Mecânica IVSumário
Ilustração de abertura do capítulo 7: O pé que levanta um carro de uma tonelada e meia

Capítulo 7O pé que levanta um carro de uma tonelada e meia

Pascal e a prensa hidráulica

Um pé no pedal, trezentos newtons; dentro da caixa, um pistão de um centímetro quadrado empurra óleo contra um de cinquenta. A pressão é a mesma nos dois — a força multiplica por cinquenta, o curso divide por cinquenta, e um carro de uma tonelada e meia sai do chão, um centímetro por bombada.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 7

Este capítulo acompanha o episódio 7 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 7 no YouTube

professorcanario.com.br/m4/c7/video

O caso: um pé, um pedal e uma tonelada e meia

Numa oficina, o macaco hidráulico é uma caixa de aço do tamanho de uma caixa de sapatos, com um pedal de um lado e um pistão polido que sai por cima. Um mecânico pisa no pedal — com a força de uns trezentos newtons, o que a Terra faz sobre trinta quilos — e o pistão sobe, devagar, com o carro em cima. O carro tem uma tonelada e meia. Dentro da caixa não há motor nem engrenagem: há óleo, e dois pistões de tamanhos diferentes. O pedal empurra um pistão pequeno, da ordem de um centímetro quadrado; o óleo leva o empurrão até um pistão grande, da ordem de cinquenta centímetros quadrados; e é o grande que carrega o carro.

Um macaco hidráulico em corte, fora de escala. À esquerda, um cilindro estreito com o pistão pequeno, de 1 centímetro quadrado, e sobre ele um pedal com uma seta salmão para baixo de 300 N, o pé. À direita, um cilindro largo com o pistão grande, de 50 centímetros quadrados, e sobre ele a roda de um carro com uma seta salmão para baixo de 15 000 N. Os dois cilindros se comunicam por baixo, cheios de óleo em salmão-claro. Ao lado de cada pistão, uma barra de pressão azul-céu da mesma altura, rotulada mesma pressão. Um cartão: Pascal, 1653; a prensa, 1795; força vezes 50, curso dividido por 50.
Figura 7.1 — O macaco de oficina em corte: 300 N no pistão pequeno, 15 000 N no grande — e a mesma pressão nos dois. A força foi multiplicada por cinquenta; o curso, dividido por cinquenta.

Os números são de um modelo, declarado como modelo: ordens de grandeza de um macaco de oficina, não a ficha de um fabricante. Mas a conta que eles fazem é exata. A pressão do óleo é a mesma nos dois pistões; a área do grande é cinquenta vezes a do pequeno; logo a força no grande é cinquenta vezes a do pequeno: 300 N × 50 = 15 000 N, o peso de 1 500 kg. Uma tonelada e meia, sustentada por um pé. E há uma contrapartida, que a segunda metade do capítulo cobra: para o pistão grande subir um centímetro, o pequeno precisa descer cinquenta. Por isso o mecânico bombeia tantas vezes.

Blaise Pascal formulou a lei que faz o macaco funcionar em 1653, num tratado sobre o equilíbrio dos líquidos publicado em 1663: uma variação de pressão num líquido confinado se transmite igual a todos os pontos do líquido. Joseph Bramah, um inventor inglês, patenteou a prensa hidráulica em 1795 — a máquina que usa essa lei para multiplicar força. O macaco da oficina, o elevador que ergue o carro inteiro, a cadeira do dentista e o freio do carro são a mesma máquina, com o mesmo par de pistões.

O capítulo 6 terminou com uma pergunta. A lei de Stevin diz o que acontece quando a pressão vem do peso do próprio líquido: a pressão de cima mais a coluna. E se alguém empurrar o líquido de propósito, num recipiente fechado? A resposta é o princípio de Pascal, na seção do princípio. Dele sai a prensa hidráulica, mesma pressão e áreas diferentes, na seção da prensa; o curso dos pistões, que se divide na mesma razão em que a força se multiplica, na seção do curso; a conta do trabalho, que mostra que a máquina não dá nada de graça, na seção do trabalho; a imagem que junta tudo, a prensa como uma alavanca feita de líquido, na seção da alavanca; o freio do carro, duas multiplicações em série, na seção do freio; e, por fim, a pressão que existe dentro do macaco — trinta atmosferas, o equivalente a trezentos metros de mar, dentro de uma caixa que cabe na mão — na seção das trinta atmosferas.

