Mecânica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 9: Ninguém empurra o disco de gelo

Capítulo 9Ninguém empurra o disco de gelo

A primeira lei de Newton

O ônibus freia e todo mundo "voa para a frente" — mas ninguém empurrou ninguém: o passageiro só continuou, e quem mudou foi o ônibus, debaixo dele. Um disco deslizando 60 m no gelo, sem ninguém empurrar, conta a mesma história.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 9

Este capítulo acompanha o episódio 9 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 9 no YouTube

professorcanario.com.br/m1/c9/video

O caso: o ônibus que freia e o disco que não para

O sinal fecha e o motorista do ônibus pisa no freio. Quem está em pé agarra a barra; quem está sentado sente o corpo "ir para a frente", como se alguém tivesse empurrado pelas costas. A sensação é tão nítida que todo mundo descreve a cena do mesmo jeito: "fui jogado para a frente". Só que não havia ninguém atrás. Quem empurrou?

Dois painéis. Em cima, um ônibus visto de lado, com uma seta de velocidade para a direita e o rótulo freando; dentro dele, um passageiro em pé, com uma seta própria para a direita e o rótulo continua. Embaixo, um rinque de gelo em corte, com um disco de hóquei deslizando da esquerda para a direita, uma seta de velocidade de 12 m/s e uma cota de 60 m; um cartão diz que ninguém empurra.
Figura 9.1 — Duas cenas, uma ideia: o passageiro continua e o disco continua. Ninguém empurra nenhum dos dois.

Ninguém. Antes de responder por quê, troque de cena. Num rinque de hóquei, o taco bate no disco uma única vez. O disco sai a 12 m/s e desliza 60 m pelo gelo — cinco segundos inteiros — sem que ninguém o empurre. Não há mão, não há vento, não há motor. Ele só continua. Se o rinque fosse maior e o gelo, mais liso, ele continuaria mais.

As duas cenas contam a mesma história, e a humanidade demorou mais de dois mil anos para entendê-la: um corpo não precisa de empurrão para continuar em movimento. Precisa de empurrão para mudar de movimento. O passageiro do ônibus não é jogado para a frente: o ônibus é que freia debaixo dele, e ele apenas continua com a velocidade que tinha. Este capítulo começa na pergunta que os gregos erraram, passa pelo gelo, chega à lei que Newton escreveu e volta ao ônibus na seção do referencial — onde a sensação de empurrão ganha explicação, e o cinto de segurança ganha sentido.

Dois mil anos de uma pergunta errada

A pergunta é simples: o que mantém um corpo em movimento? Na Grécia antiga, Aristóteles respondeu com o que todo mundo vê. A carroça anda enquanto o boi puxa; a caixa desliza enquanto alguém empurra; solte, e tudo para. Logo, movimento exige um motor, e velocidade constante exige força constante. A resposta bate com a experiência do dia a dia, e por isso durou tanto — mas está errada, e o motivo é uma força que ninguém via: o atrito.

Três rampas em sequência, cada uma com uma bola partindo da mesma altura à esquerda. Na primeira, a rampa da direita é íngreme e a bola sobe até quase a mesma altura de onde saiu. Na segunda, a rampa da direita é mais suave e a bola vai mais longe até atingir a mesma altura. Na terceira, o lado direito é horizontal e a bola segue com uma seta de velocidade e a pergunta: até onde?
Figura 9.2 — Se a bola sempre sobe até a altura de onde saiu, no plano horizontal ela nunca chega lá: segue para sempre.

Galileu, no começo do século XVII, desconfiou da experiência e a limpou. Numa rampa em forma de V, uma bola solta de um lado sobe pelo outro até quase a mesma altura de onde saiu; quanto mais lisa a rampa, mais perto da altura original. Agora abaixe a rampa da direita: a bola vai mais longe para chegar à mesma altura. Abaixe mais, e ela vai mais longe ainda. Deixe a rampa horizontal e a pergunta se responde sozinha: a bola nunca alcança a altura de onde saiu, então nunca para. Sem atrito, o movimento se mantém sem ninguém empurrar.

