Mecânica IISumário
Ilustração de abertura do capítulo 6: A queda de 118 metros que acende o Brasil

Capítulo 6A queda de 118 metros que acende o Brasil

Conservação em escala e potência hidráulica

A água cai 118 metros e sai luz: vinte turbinas de 700 megawatts, entre 7% e 9% de toda a eletricidade do Brasil, sem queimar nada — a conta da montanha-russa, vezes um rio.

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O caso: vinte turbinas e um rio inteiro

No rio Paraná, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, uma barragem de concreto de 196 metros de altura segura um lago de 1.350 km². Do lado de baixo, a água sai por vinte condutos gigantes, cai 118 metros e gira vinte turbinas. Cada uma delas move um gerador de 700 megawatts. Somadas, são 14.000 MW — 14 gigawatts.

Corte esquemático de uma usina hidrelétrica. À esquerda, o reservatório, com o nível da água no alto; a barragem de concreto; um conduto inclinado que desce pela barragem até a casa de força, embaixo, onde ficam a turbina e o gerador sobre ela; à direita, o rio que continua. Uma cota de 118 m liga o nível do reservatório ao nível da água na saída. Um cartão: 20 unidades de 700 MW.
Figura 6.1 — A usina em corte: a água desce 118 m pelo conduto, gira a turbina, e o gerador transforma o giro em eletricidade.

A usina produz, num ano típico, cerca de 90 bilhões de quilowatts-hora; no ano recorde, 2016, chegou a 103,1 bilhões. Isso é, conforme o ano e a fonte, algo entre 7% e 9% de toda a eletricidade consumida no Brasil — e a maior parte da consumida no Paraguai. Metade das turbinas gira no ritmo da rede paraguaia e metade no da brasileira. Nenhuma delas queima nada.

A conta que explica tudo isso já está neste livro. É a da montanha-russa do capítulo 4, a energia de altura que vira movimento, com duas mudanças: no lugar de um carrinho, um rio; e no lugar de "quanta energia", a pergunta passa a ser "quanta energia por segundo" — a potência do capítulo 2. Este capítulo junta as duas ideias numa fórmula de quatro letras e mostra que uma turbina de 700 MW sai de uma conta de uma linha.

A energia de cada metro cúbico

Comece por um pedaço de água. Um metro cúbico de água tem mil litros e massa de 1.000 kg — uma tonelada. No alto da queda, com o zero declarado no nível da água na saída da usina, 118 metros abaixo, essa tonelada guarda energia potencial:

Ep = m × g × h = 1.000 × 10 × 118 = 1.180.000 J = 1,18 × 106 J.

Um cubo de água de 1 m de lado, com 1.000 kg, no alto de uma escala vertical de 118 m. Ao lado, a barra de energia potencial: 1,18 milhão de joules. Um detalhe mostra 1 kg de água com 1.180 J.
Figura 6.2 — Cada tonelada de água no alto da queda guarda 1,18 milhão de joules; cada quilograma, 1.180.

Por quilograma, são 1.180 J — uma energia modesta, menos que a de um carro a 2 m/s. O que faz de uma usina uma usina não é a energia de cada quilo de água: é a quantidade de quilos por segundo. Um rio grande passa milhares de toneladas por segundo, e a soma, a cada segundo, vira centenas de megawatts.

Atenção

A energia potencial é da água e da Terra

Como no capítulo 4, a energia potencial é do sistema água + Terra, e depende do zero declarado. Aqui o zero natural é o nível da água na saída da usina: a diferença de 118 m entre o reservatório e a saída é a queda, e é ela que entra na conta.

De um corpo para um fluxo: a vazão

Numa usina, a água não cai uma vez: cai o tempo todo. A grandeza que mede esse fluxo é a vazão.

