Mecânica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 12: Sem atrito você não anda

Capítulo 12Sem atrito você não anda

Forças de contato e plano inclinado

O asfalto tinha cara de molhado; era uma camada finíssima de gelo. O carro não freou, não virou, não saiu do lugar — e não tinha perdido potência nenhuma. Tinha perdido a única força que faz um carro andar: o atrito.

Neste capítulo você vai

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O caso: o gelo negro

Numa madrugada fria, um carro segue por uma estrada a 72 km/h — 72 ÷ 3,6 = 20 m/s. O asfalto à frente tem cara de asfalto molhado, escuro e brilhante, nada de mais. Só que não é água: é uma camada finíssima e transparente de gelo, tão fina que deixa ver o asfalto por baixo. Os motoristas chamam isso de gelo negro. O carro entra nela e, de repente, não responde mais. O motorista pisa no freio e o carro não freia. Vira o volante e o carro não vira. O motor continua ligado, as rodas continuam presas ao carro, nada quebrou. E, mesmo assim, o carro virou um bloco deslizando em linha reta, sem dono.

Uma estrada em esquema, vista de cima. À esquerda, um trecho de asfalto seco com um carro e uma seta salmão grande apontando para trás, o atrito freando; um cartão diz: asfalto seco, para em 25 m. À direita, um trecho escuro e brilhante, o gelo negro, com o mesmo carro e uma seta salmão pequena; um cartão diz: gelo negro, para em 100 m. Entre os dois, a velocidade: 20 m/s.
Figura 12.1 — A mesma velocidade, o mesmo carro, o mesmo freio. No asfalto seco ele para em 25 m; no gelo negro precisa de 100 m. O que mudou foi a força que o chão consegue fazer no pneu.

O carro não perdeu potência. Perdeu uma força: a única que faz um carro andar, frear e fazer curva. Essa força não está no motor nem no freio; está no contato entre o pneu e o chão, e se chama atrito. O motor gira a roda, mas quem empurra o carro para a frente é o chão, pela terceira lei do capítulo 11 — e o chão só consegue empurrar se agarrar o pneu. O freio trava a roda, mas quem freia o carro é o chão segurando o pneu. No gelo negro o chão quase não agarra: um pneu que no asfalto seco recebe do chão uma força de até 0,8 vezes a normal recebe, no gelo, no máximo 0,2 — quatro vezes menos. A 20 m/s, a distância para parar passa de 25 m para 100 m. Não é o carro que falha. É o atrito que some.

Este capítulo é sobre as forças que nascem do contato entre dois corpos. Primeiro apresenta as três — a normal, a tração e o atrito — e diz para onde cada uma aponta. Depois separa o atrito em dois, o estático e o cinético, e mostra que o estático não tem um valor fixo: ele vale o que precisa, até um teto. Em seguida faz as pazes com o atrito, na seção do amigo: sem ele ninguém anda, nada freia e nenhuma curva existe. Termina em dois cenários que o ENEM adora, o plano inclinado, onde o peso se decompõe, e o elevador, onde a balança marca mais do que você.

As três forças de contato

O peso é uma força que age a distância: a Terra puxa a caixa sem encostar nela. Todas as outras forças deste capítulo exigem contato. Uma superfície que encosta num corpo, um fio que o puxa, um chão que o segura: em cada caso há uma força de contato, e cada uma tem uma direção que não muda nunca.

Uma caixa sobre uma mesa, puxada por um fio esticado para a direita. Sobre a caixa, quatro setas com rótulo: o peso, azul, para baixo; a normal, céu, para cima, perpendicular à mesa; a tração, tinta, ao longo do fio, para a direita; o atrito, salmão, ao longo da mesa, para a esquerda, contra o deslizamento.
Figura 12.2 — As três forças de contato numa caixa puxada por um fio: a normal é perpendicular à mesa, a tração vai ao longo do fio, o atrito vai ao longo da mesa, contra o deslizamento.

