Mecânica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 8: O que o conta-giros do carro está contando

Capítulo 8O que o conta-giros do carro está contando

Movimento circular uniforme

O conta-giros marca 3 000 nas duas marchas e o carro anda o dobro numa delas; na parede, três ponteiros giram no mesmo eixo e o dos segundos é 60 vezes mais rápido — girar igual não é andar igual, e nem parece, mas todos eles estão acelerando.

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O caso: 3 000 no painel, três ponteiros no mostrador

Noite, estrada vazia. No painel, ao lado do velocímetro, há um segundo mostrador que quase ninguém lê: o conta-giros. A agulha marca 3 000. Três mil o quê? Não é quilômetro por hora, porque o carro vai a 100. Não é metro, não é segundo. E há uma segunda estranheza: o motorista passa da terceira para a quinta marcha, o conta-giros volta aos mesmos 3 000 — e o carro anda o dobro. O motor gira igual; o carro, não.

Dois mostradores lado a lado. À esquerda, o conta-giros de um carro, com a agulha em 3 000 e a pergunta "3 000 o quê?". À direita, um relógio de parede com três ponteiros: horas, minutos e segundos, o dos segundos destacado. Embaixo, dois cartões: "quinta marcha: o dobro da terceira, no mesmo giro" e "segundos: 60 vezes mais rápido que minutos".
Figura 8.1 — O painel e o relógio fazem a mesma pergunta: girar igual não é andar igual.

A resposta está pendurada na parede de qualquer sala. O relógio tem três ponteiros presos no mesmo eixo, girando no mesmo mostrador, e nenhum deles anda na mesma velocidade que o outro. O dos segundos dá uma volta a cada minuto; o dos minutos, uma a cada hora. O dos segundos é 60 vezes mais rápido — e, no entanto, os dois giram "sempre igual", sem acelerar nem frear em nenhum ponto da volta.

Girar sempre igual tem nome: movimento circular uniforme. Este capítulo aprende a medi-lo com quatro números — período, frequência, velocidade angular e velocidade linear —, descobre que ele esconde uma aceleração que o velocímetro não mostra, e termina no que o conta-giros conta de verdade: rotações por minuto, o mesmo 3 000 que a transmissão transforma em velocidades diferentes conforme a marcha. O relógio, o conta-giros e a bicicleta obedecem às mesmas três regras.

Período e frequência: quanto dura uma volta

Todo movimento circular uniforme se repete: a cada volta, o ponto passa pelo mesmo lugar, com a mesma rapidez. Quando algo se repete, há duas perguntas naturais. Quanto tempo dura uma repetição? Quantas repetições cabem em um segundo? As respostas são o período e a frequência, os mesmos dois números que a série de Ondulatória usou para o vaivém de uma onda — aqui, a repetição é uma volta completa.

Uma circunferência em linha fina com um ponto marcado na posição inicial e uma seta curva percorrendo a volta inteira de volta ao mesmo ponto. Um cartão à esquerda: "uma volta: T segundos"; um cartão à direita: "um segundo: f voltas". Embaixo, f igual a 1 sobre T.
Figura 8.2 — Período mede o tempo de uma volta; frequência conta as voltas de um segundo. Um é o inverso do outro.

Definição

Período e frequência

Os dois são escalares: um tempo e uma contagem. Nenhum deles ganha seta. E o hertz tem um parente que aparece em todo painel de carro, furadeira e liquidificador: a rotação por minuto. Rpm é frequência medida em minutos em vez de segundos. Como um minuto tem 60 segundos, a conversão é uma divisão só.

rotaçãofrequênciaperíodo
60 rpm1 Hz1 s
600 rpm10 Hz0,1 s
3 000 rpm50 Hz0,02 s

Atenção

Rpm não é hertz

Rpm conta voltas por minuto; hertz conta voltas por segundo. Antes de qualquer fórmula, divida por 60: 3 000 rpm são 50 Hz, e o período é 1/50 = 0,02 s. Quem esquece a divisão calcula tudo 60 vezes maior — e a alternativa com esse erro costuma estar na prova.