Isaac Newton, em 1687, tornou essa ideia a primeira das três leis do seu livro Principia, e é ela que este capítulo estuda. As três leis ocupam os capítulos 9, 10 e 11 da série; esta é a que diz o que acontece quando nenhuma força resultante age sobre o corpo.

Atenção

O erro de dois mil anos

"Precisa de força para manter a velocidade" é a física de Aristóteles, e é falsa. O que para a carroça, a caixa e o disco é o atrito, uma força como qualquer outra. Tire o atrito e o movimento continua sozinho, sem motor, sem empurrão. Toda vez que uma alternativa disser que "a força mantém o movimento", desconfie: ela está descrevendo o mundo antes de Galileu.

Inércia: uma propriedade, não uma força

O nome da tendência que o disco e o passageiro têm em comum é inércia. Todo corpo resiste a mudar a sua velocidade — o módulo, a direção ou o sentido dela. Parado, tende a continuar parado; em movimento, tende a continuar com a mesma velocidade, em linha reta. A inércia não faz o corpo andar nem o faz parar: ela faz o corpo continuar como está.

Duas caixas idênticas sobre um piso liso, uma com o rótulo vazia, 2 kg, e outra com o rótulo cheia, 20 kg, as duas com a mesma seta de velocidade de 3 m/s. Sob cada uma, um cartão: a vazia é fácil de parar ou de desviar; a cheia é dez vezes mais difícil. Um cartão maior resume: a massa mede a inércia.
Figura 9.3 — Mesma velocidade, massas diferentes: mudar a velocidade da caixa cheia é dez vezes mais difícil. A massa mede a inércia.

Quanto de inércia um corpo tem? A resposta está numa grandeza que o capítulo 1 já apresentou: a massa. Uma caixa vazia, de 2 kg, e a mesma caixa cheia, de 20 kg, deslizando lado a lado a 3 m/s, têm a mesma velocidade e inércias muito diferentes. Parar a cheia, ou desviá-la, é dez vezes mais difícil que parar a vazia — dez vezes, porque 20 ÷ 2 = 10. É por isso que a massa está em quilogramas e a inércia não tem unidade própria: ela é a massa, olhada pelo lado de "quanto custa mudar a velocidade".

Definição

Inércia

Atenção

Inércia nunca vira seta

Numa figura de forças, cada seta é uma força real, feita por algo que se pode apontar: o chão, a corda, a Terra, o cinto. "A inércia" não é nada disso. Se você desenhar uma seta chamada inércia num corpo, desenhou uma força que não existe — e a conta sai errada. A inércia está no corpo, não nas setas: está na massa dele.

A primeira lei: resultante nula, velocidade constante

Volte ao disco. Que forças agem nele enquanto desliza? A Terra o puxa para baixo: o peso. O gelo o empurra para cima: a normal. As duas são verticais, têm o mesmo módulo e sentidos contrários; somadas ponta com origem, como o capítulo 2 ensinou, dão zero. Na horizontal, com o atrito do gelo pequeno demais para contar, não há força nenhuma. A soma de todas as forças sobre o disco — a força resultante — é zero. E o disco faz exatamente o que a inércia manda: continua a 12 m/s, em linha reta.

Um disco de hóquei em corte sobre uma superfície de gelo. Do centro do disco saem duas setas de força: o peso, para baixo, e a normal, para cima, com o mesmo comprimento. Uma seta de velocidade de 12 m/s aponta para a direita, sem nenhuma força na horizontal. Um cartão diz: resultante zero, nada a desenhar; velocidade constante.
Figura 9.4 — Só duas forças, e elas se cancelam. Resultante nula não se desenha: o disco segue a 12 m/s.

