Mecânica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 3: Ida a 60, volta a 40 — e a média não é 50

Capítulo 3Ida a 60, volta a 40 — e a média não é 50

Velocidade média e movimento uniforme

O motorista foi a 60, voltou a 40 e jurou média 50; o rastreador marcou 48 — as três horas a 40 pesam mais que as duas a 60, e a entrega atrasou doze minutos por essa conta de cabeça.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 3

Este capítulo acompanha o episódio 3 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 3 no YouTube

professorcanario.com.br/m1/c3/video

O caso: o motorista que jurou ter compensado

Entre o depósito e o cliente há 120 km de estrada reta. Na ida, o caminhão foi a 60 km/h. Na volta, com a pista cheia, veio a 40 km/h. Ao chegar, o motorista explicou o atraso com uma conta de cabeça: "fui a 60, voltei a 40, deu 50 de média". O rastreador da transportadora, que registra cada quilômetro e cada minuto, dizia outra coisa: 48 km/h. E a entrega tinha chegado atrasada.

Uma estrada reta liga o depósito ao cliente, com a cota de 120 km. Acima da estrada, uma seta salmão de ida, a 60 km/h, com o tempo de 2 h; abaixo, uma seta azul-céu de volta, a 40 km/h, com o tempo de 3 h. Dois cartões: conta de cabeça, 50 km/h, riscado com um X; rastreador, 48 km/h.
Figura 3.1 — A conta de cabeça divide por dois; o rastreador divide pelo tempo. O tempo é que decide.

Dois quilômetros por hora de diferença. Parece pouco, mas foram esses dois que atrasaram a entrega — e são esses dois que reprovam muita gente na prova. Onde a conta de cabeça os perdeu? Nas horas. Os 120 km da ida, a 60 km/h, levaram 2 h. Os mesmos 120 km da volta, a 40 km/h, levaram 3 h. O caminhão passou mais tempo devagar do que depressa; logo a velocidade baixa pesa mais na média. No total foram 240 km em 5 h, e 240 dividido por 5 é 48, não 50.

Este capítulo faz três coisas com essa história. Primeiro, define a velocidade média do jeito certo, como o rastreador mede, e mostra na seção da armadilha por que a média das velocidades quase nunca dá a velocidade média. Depois, estuda o movimento mais simples que existe, o movimento uniforme, em que a velocidade não muda, e a função que diz onde o móvel está a cada instante. Por fim, usa essa função para responder à pergunta que a prova mais gosta de fazer com dois carros: onde e quando eles se encontram.

Velocidade média: a conta certa

Velocidade é a grandeza que responde "quanto de posição muda por unidade de tempo". Para calculá-la num trecho inteiro de viagem, a física usa duas medidas que o capítulo 2 já separou: o deslocamento, que é a seta do ponto de partida ao ponto de chegada, e o intervalo de tempo gasto entre uma coisa e outra.

Uma reta com a origem marcada e dois pontos: a posição inicial, no instante inicial, e a posição final, no instante final. Uma seta salmão liga a posição inicial à final, com o rótulo delta ésse; abaixo, uma faixa de tempo do instante inicial ao final, com o rótulo delta tê. Um cartão traz a fórmula: velocidade média igual a delta ésse sobre delta tê.
Figura 3.2 — Velocidade média: o deslocamento dividido pelo tempo em que ele aconteceu — o trecho inteiro, de ponta a ponta.

Definição

Velocidade média e velocidade escalar média

O símbolo dessa conta é o mesmo do capítulo 2: um delta maiúsculo na frente da grandeza quer dizer "variação", final menos inicial. Delta ésse é a variação da posição; delta tê é a variação do tempo. A unidade sai da divisão: metro por segundo no SI, quilômetro por hora na estrada — e a conversão do capítulo 1 continua valendo, com o 3,6 no meio.

Um carro que percorre 300 km em 4 h tem velocidade média de 300 ÷ 4 = 75 km/h. Isso não quer dizer que o ponteiro ficou parado em 75 a viagem inteira. Ele subiu, desceu, talvez tenha parado num posto. A velocidade média apaga esses detalhes de propósito: ela troca o movimento real por um movimento inventado, com velocidade constante, que faria o mesmo deslocamento no mesmo tempo. O Exemplo 1 faz essa conta em três tempos.