O princípio de Pascal: o acréscimo se transmite igual

Comece pela lei do capítulo 6. Num líquido parado, a pressão a uma profundidade h é p = p₀ + ρ × g × h, em que p₀ é a pressão na superfície. Ao ar livre, p₀ é a atmosfera. Agora feche o recipiente com um pistão encostado na superfície do líquido e empurre o pistão com uma força extra. A pressão na superfície deixa de ser p₀ e passa a ser p₀ mais um acréscimo, que este livro chama de Δp. O que acontece embaixo? A lei de Stevin continua valendo, com a nova pressão de cima: p = (p₀ + Δp) + ρ × g × h. Compare com a fórmula de antes: todo ponto do líquido ganhou o mesmo Δp — o de cima, o do meio, o do fundo, o da parede lateral. O acréscimo não se perde pelo caminho e não se distribui: chega inteiro a todo lugar.

Dois recipientes fechados por um pistão, lado a lado, cheios de água azul-céu, com três pontos marcados: um logo abaixo do pistão, um no meio e um no fundo. No da esquerda, antes de empurrar, ao lado de cada ponto há uma barra de pressão azul-céu que cresce com a profundidade, como a de Stevin. No da direita, o pistão recebe uma seta salmão para baixo, e cada uma das três barras ganhou em cima um trecho salmão da mesma altura, rotulado delta p, o acréscimo. Um cartão: Stevin continua; Pascal soma o mesmo delta p em todo ponto.
Figura 7.2 — Antes e depois de empurrar o pistão: as barras de Stevin continuam crescendo com a profundidade, e cada uma ganhou o mesmo trecho — o acréscimo de pressão chegou inteiro a todos os pontos.

Esse é o princípio de Pascal. Ele vale para um líquido confinado — fechado num recipiente, sem superfície livre por onde escapar —, em repouso e praticamente incompressível, o que toda água e todo óleo são: empurrar não os encolhe de modo perceptível, e por isso o empurrão passa adiante em vez de ser absorvido. Um gás não serve: o ar, comprimido, encolhe e guarda parte do empurrão como mola. É por isso que ar no circuito de freio é um defeito grave, como a seção do freio explica.

Definição

Princípio de Pascal

Repare no que o princípio diz e no que não diz. Ele fala de pressão, não de força. A força que o pistão faz não "viaja" pelo líquido até aparecer igual do outro lado; o que aparece igual em todo lugar é a pressão, força por área. E como a pressão é a mesma em pontos com áreas diferentes, as forças resultantes são diferentes — esse é o segredo da prensa, e é a próxima seção. Também não é o fato de o líquido ser "duro" que faz a mágica: água numa bacia aberta, empurrada com a mão, só transborda. Confinamento é a condição.

Atenção

Pascal não cancela Stevin

Dentro de um líquido confinado há duas contribuições para a pressão em cada ponto: a coluna, ρ × g × h, que muda de um ponto para outro, e o acréscimo transmitido, Δp, que é igual em todos. Nos problemas de prensa, a coluna de óleo entre os pistões costuma ser de centímetros e vale alguns milhares de pascals, enquanto o acréscimo do empurrão vale milhões — a seção das trinta atmosferas faz essa conta. Por isso se diz que "a pressão é a mesma nos dois pistões": é uma aproximação declarada, boa a menos de um milésimo.

