Mecânica IIISumário
Ilustração de abertura do capítulo 3: A conta que liga Plutão a Mercúrio

Capítulo 3A conta que liga Plutão a Mercúrio

A 3ª lei de Kepler

De pé no gelo de Plutão, o Sol é uma estrela um pouco mais brilhante. Uma volta leva duzentos e quarenta e oito anos; em Mercúrio, oitenta e oito dias. Entre os dois há uma conta só — e ela também mediu os trinta e dois minutos que uma sonda tirou de um asteroide.

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Este capítulo acompanha o episódio 3 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

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O caso: duzentos e quarenta e oito anos e oitenta e oito dias

Imagine estar de pé na superfície gelada de Plutão. O céu é negro mesmo de dia, e o Sol é só uma estrela um pouco mais brilhante que as outras: está quarenta vezes mais longe do que da Terra. Dali, uma volta completa em torno dele leva 247,94 anos — Plutão foi descoberto em 1930 e ainda não completou uma volta desde então. Plutão, que desde 2006 os astrônomos chamam de planeta anão, obedece às mesmas leis que qualquer outro corpo em órbita do Sol; a lei que vem neste capítulo não pergunta o nome do corpo, só quem está no centro.

Agora vá ao outro extremo. Mercúrio, o mais próximo do Sol, dá a volta em 87,97 dias: em um ano da Terra, ele completa mais de quatro. Mercúrio está a 0,387 UA do Sol; Plutão, a 39,48 UA — cem vezes mais longe. E leva, em dias, mil vezes mais tempo: 248 anos são mais de 90 000 dias, e 248 × 365 ÷ 88 = 1 029. Cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo. Não é coincidência, e não vale só para esses dois.

Uma vista esquemática: o Sol no centro, a órbita pequena de Mercúrio em volta dele e a órbita grande de Plutão, com o desenho fora de escala. Em Mercúrio, a cota: 0,387 UA, 88 dias. Em Plutão, a cota: 39,5 UA, 248 anos. Um cartão diz: fora de escala, em escala a órbita de Mercúrio caberia num ponto de meio milímetro; cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo.
Figura 3.1 — Os dois relógios. Mercúrio dá a volta em 88 dias a 0,387 UA; Plutão, em 248 anos a 39,5 UA. O desenho é fora de escala: em escala, a órbita de Mercúrio caberia num ponto de meio milímetro.

Kepler encontrou a regra que liga os dois em 1618, quase dez anos depois das duas primeiras leis, e a publicou em 1619 — a 3ª lei. Ela vale para os oito planetas, para Plutão, para as luas de Júpiter, para um satélite em volta da Terra e para uma pedra de 160 metros que gira em torno de outra pedra a onze milhões de quilômetros daqui. Em setembro de 2022, uma sonda bateu de propósito nessa pedra e a órbita dela encolheu 3%. O período caiu trinta e dois minutos, e a conta de Kepler, feita quatrocentos anos antes, disse exatamente quantos. É o assunto deste capítulo.

O que a 2ª lei não diz

O capítulo 2 terminou com um relógio dentro da elipse: o segmento Sol–planeta varre áreas iguais em tempos iguais, e por isso o planeta anda depressa perto do Sol e devagar longe dele. Esse relógio marca o ritmo de cada volta — mas não diz quanto tempo a volta inteira leva. Por que a Terra leva um ano, Júpiter doze e Plutão duzentos e quarenta e oito? A 2ª lei não responde; ela só diz como a velocidade varia dentro de uma órbita já dada.

Kepler tinha os dados. Para os seis planetas conhecidos no tempo dele, de Mercúrio a Saturno, sabia o período de cada um (basta contar quanto tempo o planeta leva para voltar à mesma posição entre as estrelas) e a distância média ao Sol em relação à da Terra (a unidade astronômica, UA, do capítulo 2). Ordenando os planetas pela distância, o período cresce junto: mais longe, mais tempo. Mas não na mesma proporção — Saturno está 9,6 vezes mais longe que a Terra e leva 29,5 anos, não 9,6. Kepler passou anos procurando a proporção certa, e a achou em 1618.

