
Capítulo 2O passageiro que pagou 7 km para andar 5
Vetores e escalares
O aplicativo cobrou 7 km e o mapa mede 5 km entre a porta de saída e a de chegada — e ninguém errou: o extrato mede o caminho, o mapa mede a mudança de lugar.
Neste capítulo você vai
- Distinguir grandeza escalar de grandeza vetorial: módulo, direção e sentido
- Separar deslocamento de distância percorrida e somar vetores ponta com origem
- Decompor um vetor inclinado em componentes com o triângulo 3, 4, 5 (37° e 53°)
Assista ao episódio 2
Este capítulo acompanha o episódio 2 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.
O caso: sete no extrato, cinco no mapa
Fim de noite, fim de corrida. O passageiro desce do carro, abre o aplicativo e lê o extrato: 7 km rodados, 7 km cobrados. Por curiosidade, abre o mapa e mede em linha reta, da porta de onde saiu até a porta onde chegou: 5 km. Dois quilômetros de diferença. Alguém errou?

Ninguém. O trajeto foi honesto: 3 km para o leste e, na esquina, 4 km para o norte, porque naquele bairro as ruas não cortam na diagonal. O aplicativo contou cada metro de asfalto que passou debaixo da roda e cobrou por ele. O mapa mediu outra coisa: onde o passageiro terminou em relação a onde começou.
Sete e cinco, os dois certos ao mesmo tempo. A diferença entre eles não é erro de cobrança nem erro de mapa: é a primeira grande ideia da física do movimento. Há grandezas que só têm tamanho e há grandezas que têm tamanho, direção e sentido. As primeiras se somam como dinheiro; as segundas se somam como setas. Quem confunde uma com a outra paga — às vezes em reais, às vezes em pontos na prova. Este capítulo separa as duas, ensina a somar setas e termina com a ferramenta que a seção de decomposição entrega: dois números, 0,6 e 0,8, que voltam em quase todo problema de força da série.
Escalar e vetor: tamanho, direção e sentido
Algumas grandezas ficam completas com um número e uma unidade. A temperatura da sala: 25 °C. A massa de um pacote de arroz: 5 kg. A duração de uma corrida: 12 min. Ninguém pergunta "25 graus para onde?" — a pergunta não faz sentido. Essas são as grandezas escalares.

Agora experimente dar uma instrução a alguém: "ande 5 km". Para onde? Assim, a instrução não leva a lugar nenhum. "Ande 5 km para o nordeste" leva. É exatamente o que o aplicativo de mapa faz a cada esquina, e é o que faz um vetor: além do tamanho, ele carrega uma direção e um sentido.
Definição
Escalar e vetor
- Grandeza escalar fica completa com o módulo: o número acompanhado da unidade. Massa, tempo, temperatura e energia são escalares.
- Grandeza vetorial precisa de módulo, direção e sentido. Deslocamento, velocidade, aceleração e força são vetores.
- Direção é a reta: a avenida norte–sul, por exemplo. Sentido é para qual lado dessa reta se vai: para o norte ou para o sul. Toda direção tem dois sentidos, como toda rua tem duas mãos.
O jeito de desenhar um vetor é a seta. O comprimento mostra o módulo; a reta em que ela está mostra a direção; a ponta mostra o sentido. Uma seta com o mesmo comprimento e a mesma reta, mas a ponta virada, é outro vetor — o mesmo tamanho, o sentido contrário.