A prensa hidráulica: mesma pressão, áreas diferentes

Tome dois cilindros ligados por baixo e cheios de óleo, cada um fechado por um pistão que desliza sem deixar o óleo passar. O pistão pequeno tem área A₁; o grande, A₂. Empurre o pequeno com uma força F₁. Pelo capítulo 4, isso faz sobre o óleo uma pressão a mais de F₁ ÷ A₁. Por Pascal, esse acréscimo chega inteiro ao pistão grande. E sobre o pistão grande, uma pressão vezes uma área é uma força: F₂ = Δp × A₂ = (F₁ ÷ A₁) × A₂.

Dois cilindros de larguras diferentes ligados por um tubo por baixo, cheios de óleo salmão-claro. No da esquerda, estreito, o pistão pequeno com a cota A um igual a 1 centímetro quadrado e uma seta salmão para baixo de 300 N. No da direita, largo, o pistão grande com a cota A dois igual a 50 centímetros quadrados e uma seta salmão para cima de 15 000 N, muito maior. Entre os cilindros, duas barras de pressão azul-céu iguais, ligadas por um traço tracejado, rotuladas 3 vezes 10 elevado a 6 pascals. A fórmula em destaque: F um sobre A um é igual a F dois sobre A dois.
Figura 7.3 — A prensa: as duas barras de pressão são iguais, porque Pascal transmite o acréscimo inteiro. A área do pistão grande é cinquenta vezes maior, e a força também.

Escrita de um jeito que se lê dos dois lados, a relação é F₁ ÷ A₁ = F₂ ÷ A₂: a mesma pressão nos dois pistões. No macaco do caso, com A₁ = 1 cm² e A₂ = 50 cm², a força se multiplica pela razão das áreas: F₂ = 300 × (50 ÷ 1) = 15 000 N. Trezentos newtons do pé viram quinze mil no pistão grande, o peso de uma tonelada e meia. A razão das áreas é a vantagem mecânica da prensa, o mesmo nome que o capítulo 2 deu à razão dos braços da alavanca — e a razão de áreas dispensa conversão de unidade: 50 cm² dividido por 1 cm² é 50, em qualquer unidade.

PistãoÁreaForça
pequeno1 cm²300 N
grande50 cm²15 000 N
razão5050

Definição

A prensa hidráulica

A última linha da definição é a armadilha favorita da prova. Um pistão circular tem área proporcional ao quadrado do diâmetro — π × d² ÷ 4 —, e o π se cancela na razão. Pistões de 2 cm e 10 cm de diâmetro têm diâmetros na razão 5, mas áreas na razão 5² = 25: a força se multiplica por vinte e cinco, não por cinco. Dobrar o diâmetro quadruplica a área; multiplicar o diâmetro por sete multiplica a área por quarenta e nove.

Dois círculos vistos de cima, os dois pistões: o pequeno, com o diâmetro de 2 cm cotado, e o grande, com o diâmetro de 10 cm cotado, cinco vezes maior. Dentro do grande, uma grade sugere que cabem vinte e cinco pistões pequenos. Um cartão: razão dos diâmetros 5; razão das áreas 5 ao quadrado igual a 25; a força multiplica por 25, não por 5.
Figura 7.4 — Diâmetro cinco vezes maior, área vinte e cinco vezes maior: no pistão grande cabem vinte e cinco cópias do pequeno. É pela área que a força se multiplica.

Dica ENEM

Dica ENEM: leia se é área ou diâmetro

Se o enunciado dá as áreas, a razão das forças é a razão das áreas, direta. Se dá diâmetros ou raios, eleve a razão ao quadrado antes de multiplicar — e a alternativa com a razão sem elevar ao quadrado está sempre lá. E se pedir a pressão em pascal, converta a área para metros quadrados: 1 cm² = 10⁻⁴ m². Para a razão entre forças, nenhuma conversão é necessária.

