Mecânica IIISumário
Ilustração de abertura do capítulo 4: A maçã e a Lua caem pela mesma conta

Capítulo 4A maçã e a Lua caem pela mesma conta

A lei da gravitação universal

Uma maçã se solta do galho e cai — sempre para baixo, sempre reto. Em 1666 alguém perguntou se a mesma coisa que puxa a maçã puxa a Lua, sessenta vezes mais longe. Sessenta ao quadrado é três mil e seiscentos. A conta fechou — e, mais de um século depois, um homem pesou a Terra numa sala fechada.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 4

Este capítulo acompanha o episódio 4 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 4 no YouTube

professorcanario.com.br/m3/c4/video

O caso: uma maçã, a Lua e sessenta ao quadrado

Uma maçã se solta do galho e cai. Sempre para baixo, sempre reto, sempre com a mesma aceleração — o livro da Mecânica I mediu essa queda com uma pena e um martelo: 10 m/s², número redondo, e 9,8 quando a conta pede o valor medido. Por volta de 1666, num pomar de Woolsthorpe, na Inglaterra, um jovem de vinte e poucos anos viu uma maçã cair e fez uma pergunta que ninguém tinha feito daquele jeito: e se a mesma coisa que puxa a maçã puxar a Lua? A história é dele mesmo — Newton a contou a um amigo, William Stukeley, em 1726, sessenta anos depois. E a maçã não caiu na cabeça dele: essa parte é lenda. O que existiu foi a pergunta, e a conta que veio atrás.

Uma maçã pendurada num galho, à esquerda, com uma seta azul apontando para baixo: 10 m/s². À direita, bem longe, a Lua, com uma seta azul muito menor apontando para a Terra, no pé da figura. Uma cota entre as duas diz: a Lua está 60 vezes mais longe do centro da Terra do que a maçã. Um cartão diz: se a força cai com o quadrado da distância, a Lua cai com um três mil e seiscentos avos da aceleração da maçã; a medida da órbita dá exatamente isso.
Figura 4.1 — A pergunta de 1666. A maçã cai com 10 m/s²; a Lua está sessenta vezes mais longe do centro da Terra. Sessenta ao quadrado é 3 600 — e a Lua, medida pela própria órbita, cai com um 3 600 avos da aceleração da maçã. O desenho é fora de escala.

A conta é curta. A Lua está a 60 raios terrestres do centro da Terra. Se a força que puxa cai com o quadrado da distância, lá na Lua ela é 60 × 60 = 3 600 vezes mais fraca, por quilo, do que aqui no chão — e a Lua deve "cair" com 10 ÷ 3 600, quase 3 milésimos de metro por segundo ao quadrado (com o valor medido de g, 9,8, são 2,7 milésimos). Newton sabia a distância da Lua e o tempo que ela leva para dar a volta, 27,3 dias; disso sai, pela conta do movimento circular, quanto a Lua se desvia da linha reta a cada segundo. Deu 2,7 milésimos. A conta fechou por sessenta ao quadrado, e a força que segura a Lua no céu passou a ter o mesmo nome da força que derruba a maçã. Newton publicou tudo em 1687, no livro que os físicos chamam só de Principia.

Faltava uma coisa: o número. A lei diz que a força depende de uma constante, G, e Newton nunca a mediu. Mais de um século depois, em 1797 e 1798, Henry Cavendish pendurou duas bolinhas de chumbo num fio dentro de uma sala fechada, aproximou delas duas bolas grandes e mediu, pelo giro do fio, a atração entre os pedaços de chumbo. Com isso ele "pesou a Terra": achou a massa do planeta, 6 × 1024 kg, sem sair da sala. Este capítulo faz as duas contas — a de Newton e a de Cavendish — e a de um terceiro: quanto duas pessoas sentadas lado a lado se atraem.

A constante de Kepler tem dono

O capítulo 3 terminou com uma pergunta aberta: por que a constante da 3ª lei, T² ÷ a³, é uma para tudo que orbita o Sol, outra para tudo que orbita a Terra, outra para o que orbita Didymos? Kepler mediu que a constante muda com o centro, mas não sabia o que, no centro, a fixa. A resposta é a massa do corpo central: quanto mais massa no centro, menor a constante, e mais depressa se orbita a uma dada distância. Isso já diz o essencial da lei deste capítulo — a força que prende um corpo ao centro vem da massa do centro.