A normal é a força com que a superfície empurra o corpo que está apoiado nela. Ela é sempre perpendicular à superfície — daí o nome — e sempre empurra, nunca puxa. Numa mesa horizontal ela aponta para cima; numa rampa, aponta para fora da rampa, inclinada; numa parede, aponta para fora da parede, na horizontal. O capítulo 11 avisou: a normal não é a reação do peso e não tem valor fixo. Ela vale o que a situação pede para o corpo não afundar na superfície.

A tração é a força que um fio, um cabo ou uma corda esticada faz no corpo preso a ele. Ela vai sempre ao longo do fio e sempre puxa: um fio não empurra nada, e um fio frouxo não faz força nenhuma. Num fio leve e esticado, a tração é a mesma nas duas pontas — foi o que decidiu o cabo de guerra do capítulo 11.

O atrito é a força que a superfície faz no corpo ao longo dela, tangente ao contato, e sempre contra o deslizamento: se a caixa desliza para a direita, o atrito da mesa na caixa aponta para a esquerda. E se a caixa ainda não desliza, mas está sendo puxada para a direita, o atrito aponta para a esquerda do mesmo jeito, contra a tendência de deslizar. É o atrito que segura a caixa parada enquanto o puxão é fraco.

Definição

As forças de contato

forçadireçãosentido
normalperpendicular à superfícieempurra
traçãoao longo do fiopuxa
atritotangente à superfíciecontra o deslizar

Peso, normal, tração e atrito são as quatro setas que aparecem em quase todo diagrama de corpo livre da prova. A regra do capítulo 10 continua valendo: um corpo, todas as forças sobre ele, nada mais — e agora cada seta tem endereço certo. A normal sai perpendicular à superfície, a tração sai ao longo do fio, o atrito sai ao longo da superfície. Quem desenha a normal para cima numa rampa, ou o atrito perpendicular ao chão, erra a conta antes de começar.

Atrito estático e cinético

Empurre um armário pesado. No começo você faz força e ele não sai do lugar: o chão está segurando o armário com um atrito exatamente igual ao seu empurrão. Faça mais força: ele continua parado, e o atrito cresceu junto. Em algum momento o seu empurrão vence, o armário se solta e passa a deslizar — e aí, curiosamente, fica um pouco mais fácil empurrar. Você acabou de sentir os dois atritos.

Um gráfico com o empurrão no eixo horizontal e o atrito no vertical. Uma reta tracejada céu sobe a 45° até o ponto de 20 N: é o atrito estático, igual ao empurrão. Depois desse ponto, uma linha salmão horizontal em 20 N: o atrito cinético. Um cartão marca o teto: atrito máximo 20 N, com o coeficiente 0,4 vezes a normal de 50 N.
Figura 12.3 — Enquanto o corpo está parado, o atrito estático copia o empurrão, até um teto. Passado o teto, o corpo desliza e o atrito cinético assume um valor fixo.

O atrito estático age enquanto o corpo está parado em relação à superfície. Ele não tem valor próprio: vale o que precisa para impedir o deslizamento, copiando a força que tenta mover o corpo. Mas tem um teto: o atrito estático máximo, que é o coeficiente de atrito estático vezes a normal. Se a força que tenta mover o corpo passa desse teto, o corpo se solta.

O atrito cinético age quando o corpo já desliza. Esse tem valor fixo: o coeficiente de atrito cinético vezes a normal, não importa a velocidade. Em geral o coeficiente cinético é um pouco menor que o estático — por isso o armário fica mais fácil depois que se solta —, e quando a prova dá um só coeficiente, ela quer que você use o mesmo valor para os dois.

Definição

Atrito estático e atrito cinético

Veja os números. Uma caixa está apoiada num chão em que a normal vale 50 N e o coeficiente de atrito é 0,4. O teto do atrito é 0,4 × 50 = 20 N. Empurre a caixa com 15 N: como 15 N não chega aos 20 N, a caixa fica parada, e o atrito estático vale 15 N — nem mais, nem menos, o suficiente para anular o empurrão. Agora empurre com 25 N: passou do teto, a caixa se solta e desliza, e o atrito vira cinético, 20 N. Sobra uma resultante de 25 − 20 = 5 N, e essa sobra é o que acelera a caixa.