Definição

Primeira lei de Newton

Se a força resultante sobre um corpo é nula, a velocidade dele não muda: o corpo fica em repouso ou segue em movimento retilíneo uniforme. E vale a volta: se a velocidade de um corpo é constante — inclusive zero —, a resultante das forças sobre ele é nula. Em símbolo: FR = 0 ⇒ velocidade constante, e velocidade constante ⇒ FR = 0.

Repare no "inclusive zero". Um livro parado sobre a mesa e um disco a 12 m/s no gelo estão na mesma situação física: resultante nula. O repouso não é um estado especial; é a velocidade constante mais simples que existe, a de valor zero. É por isso que a primeira lei não diz "sem força, o corpo para": diz "sem força resultante, o corpo continua" — parado, se estava parado; a 12 m/s, se estava a 12 m/s.

Resultante nula não quer dizer ausência de forças. Um bloco puxado por uma corda com 10 N, sobre um piso que faz 10 N de atrito contra o movimento, tem duas forças horizontais de mesmo módulo e sentidos opostos. A resultante horizontal é 10 − 10 = 0. Se o bloco estava a 2 m/s, continua a 2 m/s: os 10 N da corda não estão "mantendo a velocidade" — estão só cancelando o atrito, que sem eles frearia o bloco.

Um bloco sobre um piso, visto de lado. Do bloco saem quatro setas de força: o peso, para baixo; a normal, para cima, do mesmo tamanho; a tração da corda, 10 N para a direita; e o atrito, 10 N para a esquerda, do mesmo tamanho. Uma seta de velocidade de 2 m/s aponta para a direita. Um cartão: dez menos dez é zero; velocidade constante.
Figura 9.5 — Quatro forças e resultante zero: a corda cancela o atrito, o chão cancela o peso. O bloco segue a 2 m/s.
Forças no corpoResultanteVelocidade
nenhumazeroconstante
iguais e opostaszeroconstante
sobra umanão é zeromuda

A última linha da tabela é o assunto do próximo capítulo. Aqui basta o começo dela: sobrou força, a velocidade muda — e mudar a velocidade é acelerar, a grandeza do capítulo 4.

Dica ENEM

Dica ENEM: traduza a pergunta antes de resolver

Quando o enunciado disser "velocidade constante", "movimento retilíneo uniforme", "em repouso" ou "em equilíbrio", leia: resultante nula. Toda força para um lado tem outra, do mesmo tamanho, para o outro. Se o enunciado disser que o corpo "acelera", "freia" ou "faz curva", leia: resultante diferente de zero — mesmo que a velocidade, em módulo, não mude. O jogo da prova é essa tradução; a conta vem depois.

Equilíbrio: parado ou em linha reta, a mesma conta

Corpo com resultante nula está em equilíbrio. Quando ele está parado, o equilíbrio é estático; quando se move em linha reta com velocidade constante, é dinâmico. A conta é a mesma nos dois casos, porque a primeira lei não distingue um do outro: as forças se cancelam.

Um lustre pendurado ao teto por um fio. Do centro do lustre saem duas setas de força do mesmo comprimento: o peso, 50 N para baixo, e a tração do fio, 50 N para cima. Um cartão diz: massa 5 kg, peso 50 N; tração igual ao peso; equilíbrio estático.
Figura 9.6 — O lustre não cai porque o fio o puxa com a mesma força com que a Terra o puxa: 50 N contra 50 N.

O exemplo mais limpo de equilíbrio estático é um lustre pendurado. A Terra o puxa para baixo com o peso; para um lustre de 5 kg de massa, com g = 10 m/s², o peso é 5 × 10 = 50 N — o próximo capítulo explica de onde vem essa conta; por ora, use-a. O fio o puxa para cima com a tração. O lustre está parado, logo a resultante é zero, logo a tração vale exatamente 50 N. Nem um newton a mais, senão o lustre subiria; nem a menos, senão desceria.