Ida e volta: a média vetorial zera

Volte ao caminhão. Na ida ele se deslocou 120 km do depósito para o cliente; na volta, 120 km do cliente para o depósito. A seta da ida e a seta da volta são vetores opostos, e a soma delas é zero: no fim do dia o caminhão está onde começou. Deslocamento total zero, em 5 h de viagem — a velocidade média, a vetorial, é zero.

A mesma estrada do caso, com a ida em seta salmão acima e a volta em seta azul-céu abaixo, sentidos contrários. Dois cartões: deslocamento total zero, velocidade média zero; distância 240 km em 5 h, velocidade escalar média 48 km/h.
Figura 3.3 — Duas setas opostas somam zero: a velocidade média vetorial do dia é zero. O 48 é a velocidade escalar média.

Já a distância percorrida foi 240 km, e a velocidade escalar média é 240 ÷ 5 = 48 km/h. É o número que interessa à transportadora, ao rastreador e ao consumo de combustível, e é o que a prova costuma chamar apenas de "velocidade média" quando o problema é de estrada. Este livro segue o costume: daqui em diante, "velocidade média" num problema de ida e volta é a escalar, a menos que a questão peça o vetor.

GrandezaContaEscalar ou vetor?
velocidade médiadeslocamento ÷ tempovetor
vel. escalar médiadistância ÷ tempoescalar

Atenção

O tempo é o tempo inteiro

Na velocidade média, o intervalo de tempo é o do trecho todo, inclusive paradas. Um carro que roda 1 h e para 1 h num posto tem velocidade média calculada sobre 2 h — a hora parada não é descontada. O rastreador não desconta; a prova também não.

A armadilha do 60 e do 40

Por que 50 está errado? Porque a média simples de dois números só representa o conjunto quando os dois pesam igual. O 60 e o 40 não pesaram igual: o caminhão ficou 2 h a 60 km/h e 3 h a 40 km/h. Se você imaginar as cinco horas da viagem lado a lado, duas delas foram a 60 e três a 40.

Cinco blocos iguais em fila, um por hora da viagem. Os dois primeiros, em salmão claro, têm o rótulo 60 km/h e a etiqueta ida, 2 h; os três seguintes, em azul claro, têm o rótulo 40 km/h e a etiqueta volta, 3 h. Abaixo, a conta: 60 mais 60 mais 40 mais 40 mais 40 dividido por 5 é igual a 240 dividido por 5, igual a 48.
Figura 3.4 — Cada hora entra uma vez na média. Três horas a 40 e duas a 60: o 40 pesa mais, e a média cai para 48.

Faça a média das cinco horas, cada uma contando uma vez: 60 + 60 + 40 + 40 + 40 = 240, e 240 ÷ 5 = 48. É exatamente a conta do rastreador, distância total dividida por tempo total, vista de outro ângulo. A velocidade baixa durou mais e por isso puxou a média para baixo. O resultado fica sempre mais perto da velocidade menor — e nunca no meio exato.

E se a média simples valesse em alguma situação? Vale numa: quando os tempos dos dois trechos são iguais. Um carro que anda 1 h a 60 km/h e depois 1 h a 40 km/h percorre 60 + 40 = 100 km em 2 h, e a velocidade média é 100 ÷ 2 = 50 km/h. Aí o 50 aparece, porque cada velocidade durou o mesmo tanto. O problema do motorista era outro: as distâncias eram iguais, e nesse caso os tempos nunca são.

Duas fileiras. Em cima, mesmo tempo: um bloco de 1 h a 60 km/h e um bloco de 1 h a 40 km/h; 100 km em 2 h, média 50 km/h. Embaixo, mesma distância: um bloco de 2 h a 60 km/h e um bloco de 3 h a 40 km/h; 240 km em 5 h, média 48 km/h.
Figura 3.5 — Tempos iguais: a média simples funciona. Distâncias iguais: não funciona nunca.

Atenção

Regra de ouro: velocidade média não é média das velocidades

Para achar a velocidade média de uma viagem em etapas, some as distâncias, some os tempos e divida. Nunca some as velocidades e divida por dois. A única exceção é o caso de tempos iguais — e mesmo nele a regra de ouro dá a resposta certa, então ela nunca falha.