Duas cenas lado a lado, com a mesma caixa. Na primeira, um empurrão de 15 N para a direita, em tinta, e um atrito de 15 N para a esquerda, em salmão; cartão: parada, resultante zero. Na segunda, um empurrão de 25 N e um atrito de 20 N; cartão: desliza, resultante 5 N para a direita.
Figura 12.4 — Empurrão de 15 N: o atrito responde com 15 N e a caixa fica. Empurrão de 25 N: o atrito só consegue 20 N, a caixa desliza e sobra 5 N de resultante.

Atenção

O atrito estático não vale µN sempre

µe × N é o máximo que o atrito estático consegue fazer, não o que ele faz. Com a caixa parada sob um empurrão de 15 N, o atrito vale 15 N, e não 20 N — se valesse 20 N, a caixa sairia andando para trás, contra o empurrão, o que nunca acontece. A prova adora oferecer o valor do teto como resposta; antes de usar µN, pergunte se o corpo desliza. Se não desliza, o atrito é o que a resultante nula exige.

Um detalhe que decide muita questão: o coeficiente multiplica a normal, não o peso. No chão horizontal, sem outras forças verticais, a normal é igual ao peso e dá na mesma. Mas basta alguém apertar a caixa contra o chão, ou puxá-la um pouco para cima, ou colocá-la numa rampa, para a normal mudar — e com ela o teto do atrito. A seção do plano inclinado mostra isso com números.

Atrito é amigo: andar, frear, fazer curva

Todo mundo aprende cedo que o atrito atrapalha: gasta o sapato, esquenta a máquina, freia o carrinho. Só que o gelo negro conta a outra metade da história. O atrito é o aperto de mão do chão: forte demais, e você não se mexe; fraco demais, e você escorrega; na medida certa, e você anda. Sem esse aperto de mão não há passo, não há freio e não há curva.

Três cenas em fila. Uma pessoa andando: a sola empurra o chão para trás e o atrito do chão na sola, seta salmão, aponta para a frente. Um carro freando: o pneu tende a escorregar para a frente e o atrito do chão no pneu aponta para trás. Um carro em curva, visto de cima: o carro quer seguir reto e o atrito do chão no pneu aponta para o centro da curva.
Figura 12.5 — Andar, frear, fazer curva: nas três o chão faz atrito no pneu ou na sola, e é esse atrito que muda o movimento. Sem ele, o corpo segue reto, na mesma velocidade — é a primeira lei.

Andar. No capítulo 11, a sola empurrava o chão para trás e o chão empurrava a sola para a frente. Agora essa força tem nome: é o atrito estático entre a sola e o chão, porque a sola, no instante do passo, não desliza. É por isso que andar no gelo é tão difícil: o teto do atrito é baixo, o pé passa dele com facilidade e escorrega. E é por isso que um carro no gelo negro não sai do lugar quando o motorista acelera — a roda gira, mas o chão não consegue empurrar o pneu para a frente.

Frear. Quem freia o carro é o chão. O freio trava a roda; o chão, com o atrito, segura o pneu e freia o carro inteiro. Se a roda rola sem escorregar, o atrito é estático, e o teto é o máximo que o chão consegue. Se a roda trava e o pneu desliza sobre o asfalto, o atrito vira cinético, um pouco menor, e a frenagem piora — é por isso que os freios modernos soltam e travam a roda muitas vezes por segundo, para não deixá-la deslizar. No gelo negro o teto é tão baixo que nem o melhor freio ajuda.

Fazer curva. Um carro em curva quer seguir reto, pela primeira lei. Quem o puxa para dentro da curva, a cada instante, é o atrito do chão nos pneus, apontando para o centro. Sem atrito, o carro segue reto e sai pela tangente — exatamente o que o gelo negro faz com quem tenta virar o volante. O capítulo 14 faz a conta dessa força e descobre a velocidade máxima de uma curva; guarde desde já que a curva só existe porque o pneu agarra.

