Mecânica IIISumário
Ilustração de abertura do capítulo 1: O círculo que errou por oito minutos de arco

Capítulo 1O círculo que errou por oito minutos de arco

A 1ª lei de Kepler

Vinte anos medindo Marte a olho nu, com dois minutos de arco de precisão. O melhor círculo errava por oito. Kepler confiou nos dados, jogou fora dois mil anos de círculos e escreveu a forma da órbita: uma elipse — com o Sol num foco, não no centro.

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O caso: vinte anos olhando Marte a olho nu

O livro da Mecânica II terminou com uma promessa. Uma sonda bateu num asteroide, mudou a velocidade dele em dois milímetros e sete por segundo, e a órbita encurtou trinta e dois minutos. Quem transformou um empurrão minúsculo em meia hora de órbita não foi a sonda: foi a gravidade. Este livro é sobre ela. Mas antes de alguém medir a gravidade, alguém teve de medir uma órbita — e essa história começa numa ilha do mar Báltico, numa sala de pedra, com um instrumento de latão do tamanho de uma parede.

Um grande quadrante de latão, um quarto de círculo graduado encostado numa parede de pedra, com o eixo de mira apontando para um ponto brilhante no alto à direita, marcado Marte. Ao longo do arco, os traços da graduação; um cartão diz: vinte anos, sem telescópio, dois minutos de arco de precisão.
Figura 1.1 — O quadrante mural: um quarto de círculo graduado, do tamanho de uma parede. Tycho Brahe media a altura dos astros lendo a graduação — sem lente nenhuma.

De 1576 a 1597, por cerca de vinte anos, o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe observou o céu da ilha de Hven com instrumentos que ele mesmo mandou construir. Não havia telescópio: o telescópio só seria apontado para o céu em 1609. Tycho media com o olho, através de miras, lendo a posição dos planetas em réguas circulares enormes — quanto maior o arco, mais fino o traço da graduação, e melhor a medida. Ele chegou a uma precisão de um a dois minutos de arco, a melhor que alguém já tinha conseguido, e anotou noite após noite, durante duas décadas, onde Marte estava no céu.

Em 1600, já velho, contratou como assistente um matemático alemão de 28 anos, Johannes Kepler. Morreu no ano seguinte, e Kepler herdou os cadernos. A tarefa parecia clara: dois mil anos de astronomia, de Platão a Copérnico, diziam que os corpos celestes andam em círculos — a forma perfeita. Bastava achar o círculo que passasse pelas posições de Marte. Kepler tentou por anos; ele mesmo chamou esse trabalho de "a guerra com Marte". O melhor círculo que conseguiu errava, em alguns pontos, por oito minutos de arco.

Oito minutos de arco é muito pouco: pouco mais de um quarto da largura da Lua cheia. Qualquer astrônomo antes dele teria aceitado. Kepler não aceitou, porque sabia quem tinha feito as medidas: Tycho media a dois minutos, e o erro era quatro vezes a régua. Ou os dados estavam errados, ou o círculo estava. Ele apostou nos dados. Em 1609, no livro Astronomia Nova, publicou a resposta: a órbita de Marte não é um círculo, é uma elipse — e o Sol não está no centro dela. Dois mil anos de círculos caíram por oito minutos de arco. Este capítulo é sobre essa forma, a elipse, e sobre a primeira das três leis que Kepler tirou dos cadernos de Tycho.

O que Tycho media: ângulos no céu

Tycho não media distâncias. Ninguém sabia, na época, a quantos quilômetros Marte estava. O que se mede no céu, com o olho ou com um quadrante, é direção: o ângulo entre o astro e o horizonte, ou entre dois astros. A régua do astrônomo é a régua dos ângulos: o grau, que o livro da Mecânica I já usou para dizer para onde um vetor aponta, e as suas frações.

À esquerda, um disco claro, a Lua cheia, com a largura marcada como trinta minutos de arco. Ao lado, um segmento bem menor, oito minutos de arco, pouco mais de um quarto do disco. Abaixo, uma barra dividida em sessenta traços representa um grau; um cartão diz: um grau é igual a sessenta minutos de arco.
Figura 1.2 — A régua do céu. Um grau tem sessenta minutos de arco; a Lua cheia ocupa cerca de trinta deles; o erro que Kepler recusou tinha oito.