| Grandeza | Escalar ou vetor? |
|---|---|
| massa, tempo | escalar |
| temperatura, energia | escalar |
| deslocamento, velocidade | vetor |
| aceleração, força | vetor |
Atenção
Escalar nunca ganha seta
Grandeza vetorial vira seta antes de virar número; grandeza escalar nunca ganha seta. Uma seta desenhada num relógio ou numa balança seria enfeite — e enfeite, em física, confunde: sugere uma direção onde não existe nenhuma.
Repare no velocímetro do carro: ele mostra só o módulo da velocidade. Numa curva feita com o ponteiro parado em 60 km/h, a velocidade está mudando mesmo assim, porque a direção muda a cada metro. Isso rende um capítulo inteiro mais adiante, o do movimento circular; por ora, basta guardar que o número no painel é só um pedaço da velocidade.
Deslocamento e distância percorrida
Com essas duas palavras, o extrato e o mapa começam a se explicar. Antes, o combinado que vale para todo movimento deste livro: antes de medir, diga de onde você está olhando. Escolha a origem e o sentido positivo de cada eixo. Para o passageiro, a origem é o ponto de partida; o leste é o eixo x positivo e o norte é o eixo y positivo.
Definição
Distância percorrida e deslocamento
- Distância percorrida (d) é o comprimento de todo o caminho, curva por curva, rua por rua. É escalar — e é o que o aplicativo cobra, porque o pneu gasta em cada metro.
- Deslocamento é a seta que vai do ponto de partida direto ao ponto de chegada, sem se importar com o caminho do meio. É vetor. Nas figuras deste livro ele aparece como um s precedido do delta maiúsculo (leia "delta ésse"), com a seta de vetor por cima.
O deslocamento só depende de onde você começou e de onde terminou. Pode ir pela avenida, dar a volta no quarteirão, se perder três vezes: se partiu e chegou nos mesmos dois pontos, o deslocamento é o mesmo. A distância, não — cada desvio aumenta a conta.

Na figura, o passeio pelas ruas soma 9 km de distância percorrida, mas a chegada está a 5 km da partida em linha reta — de novo o triângulo de lados 3 e 4, como o Exemplo 1 vai mostrar. Por isso vale uma desigualdade que nunca falha.
Atenção
A desigualdade que nunca falha
O módulo do deslocamento nunca passa da distância percorrida. Os dois só empatam num caso: caminho em linha reta, sem voltar atrás. Todo desvio aumenta a distância e deixa o deslocamento na mesma.
A volta na pista: andar muito e não sair do lugar
O caso extremo parece pegadinha e é pura definição. Uma atleta dá uma volta completa numa pista de atletismo de 400 m e para exatamente na linha de largada. Distância percorrida: 400 m — as pernas dela confirmam. Deslocamento: zero. A seta sai da largada e chega na largada; uma seta de comprimento zero não é seta, é um ponto.

Divida a volta em quatro trechos e desenhe a seta de cada um, ponta com origem. A última ponta cai em cima da primeira origem: não sobra seta nenhuma para desenhar. Meia volta seria outra história — a atleta estaria do lado oposto da pista, e o deslocamento seria a seta que atravessa o gramado. A prova adora a pista justamente por isso: a distância cresce a cada passo, o deslocamento vai e volta, e na chegada ele zera.
Somar vetores: ponta com origem
O que o mapa fez com o passageiro tem nome: regra do polígono. Para somar vetores, desenhe o primeiro; encaixe a origem do segundo na ponta do primeiro; a origem do terceiro na ponta do segundo; e assim por diante. A soma, chamada resultante, é a seta que sai da primeira origem e chega na última ponta.

A ordem não importa: some primeiro o norte e depois o leste, e a resultante sai idêntica. Há um segundo desenho para a mesma soma, útil quando os dois vetores partem do mesmo ponto: a regra do paralelogramo. Pela ponta de cada vetor, trace uma paralela ao outro; as paralelas fecham um paralelogramo, e a diagonal que sai da origem comum é a resultante. É o mesmo triângulo de antes, visto com as duas setas saindo do mesmo lugar.

Quando os dois vetores são perpendiculares, o polígono é um triângulo retângulo, e para ele existe uma ferramenta com mais de dois mil anos: o teorema de Pitágoras. O módulo da resultante é a raiz da soma dos quadrados dos módulos. Nos outros ângulos a conta muda, e o intervalo de respostas possíveis é o que a figura mostra.

Atenção
Regra de ouro: vetor não se soma como número
3 + 4 como escalar dá 7. Como vetor, pode dar 7, pode dar 5, pode dar 1 — quem manda é o ângulo. A resultante nunca passa da soma dos módulos (mesmo sentido) nem fica abaixo da diferença (sentidos opostos). Se a sua conta der 8, ou der 0,5, para módulos 3 e 4, alguma seta foi desenhada errada.
Decompor: as sombras do vetor nos eixos
Somar junta setas. Decompor faz o caminho de volta: pega uma seta inclinada e a troca por duas setas retas, uma em cada eixo, que somadas dão a original. É o passageiro ao contrário. Em vez de ir 3 para o leste e 4 para o norte e descobrir o 5, você parte do 5 inclinado e descobre o 3 e o 4.

