Mecânica IVSumário
Ilustração de abertura do capítulo 8: O navio que afundou a mil e trezentos metros do cais

Capítulo 8O navio que afundou a mil e trezentos metros do cais

Empuxo, Arquimedes e estabilidade

Dez de agosto de 1628: o navio mais armado do reino navega mil e trezentos metros diante do rei, aderna numa rajada e afunda. Semanas antes, trinta homens correndo pelo convés já tinham mostrado o problema: o peso puxava de um ponto alto demais.

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O caso: o navio mais armado do reino

Dez de agosto de 1628, Estocolmo. O navio mais armado do reino sai do porto na viagem inaugural, diante da corte do rei Gustavo Adolfo: sessenta e quatro canhões em dois conveses de artilharia, 47,5 m de comprimento entre as perpendiculares, 11,7 m de boca e 1 210 t de deslocamento — a palavra náutica para a massa do navio, e este capítulo explica por que o nome é esse. Ele navega cerca de 1 300 m. Vem uma rajada, o navio aderna, a água entra pelas portinholas dos canhões, que estavam abertas, e o Vasa afunda a 120 m da margem. Cerca de trinta pessoas morrem.

O casco de um navio de guerra do século XVII em corte transversal, fora de escala: alto acima da linha d'água, com duas fileiras de portinholas de canhão, e um casco arredondado embaixo, dentro da água. Um ponto salmão marca o centro de gravidade, alto, com a seta salmão do peso para baixo; um ponto azul-céu marca o centro de empuxo, baixo, com a seta azul-céu do empuxo para cima. Um cartão com os números do caso: 10 de agosto de 1628; 64 canhões; 1 210 t; 1 300 m navegados; afundou a 120 m da margem; cerca de 30 pessoas morreram.
Figura 8.1 — O casco em corte: o peso puxa de um ponto alto, o centro de gravidade; a água empurra de um ponto baixo, o centro do volume submerso. A distância entre os dois é a história deste capítulo.

Ninguém precisava de uma rajada para saber. Semanas antes, no verão, o capitão fizera para o vice-almirante o teste de estabilidade que se fazia na época: trinta homens correndo de um lado a outro do convés superior, todos juntos. Na terceira travessia o almirante mandou parar — o navio adernava demais. O navio saiu assim mesmo. A causa, hoje conhecida, cabe numa frase: a parte acima da linha d'água era alta e pesada demais para a parte que estava dentro da água. O centro de gravidade ficou alto demais para o lastro que havia embaixo. O casco foi resgatado em 1961, 333 anos depois, e hoje está num museu.

O capítulo 7 terminou com uma pergunta. Pascal explica o líquido fechado, em que um empurrão vira pressão em todo ponto. E se o líquido estiver aberto, com superfície livre, e o que entra nele não for um pistão, mas um casco? A resposta começa onde o capítulo 6 parou: um cubo submerso recebe mais pressão embaixo do que em cima, e sobra uma força para cima. A seção do empuxo refaz essa conta com letras e mostra que a força é o peso da água que o cubo tirou do lugar — a lei de Arquimedes, enunciada na seção da lei, que depende do fluido e do volume, e de mais nada. A seção da flutuação aplica a lei ao navio: ele afunda até deslocar o próprio peso em água, e é por isso que a massa dele se chama deslocamento. A seção do peso aparente mostra o que uma balança marca dentro d'água. Depois vem o que afundou o Vasa: na seção da estabilidade, o peso age num ponto e o empuxo em outro, e o par entre os dois ou endireita o navio ou o tomba; na seção do teste, os trinta homens viram um torque com número. E a seção do balão fecha uma conta aberta no capítulo 4: o balão que levou uma cápsula a 39 km subiu pela mesma lei, com o ar no lugar da água.