Três cartões lado a lado, cada um com um centro e a constante T ao quadrado sobre a ao cubo: o Sol, constante pequena; a Terra, constante muito maior; um asteroide, constante enorme. Abaixo, uma seta une os três a uma frase: o que muda entre os centros é a massa. Um cartão diz: Kepler mediu que a constante depende do centro; Newton explicou por quê: a força vem da massa, e vale para o Sol, para a Terra e para a maçã.
Figura 4.2 — A constante de Kepler tem dono: a massa do centro. Quanto mais massa, menor T² ÷ a³, e mais depressa se orbita a uma mesma distância. Foi por aí que Newton chegou à força — e à pergunta sobre a maçã.

O passo de Newton foi juntar duas coisas que pareciam de mundos diferentes. No chão, corpos caem: a maçã, a pedra, a pena e o martelo no vácuo, todos com a mesma aceleração g — o livro da Mecânica I mostrou que g é uma aceleração, 10 m/s² no chão, e que o peso é m × g. No céu, a Lua dá voltas na Terra, e os planetas dão voltas no Sol, obedecendo às três regras de Kepler. Newton perguntou se o céu e o chão obedecem a uma regra só: se a Lua está, ela também, caindo — e se a força que a faz cair é a mesma que faz cair a maçã, só que mais fraca, por estar mais longe. A lei que responde a isso vale para a maçã, para a Lua, para os planetas e para duas pessoas numa sala: por isso se chama universal.

Atenção

Kepler mediu a forma; Newton explicou a causa

Não foi Newton quem descobriu que as órbitas são elipses, nem foi Kepler quem descobriu a gravidade. Kepler, com os dados de Tycho, mediu como os planetas se movem: elipse, áreas iguais, T² ÷ a³. Newton, oitenta anos depois, explicou por quê: uma força vinda do centro, que cai com o quadrado da distância, produz exatamente aquelas três regras. Uma lei de Kepler é uma descrição; a lei de Newton é a causa. Nas questões, os dois nomes aparecem trocados de propósito.

A lei da gravitação universal: F = G × M × m ÷ r²

A lei diz o seguinte: dois corpos quaisquer se atraem com uma força que aponta ao longo da reta que une os seus centros, é proporcional ao produto das duas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre os centros. Em símbolos, com M e m as duas massas e r a distância entre os centros:

F = G × M × m ÷ r²

Duas esferas numa linha horizontal: a grande, à esquerda, com a massa M; a pequena, à direita, com a massa m. Uma cota entre os centros: r. Sobre cada esfera, uma seta azul apontando para a outra, as duas do mesmo tamanho: F. Acima, a fórmula F igual a G vezes M vezes m sobre r ao quadrado. Um cartão diz: a força está na reta que une os centros, é a mesma nos dois corpos e r é medido de centro a centro.
Figura 4.3 — A lei em desenho. As duas forças estão na reta que une os centros, têm o mesmo tamanho e apontam uma para a outra: cada corpo puxa o outro. A distância r vai de centro a centro — para a maçã no chão, r é o raio da Terra, não a altura da maçã.

A constante G é a constante da gravitação universal: G = 6,67 × 10−11 N·m²/kg². É um número minúsculo, e é o mesmo em todo o universo — para a Terra, para o Sol, para Didymos e para duas pessoas. A força é um vetor: tem direção (a reta entre os centros) e sentido (cada corpo é puxado para o outro). E r é a distância entre os centros: para um corpo na superfície da Terra, r é o raio da Terra, 6,4 × 106 m, porque a Terra puxa como se toda a massa dela estivesse no centro — Newton provou isso para uma esfera, e o resultado é o que permite usar "a distância ao centro" em toda a série.