Nove corpos numa fileira, do mais próximo ao mais distante do Sol, cada um com um disco de tamanho diferente. Acima de cada um, a distância média ao Sol em UA: 0,39; 0,72; 1,00; 1,52; 5,2; 9,6; 19,2; 30,1; 39,5. Abaixo, o período: 88 dias; 225 dias; 1 ano; 1,9 ano; 11,9 anos; 29,5 anos; 84 anos; 165 anos; 248 anos. Um cartão diz: mais longe, mais tempo, mas não na mesma proporção: Saturno está 9,6 vezes mais longe que a Terra e leva 29,5 anos, não 9,6; Plutão é planeta anão.
Figura 3.2 — Os oito planetas e Plutão, ordenados pela distância ao Sol, com a distância média (UA) e o período. O período cresce mais depressa que a distância: Saturno, 9,6 vezes mais longe que a Terra, leva 29,5 anos. Os discos não estão em escala.

Atenção

Mais longe, mais tempo — e mais devagar

Um distrator clássico diz que o planeta mais distante anda mais rápido, "porque tem mais caminho a percorrer no mesmo tempo". É o contrário duas vezes: o planeta distante tem mais caminho e leva mais tempo, tanto mais tempo que a velocidade dele acaba menor. Netuno, a 30 UA, anda a 5,4 km/s; Mercúrio, a 0,39 UA, a quase 48 km/s. A 3ª lei vai dizer exatamente quanto o período cresce com a distância — e ele cresce mais depressa do que ela.

A 3ª lei de Kepler: T² ÷ a³ é o mesmo para todos

A proporção que Kepler achou não é entre o período e a distância, mas entre o quadrado de um e o cubo da outra. Chame de T o período da órbita (o tempo de uma volta) e de a o semieixo maior da elipse (para as órbitas quase circulares dos planetas, é a distância média ao Sol). A 3ª lei diz: o quociente T² ÷ a³ tem o mesmo valor para todos os corpos que orbitam o mesmo centro. Mercúrio, a Terra, Júpiter e Plutão têm períodos e distâncias completamente diferentes, mas, para os quatro, T² dividido por a³ dá o mesmo número.

Quatro pares de barras lado a lado, cada par com o nome de um corpo: Mercúrio, Terra, Júpiter, Plutão. Em cada par, a barra da esquerda é T ao quadrado e a da direita é a ao cubo, e as duas têm a mesma altura. Os valores escritos em cima: 0,058 e 0,058; 1 e 1; 141 e 141; 61 500 e 61 600. Um cartão diz: cada par tem a própria escala; nos quatro, as duas barras têm a mesma altura: T ao quadrado igual a a ao cubo, em anos e UA.
Figura 3.3 — Quatro pares, quatro igualdades. Com o período em anos e a distância em UA, T² e a³ dão o mesmo número para Mercúrio (0,058), para a Terra (1), para Júpiter (141) e para Plutão (61 500 contra 61 600, menos de 1% de diferença). Cada par de barras tem a própria escala.

O que a lei afirma é forte. A distância de Plutão ao Sol é cem vezes a de Mercúrio; o período é mil vezes maior. Se você eleva a distância ao cubo, cem vezes vira um milhão de vezes; se eleva o período ao quadrado, mil vezes vira um milhão de vezes. As duas contas crescem juntas: por isso o quociente não muda. Kepler não sabia por que era assim — a causa é a gravitação, e o capítulo 6 vai deduzir a lei inteira a partir de Newton. Mas ele viu, nos números, que a regra fechava para todos os planetas de uma vez.

Definição

3ª lei de Kepler (lei dos períodos)

Atenção

"Mesmo centro" é a condição inteira

A lei compara órbitas em torno do mesmo corpo central. Os planetas em torno do Sol têm uma constante; as luas de Júpiter em torno de Júpiter têm outra; os satélites em torno da Terra, uma terceira. Comparar o período da Lua com o de Marte pela 3ª lei não faz sentido: a Lua orbita a Terra, Marte orbita o Sol. Antes de qualquer conta, declare o centro — é a regra desta série desde o capítulo 1.