Definição

Equilíbrio

Com forças em direções diferentes, a soma vira desenho, e o desenho é o do capítulo 2. Duas forças agem num anel: 30 N para o leste e 40 N para o norte. Elas são perpendiculares, e a soma das duas, por Pitágoras, é √(30² + 40²) = 50 N, apontando para o nordeste — o triângulo 3, 4, 5 vezes dez, com 53° entre a resultante e o eixo leste. Para o anel ficar em equilíbrio, uma terceira força tem de cancelar essa soma: 50 N, na mesma reta e no sentido contrário, para o sudoeste. As três setas, postas ponta com origem, fecham um triângulo — e um polígono de forças fechado é o retrato do equilíbrio.

Um anel com três forças saindo do centro: 30 N para o leste, 40 N para o norte e uma terceira, de 50 N, apontando para o sudoeste, na reta que passa pela soma das duas primeiras. A soma de 30 e 40, tracejada, aponta para o nordeste, com o ângulo de 53 graus marcado a partir do eixo leste. Um cartão: a terceira força é igual e oposta à soma das outras duas.
Figura 9.7 — Trinta para o leste e quarenta para o norte pedem cinquenta para o sudoeste. A terceira força cancela a soma das outras duas.

O desenho de um corpo sozinho, com todas as forças que agem nele, tem nome — diagrama de corpo livre — e no próximo capítulo vira regra da série: sem o desenho, não há conta. Este capítulo já o usa em todas as figuras; repare que, quando a resultante dá zero, ela não aparece no desenho. Não há o que desenhar.

O ônibus que freia: quem muda é o ônibus

Agora o caso, com a ferramenta pronta. Antes de qualquer conta, o combinado da série desde o capítulo 2: diga de onde você está olhando. Olhe da calçada. O ônibus vai a 10 m/s, e o passageiro em pé, dentro dele, também vai a 10 m/s — ele e o ônibus são um só movimento. O motorista freia. O freio age nas rodas, e o chão, pelo atrito nos pneus, empurra o ônibus para trás: é o ônibus que desacelera. E o passageiro? Nenhuma força horizontal age nele — o piso liso do corredor não o segura. Pela primeira lei, ele continua a 10 m/s. O ônibus, cada vez mais lento, sai de baixo dele.

Dois quadros de um ônibus visto de lado, com a calçada como referência. No primeiro, antes do freio, o ônibus e o passageiro em pé vão os dois a 10 m/s, com setas iguais. No segundo, depois de um segundo de freada, o ônibus tem uma seta menor, 5 m/s, e o passageiro mantém a seta de 10 m/s; ele está mais perto da frente do ônibus. Um cartão: visto da calçada, o passageiro continuou; o ônibus é que mudou.
Figura 9.8 — Da calçada, a cena é outra: o passageiro segue a 10 m/s e o ônibus é que perde velocidade debaixo dele.

Visto da calçada, ninguém foi jogado para a frente. O passageiro só continuou; o ônibus é que foi puxado para trás debaixo dele. A frente do ônibus chega até o passageiro, e não o contrário. Por isso o mesmo passageiro "vai para trás" quando o ônibus arranca (o ônibus ganha velocidade e ele continua parado) e "vai para fora" quando o ônibus faz a curva (ele continua em linha reta, e o ônibus vira). Três sensações, uma causa: ele continua, o ônibus muda.

De dentro do ônibus a história parece diferente, e é aí que mora a confusão. O passageiro sente que uma força o empurra para a frente. Mas não há ninguém empurrando — nenhum corpo faz essa força, e não há seta para desenhar. O que acontece é que o ônibus freando é um lugar ruim para aplicar a primeira lei: nele, corpos sem força resultante parecem acelerar. Um referencial em que a primeira lei vale de verdade — o corpo sem força continua com velocidade constante — se chama referencial inercial. A calçada serve; o ônibus a velocidade constante também serve; o ônibus freando, arrancando ou virando, não.