Definição

Vazão

Um conduto forçado visto de lado, com a água descendo. Uma fatia de água, desenhada como um bloco, passa por uma marca a cada segundo: 700 metros cúbicos, isto é, 700 toneladas, por segundo. Uma nota compara: é como se 700 caixas-d'água de mil litros passassem pela marca a cada segundo.
Figura 6.3 — Setecentos metros cúbicos por segundo: setecentas toneladas de água a cada tique do relógio.

Por cada turbina da usina do caso passam cerca de 700 m³ de água por segundo. É a vazão de um rio de bom tamanho entrando num único cano — e são vinte canos iguais lado a lado.

Potência hidráulica: P = ρ × g × Q × h

Agora junte as duas peças. Cada quilograma de água que cai a queda h libera g × h joules. Por segundo, passam ρ × Q quilogramas. A energia liberada por segundo — a potência — é o produto:

Definição

Potência hidráulica

P = ρ × g × Q × h: densidade da água × gravidade × vazão × queda. É a potência que a água entrega ao cair, antes de qualquer perda. Em unidades do SI (kg/m³, m/s², m³/s e m), sai em watts.

Quatro caixas em fila, multiplicadas: densidade 1.000 kg por metro cúbico, gravidade 10 m/s por segundo, vazão 700 metros cúbicos por segundo, queda 118 m. O resultado, numa caixa maior: 826 milhões de watts, isto é, 826 MW por turbina.
Figura 6.4 — Quatro números, uma multiplicação: a potência da água que passa por uma turbina.

Para uma turbina: P = 1.000 × 10 × 700 × 118 = 826.000.000 W = 8,26 × 108 W, isto é, 826 MW. A fórmula é a energia potencial do capítulo 4 (m × g × h) dividida pelo tempo do capítulo 2, com a massa por segundo no lugar da massa.

Dica ENEM

Dica ENEM: potência de usina em uma linha

A questão de usina hidrelétrica quase sempre dá a vazão, a queda e o rendimento. Multiplique ρ × g × Q × h (com ρ = 1.000 kg/m³ e g = 10 m/s²) e depois multiplique pelo rendimento. Cuidado com a vazão em litros por segundo: 1.000 L = 1 m³.

Rendimento: de 826 para 700

A turbina e o gerador não transformam toda a potência da água em eletricidade. Parte vira calor por atrito nos mancais e na própria água, parte se perde na corrente elétrica dos enrolamentos. O rendimento do capítulo 2 volta aqui.

Uma barra de 826 MW de potência da água entra no conjunto turbina e gerador. Na saída, a barra se divide: 700 MW de potência elétrica, cerca de 85%, e 126 MW de perdas, cerca de 15%, pintadas em cinza como calor.
Figura 6.5 — Da água à rede: cerca de 85% viram eletricidade; o resto vira calor.

Com um rendimento de cerca de 85%, a potência elétrica de uma unidade é 0,85 × 826 ≈ 702 MW — exatamente a potência nominal de uma unidade da usina, 700 MW. A conta de uma linha, com números de livro-texto (ρ = 1.000, g = 10), acerta o que está escrito na placa do gerador. As perdas, cerca de 126 MW por unidade, não somem: esquentam a água e as máquinas, e precisam de refrigeração.

Hidrelétricas grandes estão entre as máquinas mais eficientes que existem: 85% a 90% da energia da água vira eletricidade. Um motor de carro, como o capítulo 2 mostrou, fica perto de 30%.

Da potência à energia do ano

As vinte unidades somam 20 × 700 = 14.000 MW = 14 GW. Em uma hora a plena potência, produzem 14 GW × 1 h = 14 milhões de kWh (1,4 × 107 kWh). Em um ano de 8.760 horas, se tudo funcionasse a plena carga o tempo todo, seriam 14 GW × 8.760 h ≈ 122.600 GWh, cerca de 123 TWh (terawatts-hora, bilhões de kWh).

