
Capítulo 2O cometa que volta no ano marcado
A 2ª lei de Kepler
Em 1705, Halley marcou o ano: o cometa de 1682 voltaria por volta de 1758. Morreu antes. Na noite de Natal de 1758 ele voltou — a cinquenta e quatro quilômetros por segundo perto do Sol, a menos de um lá longe, onde passa setenta e cinco anos. A elipse tem um relógio dentro.
Neste capítulo você vai
- Ver a elipse levada ao extremo: e = 0,967, o Sol a 0,59 UA de uma ponta e a 35,1 UA da outra — 59 vezes mais longe no afélio
- Enunciar a 2ª lei de Kepler — o segmento Sol–planeta varre áreas iguais em tempos iguais — e tirar dela a consequência: perto do Sol, rápido; longe, devagar
- Fazer a conta da prova nos dois extremos, rp × vp = ra × va: de 54 para 0,9 km/s no cometa, de 29,3 para 30,3 km/s na Terra
Assista ao episódio 2
Este capítulo acompanha o episódio 2 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.
O caso: um homem marca o ano e não vive para ver
Em 1705, um astrônomo inglês chamado Edmond Halley publicou uma lista de 24 cometas registrados ao longo dos séculos, com a órbita de cada um calculada pela lei da gravitação que o amigo dele, Newton, tinha escrito poucos anos antes. Três daqueles cometas — os de 1531, 1607 e 1682 — tinham a mesma órbita: o mesmo caminho, o mesmo plano, e um intervalo parecido entre uma aparição e a seguinte. Halley concluiu que não eram três cometas, e sim um só, que dava a volta em torno do Sol e voltava. E fez uma previsão: ele volta por volta de 1758.

Halley morreu em 1742, sem ver. Na noite de Natal de 1758, um fazendeiro alemão e astrônomo amador, Johann Palitzsch, apontou o telescópio para o céu e encontrou o cometa voltando. Três matemáticos franceses — Clairaut, Lalande e Lepaute — tinham refinado a conta meses antes, levando em conta os puxões de Júpiter e Saturno, e previsto a passagem mais próxima do Sol para 13 de abril de 1759, "com um mês de erro". Ela aconteceu em 13 de março. Pela primeira vez, algo que não era um planeta tinha provado obedecer às mesmas leis que os planetas: o cometa voltou no ano marcado.
A órbita desse cometa é o oposto das órbitas do capítulo 1. No ponto mais próximo do Sol, ele passa a 0,59 UA — mais perto do Sol do que a Terra. No mais distante, está a 35,1 UA, além de Netuno: cinquenta e nove vezes mais longe. E a velocidade acompanha: perto do Sol, o cometa anda a 54 quilômetros por segundo; lá longe, a menos de um. Ele passa setenta e cinco anos quase parado e algumas semanas correndo. Nada disso é acaso. Kepler leu, nos mesmos cadernos de Tycho, a regra que manda no ritmo — e ela é o assunto deste capítulo.
O cometa é a elipse levada ao extremo
O capítulo 1 terminou com a 1ª lei de Kepler: a órbita é uma elipse, e o Sol está num dos focos. O cometa de Halley obedece à mesma lei, mas com uma excentricidade que nenhum planeta tem: e = 0,967, quase 1. Lembre o que a excentricidade mede: a distância do foco ao centro, dividida pelo semieixo maior. Com e tão perto de 1, o foco fica quase encostado na ponta da elipse — e o Sol, que está nesse foco, fica quase na ponta.

Os números dizem isso com clareza. O periélio é a × (1 − e) e o afélio é a × (1 + e), como no capítulo 1; com e = 0,967, o fator do periélio é 0,033 e o do afélio é 1,967 — um é sessenta vezes o outro. É por isso que o cometa chega a 0,59 UA do Sol num extremo e se afasta a 35,1 UA no outro. As unidades aqui são as do sistema solar: 1 UA, uma unidade astronômica, é a distância média da Terra ao Sol, 150 milhões de km. Então o periélio do cometa fica dentro da órbita da Terra, e o afélio, além da órbita de Netuno, a trinta UA.
Definição
A elipse extrema
- Excentricidade perto de 1 (e = 0,967 para o cometa de Halley): o foco quase na ponta, o Sol quase na ponta.
- Periélio = a × (1 − e) = 0,59 UA; afélio = a × (1 + e) = 35,1 UA. A razão entre os dois é 59.
- 1 UA = 150 milhões de km, a distância média Terra–Sol. As órbitas do sistema solar se medem nessa unidade.
Atenção
Quase na ponta não é na ponta
Com e = 0,967 o Sol está a 0,59 UA da ponta mais próxima da elipse — perto, mas não em cima dela. A ponta é onde o cometa passa; o Sol é o foco, um pouco atrás. Se o Sol estivesse exatamente na ponta, o cometa bateria nele. A diferença entre "no foco" e "na ponta" é a distância do periélio, e é ela que a prova pede.
A 2ª lei de Kepler: áreas iguais em tempos iguais
Kepler publicou a lei da elipse e a lei que vem agora no mesmo livro, em 1609. A segunda diz respeito ao ritmo, e é enunciada com uma figura em mente. Ligue o Sol ao planeta por um segmento de reta: é o raio-vetor. Conforme o planeta anda, esse segmento gira e varre uma região do plano, como o ponteiro de um relógio varre o mostrador. A 2ª lei diz: o raio-vetor varre áreas iguais em intervalos de tempo iguais.