A conta do caso fecha aqui. Num carro freando com as rodas rolando, a única força horizontal é o atrito, e a segunda lei dá a = f ÷ m = µ × N ÷ m. No chão horizontal, N = m × g, e a massa cancela: a = µ × g. No asfalto seco, com µ = 0,8, a desaceleração é 0,8 × 10 = 8 m/s²; no gelo negro, com µ = 0,2, cai para 2 m/s². Com a fórmula sem tempo do capítulo 4, a distância para parar a partir de 20 m/s é v² ÷ (2 × a): 400 ÷ 16 = 25 m no seco e 400 ÷ 4 = 100 m no gelo. Quatro vezes o coeficiente, quatro vezes a distância — e a massa do carro não entra.

Dica ENEM

Dica ENEM: "o atrito sempre atrapalha" é falso

Quando uma alternativa diz que o atrito "só dificulta o movimento", ela está errada. Andar, frear e fazer curva dependem do atrito; a força que empurra você para a frente ao caminhar é o atrito do chão na sola. O que o atrito sempre faz é se opor ao deslizamento entre as superfícies — e, ao impedir que o pé escorregue para trás, ele empurra o corpo para a frente.

O plano inclinado: o peso se decompõe

Uma caixa numa rampa tem as mesmas forças de sempre: o peso, para baixo; a normal, perpendicular à rampa; e o atrito, ao longo da rampa, se houver. O problema é que o peso não está nem ao longo da rampa nem perpendicular a ela — está inclinado em relação às duas. A saída é a do capítulo 2: decompor o vetor em dois eixos, um ao longo da rampa e outro perpendicular a ela.

Uma rampa de 37° com uma caixa de 10 kg. O peso, seta azul de 100 N para baixo, se decompõe em duas componentes tracejadas azuis: 60 N ao longo da rampa, para baixo, e 80 N perpendicular à rampa, para dentro. A normal, seta céu de 80 N, sai perpendicular à rampa. Um pequeno triângulo 3-4-5 ao lado lembra: sen 37° = 0,6 e cos 37° = 0,8.
Figura 12.6 — Na rampa de 37°, o peso de 100 N vira 60 N puxando ao longo da rampa e 80 N apertando contra ela. A normal só precisa anular os 80 N.

O ângulo é o segredo. O peso é vertical; a perpendicular à rampa está inclinada em relação à vertical exatamente do ângulo da rampa. Então o ângulo entre o peso e a perpendicular é o mesmo ângulo que a rampa faz com o chão. Com isso, as duas componentes saem do triângulo canônico do capítulo 2: a componente ao longo da rampa é P × sen 37°, e a componente perpendicular é P × cos 37°. Uma caixa de 10 kg tem peso 10 × 10 = 100 N. Numa rampa de 37°, a componente ao longo da rampa é 100 × 0,6 = 60 N, e a perpendicular é 100 × 0,8 = 80 N.

Agora o diagrama de corpo livre, eixo por eixo. Perpendicular à rampa, a caixa não afunda nem levanta: a normal anula a componente perpendicular do peso, logo N = 80 N — menos que o peso. Ao longo da rampa, sem atrito, só age a componente de 60 N, e ela é a resultante: a = 60 ÷ 10 = 6 m/s², rampa abaixo. Repare que 6 m/s² é 10 × 0,6, ou seja, g × sen 37°: numa rampa lisa, a aceleração não depende da massa. Uma caixa de 1 kg e uma de 100 kg descem juntas, como a pena e o martelo do capítulo 6.

Definição

O plano inclinado

Numa rampa que faz um certo ângulo com a horizontal, decomponha o peso em dois eixos:

A normal anula a componente perpendicular: N = P × cosseno do ângulo. O atrito, quando existe, age ao longo da rampa e vale até µ × N. Sem atrito, a aceleração é g × seno do ângulo, igual para qualquer massa.

Atenção

A normal não é sempre igual ao peso

N = P só no chão horizontal, sem nenhuma outra força vertical. Na rampa, a normal é P × cosseno do ângulo, menor que o peso; no elevador acelerado, é maior ou menor que ele; com alguém apertando a caixa contra o chão, é maior. Quem escreve "N = P" por reflexo erra o atrito junto, porque o teto do atrito é µ × N, e não µ × P.

