Mecânica IIISumário
Ilustração de abertura do capítulo 2: O cometa que volta no ano marcado

Capítulo 2O cometa que volta no ano marcado

A 2ª lei de Kepler

Em 1705, Halley marcou o ano: o cometa de 1682 voltaria por volta de 1758. Morreu antes. Na noite de Natal de 1758 ele voltou — a cinquenta e quatro quilômetros por segundo perto do Sol, a menos de um lá longe, onde passa setenta e cinco anos. A elipse tem um relógio dentro.

Neste capítulo você vai

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Este capítulo acompanha o episódio 2 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

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O caso: um homem marca o ano e não vive para ver

Em 1705, um astrônomo inglês chamado Edmond Halley publicou uma lista de 24 cometas registrados ao longo dos séculos, com a órbita de cada um calculada pela lei da gravitação que o amigo dele, Newton, tinha escrito poucos anos antes. Três daqueles cometas — os de 1531, 1607 e 1682 — tinham a mesma órbita: o mesmo caminho, o mesmo plano, e um intervalo parecido entre uma aparição e a seguinte. Halley concluiu que não eram três cometas, e sim um só, que dava a volta em torno do Sol e voltava. E fez uma previsão: ele volta por volta de 1758.

Uma linha do tempo horizontal com as voltas do cometa marcadas por pequenos cometas: 1682, visto; 1759, a volta prevista; 1835; 1910; 1986; e 2061, a próxima. Acima da linha, dois traços: 1705, a previsão, com a frase "volta em 1758"; e 1742, quando Halley morre. Um cartão diz: as voltas do cometa, uma a cada setenta e cinco anos, aproximadamente.
Figura 2.1 — O ano marcado. Halley previu em 1705 a volta de 1758; morreu em 1742. O cometa passou pelo periélio em março de 1759, e voltou em 1835, 1910 e 1986. A próxima passagem é em 2061.

Halley morreu em 1742, sem ver. Na noite de Natal de 1758, um fazendeiro alemão e astrônomo amador, Johann Palitzsch, apontou o telescópio para o céu e encontrou o cometa voltando. Três matemáticos franceses — Clairaut, Lalande e Lepaute — tinham refinado a conta meses antes, levando em conta os puxões de Júpiter e Saturno, e previsto a passagem mais próxima do Sol para 13 de abril de 1759, "com um mês de erro". Ela aconteceu em 13 de março. Pela primeira vez, algo que não era um planeta tinha provado obedecer às mesmas leis que os planetas: o cometa voltou no ano marcado.

A órbita desse cometa é o oposto das órbitas do capítulo 1. No ponto mais próximo do Sol, ele passa a 0,59 UA — mais perto do Sol do que a Terra. No mais distante, está a 35,1 UA, além de Netuno: cinquenta e nove vezes mais longe. E a velocidade acompanha: perto do Sol, o cometa anda a 54 quilômetros por segundo; lá longe, a menos de um. Ele passa setenta e cinco anos quase parado e algumas semanas correndo. Nada disso é acaso. Kepler leu, nos mesmos cadernos de Tycho, a regra que manda no ritmo — e ela é o assunto deste capítulo.

O cometa é a elipse levada ao extremo

O capítulo 1 terminou com a 1ª lei de Kepler: a órbita é uma elipse, e o Sol está num dos focos. O cometa de Halley obedece à mesma lei, mas com uma excentricidade que nenhum planeta tem: e = 0,967, quase 1. Lembre o que a excentricidade mede: a distância do foco ao centro, dividida pelo semieixo maior. Com e tão perto de 1, o foco fica quase encostado na ponta da elipse — e o Sol, que está nesse foco, fica quase na ponta.

A órbita do cometa de Halley desenhada em escala: uma elipse comprida, com o centro marcado por uma cruz, o foco vazio à esquerda e o Sol quase encostado na ponta direita. Em volta do Sol, um círculo tracejado minúsculo, a órbita da Terra. As cotas: periélio 0,59 UA, afélio 35,1 UA, 35,7 UA de ponta a ponta. Um cartão diz: em escala, e igual a 0,967, o Sol fica a 0,59 UA de uma ponta e a 35,1 UA da outra.
Figura 2.2 — A órbita do cometa em escala, sem exagero nenhum. O Sol fica a 0,59 UA de uma ponta e a 35,1 UA da outra; a órbita inteira da Terra cabe num círculo minúsculo em volta do Sol.