Olhe os dois setores da figura. Perto do Sol, o raio-vetor é curto, então, para varrer a mesma área, o planeta precisa percorrer um arco longo: anda muito no mesmo tempo. Longe do Sol, o raio-vetor é comprido, e uma fatia fina já tem a área pedida: o planeta percorre um arco curto no mesmo tempo. É a mesma coisa que um limpador de para-brisa que varresse sempre a mesma área por segundo: perto do eixo, o braço curto tem de girar depressa; longe, o braço longo vai devagar.
Definição
2ª lei de Kepler (lei das áreas)
- O segmento que liga o Sol ao planeta (raio-vetor) varre áreas iguais em tempos iguais.
- A grandeza constante é a área varrida por unidade de tempo — não a velocidade, não a distância.
- Vale para qualquer corpo em órbita, com o corpo central num foco: planeta em torno do Sol, cometa em torno do Sol, satélite em torno da Terra.
Atenção
A velocidade muda; a área por tempo não
É a confusão mais comum. A 2ª lei não diz que o planeta anda com velocidade constante — diz o contrário: a velocidade muda o tempo todo, e muda exatamente do jeito necessário para que a área varrida por segundo seja sempre a mesma. Se uma alternativa afirma que "o movimento é uniforme" ou que "a velocidade é constante ao longo da órbita", ela está errada para qualquer órbita que não seja um círculo.
Rápido perto do Sol, devagar longe dele
A consequência da lei das áreas cabe numa frase, e é ela que a prova mais cobra: o planeta anda mais depressa quando está mais perto do Sol e mais devagar quando está mais longe. A velocidade é máxima no periélio e mínima no afélio. Entre um e outro, ela cresce enquanto o planeta se aproxima e diminui enquanto ele se afasta.

Há um jeito de sentir por que isso acontece, e ele vai ser escrito com todas as letras no capítulo 4. O que puxa o planeta é a gravidade do Sol. Do afélio ao periélio, o planeta está caindo em direção ao Sol, e, como uma pedra que cai, ganha velocidade; do periélio ao afélio, está subindo contra a gravidade, e perde. O cometa de Halley faz isso na escala mais extrema do sistema solar: cai durante quase trinta e oito anos, dos 35 UA até os 0,59 UA, e leva outros tantos subindo de volta. Kepler não sabia da gravidade; ele só viu, nos dados, que a área varrida por dia era sempre a mesma.
Dica ENEM
Dica ENEM: "mais longe, mais rápido" é a alternativa errada
Um distrator recorrente diz que o planeta (ou o cometa, ou o satélite) anda mais depressa quando está mais longe do corpo central. É o contrário. Regra para guardar: perto, rápido; longe, lento. Vale entre os pontos de uma mesma órbita e vale também entre órbitas diferentes — um planeta mais afastado do Sol anda mais devagar que um mais próximo, e o capítulo 3 dá a conta. Nas questões com desenho, o ponto de velocidade máxima é sempre o mais próximo do foco onde está o Sol.
A versão de conta: rp × vp = ra × va
O ENEM não pede que você calcule áreas de setores de elipse. Pede a versão simples da lei, que vale nos dois pontos extremos da órbita. Chame de rp e vp a distância ao Sol e a velocidade no periélio, e de ra e va as mesmas grandezas no afélio. Nesses dois pontos, e só neles, a velocidade é perpendicular ao raio-vetor. Num intervalo curto de tempo t, o planeta percorre um trecho de comprimento v × t, e a área varrida é a de um triângulo fino de base v × t e altura r: A = ½ × r × v × t.