O pistão grande sobe cinquenta vezes menos

Se a força se multiplica por cinquenta sem nenhum motor, alguma coisa tem de ser dividida por cinquenta — e é o caminho. O óleo é praticamente incompressível: o volume que o pistão pequeno empurra para baixo é exatamente o volume que aparece embaixo do pistão grande. Um pistão de área A que desce uma distância d desloca um volume A × d. Logo A₁ × d₁ = A₂ × d₂, e o pistão grande sobe na razão inversa das áreas.

Os dois cilindros da prensa, em duas posições. À esquerda, o pistão pequeno, de 1 centímetro quadrado, desceu 50 cm, e o volume de óleo que ele empurrou, 50 centímetros cúbicos, está destacado como uma coluna alta e estreita em salmão. À direita, o pistão grande, de 50 centímetros quadrados, subiu 1 cm, e o volume que ele ganhou embaixo, os mesmos 50 centímetros cúbicos, é uma camada larga e baixa, também em salmão. Um cartão: A um vezes d um é igual a A dois vezes d dois; 1 vezes 50 é igual a 50 vezes 1.
Figura 7.5 — O mesmo óleo, em dois formatos: uma coluna estreita de 50 cm no cilindro pequeno vira uma camada de 1 cm no grande. Cinquenta vezes a área, um cinquenta avos do curso.

No macaco do caso, uma bombada leva o pistão pequeno 50 cm para baixo. O volume deslocado é 1 cm² × 50 cm = 50 cm³ — o equivalente a um copinho de café. Embaixo do pistão grande, de 50 cm², esses 50 cm³ formam uma camada de 50 ÷ 50 = 1 cm. Cada bombada de cinquenta centímetros no pedal sobe o carro um centímetro. Para levantar a roda vinte centímetros, o mecânico bombeia vinte vezes; o pedal percorre, ao todo, dez metros. É a mesma troca da alavanca do capítulo 2, em que a mão descia dez vezes mais do que a roda subia; aqui a razão é cinquenta.

Definição

O curso dos pistões

Trabalho igual dos dois lados

O capítulo 2 fez essa conta para a alavanca, e a Mecânica II já tinha dito quem paga a multiplicação da força: o trabalho, força vezes deslocamento, é o que se conserva numa máquina. Faça a conta nos dois pistões. O pé aplica 300 N ao longo de 0,5 m: W = 300 × 0,5 = 150 J. O pistão grande empurra o carro com 15 000 N ao longo de 0,01 m: W = 15 000 × 0,01 = 150 J. O mesmo número. A prensa recebeu 150 J do pé e entregou 150 J ao carro — nem um joule a mais.

Dois cartões lado a lado sobre a prensa em corte. À esquerda, em salmão-claro, o trabalho do pé: 300 N vezes 0,5 m igual a 150 J, com uma seta azul-céu para baixo de 0,5 m no pistão pequeno. À direita, em azul-claro, o trabalho sobre o carro: 15 000 N vezes 0,01 m igual a 150 J, com uma seta azul-céu para cima de 0,01 m no pistão grande. Embaixo, a frase: mesmo trabalho — Pascal dá força por curso, não energia.
Figura 7.6 — Trezentos newtons por meio metro e quinze mil newtons por um centímetro: 150 J dos dois lados. A prensa multiplica força e divide curso, e o produto não muda.

A igualdade não é coincidência: ela é a mesma afirmação da seção anterior, vista pela energia. Se F₁ ÷ A₁ = F₂ ÷ A₂ e A₁ × d₁ = A₂ × d₂, multiplique as duas igualdades membro a membro e o que sobra é F₁ × d₁ = F₂ × d₂. Numa prensa real há atrito nas vedações dos pistões e um pouco de óleo que se comprime, e o pé entrega um pouco mais do que o carro recebe. A máquina nunca devolve mais do que recebeu; em geral devolve menos.

Atenção

Multiplica força, não energia

"Levantou uma tonelada e meia com o pé, logo gastou pouca energia" é a frase errada. A energia gasta é a mesma de levantar o carro diretamente naquele centímetro — e um pouco mais, pelo atrito. O que a prensa faz é trocar força por caminho: o pé faz pouca força por muito caminho, o carro recebe muita força por pouco caminho. Nenhuma máquina simples cria trabalho; o capítulo 2 disse isso da alavanca, e vale palavra por palavra para a prensa.