O relógio da parede entrega os três períodos de cabeça. O ponteiro dos segundos dá uma volta em 60 s; o dos minutos, em uma hora, 3 600 s; o das horas, em doze horas, 43 200 s. As frequências são os inversos: 1/60 Hz, 1/3 600 Hz e 1/43 200 Hz. Números pequenos, porque relógio é lento; mas a comparação entre eles já responde metade do caso: o período dos minutos é 60 vezes o dos segundos, e a frequência, 60 vezes menor.

ponteirouma volta emvoltas por hora
segundos60 s60
minutos3 600 s1
horas43 200 s1/12

Velocidade angular: quanto ângulo por segundo

Período e frequência dizem quantas voltas; não dizem quanto de volta. Para medir "quanto de volta" a cada segundo, é preciso medir ângulo, e a física mede ângulo de um jeito que não é o grau. É o radiano: o ângulo cujo arco tem o comprimento do raio. Uma volta completa tem um arco de 2πR, logo vale 2π radianos, cerca de 6,28 rad; meia volta é π rad; um quarto de volta, π/2 ≈ 1,57 rad. Um radiano é um pouco menos que 60°: aproximadamente 57°.

Um setor de circunferência com raio R. O arco do setor tem comprimento igual ao raio e o ângulo central está marcado como 1 radiano, cerca de 57 graus. Ao lado, a volta inteira com a anotação 2π rad, aproximadamente 6,28 rad, e uma meia volta com π rad.
Figura 8.3 — O radiano é o ângulo cujo arco mede um raio. A volta inteira tem 2π deles.

A vantagem do radiano é uma só, e é grande: com o ângulo em radianos, o comprimento do arco é o ângulo vezes o raio. Um ângulo de 2 rad num raio de 3 m abre um arco de 6 m; a volta inteira, 2π rad, abre 2πR, que é o comprimento da circunferência. Grau não faz isso; radiano faz.

Definição

Velocidade angular

A velocidade angular (ω, leia "ômega") é o ângulo varrido por segundo. Como uma volta é 2π rad e dura T segundos:

ω = 2π/T = 2π·f, em radianos por segundo (rad/s).

Todo ponto de um mesmo corpo rígido que gira tem a mesma velocidade angular: a borda e o centro da roda varrem o mesmo ângulo no mesmo tempo.

Uma roda a 60 rpm dá uma volta por segundo: f = 1 Hz, T = 1 s, e ω = 2π/1 ≈ 6,28 rad/s, que este livro arredonda para 6,3 rad/s. O motor a 3 000 rpm, 50 Hz, tem ω = 2π × 50 ≈ 314 rad/s. O ponteiro dos segundos, com T = 60 s, tem ω = 2π/60 ≈ 0,105 rad/s; o dos minutos, 2π/3 600 ≈ 0,00175 rad/s — sessenta vezes menos, porque o período é sessenta vezes mais. A velocidade angular é a régua justa para comparar ponteiros: mede quanto cada um gira, sem se importar com o tamanho de cada um.

Dica ENEM

Dica ENEM: rpm entra, rad/s sai

O caminho mais curto na prova é rpm → Hz (divide por 60) → ω (multiplica por 2π). Quando o enunciado disser "adote π = 3", uma volta vale 6 rad e ω = 6·f: 5 Hz dão 30 rad/s. Quando não disser, use π ≈ 3,14 e arredonde no fim, nunca no meio.

Velocidade linear: quanto caminho por segundo

Agora a pergunta que o velocímetro responde: quantos metros o ponto percorre por segundo. Em uma volta, ele percorre a circunferência inteira, 2πR, no tempo T. Logo a velocidade linear é v = 2πR/T. Como 2π/T é ω, a mesma conta se escreve v = ωR — e essa forma diz tudo: para o mesmo giro, quem está mais longe do centro anda mais.

Um disco girando, visto de cima, com dois pontos marcados: um a 0,5 m do centro e outro na borda, a 1 m. De cada ponto sai uma seta salmão tangente à circunferência, a da borda com o dobro do comprimento. Cartão: mesma velocidade angular, 6,3 rad/s; velocidades lineares 3,1 m/s e 6,3 m/s. As trajetórias circulares estão em linha fina.
Figura 8.4 — Mesmo giro, mesma ω; o ponto da borda tem o dobro do raio e o dobro da velocidade linear.

O disco da figura dá uma volta por segundo. O ponto a 0,5 m do centro percorre 2π × 0,5 ≈ 3,1 m a cada segundo; o ponto da borda, a 1 m, percorre 2π × 1 ≈ 6,3 m. Os dois varrem o mesmo ângulo, e um anda o dobro do outro. É por isso que, num carrossel, a criança no cavalo de fora sente mais vento que a do cavalo de dentro: mesma ω, raio maior, velocidade maior.