Definição

Lei da gravitação universal

Atenção

G não é g

São duas letras parecidas para duas coisas diferentes. G é uma constante universal, 6,67 × 10−11 N·m²/kg², a mesma em qualquer lugar e para qualquer corpo — Cavendish a mediu numa sala. g é uma aceleração, 10 m/s² no chão da Terra, e muda com o lugar: é menor no alto de uma montanha, menor na Lua, maior em Júpiter, porque g = G × M ÷ r² depende da massa do corpo central e da distância ao centro dele. G fixa a lei; g é o que a lei devolve num lugar específico. Trocar um pelo outro é o erro mais comum do capítulo.

Faça a conta para uma maçã de 0,1 kg no chão: F = 6,67 × 10−11 × 6,0 × 1024 × 0,1 ÷ (6,4 × 106)² = 4,0 × 1013 ÷ 4,1 × 1013 ≈ 1 N. É o peso da maçã, m × g = 0,1 × 10 = 1 N. A lei da gravitação não é uma força nova ao lado do peso: ela é o peso. Pela primeira vez o peso ganha uma fórmula que diz de onde ele vem — da massa da Terra e do raio da Terra — e não só quanto vale.

O quadrado da distância

A parte da lei que decide tudo no resto da série é o r² no denominador. A força não cai em proporção à distância: cai com o quadrado dela. Dobre a distância entre os centros, e a força cai a um quarto; triplique, e cai a um nono; multiplique por sessenta, e cai a um 3 600 avos. É por isso que a Lua, a 60 raios, sente por quilo uma força 3 600 vezes menor que a maçã — e não 60 vezes menor.

Três barras verticais, da esquerda para a direita, cada uma sobre um rótulo de distância: r, 2r, 3r. A primeira barra tem a altura cheia, F; a segunda, um quarto; a terceira, um nono. Ao lado, uma quarta barra quase invisível sobre o rótulo 60r, com o valor F sobre 3 600. Um cartão diz: a força cai com o quadrado da distância; dobrou a distância, a força caiu a um quarto; a sessenta raios, um 3 600 avos.
Figura 4.4 — O quadrado da distância. Dobrar r divide a força por 4; triplicar divide por 9; multiplicar por 60 divide por 3 600. A quarta barra, da Lua, tem menos de um milésimo da altura da primeira.
distância entre os centrosforçaa conta
r × 2F ÷ 42² = 4
r × 3F ÷ 93² = 9
r × 60F ÷ 3 60060² = 3 600

Vale também no outro sentido: aproxime os centros à metade da distância, e a força fica quatro vezes maior. E as massas entram sem quadrado: dobrar uma massa dobra a força; dobrar as duas quadruplica. Nas questões, quase sempre as duas mudanças vêm juntas — "as massas dobram e a distância dobra" — e a força fica igual: 2 × 2 ÷ 2² = 1.

Dica ENEM

Dica ENEM: "a distância dobra e a força cai a um quarto"

É a pergunta mais frequente sobre a lei. A regra: a força se multiplica pelo produto dos fatores das massas e se divide pelo quadrado do fator da distância. Massas dobradas, distância dobrada: 2 × 2 ÷ 4 = 1, mesma força. Uma massa triplicada, distância triplicada: 3 ÷ 9 = 1 ÷ 3. Distância reduzida à metade: 1 ÷ (½)² = 4 vezes a força. O distrator "dobra a distância, força cai à metade" está sempre entre as alternativas.

Há uma segunda armadilha, mais escondida: a distância é medida do centro, não da superfície. Um satélite a 6 400 km de altura não está a "6 400 km" da Terra: está a 12 800 km do centro, duas vezes o raio — e a força sobre ele é um quarto da que teria no chão. A altitude só entra depois de somada ao raio da Terra. É a mesma regra do capítulo 3, e ela volta no capítulo 5, onde a lei vai dizer quanto uma balança marca no alto do Everest e a 400 km de altura.

O teste da Lua: a Lua cai

Agora a conta que Newton fez. A Lua descreve uma órbita quase circular de raio r = 3,84 × 108 m, e dá a volta em T = 27,3 dias = 2,36 × 106 s. Um corpo que dá voltas num círculo tem aceleração para o centro — o livro da Mecânica I chamou de centrípeta —, e ela vale v² ÷ r; com v = 2πr ÷ T, isso é a = 4π² × r ÷ T². Essa aceleração é medida só com a régua e o relógio: a distância da Lua e o período. Nenhuma força entrou ainda.