Um grau é pouco no céu: a Lua cheia ocupa só meio grau, uns 30 minutos de arco. Para medir a posição de um planeta com cuidado, o grau é grosso demais, e por isso ele se divide em sessenta partes: o minuto de arco. Não tem nada a ver com tempo — o nome é de divisão, "a primeira parte pequena" do grau, como o minuto é a parte pequena da hora. Oito minutos de arco são 8 ÷ 60 = 0,13 de grau; sobre a Lua cheia, 8 ÷ 30 ≈ 0,27: pouco mais de um quarto do disco. Era esse o tamanho da discordância entre o círculo de Kepler e o Marte de Tycho.

Definição

Grau e minuto de arco

Atenção

Precisão é a régua do julgamento

Um erro só é "pequeno" ou "grande" comparado com a precisão de quem mediu. Oito minutos de arco seriam invisíveis para os instrumentos antigos, que erravam por dez ou mais; eram enormes para os de Tycho, que erravam por dois. Foi essa comparação, não o número sozinho, que fez Kepler abandonar o círculo. A mesma lógica vale em qualquer conta de laboratório: antes de dizer que dois valores "bateram", pergunte com que precisão foram medidos.

A elipse: um círculo com dois centros

Um círculo tem um centro: todos os pontos dele estão à mesma distância desse ponto. A elipse tem dois pontos especiais, os focos, e a regra é outra: para qualquer ponto da curva, a soma das distâncias aos dois focos é sempre a mesma. É a figura que se desenha com dois pregos e um barbante frouxo: encoste o lápis no barbante, mantenha-o esticado e dê a volta — o barbante tem comprimento fixo, então a soma das duas distâncias não muda.

Uma elipse deitada, com o centro marcado por uma cruz tracejada e os dois focos como pontos sobre o eixo maior. Um ponto da curva está ligado aos dois focos por segmentos, com a legenda: a soma das duas distâncias é sempre a mesma. Do centro até a ponta da elipse, a cota a, o semieixo maior; do centro até um foco, a cota c.
Figura 1.3 — A elipse tem dois focos e um centro. A distância do centro à ponta é o semieixo maior, a; a distância do centro a cada foco é c.

Duas medidas descrevem a elipse. A primeira é o semieixo maior, a: a distância do centro até a ponta mais afastada, o "raio" da elipse na direção comprida. A segunda é a distância do centro a cada foco, c. Quanto mais os focos se afastam do centro, mais achatada a figura; quando os dois focos caem juntos no centro, c = 0 e a elipse vira um círculo de raio a. A razão entre as duas distâncias é o número que mede o achatamento: a excentricidade, e = c ÷ a.

Definição

Elipse, focos e excentricidade

A excentricidade é a única coisa que precisa de cuidado aqui. Ela não é uma distância: é a distância do foco dividida pelo tamanho da elipse, uma fração. Uma elipse de 1 cm e outra de 1 bilhão de km podem ter a mesma excentricidade, e nesse caso têm a mesma forma — uma é a outra ampliada. Conhecendo a e e, todas as outras medidas saem por multiplicação: c = e × a, e as distâncias das pontas aos focos, que são as que a prova cobra, vêm na seção sobre periélio e afélio.

A 1ª lei de Kepler: o Sol num foco, não no centro

O que Kepler encontrou nos cadernos de Tycho, depois de abandonar o círculo, cabe numa frase — e a frase tem duas partes, as duas importantes. Cada planeta descreve uma elipse; o Sol ocupa um dos focos dela. A primeira parte diz a forma; a segunda diz onde está o Sol. E ele não está no centro: está deslocado, em um dos dois focos. O outro foco é um ponto vazio no espaço, sem nada dentro.

Uma elipse bem visível, exagerada, com o Sol desenhado como um disco salmão num dos focos. O outro foco é um círculo vazio, marcado como foco vazio; o centro é uma cruz tracejada entre os dois. Um planeta pequeno está sobre a órbita. Um cartão avisa: elipse exagerada, com e igual a 0,5, para o foco aparecer; a de Marte tem e igual a 0,093.
Figura 1.4 — A 1ª lei: o planeta anda numa elipse e o Sol está num foco — não no centro. O desenho exagera o achatamento para que o foco fique visível; a órbita real de Marte é quase um círculo.