A velocidade linear é vetor. O módulo é v = ωR, mas a seta é sempre tangente à circunferência, apontando para onde o ponto iria se soltasse — a pedra da funda sai reta, pela tangente, não pelo raio. Guarde isso, porque é a chave da próxima seção.

Atenção

Mesmo eixo, mesma ω — e mesmo assim a borda anda mais

Velocidade angular e velocidade linear não são a mesma coisa com dois nomes. Dois pontos da mesma roda têm sempre a mesma ω; só têm a mesma v se estiverem à mesma distância do centro. Quando a prova pergunta "qual ponto gira mais rápido", olhe se ela quer voltas por segundo (iguais) ou metros por segundo (maior na borda).

A aceleração que o velocímetro não mostra: centrípeta

Aqui mora o erro mais repetido sobre o movimento circular: "a velocidade é constante, então não há aceleração". O velocímetro parado em 36 km/h numa rotatória parece confirmar. Mas o velocímetro mostra só o módulo. A velocidade é uma seta, e numa curva a seta gira o tempo todo — aponta para o norte, depois para o oeste, depois para o sul. Uma velocidade que muda de direção é uma velocidade que muda; e velocidade que muda é aceleração, por definição, mesmo com o módulo travado.

Uma circunferência em linha fina com um ponto em quatro posições: em cima, à esquerda, embaixo e à direita. Em cada posição, uma seta salmão tangente de mesmo comprimento, apontando em direções diferentes, e uma seta azul menor apontando do ponto para o centro. Cartão: "mesmo módulo, direção diferente: a velocidade mudou". No centro, a legenda "aceleração centrípeta: sempre para o centro".
Figura 8.5 — Quatro instantes, quatro setas de velocidade do mesmo tamanho e de direções diferentes. O que muda a direção é a aceleração para o centro.

Para onde aponta essa aceleração? Ela não muda o módulo da velocidade, então não pode ter nada ao longo da seta de velocidade — não empurra para a frente nem freia. Só sobra a direção perpendicular à velocidade, e, na circunferência, perpendicular à tangente é o raio. A aceleração aponta para o centro, a cada instante, e por isso se chama centrípeta: "que busca o centro".

Definição

Aceleração centrípeta

No movimento circular uniforme, a única aceleração é a centrípeta, sempre dirigida ao centro da circunferência, com módulo

ac = v²/R = ω²·R,

em m/s². Ela muda a direção da velocidade sem mudar o módulo. Dobrar a velocidade quadruplica a aceleração; dobrar o raio, com a mesma velocidade, reduz a aceleração à metade.

Vista de cima de uma curva circular de raio 50 m. Um carro na curva a 10 m/s, com a seta salmão de velocidade tangente à pista e uma seta azul, a aceleração centrípeta, apontando do carro para o centro da curva. Cotas: R igual a 50 m; v igual a 10 m/s; aceleração igual a 2 metros por segundo ao quadrado.
Figura 8.6 — Carro a 10 m/s numa curva de 50 m de raio: 2 m/s² de aceleração, todos apontando para o centro.

Um carro a 10 m/s numa curva de 50 m de raio tem aceleração centrípeta de 10²/50 = 100/50 = 2 m/s². A mesma curva a 20 m/s exigiria 400/50 = 8 m/s², quatro vezes mais — e é por isso que curva fechada em alta velocidade é perigosa: o que faz o carro ficar na curva precisa produzir uma aceleração que cresce com o quadrado da velocidade. Quem produz essa aceleração — o atrito do pneu, a tração de um fio, o peso de um satélite — é assunto do capítulo 14; aqui só medimos quanto ela vale.

Atenção

Uniforme não quer dizer sem aceleração

"Uniforme" no movimento circular uniforme quer dizer módulo da velocidade constante. A direção muda a cada instante, e por isso existe aceleração: a centrípeta, para o centro. Uma alternativa que diga "a aceleração é nula porque a velocidade é constante" está errada duas vezes: a velocidade não é constante (é uma seta que gira) e a aceleração não é nula.