A Terra à esquerda e a Lua à direita, na órbita, fora de escala. Da Lua sai uma reta tracejada tangente à órbita, para onde ela iria sem a Terra, e a órbita se curva para dentro; uma cota minúscula entre a reta e a órbita diz: 1,4 mm em 1 s. Uma seta azul sobre a Lua aponta para a Terra: 2,7 × 10 elevado a menos 3 m/s². Um cartão diz: pela órbita, a igual a quatro pi ao quadrado r sobre T ao quadrado igual a 2,7 milésimos; pela lei, g sobre 60 ao quadrado igual a 9,8 sobre 3 600 igual a 2,7 milésimos. A Lua cai, e erra o chão.
Figura 4.5 — O teste da Lua. Pela órbita (raio e período), a Lua acelera para a Terra com 2,7 × 10−3 m/s². Pela lei (g dividido por 60²), a mesma coisa. A cada segundo a Lua se afasta 1,4 mm da reta que seguiria sem a Terra — ela cai, e a velocidade de lado a faz errar o chão. Fora de escala.

Substitua: a = 4π² × 3,84 × 108 ÷ (2,36 × 106)² = 39,5 × 3,84 × 108 ÷ 5,57 × 1012 = 1,52 × 1010 ÷ 5,57 × 1012 = 2,7 × 10−3 m/s². Agora a previsão da lei: a Lua está a d = 384 000 km do centro da Terra, e o raio da Terra é 6 400 km; d ÷ R = 60. Se a força cai com o quadrado, a aceleração lá é g ÷ 60² = g ÷ 3 600. Com o valor medido de g no chão, 9,8 m/s² (aqui a série usa o 9,8 uma vez, e não o 10 redondo, porque a comparação pede o número medido): 9,8 ÷ 3 600 = 2,7 × 10−3 m/s². Os dois caminhos — a órbita medida e a lei — dão o mesmo número. É a conta que fechou por sessenta ao quadrado.

Definição

O teste da Lua

Atenção

A Lua cai — e erra o chão

"A Lua não cai porque está em órbita" é um dos erros clássicos, e o teste diz o contrário: a Lua cai o tempo todo, com 2,7 mm/s² de aceleração para a Terra. A cada segundo ela se afasta 1,4 mm da reta que seguiria se a Terra sumisse (½ × 2,7 mm/s² × 1 s²), e nesse mesmo segundo anda 1 km de lado, a 1 km/s; a curva da queda acompanha a curva da órbita, e ela nunca chega ao chão. É a mesma cena do livro da Mecânica I, em que o astronauta flutua porque está caindo junto com a estação — só que a 60 raios de distância. Não existe força "para fora" segurando a Lua: a única força nela é a da Terra, para dentro, e é ela que a faz curvar.

O teste também explica por que a Lua não vem ao chão: não é porque a força é fraca, é porque a Lua tem velocidade de lado. A força só curva o caminho. Com a mesma força e sem velocidade, a Lua cairia reto, como a maçã, e levaria menos de cinco dias para chegar. Com a velocidade que tem, ela cai e erra o chão para sempre, e o capítulo 6 vai dizer exatamente qual velocidade produz uma órbita circular a cada distância.

A maçã puxa a Terra — e duas pessoas se puxam

A fórmula F = G × M × m ÷ r² é simétrica: trocar M por m não muda nada. Isso é a 3ª lei de Newton, do livro da Mecânica I, escrita para a gravidade: a Terra puxa a maçã com 1 N, e a maçã puxa a Terra com 1 N — a mesma força, em corpos diferentes, na mesma reta, em sentidos opostos. A gravidade é uma conta de restaurante que os dois pagam meio a meio e da qual ninguém escapa. O que muda entre os dois é o efeito: a maçã, de 0,1 kg, ganha 1 ÷ 0,1 = 10 m/s²; a Terra, de 6,0 × 1024 kg, ganha 1 ÷ 6 × 1024 = 1,7 × 10−25 m/s² — a Terra "sobe" ao encontro da maçã, mas com uma aceleração que nenhum instrumento do mundo mede. Foi por isso que, durante dois mil anos, pareceu que a maçã cai e a Terra fica.