Uma alavanca feita de líquido

Vale a pena parar e olhar as duas máquinas lado a lado, porque a prova gosta de misturá-las e porque são, no fundo, a mesma ideia. Na alavanca do capítulo 2, uma barra rígida transmite o esforço; o que multiplica a força é a razão dos braços; e a ponta com o braço maior anda mais. Na prensa, o óleo faz o papel da barra; o que multiplica a força é a razão das áreas; e o pistão de área menor anda mais. Nas duas, o produto força × caminho é o mesmo dos dois lados, porque nas duas quem se conserva é o trabalho.

À esquerda, a alavanca do capítulo 2: uma barra azul apoiada perto da ponta da carga, com 250 N a 2 m de um lado e 2 500 N a 0,2 m do outro; o rótulo diz razão dos braços 10. À direita, a prensa: os dois pistões sobre o óleo salmão-claro, 300 N em 1 centímetro quadrado e 15 000 N em 50 centímetros quadrados; o rótulo diz razão das áreas 50. Uma chave liga as duas com a frase: a barra é o óleo; os braços são as áreas; o trabalho é o mesmo.
Figura 7.7 — Duas máquinas, uma ideia: a alavanca multiplica pela razão dos braços, a prensa pela razão das áreas — e nenhuma das duas cria trabalho.
PeçaAlavancaPrensa
transmitea barrao óleo
multiplicapelos braçospelas áreas
conservao trabalhoo trabalho

A prensa tem uma vantagem prática sobre a barra: o óleo passa por um cano. Os dois pistões não precisam estar alinhados nem perto; o pedal pode ficar no chão e o pistão grande, a um metro dali, ou os quatro pistões das rodas de um carro podem estar a metros do pedal de freio, ligados por tubos finos. A barra rígida exige um apoio e uma linha reta; o líquido confinado aceita qualquer caminho. É por isso que máquinas que multiplicam muita força em pouco espaço — o macaco, o elevador de oficina, a retroescavadeira, o freio — são hidráulicas.

O freio: alavanca e Pascal em série

O freio hidráulico de um carro é as duas máquinas montadas uma depois da outra. O pedal é uma alavanca: o pé empurra a ponta longa, e a haste que sai do pedal, mais perto do eixo, empurra com uma força maior. Essa haste aperta um pistão pequeno num cilindro cheio de fluido de freio, o cilindro-mestre. O fluido leva o acréscimo de pressão, por tubos, até os cilindros das rodas, onde pistões de área maior apertam as pastilhas contra os discos. Duas multiplicações em série, e a força total é o produto das duas razões.

Um pedal de freio inclinado, articulado no alto, com uma seta salmão de 100 N na ponta de baixo, o pé, e uma haste que sai a um quarto do comprimento, com a força de 400 N; o rótulo da alavanca diz vezes 4. A haste empurra o pistão de um cilindro-mestre de 2 centímetros quadrados; uma barra de pressão azul-céu ao lado marca 2 vezes 10 elevado a 6 pascals. Um tubo leva a um cilindro de roda de 8 centímetros quadrados, cujo pistão empurra uma pastilha contra um disco com 1 600 N; o rótulo diz vezes 4. Um cartão: alavanca vezes 4, Pascal vezes 4, total vezes 16.
Figura 7.8 — O pedal multiplica por quatro; a prensa multiplica por quatro; o pé faz 100 N e a pastilha recebe 1 600 N. Duas máquinas em série multiplicam as vantagens.