Em anos e UA, para o Sol: T² = a³

Se a constante é a mesma para todos os corpos que orbitam o Sol, basta calculá-la para um deles — e a Terra é o mais cômodo. O período da Terra é 1 ano; a distância média ao Sol é 1 UA, por definição. Logo T² ÷ a³ = 1 ÷ 1 = 1. Como o quociente é o mesmo para todos, para qualquer corpo em órbita do Sol, com T em anos e a em UA, T² = a³. A Terra funciona como a régua: mede-se o resto com ela.

Um gráfico com a distância ao Sol em UA no eixo horizontal, de 0 a 10, e o período em anos no vertical, de 0 a 30. Uma curva sobe cada vez mais inclinada, T igual a raiz de a ao cubo, passando por Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno, cada um marcado por um ponto. A Terra, em 1 UA e 1 ano, tem o rótulo: a régua. Uma reta tracejada, T igual a a, mostra o que seria a proporção simples, e a curva se afasta dela para cima. Um cartão diz: em anos e UA, T ao quadrado igual a a ao cubo; a curva cresce mais depressa que a reta.
Figura 3.4 — A 3ª lei em gráfico, para o Sol: T = √(a³), com T em anos e a em UA. Os seis planetas que Kepler conhecia caem sobre a curva. A reta tracejada é o que seria 'período proporcional à distância' — e nenhum planeta está sobre ela.

A conta fica curta com essa escolha de unidades. Júpiter está a 5,2 UA: a³ = 5,2 × 5,2 × 5,2 = 141, e T = √141 = 11,9 anos — o valor medido é 11,86. Saturno, a 9,6 UA: a³ = 885, T = √885 = 29,7 anos, contra 29,5 medidos. Ao contrário: Urano leva 84 anos, então a³ = 84² = 7 056 e a = 19,2 UA. Uma régua, uma conta, todo o sistema solar.

Definição

A versão da prova

Atenção

T² = a³ só nesse par de unidades, só para o Sol

"T² = a³" não é a 3ª lei — é a 3ª lei com a constante igual a 1, e a constante só vale 1 porque as unidades foram escolhidas pela Terra. Com o período em dias, a Terra dá T² = 133 000 e a³ = 1: a igualdade some (o quociente continua igual para todos, só que vale 133 000). Com a Terra no centro, a constante é outra, e a Lua não obedece a T² = a³ em ano e UA. Nas questões, pergunte sempre duas coisas: qual é o centro, e em que unidades.

Cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo

O jeito mais útil de usar a lei numa prova é comparar duas órbitas em torno do mesmo centro, sem precisar da constante. Se T1² ÷ a1³ = T2² ÷ a2³, então (T2 ÷ T1)² = (a2 ÷ a1)³. Ou seja: a razão entre os períodos, ao quadrado, é a razão entre as distâncias, ao cubo. Tirando a raiz quadrada: T2 ÷ T1 = (a2 ÷ a1) elevado a 1,5. O expoente 1,5 é a assinatura da lei: o período cresce com a distância elevada a um e meio.

Três linhas, cada uma com uma seta de uma caixa para outra. Na primeira, distância vezes 2 leva a tempo vezes 2,8. Na segunda, distância vezes 4 leva a tempo vezes 8. Na terceira, distância vezes 100 leva a tempo vezes 1 000. Acima, a fórmula: T2 sobre T1 igual a a2 sobre a1, elevado a 1,5. Um cartão diz: a tabela de preços do universo: o tempo de uma volta custa a distância elevada a um e meio; a mesma tabela para tudo que orbita o mesmo centro.
Figura 3.5 — A tabela de preços. Dobrar a distância custa 2,8 vezes o tempo (√8); quadruplicar custa 8 vezes; cem vezes mais longe custa mil vezes mais tempo. A tabela é a mesma para tudo que orbita o mesmo centro.

É a tabela de preços do universo: o tempo de uma volta custa a distância elevada a um e meio, e a tabela é a mesma para tudo que orbita o mesmo centro. Os três preços que mais aparecem na prova estão na tabela abaixo. Plutão e Mercúrio são a última linha: 39,5 ÷ 0,387 = 102 vezes mais longe, e 102 elevado a 1,5 dá 1 030 — o valor medido, 248 anos contra 88 dias, é 1 029 vezes. Cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo: 100 elevado a 1,5 é 1 000, porque 100³ = 1 000 000 = 1 000².