Em cima: a Terra, grande, à esquerda, e a maçã, pequena, à direita, com duas setas azuis do mesmo tamanho, uma sobre cada corpo, apontando uma para a outra, as duas com o rótulo 1 N; ao lado, as acelerações: maçã 10 m/s², Terra 1,7 × 10 elevado a menos 25 m/s². Embaixo: duas figuras humanas em esquema, a 1 m uma da outra, com duas setas minúsculas apontando uma para a outra e o rótulo 3,3 × 10 elevado a menos 7 N. Um cartão diz: a mesma força nos dois corpos; entre duas pessoas de 70 kg, um terço de milionésimo de newton, dois bilhões de vezes menos que o peso de uma delas.
Figura 4.6 — Em cima, a 3ª lei: a Terra puxa a maçã com 1 N e a maçã puxa a Terra com 1 N; a diferença é a aceleração de cada uma. Embaixo, o tamanho de G: duas pessoas de 70 kg a 1 m se atraem com 3,3 × 10−7 N — dois bilhões de vezes menos que o peso de uma delas.

Atenção

"A maçã puxa a Terra com menos força" — não

O distrator diz que a Terra, por ser maior, puxa mais. A lei tem um produto M × m só, e o produto é o mesmo visto de qualquer um dos dois lados: as forças são iguais. O que é diferente é o que cada corpo faz com a mesma força — a = F ÷ m, e a Terra tem 6 × 1025 vezes a massa da maçã. Igual na força, desigual no efeito. A mesma coisa vale para a Terra e a Lua: a Terra puxa a Lua com 2 × 1020 N, e a Lua puxa a Terra com os mesmos 2 × 1020 N — é com essa força que a Lua levanta as marés do capítulo 9.

Se a lei vale para qualquer par de corpos, então duas pessoas também se atraem. Faça a conta: 70 kg cada uma, centros a 1 m: F = 6,67 × 10−11 × 70 × 70 ÷ 1² = 3,3 × 10−7 N — um terço de milionésimo de newton, dois bilhões de vezes menos que os 700 N do peso de uma delas. Ninguém sente, e nenhuma balança comum registra. Esse é o tamanho de G: a gravidade só vira uma força grande quando uma das massas é um planeta. É também o motivo pelo qual medir G foi tão difícil — e por que Cavendish precisou de uma sala fechada, um fio finíssimo e bolas de chumbo de 158 kg.

Cavendish pesa a Terra — e Newton explica Kepler

Em 1797 e 1798, Henry Cavendish montou, numa sala fechada para que nem o vento de uma porta o atrapalhasse, uma balança de torção: uma haste de madeira de quase dois metros pendurada por um fio, com uma bolinha de chumbo de 0,73 kg em cada ponta. Perto de cada bolinha ele trazia uma bola grande, também de chumbo, de 158 kg. A atração entre as bolas girava a haste um pouquinho, torcendo o fio; do ângulo de torção saía a força — da ordem de um décimo de milionésimo de newton. Cavendish observava pelo lado de fora, com uma luneta, para que nem o calor do próprio corpo mexesse no ar da sala.

Uma balança de torção vista de cima: uma haste horizontal presa por um fio no centro, com uma bolinha em cada ponta; duas bolas grandes, uma perto de cada bolinha, em lados opostos. Setas azuis minúsculas ligam cada bolinha à bola grande vizinha; a haste aparece girada num ângulo pequeno, com a posição original tracejada. Cotas: 0,73 kg, 158 kg. Um cartão diz: do ângulo do fio sai a força entre as bolas, e da força sai G; com G, a massa da Terra: M igual a g R ao quadrado sobre G igual a 6 × 10 elevado a 24 kg.
Figura 4.7 — A balança de Cavendish, vista de cima. As bolas grandes de 158 kg atraem as bolinhas de 0,73 kg, a haste gira e o fio torce; do ângulo sai a força, e da força sai G. Com G medido, a massa da Terra sai da conta M = g × R² ÷ G.