Com números de exercício, declarados como tal: o pé faz 100 N na ponta do pedal, e a haste está a um quarto do comprimento, contado do eixo — a alavanca multiplica por 4, e a haste empurra com 400 N. O cilindro-mestre tem 2 cm²: o acréscimo de pressão é 400 ÷ (2 × 10⁻⁴) = 2 × 10⁶ Pa, vinte atmosferas. O cilindro da roda tem 8 cm², quatro vezes mais: a força na pastilha é 2 × 10⁶ × 8 × 10⁻⁴ = 1 600 N. Do pé à pastilha, dezesseis vezes — 4 da alavanca vezes 4 da prensa —, e o mesmo em cada roda, porque o mesmo fluido leva a mesma pressão a todas.

Atenção

Ar no freio é pedal mole

O princípio de Pascal exige líquido, praticamente incompressível. Se entra ar no circuito, o pé comprime primeiro o ar — que encolhe como uma mola e absorve boa parte do curso — e só depois o fluido começa a transmitir pressão. O pedal "afunda" antes de frear. É o mesmo motivo pelo qual a prensa funciona com óleo e não com ar: um gás confinado guarda o empurrão em vez de passá-lo adiante.

Dica ENEM

Dica ENEM: máquinas em série multiplicam as razões

Quando o enunciado encadeia uma alavanca e uma prensa — pedal e cilindro, manivela e pistão —, a vantagem total é o produto das vantagens, nunca a soma. Quatro da alavanca e quatro da prensa dão dezesseis; a alternativa "oito" está lá para quem somou. E lembre que a força é multiplicada e o caminho, dividido na mesma razão: o pé anda dezesseis vezes mais do que a pastilha.

Trinta atmosferas dentro de uma caixa que cabe na mão

Quanto vale a pressão do óleo no macaco do caso? É a conta do capítulo 4, força por área, com a área em metros quadrados: 1 cm² = 10⁻⁴ m². O acréscimo é Δp = 300 ÷ 10⁻⁴ = 3 × 10⁶ Pa. Três milhões de pascals — trinta atmosferas. Pela régua dos dez metros do capítulo 6, é a pressão de coluna que um mergulhador encontraria a trezentos metros de profundidade no mar, mais fundo do que qualquer mergulhador desce sem um submarino. Só que aqui não há coluna nenhuma: há um pé, e um centímetro quadrado.

Três barras de pressão azul-céu lado a lado. A primeira, baixa, 1 atm, o ar. A segunda, trinta vezes mais alta, 30 atm, o óleo dentro do macaco, com a cota 3 vezes 10 elevado a 6 pascals. A terceira, da mesma altura da segunda, 300 m de mar, com um pequeno mergulhador no topo e o fundo lá embaixo. Ao pé da segunda barra, um trecho quase invisível em salmão, rotulado coluna de óleo de 20 cm, 1 800 Pa. Um cartão: a pressão vem do empurrão, não do peso do óleo; a coluna vale menos de um milésimo.
Figura 7.9 — Trinta atmosferas dentro do macaco: o mesmo que trezentos metros de mar, feitos por um pé num centímetro quadrado. A coluna de óleo entre os pistões, 20 cm, acrescenta 1 800 Pa — menos de um milésimo.

Este é o lugar de fechar a conta que a caixa de atenção da seção do princípio prometeu. Dentro do macaco, os dois pistões não estão exatamente na mesma altura; suponha 20 cm de diferença, com óleo de densidade 900 kg/m³. Pela lei de Stevin, a coluna entre eles vale 900 × 10 × 0,2 = 1 800 Pa. Diante de 3 000 000 Pa, isso é 0,06 por cento — menos de um milésimo. Por isso a prensa se calcula como se a pressão fosse exatamente a mesma nos dois pistões: Stevin continua valendo, mas a parcela dele é invisível ao lado da de Pascal. No Trieste, no capítulo 6, a pressão vinha de onze quilômetros de coluna; no macaco, vem de um empurrão. As duas são pressão, em pascal, e se somam.