Essas duas setas retas se chamam componentes, e funcionam como sombras. Com uma luz bem em cima, a sombra do vetor no chão é a componente x; com uma luz de lado, a sombra na parede é a componente y. Quem calcula as sombras é a trigonometria.
Definição
Componentes de um vetor
Para um vetor de módulo d que faz um ângulo com a horizontal:
- componente horizontal = d × cosseno do ângulo;
- componente vertical = d × seno do ângulo.
As duas componentes, somadas ponta com origem, devolvem o vetor original — e Pitágoras confere: o quadrado do módulo é a soma dos quadrados das componentes.
Aqui entra o triângulo mais útil desta série: o 3, 4, 5 deitado. A hipotenusa faz 37° com o lado 4, e o outro ângulo agudo tem 53°. Por isso sen 37° = 3/5 = 0,6 e cos 37° = 4/5 = 0,8. Com 53°, os dois trocam de lugar: a mesma seta de 5, inclinada 53°, faz sombra de 3 no chão e de 4 na parede.

Dica ENEM
Dica ENEM: dois números para a série inteira
A prova quase sempre entrega sen 37° = 0,6 e cos 37° = 0,8 no enunciado (ou, para 53°, os mesmos dois trocados). Se ela der 30° e 60°, os números são 0,5 e 0,87. Antes de multiplicar, olhe o desenho: a componente junto do ângulo usa o cosseno; a componente oposta ao ângulo usa o seno. Componente nunca sai maior que o módulo — se saiu, você dividiu onde era para multiplicar.
O vetor oposto e a subtração
Falta uma peça pequena, e ela fecha a caixa de ferramentas. Todo vetor tem um oposto: mesmo módulo, mesma direção, sentido contrário — a mesma seta com a ponta virada. Somar um vetor com o oposto dele dá zero, que é a volta na pista em miniatura: ir e voltar pela mesma rua. E subtrair um vetor é somar o oposto dele.

É assim que o deslocamento se escreve em símbolo: posição final menos posição inicial, a seta que leva de onde você estava até onde você está. Numa estrada reta com marcos de quilômetro, isso vira conta de menos com sinal. O passageiro embarca no marco 2 e desembarca no marco 7: o deslocamento é 7 − 2 = +5 km, no sentido do eixo. Se a corrida fosse do marco 7 para o marco 2, o deslocamento seria 2 − 7 = −5 km. O sinal de menos não é erro: é o sentido contrário ao eixo que você escolheu. O Exemplo 5 fecha a noite do passageiro com essa conta.
Exemplos resolvidos
Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos com vetores há um passo antes dos três: desenhar as setas. Sem o desenho, o ângulo se perde — e com ele a resposta.
Exemplo 1 — Sete no extrato, cinco no mapa
O passageiro percorre 3 km para o leste e depois 4 km para o norte. Qual foi a distância percorrida e qual foi o módulo do deslocamento?
Fórmula. d = soma dos trechos ; deslocamento = √(3² + 4²) (setas perpendiculares: Pitágoras)
Substituição. d = 3 + 4 ; deslocamento = √(9 + 16) = √25
Resultado. d = 7 km ; deslocamento = 5 km
Conferência. 5 é menor que 7, como a desigualdade exige. O 7 mede o caminho; o 5 mede a mudança de lugar.
Exemplo 2 — A volta na pista
Uma atleta completa uma volta numa pista de 400 m e para na linha de largada. Distância percorrida e deslocamento?
Fórmula. d = comprimento do caminho ; deslocamento = seta da partida à chegada
Substituição. d = 400 m ; partida e chegada são o mesmo ponto
Resultado. d = 400 m ; deslocamento = 0
Conferência. as quatro setas da volta, somadas ponta com origem, fecham o polígono e não deixam seta nenhuma sobrando.
Exemplo 3 — Seis e oito, de dois a catorze
Dois deslocamentos têm módulos 6 km e 8 km. Qual é a resultante quando eles são perpendiculares? E qual o maior e o menor valor possível da resultante?
Fórmula. perpendiculares: R = √(6² + 8²) ; mesmo sentido: R = 6 + 8 ; sentidos opostos: R = 8 − 6
Substituição. R = √(36 + 64) = √100 ; R = 6 + 8 ; R = 8 − 6
Resultado. R = 10 km (perpendiculares) ; R = 14 km (máximo) ; R = 2 km (mínimo)
Conferência. 6, 8 e 10 são o triângulo 3, 4, 5 dobrado. Qualquer valor entre 2 e 14 km é possível, conforme o ângulo; 15 ou 1 seriam impossíveis.
Exemplo 4 — A mala de rodinhas
Ao sair do carro, o passageiro puxa a mala pela alça com uma força de 10 N, e a alça faz 37° com o chão. Quanto dessa força leva a mala para a frente, e quanto só a levanta? (sen 37° = 0,6; cos 37° = 0,8)
Fórmula. componente horizontal = F × cos 37° ; componente vertical = F × sen 37°
Substituição. horizontal = 10 × 0,8 ; vertical = 10 × 0,6
Resultado. horizontal = 8 N (para a frente) ; vertical = 6 N (para cima)
Conferência. √(8² + 6²) = √100 = 10 N, o módulo original. Uma força inclinada faz dois serviços ao mesmo tempo, e cada um se resolve no seu eixo.