Pela 2ª lei, no mesmo tempo t as duas áreas são iguais: ½ × rp × vp × t = ½ × ra × va × t. Cortando o que se repete:
Definição
A 2ª lei nos extremos da órbita
- rp × vp = ra × va — o produto da distância pela velocidade é o mesmo no periélio e no afélio.
- Consequência direta: va = vp × (rp ÷ ra). A velocidade cai na mesma proporção em que a distância cresce.
- Vale só nos dois extremos, onde a velocidade é perpendicular ao raio-vetor. Em qualquer outro ponto entra o ângulo entre os dois, e a prova não cobra.
A tabela mostra os dois casos deste capítulo, o cometa e a Terra, com os números que os Exemplos 2 e 3 vão conferir. Repare que o produto r × v fecha nas duas linhas de cada corpo: 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32 para o cometa; 147 × 30,3 = 4 454 e 152 × 29,3 = 4 454 para a Terra.
| ponto | distância ao Sol | velocidade |
|---|---|---|
| cometa, periélio | 0,59 UA | 54 km/s |
| cometa, afélio | 35,1 UA | 0,9 km/s |
| Terra, periélio | 147 milhões de km | 30,3 km/s |
| Terra, afélio | 152 milhões de km | 29,3 km/s |
Atenção
Não é rp ÷ vp
A tentação é escrever a relação com uma divisão, "distância sobre velocidade", porque parece um tempo. Errado: quando a distância cresce, a velocidade cai, e a única operação em que isso mantém um número fixo é o produto. Conferência rápida: no cometa, a distância cresce 59 vezes e a velocidade cai 59 vezes; 59 × (1 ÷ 59) = 1. Se a sua conta der o cometa mais rápido no afélio, a operação foi trocada.
Setenta e cinco anos quase parado
Junte a 2ª lei à forma extrema da órbita e o resultado é o que Halley viu nos registros: o cometa some por décadas. A figura mostra a órbita em escala com um ponto a cada cinco anos, quinze pontos para os 75 anos da volta inteira. Perto do Sol, dois pontos vizinhos ficam longe um do outro: em cinco anos o cometa vai do periélio a 14 UA. Longe do Sol, os pontos se amontoam: oito dos quinze ficam na ponta mais afastada, a mais de 29 UA do Sol, onde o cometa rasteja a menos de um quilômetro por segundo.

Dá para levar a conta até o fim. Com a 2ª lei aplicada à órbita inteira, o tempo que o cometa passa dentro da órbita da Terra — a menos de 1 UA do Sol, na parte em que é visível a olho nu — é de cerca de 78 dias em cada volta de 75 anos: dois meses e meio em setenta e cinco anos. É por isso que ele "some": não está parado, está longe, andando devagar, e o raio-vetor comprido varre a área do mês com um arco minúsculo.
Atenção
Quase parado não é parado
"Menos de um quilômetro por segundo" soa como nada perto dos 54 do periélio, mas são 0,9 km/s, cerca de 3 200 km/h — mais rápido que qualquer avião de passageiros. O cometa não para em ponto nenhum: se parasse, cairia em linha reta para o Sol. Ele apenas desacelera, até o mínimo do afélio, e volta a acelerar. O que fica constante em toda a volta é uma coisa só: a área varrida por unidade de tempo.
A Terra também tem relógio
A 2ª lei não é privilégio de cometas. A Terra, com a elipse quase circular do capítulo 1, obedece do mesmo jeito — só que a diferença é pequena. No periélio, no começo de janeiro, a Terra está a 147 milhões de km do Sol; no afélio, no começo de julho, a 152 milhões. A razão entre as distâncias é 152 ÷ 147 = 1,034, e a mesma razão vale para as velocidades: em janeiro a Terra anda cerca de 1 km/s mais depressa do que em julho, 30,3 contra 29,3 km/s. Ninguém sente; a diferença de 3% só aparece nas tabelas astronômicas e no comprimento das estações — o verão do hemisfério sul, do lado do periélio, é uns dias mais curto que o do hemisfério norte.