distânciaperíodoa conta
a × 2T × 2,82 elevado a 1,5 = √8
a × 4T × 84 elevado a 1,5 = √64
a × 100T × 1 000100 elevado a 1,5 = √1 000 000

Dica ENEM

Dica ENEM: "se a distância dobra, o período fica 2,8 vezes maior"

É a pergunta mais recorrente da gravitação. Dobrar a distância não dobra o período: (T2 ÷ T1)² = 2³ = 8, e T2 ÷ T1 = √8 ≈ 2,8. Quadruplicar a distância dá 4³ = 64, √64 = 8 vezes o período. Guarde os dois números, 2,8 e 8, e o caminho: eleva a razão das distâncias ao cubo, tira a raiz quadrada. O distrator "dobra o período" está sempre entre as alternativas.

A lei vale para luas e satélites, com outra constante

Kepler escreveu a lei para os planetas em torno do Sol, mas ela vale para qualquer conjunto de corpos em torno do mesmo centro — com a constante daquele centro. Tome a Terra como centro e dois corpos que a orbitam: a Estação Espacial Internacional, a 400 km de altura (no livro da Mecânica I, ela é a pedra que cai e erra o chão, a 7,7 km/s), e a Lua. A estação está a 6 800 km do centro da Terra (6 400 km de raio mais 400 km de altura) e dá uma volta a cada 93 minutos; a Lua está a 384 000 km e leva 27,3 dias, cerca de 39 300 minutos.

A Terra no centro, com a órbita da estação espacial desenhada bem perto dela e a órbita da Lua muito maior, em volta. Cotas: estação, 6 800 km do centro, 93 min; Lua, 384 000 km, 27,3 dias. Um cartão diz: fora de escala: a estação voa a 6% de um raio acima do chão, e a Lua está a 60 raios; a razão das distâncias ao cubo, 180 000, bate com a razão dos períodos ao quadrado, 179 000, com 1% de diferença.
Figura 3.6 — A 3ª lei com a Terra no centro. A estação, a 6 800 km do centro, leva 93 minutos; a Lua, a 384 000 km, leva 27,3 dias. (384 000 ÷ 6 800)³ = 180 000 e (39 300 ÷ 93)² = 179 000: a lei fecha com 1%. O desenho é fora de escala.

Faça a conferência: (384 000 ÷ 6 800)³ = 56,5³ = 180 000; (39 300 ÷ 93)² = 423² = 179 000. A razão das distâncias ao cubo bate com a razão dos períodos ao quadrado, com 1% de diferença — a lei fecha para a Lua e para a estação exatamente como fecha para Plutão e Mercúrio. Só que a constante T² ÷ a³ aqui é outra: com a Terra no centro, em ano e UA, ela não vale 1. A Lua está a 0,00257 UA e leva 0,0748 ano; T² = 0,0056 e a³ = 0,000 000 017 — nem parecidos. A lei não quebrou; o centro é que é outro.

Dica ENEM

Dica ENEM: satélites em raios diferentes

Questões dão dois satélites da Terra em órbitas de raios diferentes e perguntam a razão dos períodos, ou dão o período de um e pedem o do outro. É a mesma tabela de preços: T2 ÷ T1 = (r2 ÷ r1) elevado a 1,5, com os raios medidos do centro da Terra, não do chão — some o raio da Terra à altitude. A massa dos satélites não entra: dois satélites no mesmo raio têm o mesmo período, pesem o que pesarem. Um satélite a 42 200 km do centro (6,2 vezes o raio da estação) leva 6,2 elevado a 1,5 = 15,4 vezes os 93 minutos: cerca de 24 horas — é o geoestacionário do capítulo 7.

Os trinta e dois minutos que a sonda tirou do asteroide

O livro da Mecânica II terminou com uma sonda de 580 kg batendo, a seis quilômetros por segundo, num asteroide de 160 metros chamado Dimorphos — a lua de um asteroide maior, Didymos, a onze milhões de quilômetros da Terra. Foi em 26 de setembro de 2022, e o objetivo era testar se a humanidade consegue desviar uma pedra que venha na nossa direção. O empurrão mudou a velocidade de Dimorphos em poucos milímetros por segundo. E, mesmo assim, o período da órbita dele em torno de Didymos caiu de 11 h 55 min para 11 h 22 min. Aquele livro fechou com uma promessa: quem transformou um empurrão minúsculo em meia hora de órbita foi a gravidade. A conta é a 3ª lei.

