Mecânica IISumário
Ilustração de abertura do capítulo 5: A flecha que estava guardada no arco

Capítulo 5A flecha que estava guardada no arco

Energia potencial elástica

O arqueiro olímpico puxa cerca de 22 quilogramas-força até o queixo e solta: a flecha cruza 70 metros em pouco mais de um segundo, com uma energia que estava guardada no arco dobrado.

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O caso: vinte e dois quilos até o queixo

No tiro com arco olímpico, o alvo fica a 70 metros e o centro dele, o dez, tem 12,2 cm de diâmetro. O arqueiro levanta o arco recurvo, puxa a corda até encostar a mão no queixo, segura, mira e solta. A flecha cruza os 70 metros em pouco mais de um segundo.

Esquema visto de lado: um arco recurvo em tração máxima, com a corda puxada para trás formando um V, e a flecha apoiada no arco. Uma cota de 0,5 m marca quanto a corda recuou. À direita, a 70 m, um alvo de anéis concêntricos. Um cartão: força na ponta da puxada, cerca de 220 N, isto é, 22 kgf.
Figura 5.1 — Toda a energia da flecha estava guardada no arco dobrado, antes de a corda soltar.

Quanta força isso exige? A federação internacional do esporte conta que os arqueiros de elite usam arcos de 48 a 50 libras de "peso de tração" — a força que precisam fazer com a corda puxada até o fim. Isso é cerca de 22 quilogramas-força, ou 220 newtons: segurar, com três dedos, o peso de uma criança de seis anos. A faixa vai longe: um campeão mundial treinava com 53 libras; a campeã olímpica de 2016 venceu com um arco de 39. Numa rodada de qualificação, com 72 flechas, o arqueiro puxa essa força 72 vezes: somadas, cerca de 1.600 quilogramas-força.

E de onde vem a energia da flecha? Não vem do braço na hora do disparo: quando a corda solta, o braço já está parado. Ela vem do arco dobrado. O braço fez trabalho enquanto puxava a corda; o arco, deformado, guardou esse trabalho como energia potencial elástica e a devolveu à flecha em centésimos de segundo. Este capítulo mede essa energia — e ela tem a mesma regra estranha da energia cinética: guardar o dobro custa quatro vezes mais.

A força que cresce: a lei de Hooke

A série anterior apresentou a mola: quanto mais você estica, mais ela puxa de volta. Para molas comuns, dentro de um limite, a força é proporcional à deformação. É a lei de Hooke.

Definição

Lei de Hooke

Gráfico da força elástica, em newtons, contra a deformação, em metros, para uma mola de constante 200 N/m: uma reta que sai da origem e passa por 20 N em 0,1 m e 40 N em 0,2 m. Ao lado, a mola desenhada em três estados: natural, esticada 0,1 m e esticada 0,2 m, com a seta da força elástica crescendo.
Figura 5.2 — Lei de Hooke: a força cresce em linha reta com a deformação.

Uma mola de k = 200 N/m esticada 0,1 m puxa com 200 × 0,1 = 20 N; esticada 0,2 m, com 40 N. No gráfico da força contra a deformação, isso é uma reta que sai da origem, e a inclinação dela é o k.

O trabalho de uma força que cresce: o triângulo

O capítulo 1 avisou: quando a força muda ao longo do caminho, F × d deixa de valer, mas a área sob o gráfico continua valendo. Na mola, a força começa em zero e cresce em linha reta até k × x. A área sob essa reta não é um retângulo: é um triângulo.

Gráfico de força contra deformação. A reta sai da origem e chega a F = k vezes x no fim. O triângulo embaixo da reta está pintado; o retângulo completo, de altura k vezes x e base x, aparece tracejado. O rótulo diz: o triângulo é metade do retângulo.
Figura 5.3 — A força cresce de zero ao máximo: o trabalho é o triângulo, metade do retângulo.