Duas barras em bilhões de kWh por ano. A primeira, tracejada, é o teto a plena carga: cerca de 123. A segunda é a produção real: cerca de 90 num ano típico, com uma marca no recorde de 103,1, em 2016. Uma nota: o rio não dá a vazão máxima o ano inteiro.
Figura 6.6 — A conta dá o teto; o rio dá a régua: 90 num ano típico, 103 no recorde.

A produção real fica em cerca de 90 TWh num ano típico; o recorde, em 2016, foi de 103,1 TWh. A diferença entre o teto e a realidade é a vida do rio: há meses de menos chuva, em que a vazão cai, e há unidades paradas para manutenção. O recorde corresponde a 103,1 ÷ 122,6 ≈ 84% do teto. A conta dá o teto; o rio é a régua.

De onde veio a energia

"Sem queimar nada" é verdade, mas não quer dizer "de graça". A água que cai 118 metros teve de subir antes até lá — e não foi um cabo que a puxou, como na montanha-russa. Foi o Sol.

O ciclo da água em quatro passos, num arco: o Sol aquece a água do mar e dos rios; o vapor sobe e forma nuvens; a chuva cai nas cabeceiras, em terras altas; os rios descem até o reservatório, e a água cai pela usina. Uma seta marca onde a energia potencial foi paga: na subida do vapor.
Figura 6.7 — Quem subiu a água foi o Sol: a hidrelétrica é energia solar em escala de rio.

O Sol aquece a água dos oceanos e dos rios, que evapora; o vapor sobe, forma nuvens e cai como chuva em terras altas, nas cabeceiras dos rios. Essa chuva, lá em cima, já carrega a energia potencial que a usina vai colher. A hidrelétrica é, no fundo, uma máquina de energia solar — com o rio fazendo o papel de cabo e o reservatório o de topo da montanha-russa. O caminho da energia desde o Sol, passando pelo calor da evaporação, é assunto de uma série inteira mais adiante, a de termodinâmica.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de usina, o cuidado antes de tudo são as potências de dez: mega é 106, giga é 109, tera é 1012.

Exemplo 1 — Um metro cúbico no alto da queda

Um metro cúbico de água (1.000 kg) está 118 m acima da saída da usina. Sistema: água e Terra; zero no nível da saída. Qual é a energia potencial dele? E por quilograma?

Fórmula. Ep = m × g × h

Substituição. Ep = 1.000 × 10 × 118 ; por kg: 10 × 118

Resultado. 1,18 × 106 J ; 1.180 J por kg

Conferência. é menos que a energia cinética de um carro de 1.000 kg a 50 m/s (1,25 × 106 J). A usina vive de volume, não de energia por quilo.

Exemplo 2 — Uma turbina

Por uma turbina passam 700 m³/s de água com queda de 118 m. Qual é a potência da água? Com rendimento de 85%, qual é a potência elétrica?

Fórmula. P = ρ × g × Q × h ; P elétrica = η × P

Substituição. P = 1.000 × 10 × 700 × 118 ; P elétrica = 0,85 × 826

Resultado. P = 8,26 × 108 W = 826 MW ; P elétrica ≈ 702 MW

Conferência. a potência nominal de cada unidade da usina é 700 MW. A conta de uma linha chega a 0,3% dela.

Exemplo 3 — As vinte unidades em uma hora

A usina tem 20 unidades de 700 MW. Qual é a potência total e a energia produzida em 1 hora a plena carga?

Fórmula. P total = 20 × 700 MW ; E = P × Δt

Substituição. P total = 14.000 MW = 14 GW = 1,4 × 107 kW ; E = 1,4 × 107 kW × 1 h

Resultado. 14 GW ; 1,4 × 107 kWh em uma hora

Conferência. com o chuveiro de 5.500 W do capítulo 2, essa hora de usina daria para mais de 2,5 milhões de banhos de uma hora — ou 10 milhões de banhos de 15 minutos.

Exemplo 4 — O teto do ano

Qual seria a energia de um ano (8.760 h) com as 14 GW a plena carga? Compare com o recorde de 103,1 TWh.