Os números dizem isso com clareza. O periélio é a × (1 − e) e o afélio é a × (1 + e), como no capítulo 1; com e = 0,967, o fator do periélio é 0,033 e o do afélio é 1,967 — um é sessenta vezes o outro. É por isso que o cometa chega a 0,59 UA do Sol num extremo e se afasta a 35,1 UA no outro. As unidades aqui são as do sistema solar: 1 UA, uma unidade astronômica, é a distância média da Terra ao Sol, 150 milhões de km. Então o periélio do cometa fica dentro da órbita da Terra, e o afélio, além da órbita de Netuno, a trinta UA.

Definição

A elipse extrema

Atenção

Quase na ponta não é na ponta

Com e = 0,967 o Sol está a 0,59 UA da ponta mais próxima da elipse — perto, mas não em cima dela. A ponta é onde o cometa passa; o Sol é o foco, um pouco atrás. Se o Sol estivesse exatamente na ponta, o cometa bateria nele. A diferença entre "no foco" e "na ponta" é a distância do periélio, e é ela que a prova pede.

A 2ª lei de Kepler: áreas iguais em tempos iguais

Kepler publicou a lei da elipse e a lei que vem agora no mesmo livro, em 1609. A segunda diz respeito ao ritmo, e é enunciada com uma figura em mente. Ligue o Sol ao planeta por um segmento de reta: é o raio-vetor. Conforme o planeta anda, esse segmento gira e varre uma região do plano, como o ponteiro de um relógio varre o mostrador. A 2ª lei diz: o raio-vetor varre áreas iguais em intervalos de tempo iguais.

Uma elipse com o Sol num foco e dois setores pintados de azul. O primeiro, perto do Sol, é curto e largo: vai do ponto P1 ao ponto P2, num mês. O segundo, longe do Sol, é comprido e fino: vai de Q1 a Q2, no mesmo mês. Os dois setores levam o mesmo rótulo, A. Um cartão diz: o segmento Sol–planeta varre a mesma área A no mesmo tempo; perto, arco longo e raio curto; longe, arco curto e raio longo.
Figura 2.3 — A 2ª lei. Num mês perto do Sol, o planeta percorre um arco longo e o raio-vetor curto varre o setor da direita; num mês longe, o arco é curto e o raio-vetor longo varre o setor da esquerda. As duas áreas são iguais — a figura foi desenhada com essa conta.

Olhe os dois setores da figura. Perto do Sol, o raio-vetor é curto, então, para varrer a mesma área, o planeta precisa percorrer um arco longo: anda muito no mesmo tempo. Longe do Sol, o raio-vetor é comprido, e uma fatia fina já tem a área pedida: o planeta percorre um arco curto no mesmo tempo. É a mesma coisa que um limpador de para-brisa que varresse sempre a mesma área por segundo: perto do eixo, o braço curto tem de girar depressa; longe, o braço longo vai devagar.

Definição

2ª lei de Kepler (lei das áreas)

Atenção

A velocidade muda; a área por tempo não

É a confusão mais comum. A 2ª lei não diz que o planeta anda com velocidade constante — diz o contrário: a velocidade muda o tempo todo, e muda exatamente do jeito necessário para que a área varrida por segundo seja sempre a mesma. Se uma alternativa afirma que "o movimento é uniforme" ou que "a velocidade é constante ao longo da órbita", ela está errada para qualquer órbita que não seja um círculo.

Rápido perto do Sol, devagar longe dele

A consequência da lei das áreas cabe numa frase, e é ela que a prova mais cobra: o planeta anda mais depressa quando está mais perto do Sol e mais devagar quando está mais longe. A velocidade é máxima no periélio e mínima no afélio. Entre um e outro, ela cresce enquanto o planeta se aproxima e diminui enquanto ele se afasta.

Uma elipse com o Sol num foco e quatro pontos da órbita, cada um com uma seta de velocidade tangente à curva e o raio-vetor tracejado até o Sol. No periélio, a seta é longa, marcada v máxima; no afélio, curta, v mínima; nos dois pontos intermediários, setas de tamanho médio. Um cartão diz: a seta é a velocidade; cresce enquanto o planeta se aproxima do Sol e encolhe enquanto se afasta; aqui, quatro vezes entre os extremos.
Figura 2.4 — A velocidade ao longo da órbita. A elipse foi desenhada com e = 0,6, exagerada; nela, a velocidade no periélio é quatro vezes a do afélio. No cometa de Halley a razão é 59.