Volte à analogia do barbante: a elipse é um círculo com dois centros. Kepler descobriu que o Sol senta num deles e o outro fica vazio. O erro de oito minutos de arco era exatamente a cadeira vazia aparecendo nos dados: se o Sol estivesse no centro de um círculo, Marte estaria sempre à mesma distância dele e as posições fechariam; como o Sol está fora do centro, Marte ora se aproxima, ora se afasta, e nenhum círculo dá conta disso.

Definição

1ª lei de Kepler (lei das órbitas)

Atenção

"O Sol está no centro" é o erro que a prova mais cobra

A frase parece inocente e está errada. O centro da elipse é um ponto geométrico, o meio dela; o Sol está num foco, deslocado do centro por uma distância c = e × a. Para Marte, isso são 21 milhões de quilômetros — mais de cinquenta vezes a distância da Terra à Lua. A alternativa "Sol no centro" está em quase toda questão sobre a 1ª lei, e o desenho da questão costuma ajudar o erro, porque a elipse desenhada em escala parece mesmo um círculo. Guarde a frase inteira: elipse, com o Sol num dos focos.

Periélio e afélio: a distância mais curta e a mais longa

Se o Sol está fora do centro, a distância do planeta ao Sol muda ao longo da volta. Ela é menor num ponto e maior no ponto oposto, e os dois ficam nas pontas do eixo maior. O ponto mais próximo do Sol se chama periélio; o mais distante, afélio. As duas palavras vêm do grego: peri é "perto", apo é "longe", e hélios é o Sol.

A mesma elipse com o Sol num foco. Da ponta mais próxima até o Sol, um segmento curto, o periélio, com a cota a menos c; da ponta oposta até o Sol, um segmento comprido, o afélio, com a cota a mais c. O centro está marcado, a meio caminho entre as pontas.
Figura 1.5 — Periélio e afélio ficam nas pontas do eixo maior. Do centro ao Sol há c; da ponta ao centro há a. Por isso o periélio vale a − c e o afélio, a + c.

As contas saem do desenho. Da ponta mais próxima até o centro há a; do centro até o Sol há c, na mesma direção. Então a distância do periélio ao Sol é a − c, e a do afélio, do outro lado, é a + c. Como c = e × a, dá para escrever tudo com a e e:

Definição

Periélio e afélio

A soma e a diferença servem para o caminho inverso, que a prova também gosta: dados o periélio e o afélio, o semieixo maior é a média dos dois, a = (periélio + afélio) ÷ 2, e a distância do foco ao centro é metade da diferença, c = (afélio − periélio) ÷ 2. Dividindo c por a, sai a excentricidade — é o Exemplo 5. A tabela abaixo mostra como a excentricidade separa as órbitas quase redondas das muito alongadas; o cometa entra aqui só para dar escala, porque é o caso do capítulo seguinte.

corpoeforma
Terra0,017quase um círculo
Marte0,093quase um círculo
cometa Halley0,967muito alongada

As órbitas dos planetas são quase círculos

Há uma armadilha nas figuras deste capítulo, e é bom nomeá-la: para o foco aparecer, a elipse foi desenhada com excentricidade 0,5, bem achatada. Nenhum planeta tem uma órbita assim. A da Terra tem e = 0,017; a de Marte, a mais excêntrica entre os planetas próximos, tem e = 0,093. Desenhadas em escala, as duas são círculos para o olho — e a única coisa que denuncia a elipse é que o Sol não está no centro.

Duas órbitas desenhadas em escala, uma dentro da outra: a da Terra, menor, e a de Marte, maior. As duas parecem círculos perfeitos. O centro geométrico está marcado com uma cruz e o Sol, um disco salmão, fica visivelmente deslocado dele, para a direita; a distância entre os dois está cotada: 21 milhões de km, para Marte.
Figura 1.6 — Em escala, as órbitas da Terra e de Marte são círculos para o olho. O que sobra da elipse é o deslocamento do Sol: 2,5 milhões de km para a Terra, 21 milhões para Marte — a cadeira vazia de Kepler.