Conhecida a força entre massas conhecidas a uma distância conhecida, a lei dá G. E com G, a Terra fica pesável sem sair da sala: no chão, g = G × M ÷ R², então M = g × R² ÷ G = 10 × (6,4 × 106)² ÷ 6,67 × 10−11 = 4,1 × 1014 ÷ 6,67 × 10−11 = 6,1 × 1024 kg (com o g medido, 9,8, dá 6,0 × 1024; o valor de hoje é 5,97 × 1024 kg). Cavendish, na verdade, escreveu o resultado de outro jeito, como se fazia na época: a densidade média da Terra, 5,45 vezes a da água — o que dá na mesma, porque densidade vezes volume é massa. Ele descobriu que a Terra, por dentro, é muito mais densa que as rochas da superfície: é o primeiro sinal do núcleo de ferro. Por isso se diz que Cavendish "pesou a Terra". O valor de G que sai do experimento dele, 6,74 × 10−11, difere do atual, 6,67 × 10−11, em 1%.

Definição

Pesar a Terra

E Kepler? Com a lei em mãos, Newton explicou as três regras de uma vez, e cada uma cabe numa frase. A 1ª: uma força que aponta sempre para o mesmo centro e cai com o quadrado da distância produz órbitas que são elipses com o centro num foco — ou círculos, ou, para quem vai rápido demais, curvas que não fecham (a hipérbole da Voyager, no capítulo 10). A 2ª: como a força está sempre na reta que une os centros, ela não tem componente "de lado" para acelerar ou frear o giro, e o raio varre áreas iguais em tempos iguais. A 3ª: para uma órbita circular, a força da lei é a centrípeta, G × M × m ÷ r² = m × 4π² × r ÷ T², e daí T² ÷ r³ = 4π² ÷ (G × M) — a constante de Kepler, escrita por extenso, com a massa do centro no denominador. É a dedução do capítulo 6, em três linhas. O Sol, com 2,0 × 1030 kg, puxa a Terra com 3,6 × 1022 N; a Terra, com 6,0 × 1024 kg, puxa a Lua com 2,0 × 1020 N; a mesma lei, dois centros, duas constantes.

Dica ENEM

Dica ENEM: os cinco usos da lei

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números e o resultado com a unidade. Neste capítulo as constantes são as da série: G = 6,67 × 10−11 N·m²/kg², massa da Terra 6,0 × 1024 kg, raio da Terra 6,4 × 106 m, g = 10 m/s² no chão (9,8 no teste da Lua), Lua a 3,84 × 108 m com massa 7,3 × 1022 kg e período de 27,3 dias.

Cinco cartões pequenos, um por exemplo, cada um com um par de corpos e a força entre eles: Terra e maçã, 1 N; a Lua na órbita, 2,7 × 10 elevado a menos 3 m/s²; duas pessoas, 3,3 × 10 elevado a menos 7 N; a Terra na balança, 6,1 × 10 elevado a 24 kg; Terra e Lua, 2,0 × 10 elevado a 20 N. Um aviso: fora de escala, as cotas são as reais.
Figura 4.8 — Os números dos cinco exemplos, do menor par ao maior: duas pessoas, a maçã, a Lua na órbita, a Terra pesada e o par Terra–Lua. Fora de escala; as cotas são as reais.

Exemplo 1 — A lei devolve o peso da maçã

Uma maçã de 0,1 kg está no chão. Calcule a força com que a Terra a atrai pela lei da gravitação e compare com o peso m × g.

Fórmula. F = G × M × m ÷ R²

Substituição. F = 6,67 × 10−11 × 6,0 × 1024 × 0,1 ÷ (6,4 × 106)² = 4,0 × 1013 ÷ 4,1 × 1013

Resultado. F ≈ 0,98 N ≈ 1 N — o peso da maçã: m × g = 0,1 × 10 = 1 N

Conferência. o produto G × M vale 4,0 × 1014 (6,67 × 6,0 = 40), e (6,4 × 106)² = 4,1 × 1013; dividir 4,0 × 1014 por 4,1 × 1013 dá 9,8 — que é g = G × M ÷ R², o valor medido no chão. A lei não é uma força a mais: é o peso, com uma fórmula que diz de onde ele vem. O r usado foi o raio da Terra, de centro a centro, e não a altura da maçã.