Os 8 N horizontais são os que levam a mala; os 6 N verticais aliviam o chão, que passa a sustentar menos — por isso, no desenho, a normal sai menor que o peso. O diagrama que mostra só a mala e as forças que agem nela é o diagrama de corpo livre, e ele ganha capítulo próprio na parte das leis de Newton.
Exemplo 5 — Os marcos de quilômetro
Numa rodovia reta, com os marcos crescendo no sentido do eixo, o passageiro embarca no km 2 e desembarca no km 7; mais tarde volta do km 7 ao km 2 pela mesma estrada. Qual é o deslocamento na ida, na volta e no total? E a distância percorrida total?
Fórmula. deslocamento = posição final − posição inicial ; d = soma dos trechos
Substituição. ida: 7 − 2 ; volta: 2 − 7 ; total: 2 − 2 ; d = 5 + 5
Resultado. ida: +5 km ; volta: −5 km ; total: 0 ; d = 10 km
Conferência. a volta é o vetor oposto da ida; somados, dão zero — por mais que o aplicativo cobre os 10 km de asfalto.
Radar ENEM
O ENEM cobra este capítulo quase sempre como deslocamento contra distância: um trajeto em pedaços, e a pergunta quer um dos dois números — às vezes os dois. O formato favorito é a cena do passageiro com outros números.

Um ciclista pedala 6 km para o leste e depois 8 km para o sul; qual foi o deslocamento? As setas são perpendiculares, então é Pitágoras: √(36 + 64) = 10 km. E o distrator? 14 km, a distância percorrida, posta ali de propósito para quem soma as setas como se fossem números. Outros dois formatos aparecem com frequência: a decomposição com 37° e 53°, quase sempre com força ou velocidade inclinada — um avião que decola a 100 m/s, inclinado 37°, sobe a 60 m/s e avança a 80 m/s, o mesmo triângulo em escala de aeroporto —, e a leitura de mapa, com quarteirões no lugar dos quilômetros.
Dica ENEM
Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas
- Somar os módulos quando as setas fazem ângulo — 6 + 8 = 14 só vale no mesmo sentido; perpendiculares dão 10 (Exemplo 3).
- Responder distância quando a pergunta é deslocamento (ou o contrário). Leia a pergunta duas vezes: "percorreu" pede distância; "afastou-se", "ficou a", "deslocamento" pedem a seta.
- Trocar seno e cosseno — a componente junto do ângulo usa o cosseno; a oposta usa o seno (Exemplo 4).
- Perder o sinal na reta — posição final menos inicial; o negativo é sentido, não erro (Exemplo 5).
Resumo em cinco peças

- Escalar tem só módulo; vetor tem módulo, direção e sentido — e vira seta.
- Deslocamento é a seta do início ao fim; a distância percorrida é o caminho inteiro, e o deslocamento nunca passa dela.
- Vetores se somam ponta com origem, e a resultante fecha o polígono; a soma tem um intervalo, não um valor.
- Vetores perpendiculares se somam por Pitágoras: 3, 4, 5.
- Decompor é projetar nos eixos com seno e cosseno; com 37°, os números são 0,6 e 0,8.
Se for guardar uma frase só, guarde o passageiro: sete no extrato, cinco no mapa, e os dois certos.
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As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