Transmissão: correia, eixo e engrenagem

Falta explicar o carro que anda o dobro com o motor girando igual. Máquinas que giram raramente giram sozinhas: o motor gira um eixo, o eixo move uma engrenagem, a engrenagem move outra, e no fim a roda gira. Cada ligação transmite o giro com uma regra própria, e são só duas.

Duas polias ligadas por uma correia, em linha fina: a polia 1, com raio de 10 cm, e a polia 2, com raio de 20 cm. Setas salmão de mesmo comprimento nos dois lados da correia indicam a mesma velocidade linear. Cartão: polia 1 a 2 Hz, polia 2 a 1 Hz; correia a 1,3 m/s nos dois lados.
Figura 8.7 — A correia leva a mesma velocidade linear às duas polias; a maior, com o dobro do raio, gira com a metade da frequência.

Definição

As duas regras da transmissão

Na figura, a polia 1 tem 10 cm de raio e gira a 2 Hz; a correia sai dela a 2π × 0,10 × 2 ≈ 1,26 m/s e chega à polia 2 com essa mesma velocidade. Como a polia 2 tem 20 cm de raio, o dobro, ela precisa de metade das voltas para engolir o mesmo comprimento de correia: 1 Hz. A regra é sempre a mesma: raio duas vezes maior, frequência duas vezes menor.

Uma bicicleta em esquema: o pedal e a coroa no mesmo eixo, a corrente ligando a coroa à catraca, e a catraca no mesmo eixo da roda traseira. Três rótulos: "pedal e coroa: mesma ω", "corrente: mesma v", "catraca e roda: mesma ω". Cotas: coroa 10 cm, catraca 5 cm, roda 0,35 m; pedal a 1 Hz, catraca e roda a 2 Hz, roda a 4,4 m/s.
Figura 8.8 — Três regras numa pedalada: mesma ω no pedal, mesma v na corrente, mesma ω na roda.

A bicicleta usa as duas regras numa pedalada só. O pedal e a coroa estão no mesmo eixo: mesma ω. A corrente liga a coroa à catraca: mesma v na borda das duas. A catraca e a roda traseira estão no mesmo eixo: mesma ω de novo. Com a coroa de 10 cm e a catraca de 5 cm, cada volta do pedal vira duas voltas da catraca — e da roda. Pedalando a 1 Hz, a roda gira a 2 Hz; com 0,35 m de raio, a borda da roda anda a 2π × 0,35 × 2 ≈ 4,4 m/s, uns 16 km/h. Passar a corrente para uma catraca menor aumenta a frequência da roda com o mesmo pedal: a marcha "mais pesada" da bicicleta é a de catraca menor.

Dica ENEM

Dica ENEM: a pergunta é sempre "o que é igual?"

Em toda questão de polias, engrenagens ou bicicleta, antes de qualquer conta decida o que as duas peças têm em comum. Ligadas por correia, corrente ou dentes: a mesma velocidade linear — a de raio menor gira mais. Presas no mesmo eixo: a mesma velocidade angular — a de raio maior anda mais. Errar essa escolha inverte a resposta.

O caso resolvido: o painel e o mostrador

O conta-giros conta rotações por minuto do motor: 3 000 rpm são 50 voltas por segundo, um período de 0,02 s, uma velocidade angular de 314 rad/s. Entre o motor e a roda há a caixa de marchas, que é um conjunto de engrenagens — e engrenagem obedece à primeira regra: raio menor, frequência maior. Cada marcha liga o motor à roda por um par de engrenagens diferente, e por isso a mesma rotação do motor vira rotações diferentes da roda.

Esquema com o motor à esquerda, marcando 3 000 rpm, ligado à roda por dois caminhos de engrenagens: a terceira marcha, que leva a roda a 450 rpm, e a quinta, que leva a roda a 900 rpm. A roda tem 0,3 m de raio. Cartões: terceira, 14,1 m/s, cerca de 51 km/h; quinta, 28,3 m/s, cerca de 102 km/h.
Figura 8.9 — O motor gira igual nas duas marchas; a roda, não. Quinta: o dobro de voltas, o dobro de velocidade.

Num carro de exemplo, com o motor a 3 000 rpm, a terceira marcha faz a roda girar a 450 rpm e a quinta, a 900 rpm — o dobro. A roda é a mesma, com 0,3 m de raio, e v = 2πR·f: em terceira, 2π × 0,3 × 7,5 ≈ 14,1 m/s, cerca de 51 km/h; em quinta, 2π × 0,3 × 15 ≈ 28,3 m/s, cerca de 102 km/h. O motor não fez mais força nem girou mais depressa; a caixa de marchas trocou a razão entre os raios, e a roda dobrou a frequência. O conta-giros não mede velocidade do carro. Mede a frequência do motor, e a marcha decide o que ela vira na roda.