Um asteroide grande no centro, Didymos, e duas órbitas circulares quase sobrepostas em volta dele: a de antes, tracejada, um pouco maior, e a de depois, cheia, um pouco menor, com o asteroide pequeno, Dimorphos, sobre ela. Uma seta chega de fora e bate em Dimorphos: a sonda. Cotas: antes, 1 189 m, 11 h 55 min; depois, 1 152 m, 11 h 22 min. Um cartão diz: os dois círculos estão na proporção real, a órbita encolheu 3%, e o período caiu 4,6%, trinta e dois minutos.
Figura 3.7 — O empurrão da sonda encolheu a órbita de Dimorphos em torno de Didymos de 1 189 m para 1 152 m — 3% — e o período caiu de 11 h 55 min para 11 h 22 min — 4,6%. As duas órbitas estão desenhadas na proporção real; por isso quase se sobrepõem.

Antes do impacto, Dimorphos girava a uma distância média de 1 189 m do centro de Didymos; depois, a 1 152 m — a órbita encolheu 3,1%. O centro é o mesmo, Didymos, então a razão dos períodos é a razão das distâncias elevada a 1,5: (1 152 ÷ 1 189) elevado a 1,5 = 0,969 elevado a 1,5 = 0,954. O período antigo era 11 h 55 min = 715 min; o novo, 715 × 0,954 = 682 min = 11 h 22 min. A conta de Kepler devolve o número que os telescópios mediram: uma órbita 3% menor tem um período 4,6% menor, e 4,6% de doze horas são os trinta e dois minutos do caso. Ninguém precisou saber a massa de Didymos: na razão entre as duas órbitas, a constante do centro se cancela.

Definição

A 3ª lei no asteroide

E de onde vem a constante? Por que ela é uma para o Sol, outra para a Terra, outra para Didymos? Kepler não tinha como saber; ele mediu a lei, não a explicou — como fez com a elipse e com as áreas. A resposta é de Newton: a constante é fixada pela massa do corpo central, e a 3ª lei inteira, com a constante escrita por extenso, sai da lei da gravitação em três linhas. É o capítulo 6. Antes dele, o capítulo 4 mostra a lei que Newton escreveu — e a maçã e a Lua caindo pela mesma conta.

Dica ENEM

Dica ENEM: o que entra e o que não entra na 3ª lei

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números e o resultado com a unidade. Neste capítulo o centro é declarado antes de cada conta. Os valores são os da série: Mercúrio com 88 dias e 0,387 UA; Plutão com 248 anos e 39,5 UA; o DART com 1 189 m e 1 152 m, 11 h 55 min; a estação espacial a 6 800 km do centro da Terra, 93 min.

Uma reta horizontal fora de escala com o Sol na ponta esquerda e três corpos marcados: Mercúrio, 0,387 UA e 0,241 ano; a Terra, 1 UA e 1 ano; Plutão, 39,5 UA e 248 anos. Abaixo, duas caixas com as contas: 0,241 ao quadrado igual a 0,058 igual a 0,387 ao cubo; 248 ao quadrado igual a 61 500, próximo de 39,5 ao cubo igual a 61 600. Um aviso: fora de escala, as cotas são as reais.
Figura 3.8 — Os números dos Exemplos 1, 2 e 3. A reta é fora de escala; as cotas são as reais. Para os três corpos, o quadrado do período em anos é o cubo da distância em UA.

Exemplo 1 — Mercúrio: T² = a³ fecha?

Centro: o Sol. Mercúrio dá a volta em 88 dias e está a 0,387 UA. Confira a 3ª lei em anos e UA.

Fórmula. T² = a³ (anos e UA, centro no Sol)

Substituição. T = 88 ÷ 365 = 0,241 ano ; T² = 0,241 × 0,241 = 0,058 ; a³ = 0,387 × 0,387 × 0,387 = 0,058

Resultado. T² = a³ = 0,058 — iguais

Conferência. dois números pequenos e iguais. O período de Mercúrio é menos de um quarto do ano da Terra, e a distância é pouco mais de um terço da nossa; a lei diz que 0,241² tem de dar o mesmo que 0,387³, e dá. Se a substituição fosse feita com T em dias, sairia 88² = 7 744, e a igualdade sumiria — a unidade faz parte da fórmula.