Vale repetir o que o capítulo 1 disse sobre a 1ª lei: Kepler mediu o ritmo, não o explicou. A lei das áreas saiu dos cadernos de Tycho, das posições de Marte noite após noite, e Kepler a escreveu sem saber que força puxava o planeta. A causa — a gravitação, e o fato de que a área varrida por tempo se conserva porque a força aponta sempre para o Sol — é de Newton, no capítulo 4. E foi com a lei de Newton que Halley calculou a órbita do cometa e marcou o ano da volta: a primeira vez que a física previu o futuro do céu com décadas de antecedência.
Falta uma pergunta, e ela fecha as três leis. A 2ª lei diz como a velocidade varia dentro de uma órbita; não diz quanto tempo a volta inteira leva. Por que o cometa demora 75 anos, e não 7, nem 700? A resposta depende do tamanho da elipse — do semieixo maior — e é a 3ª lei de Kepler, a conta que liga Plutão a Mercúrio no capítulo 3.
Dica ENEM
Dica ENEM: a 2ª lei não tem fórmula de período
Questões misturam as três leis de propósito. A 1ª é a forma (elipse, Sol num foco); a 2ª é o ritmo dentro da órbita (áreas iguais em tempos iguais; rp × vp = ra × va); a 3ª, do capítulo 3, é a relação entre o período e o tamanho da órbita. Se a questão pergunta "quanto tempo dura a volta", não é a 2ª lei que responde. Se pergunta "onde a velocidade é maior" ou "qual a velocidade no afélio, dada a do periélio", é.
Exemplos resolvidos
Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números e o resultado com a unidade. Neste capítulo as distâncias do cometa ficam em UA e as da Terra em milhões de km, como a prova costuma dá-las; as velocidades, em km/s. Os valores usados são os da série: cometa de Halley com periélio 0,59 UA, afélio 35,1 UA e velocidade no periélio de 54 km/s; Terra com 147 e 152 milhões de km e velocidade no afélio de 29,3 km/s.

Exemplo 1 — Cinquenta e nove vezes mais longe
O cometa de Halley passa a 0,59 UA do Sol no periélio e a 35,1 UA no afélio. Quantas vezes mais longe do Sol ele está no afélio do que no periélio?
Fórmula. razão = ra ÷ rp
Substituição. razão = 35,1 ÷ 0,59
Resultado. razão ≈ 59
Conferência. 0,59 × 59 = 34,8, próximo de 35,1 — a razão exata é 59,5, e a série a arredonda para 59. Para comparar: a Terra está a 1 UA, Netuno a 30. No afélio, o cometa está além de Netuno; no periélio, mais perto do Sol que a Terra.
Exemplo 2 — De cinquenta e quatro para menos de um
No periélio, o cometa de Halley anda a 54 km/s. Qual é a velocidade dele no afélio?
Fórmula. rp × vp = ra × va, logo va = vp × (rp ÷ ra)
Substituição. va = 54 × (0,59 ÷ 35,1) = 54 ÷ 59
Resultado. va ≈ 0,9 km/s
Conferência. 59 vezes mais longe, 59 vezes mais devagar. O produto fecha: 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32 (em UA × km/s). Os 54 km/s do periélio não são dado de tabela: são calculados pela lei da gravitação, com a forma da órbita — a conta é do capítulo 8. Menos de um quilômetro por segundo no afélio é o "quase parado" do caso.
Exemplo 3 — A Terra em janeiro e em julho
A Terra está a 147 milhões de km do Sol no periélio e a 152 milhões no afélio, onde anda a 29,3 km/s. Calcule a velocidade no periélio.
Fórmula. rp × vp = ra × va, logo vp = va × (ra ÷ rp)
Substituição. vp = 29,3 × (152 ÷ 147) = 29,3 × 1,034
Resultado. vp ≈ 30,3 km/s
Conferência. um quilômetro por segundo a mais em janeiro, 3% de diferença — o mesmo 3% que separa as duas distâncias. Os valores medidos são 30,3 e 29,3 km/s. Numa órbita quase circular, a 2ª lei continua valendo; ela só produz variações pequenas.
Exemplo 4 — O ano marcado
O cometa passou pelo periélio em 9 de fevereiro de 1986 e passará de novo em 28 de julho de 2061. Quanto dura a volta?
Fórmula. período = data da volta − data da passagem anterior
Substituição. de 09/02/1986 a 09/02/2061 são 75 anos; de 09/02/2061 a 28/07/2061, mais 5 meses e 19 dias
Resultado. período ≈ 75 anos e 5 meses (75,5 anos)
Conferência. a série diz "setenta e cinco anos". O período muda um pouco de volta para volta, porque Júpiter e Saturno puxam o cometa — foi exatamente essa correção que Clairaut fez em 1758. Quem viu o cometa em 1986 com dez anos vai vê-lo de novo com oitenta e cinco.
Exemplo 5 — O caminho inverso: a excentricidade do cometa
Com o periélio de 0,59 UA e o afélio de 35,1 UA, obtenha o semieixo maior, a distância do centro ao Sol e a excentricidade da órbita do cometa.
Fórmula. a = (rp + ra) ÷ 2 ; c = (ra − rp) ÷ 2 ; e = c ÷ a
Substituição. a = (0,59 + 35,1) ÷ 2 = 35,69 ÷ 2 ; c = (35,1 − 0,59) ÷ 2 = 34,51 ÷ 2 ; e = 17,26 ÷ 17,85
Resultado. a ≈ 17,8 UA ; c ≈ 17,3 UA ; e ≈ 0,967
Conferência. a excentricidade bate com a do caso. O centro da elipse fica a 17,3 UA do Sol, e a ponta, a 17,8: o Sol está a 0,59 UA da ponta — quase nela, como a figura em escala mostra. É a mesma conta do capítulo 1, agora numa elipse em que ela produz um número perto de 1.
Radar ENEM
O ENEM cobra a 2ª lei de duas formas. A conceitual, mais frequente: um desenho de órbita elíptica com pontos marcados, e a pergunta "em qual ponto a velocidade é maior?" ou "o que se pode afirmar sobre o movimento?". A resposta certa fala em áreas iguais em tempos iguais, ou em velocidade maior no ponto mais próximo do Sol; os distratores dizem que a velocidade é constante, que ela é maior no ponto mais distante, ou trocam a área pelo ângulo. A forma numérica é a relação rp × vp = ra × va: dada a velocidade num extremo e as duas distâncias, achar a velocidade no outro.