Um relógio de parede em esquema, com os três ponteiros saindo do mesmo eixo. Ao lado de cada um, o período: segundos, 60 s; minutos, 3 600 s; horas, 43 200 s. Uma seta salmão pequena na ponta do ponteiro dos segundos, tangente, marcada 1,6 cm/s. Cartão: mesmo eixo, e ω diferentes — porque não estão presos um ao outro.
Figura 8.10 — Três ponteiros no mesmo eixo, mas não no mesmo giro: cada um tem seu período, e o dos segundos é o mais rápido.

E o relógio? Os três ponteiros estão no mesmo eixo, mas não presos um ao outro: um mecanismo de engrenagens dentro do relógio dá a cada um a sua frequência, exatamente como a caixa de marchas faz com a roda. O ponteiro dos segundos tem ω = 2π/60 rad/s; o dos minutos, 2π/3 600 rad/s. A razão entre os dois é 3 600/60 = 60: o dos segundos é 60 vezes mais rápido, como a abertura prometeu. E a ponta dele, num ponteiro de 15 cm, anda a 2π × 0,15/60 ≈ 0,016 m/s — 1,6 cm por segundo, com uma aceleração centrípeta minúscula apontando para o eixo, o tempo inteiro, mesmo girando sempre igual.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo há um passo antes dos três: converter para segundos e hertz — rpm vira Hz dividindo por 60, e centímetros viram metros — e desenhar as duas setas, a velocidade tangente e a aceleração para o centro.

Exemplo 1 — A roda a 60 rpm

Uma roda gira a 60 rpm. Qual é a frequência, o período e a velocidade angular dela? (π ≈ 3,14)

Fórmula. f = rpm ÷ 60 ; T = 1/f ; ω = 2π/T

Substituição. f = 60 ÷ 60 ; T = 1/1 ; ω = 2 × 3,14 ÷ 1

Resultado. f = 1 Hz ; T = 1 s ; ω ≈ 6,3 rad/s

Conferência. 6,3 rad/s durante 1 s varre 6,3 rad, que é 2π: exatamente uma volta, como 60 rpm prometia.

Exemplo 2 — A borda da roda

A mesma roda do Exemplo 1 tem 0,5 m de raio. Qual é a velocidade linear de um ponto da borda? (π ≈ 3,14)

Fórmula. v = 2πR/T

Substituição. v = 2 × 3,14 × 0,5 ÷ 1

Resultado. v ≈ 3,1 m/s

Conferência. pela outra forma, v = ωR = 6,28 × 0,5 = 3,14 m/s. Em 1 s o ponto percorre a circunferência inteira, 2π × 0,5 ≈ 3,1 m: a conta fecha.

O carro do Exemplo 3 visto de cima numa curva de 50 m de raio, com a seta salmão de velocidade tangente, de 10 m/s, e a seta azul da aceleração centrípeta, de 2 metros por segundo ao quadrado, apontando para o centro. Ao lado, a mesma curva a 20 m/s, com a seta de aceleração quatro vezes maior, 8 metros por segundo ao quadrado.
Figura 8.11 — O Exemplo 3 em desenho: dobrar a velocidade quadruplica a aceleração na mesma curva.

Exemplo 3 — O carro na curva

Um carro faz uma curva circular de 50 m de raio a 10 m/s constantes. Qual é a aceleração do carro e para onde ela aponta?

Fórmula. aceleração centrípeta = v²/R

Substituição. aceleração = 10² ÷ 50 = 100 ÷ 50

Resultado. aceleração = 2 m/s², apontando para o centro da curva

Conferência. pela outra forma, ω = v/R = 10 ÷ 50 = 0,2 rad/s e ω²R = 0,04 × 50 = 2 m/s². O velocímetro parado em 10 m/s não a mostra, mas ela existe: é ela que vira a seta da velocidade.