Há um jeito de sentir por que isso acontece, e ele vai ser escrito com todas as letras no capítulo 4. O que puxa o planeta é a gravidade do Sol. Do afélio ao periélio, o planeta está caindo em direção ao Sol, e, como uma pedra que cai, ganha velocidade; do periélio ao afélio, está subindo contra a gravidade, e perde. O cometa de Halley faz isso na escala mais extrema do sistema solar: cai durante quase trinta e oito anos, dos 35 UA até os 0,59 UA, e leva outros tantos subindo de volta. Kepler não sabia da gravidade; ele só viu, nos dados, que a área varrida por dia era sempre a mesma.

Dica ENEM

Dica ENEM: "mais longe, mais rápido" é a alternativa errada

Um distrator recorrente diz que o planeta (ou o cometa, ou o satélite) anda mais depressa quando está mais longe do corpo central. É o contrário. Regra para guardar: perto, rápido; longe, lento. Vale entre os pontos de uma mesma órbita e vale também entre órbitas diferentes — um planeta mais afastado do Sol anda mais devagar que um mais próximo, e o capítulo 3 dá a conta. Nas questões com desenho, o ponto de velocidade máxima é sempre o mais próximo do foco onde está o Sol.

A versão de conta: rp × vp = ra × va

O ENEM não pede que você calcule áreas de setores de elipse. Pede a versão simples da lei, que vale nos dois pontos extremos da órbita. Chame de rp e vp a distância ao Sol e a velocidade no periélio, e de ra e va as mesmas grandezas no afélio. Nesses dois pontos, e só neles, a velocidade é perpendicular ao raio-vetor. Num intervalo curto de tempo t, o planeta percorre um trecho de comprimento v × t, e a área varrida é a de um triângulo fino de base v × t e altura r: A = ½ × r × v × t.

Uma elipse com o Sol num foco. No periélio, um triângulo fino pintado de azul, de altura rp, curta, e base longa, vp; no afélio, outro triângulo, de altura ra, comprida, e base curta, va. Os dois levam o rótulo A. Um cartão diz: num tempo curto, a área varrida é um triângulo fino, A igual a meio vezes r vezes v vezes t; áreas iguais nos dois extremos: rp vezes vp igual a ra vezes va.
Figura 2.5 — Nos dois extremos, a velocidade é perpendicular ao raio-vetor e a área varrida num tempo curto é um triângulo. As duas áreas são iguais; como o tempo é o mesmo, o produto r × v é o mesmo nos dois pontos.

Pela 2ª lei, no mesmo tempo t as duas áreas são iguais: ½ × rp × vp × t = ½ × ra × va × t. Cortando o que se repete:

Definição

A 2ª lei nos extremos da órbita

A tabela mostra os dois casos deste capítulo, o cometa e a Terra, com os números que os Exemplos 2 e 3 vão conferir. Repare que o produto r × v fecha nas duas linhas de cada corpo: 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32 para o cometa; 147 × 30,3 = 4 454 e 152 × 29,3 = 4 454 para a Terra.

pontodistância ao Solvelocidade
cometa, periélio0,59 UA54 km/s
cometa, afélio35,1 UA0,9 km/s
Terra, periélio147 milhões de km30,3 km/s
Terra, afélio152 milhões de km29,3 km/s

Atenção

Não é rp ÷ vp

A tentação é escrever a relação com uma divisão, "distância sobre velocidade", porque parece um tempo. Errado: quando a distância cresce, a velocidade cai, e a única operação em que isso mantém um número fixo é o produto. Conferência rápida: no cometa, a distância cresce 59 vezes e a velocidade cai 59 vezes; 59 × (1 ÷ 59) = 1. Se a sua conta der o cometa mais rápido no afélio, a operação foi trocada.

Setenta e cinco anos quase parado

Junte a 2ª lei à forma extrema da órbita e o resultado é o que Halley viu nos registros: o cometa some por décadas. A figura mostra a órbita em escala com um ponto a cada cinco anos, quinze pontos para os 75 anos da volta inteira. Perto do Sol, dois pontos vizinhos ficam longe um do outro: em cinco anos o cometa vai do periélio a 14 UA. Longe do Sol, os pontos se amontoam: oito dos quinze ficam na ponta mais afastada, a mais de 29 UA do Sol, onde o cometa rasteja a menos de um quilômetro por segundo.