Dica ENEM

Dica ENEM: o atalho para dois trechos iguais

Quando a ida e a volta têm a mesma distância, existe um atalho: velocidade média = 2 × (primeira velocidade) × (segunda velocidade) ÷ (soma das duas). Para 60 e 40: 2 × 60 × 40 ÷ (60 + 40) = 4 800 ÷ 100 = 48 km/h. O atalho só vale para distâncias iguais; na dúvida, volte à regra de ouro, que vale sempre. E se a sua resposta deu exatamente a média simples num problema de ida e volta, desconfie: é o distrator.

Movimento uniforme: o metrônomo

A velocidade média inventa um movimento de velocidade constante para substituir o real. Esse movimento inventado existe de verdade, e é o mais simples da física: o movimento uniforme, MU. Nele a velocidade não muda em nada — nem o módulo, nem a direção, nem o sentido. O móvel segue em linha reta e, em intervalos de tempo iguais, percorre deslocamentos iguais.

Uma estrada reta com marcas a cada 5 m, de 0 a 20 m. Sobre ela, cinco posições do mesmo carrinho, uma por segundo, de t igual a 0 s até t igual a 4 s, sempre à mesma distância uma da outra. Chaves entre as posições repetem: 5 m em 1 s. No canto, um metrônomo com o pêndulo inclinado.
Figura 3.6 — No movimento uniforme cada tique do relógio vale o mesmo pedaço de estrada: 5 m a cada segundo, sempre.

Pense num metrônomo, o relógio de tique-taque dos músicos. A cada tique o móvel avança o mesmo tanto: 5 m no primeiro segundo, 5 m no segundo, 5 m no terceiro. A pista fica marcada em passos iguais, e a velocidade em qualquer trecho, curto ou longo, é a mesma: 5 m/s. No MU, portanto, a velocidade média de qualquer pedaço da viagem é igual à velocidade do móvel — não há o que inventar, porque o movimento real já é constante.

Definição

Movimento uniforme (MU)

Uniforme não quer dizer devagar. Um avião de cruzeiro a 900 km/h, que são 250 m/s, em linha reta e sem sacudir, está em movimento uniforme, e um pedestre que apressa o passo a cada quarteirão não está. Uniforme também não quer dizer "empurrado": manter a velocidade constante não pede força nenhuma, e a primeira lei de Newton, no capítulo 9, explica por quê. Por ora, guarde a imagem do metrônomo: tique, 5 m; tique, 5 m; tique, 5 m.

A função horária: onde o móvel está a cada instante

Se cada segundo vale o mesmo pedaço de estrada, dá para prever onde o móvel estará em qualquer instante. Antes da fórmula, o combinado da série, que vem do capítulo 2: diga de onde você está olhando. Escolha a origem da estrada, o sentido positivo do eixo e o instante em que o cronômetro foi zerado. Feito isso, a posição no instante zero se chama posição inicial, e a receita é uma só.

Definição

Função horária do movimento uniforme

posição no instante t = posição inicial + velocidade × t, que se escreve s = s0 + v × t (leia "ésse zero": é a posição quando o relógio marcava zero). A fórmula guarda dois números: onde o móvel começou e quanto ele anda por unidade de tempo. O resto é multiplicar e somar.

Uma reta de posições em metros, de 0 a 45, com a origem marcada. Um ponto salmão em 20 m tem a etiqueta t igual a 0 s, a posição inicial; à direita, pontos em 25, 30, 35 e 40 m com as etiquetas t igual a 1, 2, 3 e 4 segundos. Um cartão mostra a função s igual a 20 mais 5 t, com o 20 apontando para a posição inicial e o 5 apontando para o passo entre pontos vizinhos.
Figura 3.7 — s = 20 + 5t: partiu do marco 20 m e anda 5 m a cada segundo. Em t = 4 s está em 40 m.

Tome o móvel da figura: s = 20 + 5t, com s em metros e t em segundos. O 20 diz que ele partiu do marco 20 m; o 5 diz que ele anda 5 m por segundo. Em t = 4 s, s = 20 + 5 × 4 = 40 m. Em t = 0, s = 20 m — a posição inicial, como prometido. E a leitura funciona ao contrário: recebeu uma equação pronta, s = 100 − 6t, e já sabe que o móvel partiu do marco 100 m e que a velocidade é −6 m/s. O sinal de menos não é erro: é o sentido, contra o eixo escolhido.