Definição

Referencial inercial

Referencial inercial é aquele em que a primeira lei vale: corpo com resultante nula fica em repouso ou em movimento retilíneo uniforme. Referenciais parados ou em movimento retilíneo uniforme em relação à calçada são inerciais; um veículo que freia, arranca ou faz curva não é. Dentro dele surgem "forças" que nenhum corpo faz — e que não entram em conta nenhuma deste livro.

O mesmo raciocínio decide o destino de uma caixa solta na carroceria lisa de um caminhão. O caminhão vai a 72 km/h, que são 72 ÷ 3,6 = 20 m/s, e freia com aceleração de 5 m/s² — o capítulo 4 ensinou a ler isso: perde 5 m/s a cada segundo, e para em 20 ÷ 5 = 4 s. Sem atrito, nenhuma força horizontal age na caixa, e ela não freia: segue a 20 m/s em relação à estrada. Nesses 4 s, o caminhão, cuja velocidade cai de 20 a 0, tem velocidade média de 10 m/s e percorre 10 × 4 = 40 m; a caixa percorre 20 × 4 = 80 m. Ela avança 80 − 40 = 40 m em relação ao caminhão — e, como nenhuma carroceria tem 40 m, sai pela frente. O Exemplo 4 refaz a conta em três tempos.

Uma estrada reta com um caminhão de carroceria aberta em dois instantes. No primeiro, caminhão e caixa vão a 20 m/s, com a caixa no fundo da carroceria. No segundo, quatro segundos depois, o caminhão está parado, com a cota de 40 m percorridos, e a caixa, que manteve os 20 m/s, está 80 m adiante do ponto de partida, fora da carroceria. Um cartão: sem atrito a caixa não freia.
Figura 9.9 — O caminhão para em 40 m; a caixa, sem atrito, segue e percorre 80 m. Quem freou foi o caminhão, não a carga.

Atenção

A "força" que joga você para a frente não existe

Na freada, não há força para a frente sobre o passageiro — há falta de força para trás. O que empurra o passageiro contra o banco da frente é o banco da frente, quando o alcança; até esse momento, ele apenas continua. Em qualquer figura de forças deste livro, o passageiro do ônibus que freia tem peso, normal e, se houver, o atrito do piso ou a força do cinto. Nada mais. "Força de inércia" não é uma dessas setas.

Cinto, encosto e o freio que ninguém vê

Se o passageiro continua enquanto o carro freia, alguma coisa precisa freá-lo também — de preferência antes do para-brisa. Esse é o serviço do cinto de segurança: ele faz sobre o corpo a força para trás que o piso e o banco não fazem, e freia o passageiro junto com o carro. Numa colisão, o carro para em uma fração de segundo; sem cinto, o passageiro segue à velocidade de antes até encontrar o volante, o painel ou o vidro. Com cinto, quem o freia é uma faixa larga, presa à estrutura, distribuindo a força no peito e na bacia.

Um banco de carro visto de lado, com um passageiro sentado e o cinto de segurança cruzando o peito. O carro freia: uma seta de velocidade indica que o passageiro tende a seguir para a frente, e uma seta de força, feita pelo cinto, aponta para trás, com o rótulo força do cinto. Ao lado, o encosto de cabeça: num impacto por trás, o banco empurra o tronco para a frente e o encosto empurra a cabeça junto.
Figura 9.10 — O cinto é a força para trás que freia o passageiro; o encosto é a força para a frente que leva a cabeça junto quando o carro é atingido por trás.

O encosto de cabeça resolve o caso ao contrário. Numa batida por trás, o carro é empurrado para a frente de repente; o banco leva o tronco junto, mas a cabeça, sem nada que a empurre, tende a ficar onde estava — e o pescoço é forçado para trás. O encosto faz na cabeça a força que o banco faz no tronco: leva as duas juntas. Nos dois acessórios a lógica é a mesma da primeira lei: corpo continua, a menos que uma força real o faça mudar; o cinto e o encosto são essa força, posta no lugar certo antes que o para-brisa ou o pescoço façam o serviço.