Com atrito, a rampa ganha uma seta a mais: o atrito cinético, ao longo da rampa, contra o deslizamento — para cima, se a caixa desce. O seu valor é o coeficiente vezes a normal, e a normal é a mesma de antes, 80 N. Com µ = 0,25, o atrito vale 0,25 × 80 = 20 N. Ao longo da rampa, a resultante passa a ser 60 − 20 = 40 N, e a aceleração cai para 40 ÷ 10 = 4 m/s². A caixa ainda desce; só desce mais devagar.

A mesma rampa de 37°, com a caixa de 10 kg descendo. Ao longo da rampa, a componente do peso, tracejada azul, 60 N para baixo, e o atrito, seta salmão, 20 N para cima. A normal, céu, 80 N, perpendicular. Um cartão: resultante 40 N, aceleração 4 m/s².
Figura 12.7 — Com µ = 0,25 o atrito vale 0,25 × 80 = 20 N, rampa acima. Sobra 60 − 20 = 40 N, e a caixa desce a 4 m/s².

E se o atrito fosse maior que os 60 N? Aí a caixa não desceria — e o atrito, estático, valeria 60 N, não o teto. Uma caixa parada numa rampa é o caso clássico do atrito estático valendo "o que precisa": a componente do peso ao longo da rampa. Regra do capítulo 10, agora em dois eixos: sem diagrama de corpo livre, sem conta.

O elevador: a balança marca mais

Suba numa balança dentro de um elevador. A balança não mede o seu peso; mede a força com que você a aperta, e por isso, pela terceira lei, a força com que ela empurra você — a normal. Depois ela divide por 10 e mostra o resultado em quilogramas. Enquanto o elevador está parado ou sobe em velocidade constante, a normal é igual ao peso, e a balança marca a sua massa. Mas no instante em que o elevador acelera, a normal muda — e a balança também.

Três elevadores lado a lado, com uma pessoa sobre uma balança em cada um. No primeiro, o elevador acelera para cima, seta tinta para cima; sobre a pessoa, a normal, céu, 840 N, é maior que o peso, azul, 700 N; a balança marca 84 kg. No segundo, parado ou em velocidade constante: 700 N e 700 N, balança 70 kg. No terceiro, acelera para baixo: normal 560 N, peso 700 N, balança 56 kg.
Figura 12.8 — A balança mede a normal. Acelerando para cima, a normal passa do peso e ela marca mais; acelerando para baixo, marca menos. O peso é 700 N nos três.

Uma pessoa de 70 kg tem peso 70 × 10 = 700 N. O elevador arranca para cima com aceleração de 2 m/s². Diagrama de corpo livre da pessoa: normal para cima, peso para baixo, e a resultante tem de apontar para cima, no sentido da aceleração. Então N − 700 = 70 × 2, e N = 700 + 140 = 840 N. A balança divide por 10 e marca 84 kg — a pessoa não engordou; a normal é que cresceu. O elevador arranca para baixo com os mesmos 2 m/s²: agora a resultante aponta para baixo, 700 − N = 70 × 2, e N = 700 − 140 = 560 N. A balança marca 56 kg.

Definição

A normal no elevador

Para um corpo de massa m apoiado num elevador com aceleração a:

O que manda é o sentido da aceleração, não o da velocidade: um elevador que sobe freando tem aceleração para baixo, e a balança marca menos.

O erro clássico é olhar para onde o elevador vai, e não para onde ele acelera. Um elevador que sobe e está chegando ao andar está freando: a velocidade aponta para cima, mas a aceleração aponta para baixo, e a balança marca menos. Um elevador que desce e está freando tem aceleração para cima, e a balança marca mais. Nos dois casos, o peso é sempre os mesmos 700 N — a única coisa que mudou foi a normal.