Exemplo 2 — Plutão: iguais de novo, a menos de 1%

Centro: o Sol. Plutão leva 248 anos e está a 39,5 UA. Confira a lei.

Fórmula. T² = a³ (anos e UA, centro no Sol)

Substituição. T² = 248 × 248 = 61 504 ≈ 61 500 ; a³ = 39,5 × 39,5 × 39,5 = 61 630 ≈ 61 600

Resultado. T² ≈ a³ ≈ 61 500 — iguais, a menos de 1%

Conferência. a diferença de 0,2% vem do arredondamento dos dados (247,94 anos e 39,48 UA fecham ainda melhor). O mesmo quociente T² ÷ a³ = 1 que serviu para Mercúrio serve para Plutão, a cem vezes a distância. Plutão é planeta anão desde 2006; a lei não notou, porque não pergunta o nome, só o centro.

Exemplo 3 — Cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo

Centro: o Sol. Com as distâncias de Plutão (39,5 UA) e de Mercúrio (0,387 UA), obtenha a razão entre os períodos e compare com a medida (248 anos contra 88 dias).

Fórmula. T2 ÷ T1 = (a2 ÷ a1) elevado a 1,5

Substituição. a2 ÷ a1 = 39,5 ÷ 0,387 = 102 ; (102) elevado a 1,5 = 102 × √102 = 102 × 10,1 = 1 030

Resultado. T2 ÷ T1 ≈ 1 030 ; medido: 248 × 365 ÷ 88 = 1 029

Conferência. elevar a 1,5 é multiplicar pela própria raiz quadrada: 102 × √102. O número redondo do caso, 100, dá 100 × √100 = 100 × 10 = 1 000: cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo. A medida (1 029) e a lei (1 030) diferem em 0,1%.

Exemplo 4 — Os trinta e dois minutos do DART

Centro: Didymos. A órbita de Dimorphos encolheu de 1 189 m para 1 152 m. O período era 11 h 55 min. Qual passou a ser?

Fórmula. T2 ÷ T1 = (a2 ÷ a1) elevado a 1,5

Substituição. a2 ÷ a1 = 1 152 ÷ 1 189 = 0,969 ; 0,969 elevado a 1,5 = 0,954 ; T2 = 715 min × 0,954

Resultado. T2 ≈ 682 min = 11 h 22 min — trinta e três minutos a menos que os 715 min de antes

Conferência. elevar a 1,5 é multiplicar pela própria raiz quadrada, 0,969 × √0,969 = 0,969 × 0,9844 = 0,954. Os 33 minutos: a medição refinada deu 11 h 22 min 03 s, e a série usa "trinta e dois minutos", o número da primeira medição. Uma órbita 3,1% menor produziu um período 4,6% menor — o expoente 1,5 amplia a variação em uma vez e meia. A massa de Didymos não entrou: na razão entre duas órbitas do mesmo centro, a constante se cancela.

Exemplo 5 — O satélite que dá uma volta por dia

Centro: a Terra. A estação espacial, a 6 800 km do centro da Terra, leva 93 minutos por volta. Que período tem um satélite a 42 200 km do centro?

Fórmula. T2 ÷ T1 = (r2 ÷ r1) elevado a 1,5

Substituição. r2 ÷ r1 = 42 200 ÷ 6 800 = 6,2 ; 6,2 elevado a 1,5 = 6,2 × √6,2 = 6,2 × 2,49 = 15,4 ; T2 = 93 min × 15,4

Resultado. T2 ≈ 1 430 min ≈ 24 horas

Conferência. 1 430 minutos são 23,9 horas — o satélite dá uma volta por dia, acompanhando a rotação da Terra: é o geoestacionário, o ponto parado no céu do capítulo 7. A conta foi feita sem a constante da Terra: só a razão dos raios, medidos do centro. Se alguém usasse as altitudes (400 km e 35 800 km) em vez dos raios, a razão daria 90 e o período sairia errado por muito.