A órbita do cometa de Halley em escala, com quinze pontos marcados sobre ela, um a cada cinco anos. Perto do Sol os pontos estão espalhados; na ponta oposta, longe do Sol, oito deles se amontoam. Duas notas: oito dos quinze pontos ficam aqui, longe do Sol; cinco anos depois do periélio, o cometa já está a 14 UA. Um cartão diz: em escala, um ponto a cada cinco anos; perto do Sol os pontos se espalham, longe se amontoam.
Figura 2.6 — Um ponto a cada cinco anos. Os pontos foram calculados com a 2ª lei: onde estão espalhados, o cometa anda depressa; onde se amontoam, anda devagar. Mais da metade da volta se passa no terço mais distante da órbita.

Dá para levar a conta até o fim. Com a 2ª lei aplicada à órbita inteira, o tempo que o cometa passa dentro da órbita da Terra — a menos de 1 UA do Sol, na parte em que é visível a olho nu — é de cerca de 78 dias em cada volta de 75 anos: dois meses e meio em setenta e cinco anos. É por isso que ele "some": não está parado, está longe, andando devagar, e o raio-vetor comprido varre a área do mês com um arco minúsculo.

Atenção

Quase parado não é parado

"Menos de um quilômetro por segundo" soa como nada perto dos 54 do periélio, mas são 0,9 km/s, cerca de 3 200 km/h — mais rápido que qualquer avião de passageiros. O cometa não para em ponto nenhum: se parasse, cairia em linha reta para o Sol. Ele apenas desacelera, até o mínimo do afélio, e volta a acelerar. O que fica constante em toda a volta é uma coisa só: a área varrida por unidade de tempo.

A Terra também tem relógio

A 2ª lei não é privilégio de cometas. A Terra, com a elipse quase circular do capítulo 1, obedece do mesmo jeito — só que a diferença é pequena. No periélio, no começo de janeiro, a Terra está a 147 milhões de km do Sol; no afélio, no começo de julho, a 152 milhões. A razão entre as distâncias é 152 ÷ 147 = 1,034, e a mesma razão vale para as velocidades: em janeiro a Terra anda cerca de 1 km/s mais depressa do que em julho, 30,3 contra 29,3 km/s. Ninguém sente; a diferença de 3% só aparece nas tabelas astronômicas e no comprimento das estações — o verão do hemisfério sul, do lado do periélio, é uns dias mais curto que o do hemisfério norte.

A órbita da Terra desenhada em escala, um círculo para o olho, com o Sol 2,5 milhões de km fora do centro. No ponto do periélio, à direita, uma seta de velocidade um pouco mais longa, marcada janeiro, 30,3 km/s, e a distância 147; no afélio, à esquerda, uma seta um pouco mais curta, julho, 29,3 km/s, e a distância 152. Um cartão diz: em escala, e igual a 0,017, distâncias em milhões de km; a Terra anda 1 km/s mais rápido em janeiro.
Figura 2.7 — A 2ª lei na órbita da Terra, em escala. O Sol está 2,5 milhões de km fora do centro; a Terra anda 30,3 km/s em janeiro e 29,3 km/s em julho. As setas foram desenhadas na proporção certa: a diferença é de 3%.

Vale repetir o que o capítulo 1 disse sobre a 1ª lei: Kepler mediu o ritmo, não o explicou. A lei das áreas saiu dos cadernos de Tycho, das posições de Marte noite após noite, e Kepler a escreveu sem saber que força puxava o planeta. A causa — a gravitação, e o fato de que a área varrida por tempo se conserva porque a força aponta sempre para o Sol — é de Newton, no capítulo 4. E foi com a lei de Newton que Halley calculou a órbita do cometa e marcou o ano da volta: a primeira vez que a física previu o futuro do céu com décadas de antecedência.

Falta uma pergunta, e ela fecha as três leis. A 2ª lei diz como a velocidade varia dentro de uma órbita; não diz quanto tempo a volta inteira leva. Por que o cometa demora 75 anos, e não 7, nem 700? A resposta depende do tamanho da elipse — do semieixo maior — e é a 3ª lei de Kepler, a conta que liga Plutão a Mercúrio no capítulo 3.