A área do triângulo é base × altura ÷ 2 = x × (k × x) ÷ 2 = k × x² ÷ 2. É metade do que daria se a força máxima tivesse agido desde o começo. Quem estica uma mola não faz a força máxima o tempo todo: começa quase sem força e só chega ao máximo no fim.

Atenção

Não use F × d com a força final

O erro clássico é multiplicar a força final pela deformação. Com uma mola de 200 N/m esticada 0,2 m, a força final é 40 N, e 40 × 0,2 = 8 J — o dobro do trabalho verdadeiro, que é 4 J. A força só chega a 40 N no fim; a média, numa reta que sai do zero, é a metade.

Energia potencial elástica

O trabalho feito para deformar a mola não se perde: fica guardado nela e volta quando ela é solta. Essa energia guardada é a energia potencial elástica.

Definição

Energia potencial elástica

Duas molas iguais, de 200 N/m. A primeira está esticada 0,1 m e, ao lado, uma barra de energia de 1 J. A segunda está esticada 0,2 m e a barra ao lado tem 4 J, quatro vezes mais alta.
Figura 5.4 — Dobrou a deformação, quadruplicou a energia guardada.

A mola de 200 N/m esticada 0,1 m guarda 200 × 0,01 ÷ 2 = 1 J. Esticada 0,2 m, guarda 200 × 0,04 ÷ 2 = 4 J. Dobrou a deformação, quadruplicou a energia — a mesma regra do quadrado da velocidade do capítulo 3. A mola é um cofre com uma regra estranha: guardar o dobro custa quatro vezes mais, porque a chave é a área de um triângulo.

A mola devolve: conservação com energia elástica

A conservação da energia mecânica do capítulo anterior ganha uma terceira conta. Quando só o peso e a força elástica realizam trabalho, Ec + Ep + Eel não muda. Na horizontal, sem atrito, a mola solta transforma toda a energia elástica em cinética: k × x² ÷ 2 = m × v² ÷ 2.

Uma bola de 0,5 kg encostada numa mola comprimida 0,2 m contra uma parede, num piso liso. Embaixo, uma barra de 8 J de energia elástica. Depois da soltura, a bola se afasta a cerca de 5,7 m/s, e a barra de 8 J agora é de energia cinética.
Figura 5.5 — A energia elástica da mola vira energia cinética da bola, joule por joule.

Uma bola de 0,5 kg é encostada numa mola de k = 400 N/m, comprimida 0,2 m. Sistema: bola e mola; antes: a mola comprimida e a bola parada; depois: a bola solta, a mola no comprimento natural. A energia elástica é 400 × 0,04 ÷ 2 = 8 J. Toda ela vira cinética: 8 = 0,5 × v² ÷ 2, v² = 32, v ≈ 5,7 m/s.

O mesmo vale na vertical, trocando a velocidade por altura. Um brinquedo de mola que guarda 8 J lança para cima uma bolinha de 0,1 kg até h = 8 ÷ (0,1 × 10) = 8 m, se não houver atrito com o ar.

Dica ENEM

Dica ENEM: escreva as três contas e risque o que é zero

Em toda questão de conservação com mola, escreva Ec + Ep + Eel antes e depois, e risque o que for zero: parado, Ec = 0; no nível do zero, Ep = 0; mola solta, Eel = 0. O que sobra de cada lado é a equação.

O arco é uma mola (quase)

Agora o arco olímpico. Um arco real não segue a lei de Hooke à risca: a força cresce de um jeito um pouco diferente de uma reta, e cada arco tem a sua curva. Mas, como modelo para estimar, tratar o arco como uma mola é razoável — e é o que este capítulo faz, dizendo com todas as letras que é uma aproximação.

Gráfico de força contra recuo da corda para o arco, no modelo linear: a reta sai do zero e chega a 220 N com 0,5 m de recuo. O triângulo embaixo está pintado, com área de 55 J. Ao lado, uma barra de 55 J se divide em duas: 36 J vão para a flecha, 65%, e 19 J ficam no arco, na corda e no ar, 35%.
Figura 5.6 — O arco no modelo de mola: 55 J guardados, cerca de 36 J entregues à flecha.