Definição

Pressão por coluna e pressão por empurrão

Há uma pergunta que Pascal não responde, e é ela que abre o capítulo 8. Tudo aqui aconteceu com o líquido fechado: o empurrão não tinha por onde sair, e por isso virou pressão em todo ponto. E se o líquido estiver aberto, com superfície livre, e alguém colocar nele não um pistão, mas um casco? O capítulo 8 começa com um navio que afundou a mil e trezentos metros do cais, no dia em que foi lançado.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos problemas de prensa há uma decisão antes dos três: se a pergunta é uma razão entre forças ou entre deslocamentos, as áreas podem ficar em cm²; se a pergunta é a pressão em pascal, a área vai para m² antes de qualquer coisa.

Exemplo 1 — A prensa do caso

No macaco hidráulico, o pé faz 300 N sobre o pistão pequeno, de 1 cm². O pistão grande tem 50 cm². Que força o pistão grande exerce sobre o carro?

Fórmula. F₁ ÷ A₁ = F₂ ÷ A₂ ; F₂ = F₁ × (A₂ ÷ A₁)

Substituição. F₂ = 300 × (50 ÷ 1)

Resultado. F₂ = 15 000 N

Conferência. 15 000 N ÷ 10 m/s² é o peso de 1 500 kg — uma tonelada e meia. A razão das áreas, 50, dispensa conversão de unidade.

Exemplo 2 — O curso

Cada bombada leva o pistão pequeno, de 1 cm², 50 cm para baixo. Quanto sobe o pistão grande, de 50 cm²?

Fórmula. A₁ × d₁ = A₂ × d₂ ; d₂ = A₁ × d₁ ÷ A₂

Substituição. d₂ = 1 × 50 ÷ 50

Resultado. d₂ = 1 cm

Conferência. o volume deslocado é 50 cm³ nos dois lados. Para subir o carro 20 cm, são 20 bombadas — dez metros de pedal.

Exemplo 3 — Trabalho igual

Com os números dos Exemplos 1 e 2, calcule o trabalho do pé e o trabalho do pistão grande sobre o carro numa bombada.

Fórmula. W = F × d, com d em metros

Substituição. pé: 300 × 0,5 ; carro: 15 000 × 0,01

Resultado. 150 J nos dois lados

Conferência. a força foi multiplicada por 50 e o curso dividido por 50; o produto não mudou. Pascal dá força por curso, não energia.

Exemplo 4 — A pressão no óleo

Qual é o acréscimo de pressão que os 300 N do pé produzem no óleo do macaco, sobre o pistão de 1 cm²? Dê o resultado em pascal e em atmosferas, com 1 atm = 10⁵ Pa.

Fórmula. Δp = F ÷ A, com A em m² (1 cm² = 10⁻⁴ m²)

Substituição. Δp = 300 ÷ 10⁻⁴

Resultado. Δp = 3 × 10⁶ Pa = 30 atm

Conferência. pela régua dos dez metros, trinta atmosferas de coluna são trezentos metros de mar. Sem converter a área, 300 ÷ 1 = 300 "pascals" — cem mil vezes menos, e errado.

Um elevador hidráulico de oficina em corte, fora de escala: à esquerda, um cilindro estreito com o pistão de 2 cm de diâmetro e uma seta salmão para baixo de 120 N; à direita, um cilindro largo com o pistão de 20 cm de diâmetro sustentando um carro, com uma seta salmão para cima de 12 000 N. Duas barras de pressão azul-céu iguais entre os cilindros. Um cartão: diâmetros na razão 10, áreas na razão 100; 12 000 dividido por 100 é igual a 120 N.
Figura 7.10 — O Exemplo 5 em desenho: o diâmetro é dez vezes maior, a área é cem vezes maior, e um carro de 12 000 N sobe com 120 N no pistão pequeno.

Exemplo 5 — O elevador de oficina, com diâmetros

Um elevador hidráulico tem o pistão pequeno com 2 cm de diâmetro e o grande com 20 cm. Que força é preciso aplicar no pequeno para sustentar um carro de 1 200 kg sobre o grande? Use g = 10 m/s². (Números de exercício.)