Fórmula. E = P × Δt ; fração = real ÷ teto

Substituição. E = 14 GW × 8.760 h = 122.640 GWh ; 103,1 ÷ 122,6

Resultado. cerca de 123 TWh ; o recorde foi cerca de 84% do teto

Conferência. 1 TWh = 1.000 GWh = 109 kWh. Os 90 TWh de um ano típico são cerca de 73% do teto.

O Exemplo 5 em desenho: uma pequena barragem num rio de serra, com queda de 20 m e vazão de 10 metros cúbicos por segundo. A conta ao lado: potência da água 2 MW, elétrica 1,6 MW com rendimento de 80%, o bastante para cerca de 290 chuveiros de 5.500 W ligados ao mesmo tempo.
Figura 6.8 — A mesma fórmula numa pequena central: 1,6 MW, ou cerca de 290 chuveiros ligados ao mesmo tempo.

Exemplo 5 — Uma pequena central

Uma pequena central aproveita uma queda de 20 m com vazão de 10 m³/s e rendimento de 80%. Qual é a potência elétrica? Quantos chuveiros de 5.500 W ela alimenta ao mesmo tempo?

Fórmula. P elétrica = η × ρ × g × Q × h ; número = P elétrica ÷ 5.500 W

Substituição. P elétrica = 0,80 × 1.000 × 10 × 10 × 20 ; 1.600.000 ÷ 5.500

Resultado. P elétrica = 1,6 × 106 W = 1,6 MW ; cerca de 290 chuveiros

Conferência. a usina grande tem 14.000 ÷ 1,6 ≈ 8.750 vezes essa potência.

Radar ENEM

O ENEM usa usinas hidrelétricas como contexto de energia com frequência: pede a potência a partir da vazão e da queda, o rendimento, a energia em kWh num intervalo, ou a sequência de transformações — potencial, cinética, energia elétrica. Itaipu já foi texto-base de questão.

Uma questão modelo em desenho: uma usina com vazão de 500 metros cúbicos por segundo, queda de 100 m e rendimento de 90%. Num cartão marcado como certo, 450 MW. Riscados, dois distratores: 500 MW, de quem esqueceu o rendimento, e 450 kW, de quem trocou mega por quilo.
Figura 6.9 — Vazão, queda e rendimento em uma linha. Os distratores esquecem o rendimento ou trocam o prefixo.

Uma usina com vazão de 500 m³/s, queda de 100 m e rendimento de 90%: P = 0,90 × 1.000 × 10 × 500 × 100 = 4,5 × 108 W = 450 MW. Os distratores clássicos são 500 MW (esqueceu o rendimento) e 450 kW (trocou mega por quilo). Outro formato frequente pede a sequência de transformações: potencial gravitacional da água, cinética da água no conduto, cinética de rotação da turbina, energia elétrica no gerador — e o calor das perdas em cada passo.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: cada quilograma de água a 118 m guarda 1.180 J; a potência hidráulica é rô vezes g vezes Q vezes h; o rendimento fecha a conta da unidade, de 826 para 700 MW; potência vezes tempo dá a energia do ano, e a conta é o teto; a energia veio do Sol, que subiu a água.
Figura 6.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. Cada quilograma de água que cai 118 m libera 1.180 J; cada tonelada, 1,18 milhão.
  2. A potência da água é P = ρ × g × Q × h — a energia potencial por segundo.
  3. O rendimento fecha a conta da unidade: 826 MW da água viram cerca de 700 MW elétricos.
  4. Potência × tempo = energia: 14 GW por um ano dão o teto de 123 TWh; o rio entrega cerca de 90.
  5. A energia veio do Sol, que evaporou a água e a pôs no alto das cabeceiras.

Se for guardar uma frase só, guarde a comparação: a usina é a montanha-russa do capítulo 4 com um rio no lugar do trem.

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