Dica ENEM

Dica ENEM: a 2ª lei não tem fórmula de período

Questões misturam as três leis de propósito. A 1ª é a forma (elipse, Sol num foco); a 2ª é o ritmo dentro da órbita (áreas iguais em tempos iguais; rp × vp = ra × va); a 3ª, do capítulo 3, é a relação entre o período e o tamanho da órbita. Se a questão pergunta "quanto tempo dura a volta", não é a 2ª lei que responde. Se pergunta "onde a velocidade é maior" ou "qual a velocidade no afélio, dada a do periélio", é.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números e o resultado com a unidade. Neste capítulo as distâncias do cometa ficam em UA e as da Terra em milhões de km, como a prova costuma dá-las; as velocidades, em km/s. Os valores usados são os da série: cometa de Halley com periélio 0,59 UA, afélio 35,1 UA e velocidade no periélio de 54 km/s; Terra com 147 e 152 milhões de km e velocidade no afélio de 29,3 km/s.

A órbita do cometa de Halley desenhada com exagero, o Sol num foco e as medidas escritas: periélio 0,59 UA com a seta longa de 54 km/s; afélio 35,1 UA, 59 vezes o periélio, com a seta curta de 0,9 km/s. Um aviso: elipse fora de escala, e real igual a 0,967, as cotas são as reais.
Figura 2.8 — A órbita do cometa com os números dos Exemplos 1, 2 e 5. O desenho é uma caricatura, para caber a legenda; as cotas são as reais.

Exemplo 1 — Cinquenta e nove vezes mais longe

O cometa de Halley passa a 0,59 UA do Sol no periélio e a 35,1 UA no afélio. Quantas vezes mais longe do Sol ele está no afélio do que no periélio?

Fórmula. razão = ra ÷ rp

Substituição. razão = 35,1 ÷ 0,59

Resultado. razão ≈ 59

Conferência. 0,59 × 59 = 34,8, próximo de 35,1 — a razão exata é 59,5, e a série a arredonda para 59. Para comparar: a Terra está a 1 UA, Netuno a 30. No afélio, o cometa está além de Netuno; no periélio, mais perto do Sol que a Terra.

Exemplo 2 — De cinquenta e quatro para menos de um

No periélio, o cometa de Halley anda a 54 km/s. Qual é a velocidade dele no afélio?

Fórmula. rp × vp = ra × va, logo va = vp × (rp ÷ ra)

Substituição. va = 54 × (0,59 ÷ 35,1) = 54 ÷ 59

Resultado. va ≈ 0,9 km/s

Conferência. 59 vezes mais longe, 59 vezes mais devagar. O produto fecha: 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32 (em UA × km/s). Os 54 km/s do periélio não são dado de tabela: são calculados pela lei da gravitação, com a forma da órbita — a conta é do capítulo 8. Menos de um quilômetro por segundo no afélio é o "quase parado" do caso.

Exemplo 3 — A Terra em janeiro e em julho

A Terra está a 147 milhões de km do Sol no periélio e a 152 milhões no afélio, onde anda a 29,3 km/s. Calcule a velocidade no periélio.

Fórmula. rp × vp = ra × va, logo vp = va × (ra ÷ rp)

Substituição. vp = 29,3 × (152 ÷ 147) = 29,3 × 1,034

Resultado. vp ≈ 30,3 km/s

Conferência. um quilômetro por segundo a mais em janeiro, 3% de diferença — o mesmo 3% que separa as duas distâncias. Os valores medidos são 30,3 e 29,3 km/s. Numa órbita quase circular, a 2ª lei continua valendo; ela só produz variações pequenas.

Exemplo 4 — O ano marcado

O cometa passou pelo periélio em 9 de fevereiro de 1986 e passará de novo em 28 de julho de 2061. Quanto dura a volta?

Fórmula. período = data da volta − data da passagem anterior

Substituição. de 09/02/1986 a 09/02/2061 são 75 anos; de 09/02/2061 a 28/07/2061, mais 5 meses e 19 dias

Resultado. período ≈ 75 anos e 5 meses (75,5 anos)

Conferência. a série diz "setenta e cinco anos". O período muda um pouco de volta para volta, porque Júpiter e Saturno puxam o cometa — foi exatamente essa correção que Clairaut fez em 1758. Quem viu o cometa em 1986 com dez anos vai vê-lo de novo com oitenta e cinco.

Exemplo 5 — O caminho inverso: a excentricidade do cometa

Com o periélio de 0,59 UA e o afélio de 35,1 UA, obtenha o semieixo maior, a distância do centro ao Sol e a excentricidade da órbita do cometa.