Com força máxima de 220 N e recuo da corda de 0,5 m, a energia guardada, no modelo de mola, é a área do triângulo: 220 × 0,5 ÷ 2 = 55 J. Nem tudo vai para a flecha: parte fica no movimento dos braços do arco, da corda e do ar. Supondo que 65% cheguem à flecha — um rendimento suposto, só para a estimativa —, a flecha recebe cerca de 36 J. Com uma flecha de 20 g, isto é, 0,02 kg: 36 = 0,02 × v² ÷ 2, v² = 3.600, v = 60 m/s.

Sessenta metros por segundo é a ordem de grandeza que os próprios atletas relatam — cerca de 200 pés por segundo —, embora não seja um dado oficial. A essa velocidade, os 70 metros até o alvo levam 70 ÷ 60 ≈ 1,2 s: pouco mais de um segundo, como no caso. O modelo também explica por que uma flecha mais leve sai mais rápida do mesmo arco: com a mesma energia entregue, v² é inversamente proporcional à massa — metade da massa, velocidade cerca de 1,4 vez maior.

Atenção

Modelo não é medida

Os 60 m/s saem de um modelo (arco como mola) e de um rendimento suposto (65%). O número certo é o da ordem de grandeza: dezenas de metros por segundo, não centenas nem unidades. É assim que a física estima antes de medir.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos com mola, o cuidado antes de tudo é a deformação em metros — 20 cm são 0,2 m, e esse número entra ao quadrado.

Exemplo 1 — Dobrou a deformação

Uma mola de constante 200 N/m é esticada 0,1 m e depois 0,2 m. Quanta energia elástica ela guarda em cada caso?

Fórmula. Eel = k × x² ÷ 2

Substituição. 0,1 m: 200 × 0,01 ÷ 2 ; 0,2 m: 200 × 0,04 ÷ 2

Resultado. 1 J ; 4 J

Conferência. a deformação dobrou e a energia ficou 2² = 4 vezes maior. No gráfico, os dois triângulos têm base e altura dobradas: área quatro vezes maior.

Exemplo 2 — O arco como mola

Um arco, tratado como mola, chega a 220 N de força com a corda recuada 0,5 m. Se 65% da energia guardada vão para uma flecha de 20 g, com que velocidade ela sai?

Fórmula. E = F máxima × x ÷ 2 ; energia da flecha = 0,65 × E ; m × v² ÷ 2 = energia da flecha

Substituição. E = 220 × 0,5 ÷ 2 ; 0,65 × 55 ; 0,02 × v² ÷ 2 = 36

Resultado. E = 55 J ; cerca de 36 J na flecha ; v = 60 m/s

Conferência. a constante do arco no modelo é 220 ÷ 0,5 = 440 N/m, e 440 × 0,25 ÷ 2 = 55 J, o mesmo triângulo.

Exemplo 3 — O lançador de mola

Uma mola de 400 N/m, comprimida 0,2 m, lança uma bola de 0,5 kg num piso liso. Com que velocidade a bola sai?

Fórmula. k × x² ÷ 2 = m × v² ÷ 2

Substituição. 400 × 0,04 ÷ 2 = 0,5 × v² ÷ 2, isto é, 8 = 0,25 × v²

Resultado. v² = 32 ; v ≈ 5,7 m/s

Conferência. com a mola comprimida 0,4 m, a energia seria 32 J, quatro vezes mais, e a velocidade dobraria: √128 ≈ 11,3 m/s.

Exemplo 4 — Quanto a mola precisa comprimir

Um brinquedo deve lançar para cima uma bolinha de 0,1 kg até 5 m de altura. A mola tem k = 250 N/m. Quanto ela precisa ser comprimida, sem atrito? (g = 10 m/s²)

Fórmula. k × x² ÷ 2 = m × g × h

Substituição. 250 × x² ÷ 2 = 0,1 × 10 × 5, isto é, 125 × x² = 5

Resultado. x² = 0,04 ; x = 0,2 m = 20 cm

Conferência. 250 × 0,04 ÷ 2 = 5 J = 0,1 × 10 × 5. A bolinha sobe 5 m.