Uma estrada reta com o sentido positivo indicado para a direita. Um móvel A parte da origem para a direita, com a etiqueta s igual a 4 t e velocidade mais 4 m/s, progressivo. Um móvel B parte do marco 100 m para a esquerda, com a etiqueta s igual a 100 menos 6 t e velocidade menos 6 m/s, retrógrado.
Figura 3.8 — O sinal da velocidade é o sentido: a favor do eixo, progressivo; contra, retrógrado.

Movimento a favor do eixo, com velocidade positiva, se chama progressivo; contra o eixo, com velocidade negativa, retrógrado. Os nomes importam menos que a ideia: o sinal da velocidade é o sinal do deslocamento, e o eixo foi você quem escolheu. Um último aviso, que serve de ponte para a trilha de matemática: s = s0 + v × t é uma função afim — a matemática vai chamá-la de f(x) = ax + b, com o coeficiente a fazendo o papel da velocidade e o b, o da posição inicial. É a mesma receita com outros nomes.

Dica ENEM

Dica ENEM: leia as unidades antes de substituir

A função horária vem quase sempre "no SI": s em metros, t em segundos, v em metros por segundo. Se a pergunta der um tempo em minutos, converta antes de substituir; se der velocidade em km/h e pedir posição em metros, o 3,6 entra primeiro. A regra de ouro do capítulo 1 continua: arrume as unidades, depois faça a conta.

Os gráficos do movimento uniforme

Uma função afim tem cara conhecida no gráfico: é uma reta. Ponha o tempo no eixo horizontal e a posição no vertical, marque o móvel de s = 20 + 5t em t = 0, 1, 2, 3 e 4 s, e os pontos se alinham. A reta começa em 20 m, na posição inicial, e sobe 5 m a cada segundo.

Gráfico de posição por tempo. O eixo horizontal vai de 0 a 4 s e o vertical de 0 a 40 m. Uma reta azul parte de 20 m em t igual a zero e chega a 40 m em t igual a 4 s. Um triângulo tracejado mostra a subida de 20 m para um avanço de 4 s, com o rótulo inclinação igual a 20 dividido por 4, igual a 5 m/s.
Figura 3.9 — O gráfico s × t do MU é uma reta. A inclinação, quanto sobe por quanto avança, é a velocidade.

A informação mais valiosa desse gráfico é a inclinação da reta: quanto a posição sobe dividido por quanto o tempo avança. Entre t = 0 e t = 4 s a posição subiu de 20 m para 40 m; 20 m em 4 s dão 5 m/s, a velocidade. Reta mais íngreme, móvel mais rápido. Reta horizontal, posição que não muda: móvel parado. Reta que desce, posição diminuindo: movimento retrógrado, velocidade negativa.

Três gráficos pequenos de posição por tempo, lado a lado. No primeiro, uma reta subindo, com o rótulo v maior que zero, progressivo. No segundo, uma reta horizontal, com o rótulo v igual a zero, parado. No terceiro, uma reta descendo, com o rótulo v menor que zero, retrógrado.
Figura 3.10 — Três retas, três movimentos: subindo, parado, descendo. O sinal da inclinação é o sinal da velocidade.

O gráfico da velocidade pelo tempo é mais modesto e igualmente útil. Como a velocidade não muda, v × t é uma linha horizontal: 5 m/s em t = 0, 5 m/s em t = 4 s, 5 m/s sempre. Repare no retângulo que fica entre essa linha e o eixo do tempo, de 0 a 4 s: ele tem base 4 s e altura 5 m/s, e a área é 5 × 4 = 20 m — exatamente quanto o móvel andou nesse intervalo. Guarde a observação; ela vira a ferramenta principal do capítulo 5.

Gráfico de velocidade por tempo. O eixo horizontal vai de 0 a 4 s e o vertical até 6 m/s. Uma linha horizontal salmão em 5 m/s atravessa o gráfico; o retângulo entre ela e o eixo do tempo, de 0 a 4 s, está preenchido e traz o rótulo área igual a 5 vezes 4, igual a 20 m.
Figura 3.11 — No MU, v × t é um patamar. O retângulo embaixo dele mede o deslocamento: 5 m/s durante 4 s são 20 m.

Atenção

O gráfico não é o caminho

Uma reta que sobe no gráfico s × t não quer dizer que o móvel subiu uma ladeira: ele pode estar numa avenida plana. O gráfico mostra a posição contra o tempo, não o desenho da estrada. O capítulo 5 volta a isso com um contraexemplo; por ora, leia o eixo vertical como "onde", nunca como "altura".

