, guarde o cabo: ele pagou a viagem inteira em vinte segundos de subida, e a altura devolveu tudo.
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As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