Dica ENEM

Dica ENEM: quem freia você é o cinto

Nas questões de cinto, freada e colisão, a resposta certa fala em inércia (o passageiro tende a manter a velocidade) e em força real (o cinto, o banco, o encosto exercem a força que muda essa velocidade). A alternativa errada fala em "força que joga o passageiro para a frente" ou em "força de inércia". Não existe força para a frente na freada: existe corpo que continua e carro que muda.

Fica uma pergunta em aberto, e ela é o próximo capítulo. A primeira lei diz o que acontece quando a resultante é zero: nada muda. E se a resultante não for zero? O ônibus que freia, o lustre cujo fio arrebenta, a caixa que encontra a parede da carroceria — todos têm resultante diferente de zero, e todos mudam de velocidade. Quanto mudam, e em quanto tempo, é a conta de Newton mais famosa da física, e ela começa numa balança que não mede o que todo mundo pensa que mede.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo há um passo antes dos três: desenhar o corpo e as forças que agem nele. Se a resultante der zero, ela não aparece no desenho — e a velocidade não muda.

Exemplo 1 — O bloco puxado a 2 m/s

Um bloco desliza sobre um piso a 2 m/s, puxado por uma corda com 10 N na horizontal, enquanto o atrito faz 10 N contra o movimento. Qual é a força resultante horizontal e o que acontece com a velocidade?

Fórmula. resultante horizontal = tração − atrito ; primeira lei: resultante nula → velocidade constante

Substituição. resultante = 10 − 10

Resultado. resultante = 0 N ; velocidade constante, 2 m/s

Conferência. a corda não mantém a velocidade; ela cancela o atrito. Sem a corda, o atrito de 10 N sobraria e o bloco frearia.

Exemplo 2 — O lustre de 5 kg

Um lustre de 5 kg de massa está pendurado ao teto por um fio, em repouso. Qual é o peso do lustre e qual é a tração no fio? (g = 10 m/s²)

Fórmula. peso = massa × g ; equilíbrio estático: tração = peso

Substituição. P = 5 × 10 ; T = P

Resultado. P = 50 N ; T = 50 N

Conferência. as duas únicas forças no lustre são verticais e se cancelam; resultante zero, lustre parado. Se o fio só aguentasse 40 N, ele arrebentaria.

Três setas de força encaixadas ponta com origem: 30 N para o leste, depois 40 N para o norte, depois 50 N para o sudoeste, que volta exatamente ao ponto de partida. O triângulo fechado tem o cartão: polígono fechado, resultante zero, equilíbrio.
Figura 9.11 — O Exemplo 3 em desenho: as três forças, ponta com origem, fecham um triângulo. Polígono fechado é resultante zero.

Exemplo 3 — Três forças em equilíbrio

Sobre um anel agem uma força de 30 N para o leste e outra de 40 N para o norte. Que terceira força deixa o anel em equilíbrio?

Fórmula. soma das duas: S = √(30² + 40²) (perpendiculares: Pitágoras) ; terceira força: mesmo módulo de S, sentido contrário

Substituição. S = √(900 + 1 600) = √2 500

Resultado. S = 50 N para o nordeste ; terceira força = 50 N para o sudoeste

Conferência. 30, 40 e 50 são o triângulo 3, 4, 5 vezes dez; a soma faz 53° com o eixo leste, e a terceira força aponta na mesma reta, para o lado oposto. As três, ponta com origem, fecham o triângulo da figura.

Exemplo 4 — A caixa no caminhão que freia

Um caminhão a 72 km/h freia com aceleração de 5 m/s² até parar. Na carroceria lisa, sem atrito, vai uma caixa solta. Quanto o caminhão percorre até parar, quanto a caixa percorre no mesmo tempo e quanto ela avança em relação ao caminhão?