Exemplo 2 — O teste da Lua

A Lua orbita a 3,84 × 108 m do centro da Terra, com período de 27,3 dias (2,36 × 106 s). Calcule a aceleração dela pela órbita e compare com a previsão da lei, g ÷ 60², usando g = 9,8 m/s².

Fórmula. a = 4π² × r ÷ T² ; previsão: a = g ÷ (d ÷ R)²

Substituição. a = 39,5 × 3,84 × 108 ÷ (2,36 × 106)² = 1,52 × 1010 ÷ 5,57 × 1012 ; previsão: 9,8 ÷ 60² = 9,8 ÷ 3 600

Resultado. a = 2,7 × 10−3 m/s² pela órbita ; 2,7 × 10−3 m/s² pela lei — iguais

Conferência. d ÷ R = 384 000 ÷ 6 400 = 60, e 60² = 3 600. A aceleração da órbita foi medida só com a distância e o período; a da lei, só com g e o quadrado da distância. As duas batem: a Lua cai com a mesma força que a maçã, 3 600 vezes mais fraca por quilo. Com g = 10 a razão sairia 3 700, e por isso a comparação usa o 9,8 medido — uma vez, declarada.

Exemplo 3 — Duas pessoas se atraem

Duas pessoas de 70 kg estão sentadas com os centros a 1 m um do outro. Qual é a força gravitacional entre elas?

Fórmula. F = G × M × m ÷ r²

Substituição. F = 6,67 × 10−11 × 70 × 70 ÷ 1² = 6,67 × 10−11 × 4 900

Resultado. F ≈ 3,3 × 10−7 N — um terço de milionésimo de newton

Conferência. o peso de cada pessoa é 700 N; 700 ÷ 3,3 × 10−7 = 2,1 × 109 — a atração entre as duas é dois bilhões de vezes menor que o peso de uma delas. É o tamanho de G: a gravidade só é grande quando uma das massas é um planeta. A força é a mesma nas duas pessoas, cada uma puxada para a outra.

Exemplo 4 — Cavendish pesa a Terra

Com G medido, a massa da Terra sai de g e do raio. Calcule M com g = 10 m/s², R = 6,4 × 106 m e G = 6,67 × 10−11 N·m²/kg².

Fórmula. g = G × M ÷ R², logo M = g × R² ÷ G

Substituição. M = 10 × (6,4 × 106)² ÷ 6,67 × 10−11 = 4,1 × 1014 ÷ 6,67 × 10−11

Resultado. M ≈ 6,1 × 1024 kg — um seis seguido de vinte e quatro zeros, em quilos; o valor medido hoje é 5,97 × 1024 kg

Conferência. com g = 9,8 sai 6,0 × 1024 kg — a diferença de 2% é o g arredondado. Cavendish publicou a densidade média da Terra, 5,45 vezes a da água (5 450 kg/m³); o volume de uma esfera de 6,4 × 106 m de raio é 4 ÷ 3 × π × R³ = 1,1 × 1021 m³, e 5 450 × 1,1 × 1021 = 6,0 × 1024 kg: a mesma Terra, pesada por dois caminhos.

Exemplo 5 — A força entre a Terra e a Lua

Calcule a força com que a Terra atrai a Lua (massa 7,3 × 1022 kg, a 3,84 × 108 m do centro da Terra) e, a partir dela, a aceleração da Lua.

Fórmula. F = G × M × m ÷ r² ; a = F ÷ m

Substituição. F = 4,0 × 1014 × 7,3 × 1022 ÷ (3,84 × 108)² = 2,9 × 1037 ÷ 1,47 × 1017 ; a = 2,0 × 1020 ÷ 7,3 × 1022

Resultado. F ≈ 2,0 × 1020 N ; a ≈ 2,7 × 10−3 m/s² — o mesmo valor do teste da Lua

Conferência. o produto G × M da Terra, 4,0 × 1014, dispensa multiplicar G pela massa toda vez. A aceleração saiu igual à do Exemplo 2 por um terceiro caminho, e a massa da Lua se cancelou: a = G × M ÷ r² não depende de quem cai — a Lua, uma pedra ou uma sonda na mesma distância caem com a mesma aceleração. E a Lua puxa a Terra com os mesmos 2,0 × 1020 N: é com essa força que ela levanta as marés.