Os números dizem o quanto. Para a Terra, com a = 150 milhões de km, o Sol está a c = 0,017 × 150 ≈ 2,5 milhões de km do centro; o periélio fica a 147 milhões de km e o afélio a 152 — três por cento de diferença entre o ponto mais perto e o mais longe. Para Marte, com a = 228 milhões de km, c = 21 milhões de km, periélio 207 e afélio 249: uma diferença de 20%, que ainda assim não achata a figura a ponto de o olho notar. O achatamento de uma elipse depende de e ao quadrado, e 0,093 ao quadrado é menos de 1%.

Foi por isso que o círculo enganou todo mundo por dois mil anos. Ele erra pouco. Errava, no caso de Marte, oito minutos de arco — e era preciso um observador como Tycho para o erro aparecer. Com a Terra, cuja excentricidade é cinco vezes menor, nem Tycho teria notado.

Dica ENEM

Dica ENEM: o desenho exagera, o número não

Quando a questão traz uma elipse bem achatada com o Sol num foco, o desenho é uma caricatura para o foco ficar visível, e a questão costuma avisar "fora de escala". Não conclua daí que "os planetas têm órbitas muito alongadas": a alternativa que diz isso está errada. As órbitas dos planetas são elipses de excentricidade pequena, quase círculos — o que muda de verdade é a distância ao Sol, alguns por cento ao longo do ano. Cometas, como o Halley, são os corpos de órbita muito alongada.

Kepler mediu a forma; a causa vem depois

É importante dizer o que a 1ª lei não diz. Ela não explica por que a órbita é uma elipse, nem o que puxa o planeta. Kepler achou a forma nos dados, como quem descobre o desenho de uma estrada num mapa sem saber por que a estrada faz aquelas curvas. A causa — uma força que puxa o planeta para o Sol, e que cai com o quadrado da distância — só seria escrita por Newton, quase oitenta anos depois, e é o assunto do capítulo 4. Este capítulo termina, portanto, com uma descoberta pela metade, e está tudo bem: foi a metade que abriu o caminho.

Um ponto à esquerda, a Terra, com duas linhas de visada saindo dele para a direita, quase sobrepostas, abrindo um ângulo pequeno marcado como oito minutos de arco. Uma linha termina num ponto tracejado, onde o círculo previa Marte; a outra, num ponto cheio, onde Tycho viu Marte. Um cartão diz: círculo, erra oito minutos de arco; elipse, fecha nos dados.
Figura 1.7 — A prova estava no ângulo. Onde o melhor círculo colocava Marte e onde Tycho o via havia oito minutos de arco de diferença; a elipse com o Sol num foco fecha em todas as posições.

Vale guardar a divisão de trabalho, porque ela cai na prova como pegadinha. Kepler mediu a forma das órbitas e escreveu três leis a partir de vinte anos de observação; ele não sabia de gravidade nem escreveu uma força. Newton explicou a causa: mostrou que uma única força, a gravitação, produz exatamente as elipses de Kepler — e também as quedas na Terra. O livro da Mecânica I terminou com um satélite que cai e nunca chega ao chão; a órbita elíptica de Marte é a mesma queda, vista de longe. Quem fecha essa conta é Newton, no capítulo 4. Antes dele, ainda há duas leis de Kepler para ler nos mesmos cadernos.

Atenção

Kepler não descobriu a gravidade

Duas frases erradas aparecem nas alternativas com frequência: "Kepler descobriu a gravidade" e "Newton descobriu que as órbitas são elipses". As duas trocam os papéis. Kepler, em 1609, descreveu a forma (elipse, Sol num foco) e, em 1619, a relação entre período e distância; Newton, em 1687, deu a causa e mostrou que ela reproduz as três leis. Na prova, "descreveu" é Kepler; "explicou" é Newton.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Neste capítulo as distâncias ficam em milhões de quilômetros, porque é assim que a prova as dá; a excentricidade não tem unidade. Os valores usados são os da série: a de Marte = 228 milhões de km e e = 0,093; a da Terra = 150 milhões de km e e = 0,017.