E se o cabo arrebentasse? O elevador cairia com aceleração g, para baixo, e a normal seria 70 × (10 − 10) = 0. A balança marcaria zero e a pessoa flutuaria dentro da cabine, sem ter perdido um grama de peso: a Terra continuaria puxando com 700 N, só que a cabine cairia junto e não teria como empurrar de volta. Guarde essa cena: ela é o astronauta do capítulo 14, que flutua exatamente porque está caindo.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de forças, antes dos três tempos vêm os dois passos dos capítulos 2 e 10: desenhar as setas e escolher o corpo do diagrama de corpo livre — e, neste capítulo, escolher também os eixos, um ao longo da superfície e outro perpendicular a ela. Antes de usar µ × N, pergunte sempre se o corpo desliza; antes de escrever N = P, pergunte se a superfície é horizontal e se há outra força vertical.

Exemplo 1 — A caixa que fica e a caixa que vai

Uma caixa apoiada num chão horizontal recebe da superfície uma normal de 50 N; o coeficiente de atrito entre as duas é 0,4. Qual é o atrito quando alguém a empurra com 15 N? E com 25 N?

Fórmula. f máx = µ × N ; empurrão abaixo do máximo: parada, f = empurrão ; acima: desliza, f = µ × N

Substituição. f máx = 0,4 × 50 ; com 15 N: 15 é menor que 20 ; com 25 N: 25 é maior que 20

Resultado. f máx = 20 N ; com 15 N: parada, f = 15 N ; com 25 N: desliza, f = 20 N e resultante 25 − 20 = 5 N

Conferência. com 15 N o atrito não vale 20 N — se valesse, a caixa andaria para trás. O teto só é atingido quando a caixa se solta.

Exemplo 2 — A rampa lisa de 37°

Uma caixa de 10 kg está sobre uma rampa de 37°, sem atrito (g = 10 m/s²; sen 37° = 0,6, cos 37° = 0,8). Quais são as componentes do peso, a normal e a aceleração da caixa?

Fórmula. P = m × g ; Px = P × sen 37° ; Py = P × cos 37° ; N = Py ; a = Px ÷ m

Substituição. P = 10 × 10 ; Px = 100 × 0,6 ; Py = 100 × 0,8 ; a = 60 ÷ 10

Resultado. P = 100 N ; Px = 60 N ; Py = 80 N ; N = 80 N ; a = 6 m/s², rampa abaixo

Conferência. 6 m/s² é g × sen 37° = 10 × 0,6 — não depende da massa. E a normal, 80 N, é menor que o peso.

Exemplo 3 — A mesma rampa, com atrito

A caixa de 10 kg do Exemplo 2 desce a rampa de 37°, agora com coeficiente de atrito 0,25. Qual é a aceleração?

Fórmula. f = µ × N ; resultante = Px − f ; a = resultante ÷ m

Substituição. f = 0,25 × 80 ; resultante = 60 − 20 ; a = 40 ÷ 10

Resultado. f = 20 N, rampa acima ; resultante = 40 N ; a = 4 m/s², rampa abaixo

Conferência. o atrito multiplica a normal, 80 N, e não o peso, 100 N. Com µ × 100 = 25 N a resposta sairia errada: 3,5 m/s².

Exemplo 4 — A balança no elevador

Uma pessoa de 70 kg está sobre uma balança num elevador (g = 10 m/s²). Quanto vale a normal, e o que a balança marca, se o elevador acelera para cima a 2 m/s²? E se acelera para baixo a 2 m/s²?

Fórmula. para cima: N = m × (g + a) ; para baixo: N = m × (g − a) ; a balança marca N ÷ 10

Substituição. N = 70 × (10 + 2) = 70 × 12 ; N = 70 × (10 − 2) = 70 × 8

Resultado. para cima: N = 840 N, balança em 84 kg ; para baixo: N = 560 N, balança em 56 kg

Conferência. o peso é 700 N nos dois casos. A diferença, 140 N para cada lado, é m × a = 70 × 2.

Dois diagramas de corpo livre do carro freando, um sobre asfalto seco e outro sobre gelo negro. Em cada um, o peso, azul, para baixo, a normal, céu, para cima, e o atrito, salmão, para trás. No seco o atrito é grande, com o cartão a = 8 m/s² e 25 m; no gelo é pequeno, com a = 2 m/s² e 100 m.
Figura 12.9 — O Exemplo 5 em desenho: no chão horizontal, a = µ × g. Quatro vezes menos coeficiente, quatro vezes mais distância — e a massa do carro não entra.