Radar ENEM

A lei da gravitação aparece no ENEM de quatro formas. A proporção: "se a distância entre os centros dobrar, a força…" (cai a um quarto), às vezes com as massas mudando junto. A conceitual: o enunciado da lei, com distratores que trocam "quadrado" por "proporcional", "produto" por "soma" ou "centros" por "superfícies". A 3ª lei: "a força da Terra sobre o satélite é maior que a do satélite sobre a Terra" — não, são iguais. E a G × g: "G varia de planeta para planeta" — não, G é universal; g é que muda, e a questão às vezes pede a massa de um planeta a partir do g e do raio dele.

Uma Terra pequena com uma maçã ao lado e a Lua mais longe. Ao lado, um cartão correto: F igual a G M m sobre r ao quadrado, r de centro a centro; dobrou r, força dividida por 4; a maçã puxa a Terra com a mesma força; G universal, g local. Riscado com um X, o cartão errado: a força cai à metade quando r dobra; a Terra puxa mais que a maçã; G muda de planeta para planeta; a Lua não cai. Abaixo: a força é a mesma nos dois corpos e cai com o quadrado da distância entre os centros.
Figura 4.9 — Os quatro distratores favoritos: 'dobrou r, força cai à metade' (cai a um quarto), 'a Terra puxa mais que a maçã' (mesma força), 'G muda de planeta para planeta' (G é universal; g é que muda) e 'a Lua não cai' (cai com 2,7 mm/s² e erra o chão).

Veja a versão que mais aparece: dois corpos se atraem com força F; a distância entre eles é reduzida à metade e uma das massas dobra — a nova força é F × 2 ÷ (½)² = 8F. Outra versão dá o raio e o g de um planeta e pede a massa, M = g × R² ÷ G — com o R² no numerador. E a versão conceitual pede o que a lei afirma: força atrativa, na reta dos centros, proporcional ao produto das massas, inversa ao quadrado da distância entre os centros.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Uma conferência rápida resolve as questões de conta: a força nova é a força velha vezes o produto dos fatores das massas, dividida pelo quadrado do fator da distância. Se a alternativa escolhida não fechar essa conta, ela está errada. E, nas conceituais, a frase completa é: dois corpos se atraem com uma força na reta que une seus centros, proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre os centros — nem "à distância", nem "à soma", nem "da superfície".

Resumo em cinco peças

Cinco peças: F igual a G M m sobre r ao quadrado, na reta dos centros; a força cai com o quadrado da distância; a mesma força para a maçã e para a Lua, o teste de 1 sobre 3 600; ação e reação, a maçã puxa a Terra igual; G foi medido em laboratório, e com ele a Terra foi pesada.
Figura 4.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. A lei: F = G × M × m ÷ r², na reta que une os centros, com r de centro a centro; G é a constante universal, a mesma para qualquer par de corpos. No chão, a lei devolve o peso: g = G × M ÷ R².
  2. Cai com o quadrado da distância: dobrou r, a força caiu a um quarto; a 60 raios, um 3 600 avos.
  3. A mesma força para a maçã e para a Lua: pela órbita, a Lua acelera com 2,7 mm/s²; pela lei, g ÷ 3 600 dá o mesmo. A Lua cai — e erra o chão.
  4. Ação e reação: a Terra puxa a maçã com 1 N e a maçã puxa a Terra com 1 N; iguais na força, desiguais no efeito. Duas pessoas a 1 m: um terço de milionésimo de newton.
  5. G foi medido em laboratório — a balança de torção de Cavendish, 1797–1798 — e com ele a Terra foi pesada: M = g × R² ÷ G, um seis seguido de vinte e quatro zeros, em quilos.

Se for guardar uma frase só, guarde a do título: a maçã e a Lua caem pela mesma conta. A lei tem uma consequência imediata, e é ela que vem a seguir: se g = G × M ÷ r², então g não é o mesmo em todo lugar. Uma balança marca um pouco menos no topo do Everest, quase o mesmo a quatrocentos quilômetros de altura — onde o astronauta flutua — e duas vezes e meia mais em Júpiter. A mesma lei, três lugares. É o capítulo 5.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 10 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 4

professorcanario.com.br/m3/c4/lista