A órbita de Marte desenhada com exagero, o Sol num foco e as medidas escritas: semieixo maior de 228 milhões de km do centro à ponta, distância de 21 milhões de km do centro ao Sol, periélio de 207 milhões e afélio de 249 milhões de km. Um aviso: elipse fora de escala.
Figura 1.8 — A órbita de Marte com os números dos Exemplos 1 e 2. O desenho exagera o achatamento; as cotas são as reais.

Exemplo 1 — O Sol fora do centro

A órbita de Marte tem semieixo maior a = 228 milhões de km e excentricidade e = 0,093. A que distância do centro da elipse está o Sol?

Fórmula. c = e × a

Substituição. c = 0,093 × 228

Resultado. c ≈ 21 milhões de km

Conferência. 0,093 × 228 = 21,2; o Sol está 21 milhões de quilômetros fora do centro da órbita de Marte — mais de cinquenta vezes a distância da Terra à Lua, que é de 384 mil km. O outro foco está do lado oposto, à mesma distância do centro: os dois focos ficam 42 milhões de km um do outro.

Exemplo 2 — Periélio e afélio de Marte

Com os mesmos dados, a = 228 milhões de km e e = 0,093, calcule a menor e a maior distância entre Marte e o Sol.

Fórmula. r periélio = a × (1 − e) ; r afélio = a × (1 + e)

Substituição. r periélio = 228 × 0,907 ; r afélio = 228 × 1,093

Resultado. r periélio ≈ 207 milhões de km ; r afélio ≈ 249 milhões de km

Conferência. os valores medidos são 206,65 e 249,26 milhões de km. A soma, 207 + 249 = 456 = 2 × 228, devolve o comprimento inteiro da elipse; a diferença, 249 − 207 = 42 = 2 × 21, devolve a distância entre os focos do Exemplo 1. Do afélio ao periélio, Marte chega 20% mais perto do Sol.

Exemplo 3 — A elipse da Terra

A órbita da Terra tem a = 150 milhões de km e e = 0,017. Calcule c, o periélio e o afélio, e diga se a elipse é visível a olho nu num desenho em escala.

Fórmula. c = e × a ; r periélio = a − c ; r afélio = a + c

Substituição. c = 0,017 × 150 = 2,55 ≈ 2,5 ; r periélio = 150 − 2,5 ; r afélio = 150 + 2,5

Resultado. c ≈ 2,5 milhões de km ; r periélio ≈ 147 milhões de km ; r afélio ≈ 152 milhões de km

Conferência. a diferença entre o afélio e o periélio é de 5 milhões em 150, cerca de 3%. Num desenho com 15 cm de raio, o Sol ficaria uns 2,5 mm fora do centro e a elipse seria, para o olho, um círculo. Os valores medidos, 147,1 e 152,1 milhões de km, batem com o arredondamento; a Terra passa pelo periélio no começo de janeiro — o verão do hemisfério sul não vem daí, mas da inclinação do eixo, assunto de outro livro.

Exemplo 4 — Oito minutos de arco

O melhor círculo de Kepler errava a posição de Marte por 8 minutos de arco; a Lua cheia tem cerca de 30 minutos de arco de largura, e Tycho media com precisão de 2 minutos de arco. Escreva o erro em graus, compare-o com a Lua e com a precisão de Tycho.

Fórmula. ângulo em graus = minutos ÷ 60 ; comparação = erro ÷ referência

Substituição. 8 ÷ 60 ; 8 ÷ 30 ; 8 ÷ 2

Resultado. 8 minutos de arco = 0,13° ; 0,27 da largura da Lua cheia ; 4 vezes a precisão de Tycho

Conferência. um erro de um oitavo de grau parece nada — pouco mais de um quarto da Lua. Mas era quatro vezes maior que o menor ângulo que os instrumentos distinguiam, e por isso não podia ser culpa da medida. Foi essa razão, 4, que derrubou o círculo.

Exemplo 5 — O caminho inverso: da órbita para a excentricidade

Uma tabela astronômica dá para Marte o periélio de 206,65 milhões de km e o afélio de 249,26 milhões de km. Obtenha o semieixo maior, a distância do centro ao foco e a excentricidade.