Fórmula. a = (rp + ra) ÷ 2 ; c = (ra − rp) ÷ 2 ; e = c ÷ a

Substituição. a = (0,59 + 35,1) ÷ 2 = 35,69 ÷ 2 ; c = (35,1 − 0,59) ÷ 2 = 34,51 ÷ 2 ; e = 17,26 ÷ 17,85

Resultado. a ≈ 17,8 UA ; c ≈ 17,3 UA ; e ≈ 0,967

Conferência. a excentricidade bate com a do caso. O centro da elipse fica a 17,3 UA do Sol, e a ponta, a 17,8: o Sol está a 0,59 UA da ponta — quase nela, como a figura em escala mostra. É a mesma conta do capítulo 1, agora numa elipse em que ela produz um número perto de 1.

Radar ENEM

O ENEM cobra a 2ª lei de duas formas. A conceitual, mais frequente: um desenho de órbita elíptica com pontos marcados, e a pergunta "em qual ponto a velocidade é maior?" ou "o que se pode afirmar sobre o movimento?". A resposta certa fala em áreas iguais em tempos iguais, ou em velocidade maior no ponto mais próximo do Sol; os distratores dizem que a velocidade é constante, que ela é maior no ponto mais distante, ou trocam a área pelo ângulo. A forma numérica é a relação rp × vp = ra × va: dada a velocidade num extremo e as duas distâncias, achar a velocidade no outro.

Uma elipse com o Sol num foco, a seta longa no periélio e a curta no afélio. Ao lado, um cartão correto: áreas iguais em tempos iguais; velocidade maior no periélio; rp vezes vp igual a ra vezes va. Riscado com um X, o cartão errado: a velocidade é constante; longe do Sol anda mais rápido. Abaixo: o que é constante é a área varrida por tempo, não a velocidade.
Figura 2.9 — Os dois distratores favoritos: 'a velocidade é constante' e 'longe do Sol anda mais rápido'. O que é constante é a área varrida por tempo, e a velocidade cresce quando o planeta se aproxima do foco onde está o Sol.

Veja a versão que mais aparece: a prova desenha uma elipse com quatro pontos, um no periélio, um no afélio e dois no meio, e pergunta qual afirmação está certa. A certa diz que a velocidade no periélio é a maior, ou que o raio-vetor varre áreas iguais em tempos iguais entre quaisquer dois pares de pontos separados pelo mesmo intervalo. A versão de conta dá, por exemplo, uma sonda com distâncias 7 000 km e 21 000 km ao centro da Terra e a velocidade no ponto mais próximo, e pede a do mais distante — mesma lei, outro corpo central.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Uma conferência rápida resolve as questões de conta: o produto r × v tem de dar o mesmo número nos dois extremos. Para o cometa, 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32; para a Terra, 147 × 30,3 = 4 454 e 152 × 29,3 = 4 454. Se a alternativa escolhida der um produto diferente, ela está errada. E, nas questões conceituais, a frase completa é: o raio-vetor varre áreas iguais em tempos iguais — nem "distâncias iguais", nem "ângulos iguais", nem "velocidade constante".

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a 2ª lei, áreas iguais em tempos iguais, o segmento Sol–planeta varre; perto do Sol, rápido, longe, devagar; nos extremos, rp vezes vp igual a ra vezes va; o cometa, 59 vezes mais longe, 59 vezes mais devagar; Halley previu a volta, a lei vale para tudo que orbita.
Figura 2.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. 2ª lei de Kepler: o segmento que liga o Sol ao planeta varre áreas iguais em tempos iguais. Constante é a área por tempo — não a velocidade.
  2. Perto do Sol, rápido; longe, devagar. A velocidade é máxima no periélio e mínima no afélio; cresce na aproximação, cai no afastamento.
  3. Nos dois extremos, rp × vp = ra × va: a velocidade cai na mesma proporção em que a distância cresce.
  4. O cometa de Halley: 0,59 UA e 54 km/s no periélio; 35,1 UA e 0,9 km/s no afélio — 59 vezes mais longe, 59 vezes mais devagar; 75 anos de volta, dois meses e meio dentro da órbita da Terra.
  5. Halley marcou o ano da volta em 1705 e o cometa voltou em 1758: a prova de que as leis de Kepler valem para tudo que orbita, não só para os planetas.

Se for guardar uma frase só, guarde a do caso: a elipse tem um relógio dentro, e o relógio é a área varrida. Mas ele marca só o ritmo de cada volta, não a duração dela. Plutão leva 248 anos para dar uma volta; Mercúrio, 88 dias. Uma conta só liga os dois — e a mesma conta devolve os trinta e dois minutos que uma sonda tirou de um asteroide. É o capítulo 3.

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