Encontro de dois móveis

Dois móveis na mesma estrada, cada um com a sua função horária, se encontram quando estão na mesma posição no mesmo instante. Para achar esse instante, basta igualar as duas funções — desde que as duas usem o mesmo eixo, a mesma origem e o mesmo relógio, o combinado de sempre.

Gráfico de posição por tempo com duas retas. A reta salmão do móvel A parte da origem e sobe, s igual a 4 t; a reta azul-céu do móvel B parte de 100 m e desce, s igual a 100 menos 6 t. Elas se cruzam num ponto destacado em t igual a 10 s e s igual a 40 m, com linhas tracejadas até os dois eixos e o cartão: mesma posição, mesmo instante.
Figura 3.12 — O encontro é o cruzamento das retas: em t = 10 s os dois estão no marco 40 m.

Tome os dois móveis da seção anterior. O móvel A parte da origem a 4 m/s: s = 4t. O móvel B parte do marco 100 m em sentido contrário, a 6 m/s: s = 100 − 6t. Eles estão na mesma posição quando 4t = 100 − 6t, isto é, 10t = 100, t = 10 s. Onde? Em A, s = 4 × 10 = 40 m; em B, s = 100 − 6 × 10 = 40 m — o mesmo número pelos dois caminhos, o que é a conferência. No gráfico, é o ponto onde as retas se cruzam.

Definição

Encontro

Dois móveis se encontram no instante em que as funções horárias dão a mesma posição. Receita: iguale as duas funções, resolva para t, substitua t em qualquer uma delas para achar a posição — e na outra, para conferir. Quando os móveis vão no mesmo sentido e o de trás alcança o da frente, o nome muda para ultrapassagem, mas a conta é idêntica.

Repare que 100 m dividido por 10 s dá 10 m/s, que é 4 + 6: em sentidos contrários, os dois móveis "fecham" a distância entre eles com a soma das velocidades. É um jeito rápido de conferir o instante do encontro — e de desconfiar de uma resposta como 25 s, que sairia de quem dividisse os 100 m só pelos 4 m/s de um deles.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo há um passo antes dos três, herdado do capítulo 2: diga de onde você está olhando — origem, sentido positivo e instante zero.

Exemplo 1 — Trezentos quilômetros em quatro horas

Um carro percorre 300 km de estrada em 4 h, com paradas e tudo. Qual foi a velocidade média da viagem?

Fórmula. velocidade média = distância ÷ tempo

Substituição. v = 300 km ÷ 4 h

Resultado. v = 75 km/h

Conferência. 75 km/h é pouco menos de 21 m/s (75 ÷ 3,6). O ponteiro não ficou em 75 o tempo todo; 75 é a velocidade constante que faria os mesmos 300 km nas mesmas 4 h.

Exemplo 2 — Ida a 60, volta a 40

O caminhão vai do depósito ao cliente, 120 km, a 60 km/h, e volta pelo mesmo caminho a 40 km/h. Qual foi a velocidade escalar média da viagem completa?

Fórmula. tempo de cada trecho = distância ÷ velocidade ; velocidade média = distância total ÷ tempo total

Substituição. ida: 120 ÷ 60 = 2 h ; volta: 120 ÷ 40 = 3 h ; v = (120 + 120) ÷ (2 + 3) = 240 ÷ 5

Resultado. v = 48 km/h

Conferência. mais perto de 40 que de 60, porque o trecho a 40 durou mais. O atalho para trechos iguais confirma: 2 × 60 × 40 ÷ 100 = 48. A média simples, 50, é o distrator.

Exemplo 3 — Ler a função horária

Um móvel obedece a s = 20 + 5t, com s em metros e t em segundos. Onde ele estava no instante zero, onde está em t = 4 s e em que instante passa pelo marco 60 m?

Fórmula. s = s0 + v × t ; para achar t: t = (s − s0) ÷ v

Substituição. em t = 0: s = 20 + 5 × 0 ; em t = 4 s: s = 20 + 5 × 4 ; para s = 60 m: t = (60 − 20) ÷ 5

Resultado. s = 20 m em t = 0 ; s = 40 m em t = 4 s ; passa por 60 m em t = 8 s

Conferência. de 20 a 60 m são 40 m; a 5 m/s, 40 m levam 8 s. Cada segundo, 5 m: o metrônomo.