Exemplo 4 — Duas polias e uma correia

A polia 1, de 10 cm de raio, gira a 2 Hz e move, por uma correia, a polia 2, de 20 cm de raio. Qual é a velocidade da correia e a frequência da polia 2? (π ≈ 3,14)

Fórmula. v = 2πR·f (igual nas duas polias) ; R₁ × f₁ = R₂ × f₂

Substituição. v = 2 × 3,14 × 0,10 × 2 ; f₂ = 10 × 2 ÷ 20

Resultado. v ≈ 1,3 m/s ; f₂ = 1 Hz

Conferência. pelo lado da polia 2, 2 × 3,14 × 0,20 × 1 ≈ 1,3 m/s, a mesma velocidade da correia. Raio dobrado, frequência pela metade.

Exemplo 5 — Os ponteiros do relógio

O ponteiro dos segundos de um relógio tem 15 cm; o dos minutos dá uma volta por hora. Quantas vezes a velocidade angular do ponteiro dos segundos é maior que a do dos minutos? E qual é a velocidade da ponta do ponteiro dos segundos? (π ≈ 3,14)

Fórmula. ω = 2π/T ; razão = (2π/60) ÷ (2π/3 600) = 3 600/60 ; v = 2πR/T

Substituição. razão = 3 600 ÷ 60 ; v = 2 × 3,14 × 0,15 ÷ 60

Resultado. razão = 60 ; v ≈ 0,016 m/s, isto é, 1,6 cm/s

Conferência. em 60 s a ponta percorre a circunferência inteira, 2π × 0,15 ≈ 0,94 m; 0,94 ÷ 60 ≈ 0,016 m/s. Sessenta vezes mais rápido em ângulo, e uma volta por minuto, como o mostrador mostra.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo quase sempre pela transmissão: bicicleta com coroa e catraca, polias ligadas por correia, engrenagens de uma máquina. A pergunta pede a frequência, a velocidade ou a razão entre duas peças, e a resposta depende de uma escolha só — o que é igual entre elas. Em segundo lugar vêm rpm, período e frequência, com a divisão por 60 escondida, e a afirmação conceitual sobre a aceleração no movimento uniforme.

A bicicleta da seção de transmissão em esquema, com a coroa de 10 cm, a catraca de 5 cm e a roda de 0,35 m; o pedal a 1 Hz. Ao lado, o cartão "catraca e roda: 2 Hz; roda a 4,4 m/s" e, riscado com um X, o cartão "catraca: 0,5 Hz": o distrator de quem acha que a peça menor gira mais devagar.
Figura 8.12 — Ligadas pela corrente, coroa e catraca têm a mesma velocidade linear; a menor gira mais. O 0,5 Hz está na alternativa para quem inverte a regra.

Um ciclista pedala a 1 Hz numa bicicleta com coroa de 10 cm e catraca de 5 cm de raio; qual é a frequência da roda? A corrente impõe a mesma velocidade linear: 10 × 1 = 5 × f, e f = 2 Hz. E o distrator? 0,5 Hz, posto ali para quem aplica a regra ao contrário e acha que a catraca menor gira mais devagar. Com a roda de 0,35 m, a velocidade da bicicleta sai de v = 2πR·f ≈ 4,4 m/s, uns 16 km/h — e a alternativa com 2,2 m/s espera quem esqueceu que a catraca dobrou a frequência do pedal.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: frequência é 1 sobre o período; velocidade angular é 2π sobre T e a linear é ω vezes R; o movimento circular uniforme tem aceleração centrípeta v ao quadrado sobre R, para o centro; correia, mesma v, e mesmo eixo, mesma ω; menor raio, maior frequência.
Figura 8.13 — O capítulo em cinco peças.
  1. Período é o tempo de uma volta; frequência é voltas por segundo: f = 1/T. Rpm vira Hz dividindo por 60.
  2. Velocidade angular ω = 2π/T, em rad/s; velocidade linear v = ωR, tangente à trajetória.
  3. O circular uniforme acelera: a centrípeta, v²/R, para o centro, muda a direção de v, não o módulo.
  4. Correia, corrente ou dentes: mesma velocidade linear. Mesmo eixo: mesma velocidade angular.
  5. Menor raio, maior frequência: na correia, a polia menor gira mais; no mesmo eixo, a roda maior anda mais.

Se for guardar uma frase só, guarde o relógio: três ponteiros no mesmo eixo, e o dos segundos é o mais rápido — acelerando para o centro o tempo inteiro, mesmo girando sempre igual.

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