Fórmula. v = 72 ÷ 3,6 ; tempo de freada = v ÷ a ; caminhão: distância = velocidade média × tempo ; caixa (sem força): distância = v × tempo

Substituição. v = 20 m/s ; t = 20 ÷ 5 = 4 s ; caminhão: (20 + 0) ÷ 2 × 4 = 10 × 4 ; caixa: 20 × 4

Resultado. caminhão: 40 m ; caixa: 80 m ; a caixa avança 80 − 40 = 40 m em relação ao caminhão

Conferência. nenhuma força horizontal age na caixa, então a velocidade dela em relação à estrada não muda. Ela não "vai para a frente": o caminhão é que fica para trás.

Exemplo 5 — O disco no gelo

Um disco de 0,2 kg de massa desliza no gelo a 12 m/s, sem atrito. Quais são as forças sobre ele, qual é a resultante e quanto tempo ele leva para percorrer 60 m? (g = 10 m/s²)

Fórmula. peso = massa × g ; normal = peso (vertical em equilíbrio) ; resultante = 0 → velocidade constante ; tempo = distância ÷ velocidade

Substituição. P = 0,2 × 10 ; N = P ; t = 60 ÷ 12

Resultado. P = 2 N para baixo ; N = 2 N para cima ; resultante 0 N ; t = 5 s

Conferência. as duas forças se cancelam, e na horizontal não há nenhuma. É movimento uniforme, do capítulo 3: 12 m a cada segundo, cinco segundos, 60 m — sem ninguém empurrar.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo mais em palavras que em contas, e o formato favorito é o próprio caso: a freada, o cinto e o corpo que "vai para a frente". A alternativa certa fala em inércia e em força real do cinto; as erradas inventam uma força para a frente. O segundo formato é a tradução velocidade constante = resultante nula, quase sempre num veículo em movimento retilíneo uniforme.

Um carro visto de lado numa estrada reta, com uma seta de velocidade de 90 km/h e o rótulo constante. Duas setas de força horizontais de mesmo comprimento: a do motor, pelo atrito dos pneus, 2 000 N para a frente, e a das resistências do ar e do atrito, 2 000 N para trás. Ao lado, o cartão resultante nula e, riscado com um X, o cartão força do motor maior que as resistências.
Figura 9.12 — Velocidade constante? A força para a frente é igual à força para trás. O motor não vence as resistências: ele as empata.

Um carro mantém 90 km/h constantes numa estrada reta. Os pneus o empurram para a frente com 2 000 N; o ar e o atrito o empurram para trás. Quanto vale a força para trás? Exatamente 2 000 N: velocidade constante é resultante nula, e 2 000 − 2 000 = 0. O distrator? "A força do motor é maior que as resistências, por isso o carro anda" — Aristóteles de novo, plantado na alternativa. Os outros formatos são o equilíbrio de forças com números (lustre, bloco, três forças em Pitágoras) e o objeto solto num veículo que freia ou arranca — a caixa no caminhão, a moeda no painel, o copo na mesa do trem.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: inércia é resistir à mudança de velocidade; resultante nula, velocidade constante; parado é caso particular de velocidade constante; no ônibus quem muda é o ônibus; a massa mede a inércia.
Figura 9.13 — O capítulo em cinco peças.
  1. Inércia é a tendência de manter a velocidade — módulo, direção e sentido — e resistir a mudá-la.
  2. Primeira lei: força resultante nula, velocidade constante; e velocidade constante, resultante nula.
  3. Parado é caso particular: repouso é velocidade constante de valor zero; a conta do equilíbrio é igual.
  4. No ônibus que freia, ninguém é empurrado: o passageiro continua, e quem muda é o ônibus, debaixo dele.
  5. A massa mede a inércia; a inércia não é força e nunca vira seta.

Se for guardar uma frase só, guarde o disco: 60 m de gelo, ninguém empurrando, e ele só continua.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 9

professorcanario.com.br/m1/c9/lista