Radar ENEM

A 3ª lei é o item de gravitação mais recorrente do ENEM, e aparece de três formas. A conceitual: "o quadrado do período é proporcional ao cubo do raio médio da órbita", com distratores que trocam o quadrado pelo cubo, tiram o "mesmo centro" ou põem a massa do satélite na lei. A numérica direta, quase sempre em anos e UA: dada a distância, o período (ou o inverso). E a razão entre órbitas: dois satélites, dois planetas, uma órbita que encolheu — "se a distância dobra, o período fica quantas vezes maior?" (2,8); "um satélite quatro vezes mais longe leva quantas vezes mais tempo?" (8).

Um Sol pequeno com duas órbitas em volta, uma perto e outra longe. Ao lado, um cartão correto: T ao quadrado sobre a ao cubo é o mesmo para o mesmo centro; para o Sol, em anos e UA, T ao quadrado igual a a ao cubo; distância vezes 2, período vezes 2,8. Riscado com um X, o cartão errado: o período é proporcional à distância; T ao quadrado igual a a ao cubo vale para qualquer centro; o corpo mais pesado demora mais. Abaixo: o período depende da distância e do centro, não da massa do que orbita.
Figura 3.9 — Os três distratores favoritos: 'período proporcional à distância' (é a distância elevada a 1,5), 'T² = a³ para qualquer centro' (só para o Sol, em anos e UA) e 'o mais pesado demora mais' (a massa do que orbita não entra).

Veja a versão que mais aparece: a prova dá uma tabela com os planetas, as distâncias em UA e os períodos em anos, e pergunta qual relação os dados obedecem — a resposta é T² proporcional a a³, e a conferência mais rápida é a Terra (1 e 1) contra Júpiter (5,2 e 11,9: 5,2³ = 141 = 11,9²). Outra versão dá um satélite artificial e pede o período de um segundo satélite num raio maior; a armadilha é usar a altitude no lugar do raio, ou multiplicar o período pela razão dos raios sem o expoente 1,5.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Uma conferência rápida resolve as questões de conta: elevar a razão das distâncias ao cubo tem de dar a razão dos períodos ao quadrado. Para Plutão e Mercúrio, 102³ = 1 060 000 e 1 029² = 1 060 000; para o DART, 0,969³ = 0,910 e 0,954² = 0,910. Se a alternativa escolhida não fechar essa conta, ela está errada. E, nas questões conceituais, a frase completa é: o quadrado do período é proporcional ao cubo do semieixo maior, para corpos que orbitam o mesmo centro — nem "proporcional à distância", nem "à massa", nem "para qualquer centro".

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a 3ª lei, T ao quadrado sobre a ao cubo constante para o mesmo centro; para o Sol, em anos e UA, T ao quadrado igual a a ao cubo; cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo; órbita menor, período menor, o DART em 32 minutos; a constante depende do centro, e de onde ela vem é o capítulo 6.
Figura 3.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. 3ª lei de Kepler: T² ÷ a³ é constante para todos os corpos que orbitam o mesmo centro — T é o período, a é o semieixo maior.
  2. Para o Sol, com T em anos e a em UA: T² = a³. A régua é a Terra (1 ano, 1 UA); só nesse par de unidades, só para esse centro.
  3. Cem vezes mais longe, mil vezes mais tempo: T2 ÷ T1 = (a2 ÷ a1) elevado a 1,5. Dobrar a distância custa 2,8 vezes o período; quadruplicar, 8 vezes.
  4. Órbita menor, período menor: o DART encolheu a órbita de Dimorphos em 3% e o período caiu 4,6% — de 11 h 55 min para 11 h 22 min, os trinta e dois minutos. A conta de Kepler mediu o sucesso da missão.
  5. A constante depende do centro — uma para o Sol, outra para a Terra, outra para Didymos — e não da massa do que orbita. De onde ela vem é o capítulo 6.

Se for guardar uma frase só, guarde a do caso: Plutão e Mercúrio estão presos pela mesma conta, e a mesma conta devolveu os trinta e dois minutos que uma sonda tirou de um asteroide. Kepler mediu as três leis sem saber a causa. A causa começa com uma maçã caindo num pomar da Inglaterra e alguém perguntando se a mesma força que a puxou segura a Lua no céu. A conta fecha — por sessenta ao quadrado. É o capítulo 4.

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