Fórmula. A₂ ÷ A₁ = (d₂ ÷ d₁)² ; F₁ = F₂ ÷ (A₂ ÷ A₁)

Substituição. razão das áreas: (20 ÷ 2)² = 100 ; F₂ = 1 200 × 10 = 12 000 N ; F₁ = 12 000 ÷ 100

Resultado. F₁ = 120 N

Conferência. quem usa a razão dos diâmetros sem elevar ao quadrado acha 1 200 N — dez vezes mais. E para o carro subir 10 cm, o pistão pequeno percorre 100 × 10 cm = 10 m, em muitas bombadas.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo, antes de tudo, pela fórmula F₁ ÷ A₁ = F₂ ÷ A₂ — o item de hidrostática aplicada mais recorrente da prova —, quase sempre com um elevador hidráulico, um macaco ou uma cadeira de dentista, e com a área de um pistão dada e a do outro escondida num diâmetro. A segunda cobrança é o deslocamento dos pistões, pela conservação do volume: o grande sobe na razão inversa das áreas. A terceira é qualitativa e é a mais traiçoeira: o que se transmite igual num líquido confinado é a pressão, não a força — a alternativa "a força é a mesma nos dois pistões" está lá de propósito. A quarta é o freio ou outra combinação de máquinas, em que a vantagem total é o produto das vantagens.

Dois cartões lado a lado. O da esquerda, riscado com um X em salmão: a força se transmite igual aos dois pistões. O da direita, em destaque: a pressão se transmite igual; F um sobre A um é igual a F dois sobre A dois. Abaixo, uma linha com três lembretes: diâmetro ao quadrado; curso na razão inversa das áreas; máquinas em série multiplicam.
Figura 7.11 — Pediu a força no pistão grande? Multiplique pela razão das áreas — e, se vieram diâmetros, eleve ao quadrado. O que é igual nos dois pistões é a pressão.

Com números de exercício: uma cadeira de dentista sustenta 1 000 N de paciente e assento sobre um pistão cuja área é 20 vezes a do pistão da bomba; o pedal precisa de 1 000 ÷ 20 = 50 N. Se a prova disser que o diâmetro é 20 vezes maior, a razão das áreas é 400, e a força cai para 2,5 N — leia qual dos dois foi dado. E, para a cadeira subir 5 cm, o pistão da bomba percorre 20 × 5 = 100 cm no primeiro caso.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: Pascal, um acréscimo de pressão se transmite igual a todo ponto de um líquido confinado; a prensa, F um sobre A um igual a F dois sobre A dois, área cinquenta vezes maior, força cinquenta vezes maior; o curso, A um vezes d um igual a A dois vezes d dois, cinquenta vezes menor; trabalho igual dos dois lados, a máquina não cria energia; o freio é alavanca e Pascal em série, vantagens multiplicadas.
Figura 7.12 — O capítulo em cinco peças.
  1. Princípio de Pascal: um acréscimo de pressão feito num ponto de um líquido confinado se transmite igual a todos os pontos e às paredes. O que é igual é a pressão, não a força.
  2. A prensa: F₁ ÷ A₁ = F₂ ÷ A₂. Área cinquenta vezes maior, força cinquenta vezes maior; se vieram diâmetros, eleve a razão ao quadrado.
  3. O curso: A₁ × d₁ = A₂ × d₂. O pistão grande sobe na razão inversa das áreas — cinquenta vezes menos.
  4. Trabalho igual dos dois lados: força multiplicada por cinquenta, curso dividido por cinquenta. A máquina não cria energia.
  5. O freio é alavanca e Pascal em série: as vantagens se multiplicam, e o mesmo fluido leva a mesma pressão a todas as rodas.

Se for guardar uma frase só, guarde a prensa como uma alavanca feita de líquido: o óleo é a barra, as áreas são os braços — o pistão pequeno anda muito com pouca força, o grande anda pouco com muita, e o produto força vezes curso é o mesmo dos dois lados.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 7

professorcanario.com.br/m4/c7/lista