Fórmula. a = (r periélio + r afélio) ÷ 2 ; c = (r afélio − r periélio) ÷ 2 ; e = c ÷ a

Substituição. a = (206,65 + 249,26) ÷ 2 = 455,91 ÷ 2 ; c = (249,26 − 206,65) ÷ 2 = 42,61 ÷ 2 ; e = 21,3 ÷ 228,0

Resultado. a ≈ 228,0 milhões de km ; c ≈ 21,3 milhões de km ; e ≈ 0,093

Conferência. os três números são os que os Exemplos 1 e 2 usaram como dado — a conta fecha nos dois sentidos. A excentricidade saiu sem unidade, como tem de ser: milhões de km divididos por milhões de km. Com a = 228 e e = 0,093, c = 21,2, que arredonda para os mesmos 21 milhões.

Radar ENEM

O ENEM cobra a 1ª lei quase sempre de forma conceitual, e o distrator é sempre o mesmo: "o Sol está no centro". A questão traz uma elipse desenhada com exagero, marca o Sol e pede a frase certa — ou descreve um planeta se aproximando e se afastando do Sol e pergunta por quê. Em segundo lugar vêm as contas curtas: dados a e e, calcular periélio e afélio; dados periélio e afélio, calcular a excentricidade. E, de vez em quando, a pegadinha de história: quem descobriu o quê, Kepler ou Newton.

Uma elipse com o Sol num foco. Ao lado, um cartão correto: o Sol está num dos focos; a distância ao planeta varia entre a menos c e a mais c. Riscado com um X, o cartão errado: o Sol está no centro; a distância é sempre a mesma.
Figura 1.9 — O distrator favorito: 'o Sol está no centro'. Se estivesse, a distância ao planeta seria sempre a mesma e a órbita seria um círculo — que é exatamente o que Tycho e Kepler mostraram que não é.

Veja a versão que mais aparece: a prova diz que um planeta descreve uma órbita elíptica e pergunta o que se pode afirmar sobre a distância dele ao Sol. A resposta certa é que ela varia, entre a × (1 − e) no periélio e a × (1 + e) no afélio, porque o Sol está num foco. Entre as alternativas estão "é constante, porque o Sol está no centro", "é maior no periélio" (as palavras trocadas) e "é constante, porque a órbita é um círculo".

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Uma conferência rápida resolve metade das questões de conta: periélio + afélio = 2 × a, sempre. Se a alternativa escolhida não fecha essa soma, está errada — 207 + 249 = 456 = 2 × 228 para Marte. E a excentricidade nunca passa de 1 nem é negativa: uma alternativa com e = 1,2 ou com e em quilômetros pode ser descartada sem conta. Nas questões conceituais, procure a frase completa, "elipse com o Sol num dos focos"; qualquer versão que ponha o Sol no centro, ou que faça a distância ao Sol ficar constante, contradiz o que Tycho mediu.

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a órbita é uma elipse com o Sol num foco; a excentricidade é c dividido por a, e o círculo é e igual a zero; periélio é a vezes um menos e, afélio é a vezes um mais e; as órbitas dos planetas são quase círculos; Kepler mediu a forma, a causa vem depois.
Figura 1.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. 1ª lei de Kepler: a órbita de cada planeta é uma elipse, e o Sol está em um dos focos — não no centro. O outro foco é vazio.
  2. A elipse se mede por dois números: o semieixo maior, a, e a excentricidade, e = c ÷ a, sem unidade, entre 0 e 1. O círculo é a elipse com e = 0.
  3. Periélio = a × (1 − e) é a menor distância ao Sol; afélio = a × (1 + e) é a maior. A soma dos dois é 2 × a; a diferença é 2 × c.
  4. As órbitas dos planetas são quase círculos (Terra e = 0,017; Marte e = 0,093). O desenho exagera o achatamento para o foco aparecer.
  5. Kepler mediu a forma das órbitas em vinte anos de dados de Tycho; a causa — a gravitação — é de Newton, e chega no capítulo 4.

Se for guardar uma frase só, guarde a do título: um círculo que errava por oito minutos de arco foi o bastante para trocar a forma do céu. E a elipse ainda guarda mais um segredo, que Kepler leu nos mesmos cadernos. Se o Sol está fora do centro, o planeta ora está perto dele, ora longe — e, quando está perto, anda mais depressa. A elipse tem um relógio dentro. É o assunto do capítulo 2, com um cometa que some por setenta e cinco anos e volta no ano marcado.

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