Exemplo 5 — O gelo negro

Um carro a 20 m/s freia com as rodas rolando sobre um chão horizontal. Qual é a distância para parar no asfalto seco, com µ = 0,8, e no gelo negro, com µ = 0,2? (g = 10 m/s²)

Fórmula. a = µ × g ; distância = v² ÷ (2 × a)

Substituição. seco: a = 0,8 × 10, d = 400 ÷ 16 ; gelo: a = 0,2 × 10, d = 400 ÷ 4

Resultado. seco: a = 8 m/s², d = 25 m ; gelo: a = 2 m/s², d = 100 m

Conferência. no chão horizontal N = m × g, e a massa cancela em a = µ × N ÷ m. Um caminhão e um carro param na mesma distância se os pneus agarrarem igual.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos, e todos começam pelo diagrama de corpo livre. O primeiro é o plano inclinado com 37° ou 53°: decompor o peso, achar a normal, calcular a aceleração com ou sem atrito. O segundo é o atrito estático × cinético: uma caixa empurrada com força menor que o teto, e a pergunta "quanto vale o atrito?" — a resposta é o empurrão, e o distrator é µN. O terceiro é o elevador, com a balança marcando mais ou menos do que a massa. O quarto é o conceitual: "o atrito sempre atrapalha", "a normal é igual ao peso", "a normal é a reação do peso" — todas falsas.

Uma rampa de 53° com uma caixa de 5 kg. O peso, azul, 50 N, decomposto em 40 N ao longo da rampa e 30 N perpendicular. A normal, céu, 30 N. Ao lado, o cartão correto: N = 30 N, a = 8 m/s², e, riscado com um X, o cartão N = 50 N.
Figura 12.10 — Na rampa de 53°, seno e cosseno trocam de lugar: sen 53° = 0,8 e cos 53° = 0,6. A normal cai para 30 N; quem escreve N = 50 N erra a normal e o atrito junto.

Quando o ângulo é 53°, cuidado com o triângulo: sen 53° = 0,8 e cos 53° = 0,6, o contrário do 37°. Uma caixa de 5 kg numa rampa lisa de 53° tem peso 50 N; a componente ao longo da rampa é 50 × 0,8 = 40 N, a perpendicular é 50 × 0,6 = 30 N, a normal é 30 N e a aceleração é 40 ÷ 5 = 8 m/s² — ou 10 × 0,8, direto. Quanto mais íngreme a rampa, menor a normal e maior a aceleração: a 90° a normal seria zero e a caixa cairia em queda livre. Entre as alternativas costumam estar os 50 N do peso, para quem escreveu N = P, e os 6 m/s² da rampa de 37°, para quem trocou o seno pelo cosseno.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: normal perpendicular à superfície, tração ao longo do fio, atrito contra o deslizamento; atrito estático vale até µN, cinético vale µN; na rampa, o peso vezes o seno desce e a normal é o peso vezes o cosseno; no elevador, N = m(g + a) ou m(g − a); sem atrito não se anda.
Figura 12.11 — O capítulo em cinco peças.
  1. Normal perpendicular à superfície; tração ao longo do fio; atrito tangente à superfície, contra o deslizamento.
  2. Atrito estático vale o que precisa, até o teto µe × N; atrito cinético vale sempre µc × N.
  3. Na rampa, o peso se decompõe: P × seno do ângulo puxa rampa abaixo, e a normal vale P × cosseno do ângulo, menor que o peso.
  4. No elevador, N = m × (g + a) acelerando para cima e N = m × (g − a) acelerando para baixo; a balança mede a normal.
  5. Sem atrito não se anda, não se freia e não se faz curva: o atrito é o aperto de mão do chão.

Se for guardar uma frase só, guarde o gelo negro: o carro não perdeu força nenhuma; perdeu a única força que faz um carro andar.

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