Exemplo 4 — O encontro

Na mesma estrada, o móvel A obedece a s = 4t e o móvel B a s = 100 − 6t (SI). Em que instante e em que posição eles se encontram?

Fórmula. encontro: posição de A = posição de B ; depois, s em qualquer das duas

Substituição. 4t = 100 − 6t → 10t = 100 → t = 100 ÷ 10 ; s = 4 × 10

Resultado. t = 10 s ; s = 40 m

Conferência. em B, s = 100 − 6 × 10 = 40 m, o mesmo marco. Os 100 m iniciais foram fechados a 4 + 6 = 10 m/s em 10 s.

Duas linhas de tempo, uma sobre a outra, com a mesma escala de horas. A de cima, prevista, vai de 0 a 4 h 48 min, com o rótulo 240 km a 50 km/h; a de baixo, real, vai de 0 a 5 h, com o rótulo 240 km a 48 km/h. A diferença entre os fins, 12 min, está destacada em salmão.
Figura 3.13 — O Exemplo 5 em desenho: o atraso da entrega é a diferença entre a viagem prevista com o 50 e a viagem real com o 48.

Exemplo 5 — O atraso da entrega

A transportadora planejou a viagem de ida e volta, 240 km, com a média que o motorista jurou: 50 km/h. Quanto tempo previu, quanto tempo a viagem levou de fato e de quanto foi o atraso?

Fórmula. tempo = distância ÷ velocidade ; atraso = tempo real − tempo previsto

Substituição. previsto: 240 ÷ 50 ; real: 240 ÷ 48 ; atraso: 5 − 4,8

Resultado. previsto: 4,8 h = 4 h 48 min ; real: 5 h ; atraso: 0,2 h = 12 min

Conferência. o tempo real também sai direto dos trechos, 2 h + 3 h = 5 h. E 0,2 h × 60 min/h = 12 min: foi o que a conta de cabeça custou.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos, e o primeiro é o próprio caso: velocidade média em duas etapas, quase sempre com distâncias iguais e velocidades diferentes, com a média simples plantada entre as alternativas.

Uma viagem de ida e volta com 180 km em cada sentido: ida a 90 km/h em 2 h, volta a 60 km/h em 3 h. Ao lado, o cartão "velocidade média 72 km/h" e, riscado com um X, o cartão "75 km/h": o distrator da média simples.
Figura 3.14 — Pediu velocidade média? Some as distâncias, some os tempos e divida. O 75 está na alternativa para quem soma as velocidades.

Ida a 90 km/h e volta a 60 km/h, 180 km em cada sentido: 2 h de ida, 3 h de volta, 360 km em 5 h — 72 km/h. O distrator? 75 km/h, a média simples, ali de propósito. Os outros três formatos são a leitura da função horária (a prova dá s = 50 + 20t e pergunta a posição num instante, ou a velocidade, ou o instante em que o móvel passa por certo marco), o encontro ou a ultrapassagem de dois móveis (igualar as funções) e a leitura do gráfico s × t de uma reta (inclinação é velocidade; reta descendo é velocidade negativa).

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: velocidade média é deslocamento sobre tempo, nunca média das velocidades; movimento uniforme tem velocidade constante e aceleração zero; s igual a s zero mais v vezes t; o gráfico s por t é uma reta cuja inclinação é a velocidade; encontro é mesma posição no mesmo instante.
Figura 3.15 — O capítulo em cinco peças.
  1. Velocidade média é deslocamento dividido por tempo — some as distâncias, some os tempos, divida; nunca faça a média das velocidades.
  2. Movimento uniforme: velocidade constante em módulo, direção e sentido; deslocamentos iguais em tempos iguais; aceleração zero.
  3. Função horária: s = s0 + v × t. O primeiro número é onde começou; o segundo, quanto anda por unidade de tempo.
  4. No gráfico s × t o MU é uma reta, e a inclinação é a velocidade; no gráfico v × t é um patamar.
  5. Encontro: mesma posição, mesmo instante — iguale as funções horárias.

Se for guardar uma frase só, guarde o motorista: foi a 60, voltou a 40, e a média deu 48, porque as três horas a 40 pesam mais que as duas a 60.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 3

professorcanario.com.br/m1/c3/lista