O Exemplo 5 em desenho: o gráfico de força contra deformação de uma mola até 0,3 m, com a reta chegando a 90 N. O triângulo sob a reta está pintado e rotulado 13,5 J. Um retângulo tracejado de 90 N por 0,3 m, com 27 J, mostra o erro de quem usa a força final.
Figura 5.7 — O Exemplo 5: a área certa é o triângulo; o retângulo é o erro de usar a força final.

Exemplo 5 — Lendo o gráfico

O gráfico da força de uma mola contra a deformação é uma reta que vai de 0 a 90 N quando a deformação vai de 0 a 0,3 m. Qual é a constante da mola e o trabalho para esticá-la 0,3 m?

Fórmula. k = F ÷ x ; trabalho = área do triângulo = F × x ÷ 2

Substituição. k = 90 ÷ 0,3 ; trabalho = 90 × 0,3 ÷ 2

Resultado. k = 300 N/m ; trabalho = 13,5 J

Conferência. 300 × 0,09 ÷ 2 = 13,5 J. Quem usa a força final faz 90 × 0,3 = 27 J, o dobro.

Radar ENEM

O ENEM cobra a energia elástica em brinquedos, estilingues, amortecedores e camas elásticas, quase sempre junto com a conservação: a mola comprimida lança um corpo, e a pergunta é a velocidade ou a altura. O gráfico da força contra a deformação também aparece, pedindo a constante ou a área.

Um estilingue com o elástico puxado 0,2 m, tratado como mola de 500 N/m, lança uma pedra de 0,04 kg para cima. Num cartão marcado como certo: energia de 10 J, altura de 25 m. Riscado com um X, o cartão 50 m: o distrator de quem esqueceu o dois da fórmula.
Figura 5.8 — Energia elástica vira altura. O 50 está na alternativa para quem esqueceu o ÷ 2.

Um estilingue, tratado como mola de 500 N/m e puxado 0,2 m, guarda 500 × 0,04 ÷ 2 = 10 J. Se toda essa energia for para uma pedra de 0,04 kg lançada para cima, sem ar: 10 = 0,04 × 10 × h, h = 25 m. O distrator, 50 m, é de quem esqueceu o ÷ 2 na energia elástica. Outros formatos: a cama elástica, que troca altura por deformação e de volta; o amortecedor, que guarda a energia do choque; e o gráfico força contra deformação, com a constante na inclinação e a energia na área. Na cama elástica, a conta dá a volta completa: altura vira velocidade, velocidade vira deformação da lona, e a lona devolve tudo como altura de novo, se não houver perdas.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a lei de Hooke, F igual a k vezes x, e a área do triângulo; a energia elástica é k vezes x ao quadrado dividido por 2; dobrou a deformação, quadruplicou a energia; na soltura, k x ao quadrado sobre 2 vira m v ao quadrado sobre 2; e o rendimento se declara quando houver perdas.
Figura 5.9 — O capítulo em cinco peças.
  1. A força da mola cresce com a deformação, F = k × x, e o trabalho para deformá-la é a área do triângulo — metade do retângulo.
  2. A energia potencial elástica é Eel = k × x² ÷ 2, em joules.
  3. Dobrou a deformação, a energia elástica quadruplicou.
  4. Na soltura, sem perdas, a energia elástica vira cinética (ou altura): k × x² ÷ 2 = m × v² ÷ 2.
  5. Quando há perdas, o rendimento se declara — e a conta vira estimativa, como a da flecha.

Se for guardar uma frase só, guarde o arco: a flecha não é empurrada pelo braço; é devolvida pela madeira e pelo carbono que o braço dobrou.

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