Veja a versão que mais aparece: a prova desenha uma elipse com quatro pontos, um no periélio, um no afélio e dois no meio, e pergunta qual afirmação está certa. A certa diz que a velocidade no periélio é a maior, ou que o raio-vetor varre áreas iguais em tempos iguais entre quaisquer dois pares de pontos separados pelo mesmo intervalo. A versão de conta dá, por exemplo, uma sonda com distâncias 7 000 km e 21 000 km ao centro da Terra e a velocidade no ponto mais próximo, e pede a do mais distante — mesma lei, outro corpo central.
Dica ENEM
Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas
- "A velocidade é constante" — só no círculo. Na elipse ela muda; constante é a área varrida por tempo.
- "Mais longe, mais rápido" — é o contrário: perto, rápido; longe, lento.
- "O Sol está no centro" — o distrator do capítulo 1 volta aqui; o Sol está num foco, e a velocidade máxima é no ponto mais perto dele.
- Dividir em vez de multiplicar — a relação é o produto r × v; se a distância cresce 59 vezes, a velocidade cai 59 vezes.
- Usar a relação fora dos extremos — rp × vp = ra × va só vale no periélio e no afélio, onde a velocidade é perpendicular ao raio-vetor.
- Confundir com o período — a 2ª lei não diz quanto dura a volta; isso é a 3ª lei, capítulo 3.
Uma conferência rápida resolve as questões de conta: o produto r × v tem de dar o mesmo número nos dois extremos. Para o cometa, 0,59 × 54 = 32 e 35,1 × 0,9 = 32; para a Terra, 147 × 30,3 = 4 454 e 152 × 29,3 = 4 454. Se a alternativa escolhida der um produto diferente, ela está errada. E, nas questões conceituais, a frase completa é: o raio-vetor varre áreas iguais em tempos iguais — nem "distâncias iguais", nem "ângulos iguais", nem "velocidade constante".
Resumo em cinco peças

- 2ª lei de Kepler: o segmento que liga o Sol ao planeta varre áreas iguais em tempos iguais. Constante é a área por tempo — não a velocidade.
- Perto do Sol, rápido; longe, devagar. A velocidade é máxima no periélio e mínima no afélio; cresce na aproximação, cai no afastamento.
- Nos dois extremos, rp × vp = ra × va: a velocidade cai na mesma proporção em que a distância cresce.
- O cometa de Halley: 0,59 UA e 54 km/s no periélio; 35,1 UA e 0,9 km/s no afélio — 59 vezes mais longe, 59 vezes mais devagar; 75 anos de volta, dois meses e meio dentro da órbita da Terra.
- Halley marcou o ano da volta em 1705 e o cometa voltou em 1758: a prova de que as leis de Kepler valem para tudo que orbita, não só para os planetas.
Se for guardar uma frase só, guarde a do caso: a elipse tem um relógio dentro, e o relógio é a área varrida. Mas ele marca só o ritmo de cada volta, não a duração dela. Plutão leva 248 anos para dar uma volta; Mercúrio, 88 dias. Uma conta só liga os dois — e a mesma conta devolve os trinta e dois minutos que uma sonda tirou de um asteroide. É o capítulo 3.
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