O empuxo nasce de Stevin: o cubo, agora com letras

Volte ao cubo do capítulo 6: 10 cm de aresta, a face de cima a 1 m de profundidade em água doce. A água empurrava a face de cima para baixo com 1 100 N e a face de baixo para cima com 1 110 N; as laterais se cancelavam; sobravam 10 N para cima, o peso de um litro de água. Aquela conta tinha números. Esta tem letras, e por isso vale para qualquer cubo, em qualquer líquido, a qualquer profundidade.

Um cubo de aresta a, em claro, submerso em água azul-céu, com a face de cima a uma profundidade h, cotada, e a aresta a cotada ao lado. Uma seta salmão de força aponta para baixo sobre a face de cima, rotulada de cima, e outra, um pouco maior, aponta para cima sob a face de baixo, rotulada de baixo. À direita, duas barras de pressão azul-céu: a do topo, rô g h, e a da base, rô g vezes h mais a, com a diferença rô g a marcada em salmão. Um cartão: F de baixo menos F de cima é igual a rô g a vezes a ao quadrado, igual a rô g V — o peso da água que caberia no cubo.
Figura 8.2 — A face de baixo está a mais profundidade do que a de cima, exatamente uma aresta a mais. A diferença de pressão é ρ × g × a; vezes a área da face, a², dá ρ × g × a³ — o peso do líquido que o cubo desloca.

Chame a aresta de a e a profundidade da face de cima de h. Pela lei de Stevin, a pressão na face de cima é p₀ + ρ × g × h, e a pressão na face de baixo, que está uma aresta mais fundo, é p₀ + ρ × g × (h + a). A força em cada face é a pressão vezes a área da face, a². Nas laterais, cada par de faces opostas está à mesma profundidade e as forças se cancelam. Sobram a de cima e a de baixo, e a de baixo é maior: a diferença é [ρ × g × (h + a) − ρ × g × h] × a² = ρ × g × a × a² = ρ × g × a³. Repare no que sumiu: o p₀ sumiu, porque a atmosfera empurra igual nas duas faces; o h sumiu, porque só a diferença de nível entre as faces entra. E a³ é o volume do cubo, V. A força que sobra, para cima, vale ρ × g × V — a massa de líquido que caberia no cubo, ρ × V, vezes g: o peso do líquido que o cubo tirou do lugar.

Definição

Empuxo

A dedução usou um cubo porque as faces são planas e a conta cabe numa linha, mas o resultado não depende da forma. Se o corpo fosse retirado e o buraco fosse preenchido com o próprio líquido, esse líquido ficaria parado — logo a água em volta o sustenta com exatamente o peso dele. A água em volta não sabe o que há dentro do buraco; empurra do mesmo jeito.

A lei de Arquimedes: o fluido, o volume, e mais nada

O que a conta com letras entrega tem nome e dois mil e trezentos anos: um corpo mergulhado num fluido recebe um empuxo, para cima, igual ao peso do fluido que ele desloca. Em fórmula: E = ρ do fluido × V deslocado × g. Há três coisas na fórmula, e é mais importante saber o que não está nela. Não está a massa do corpo, nem a densidade do corpo, nem o material de que ele é feito. Não está a profundidade, quando o corpo está todo dentro do líquido. Está a densidade do fluido — e o volume que o corpo tirou do lugar.

Dois blocos de um litro cada, totalmente submersos na mesma água, em profundidades diferentes: um de aço, em azul, com o topo a 0,8 m da superfície, e um de madeira, em salmão-claro, com o topo a 3,6 m. Sobre cada um, uma seta azul-céu do empuxo para cima, as duas do mesmo tamanho, rotuladas 10 N; e uma seta salmão do peso para baixo, comprida no aço, 78 N, e curta na madeira, 6 N. Um cartão: mesmo volume, mesma água, mesmo empuxo, 10 N; o peso do corpo e a profundidade não entram.
Figura 8.3 — Um litro de aço e um litro de madeira, em profundidades diferentes, recebem o mesmo empuxo: 10 N, o peso de um litro de água. O que muda é o peso deles — e é isso que decide quem sobe e quem afunda.

Ponha um litro de aço e um litro de madeira debaixo d'água, um a 0,8 m e outro a 3,6 m. O empuxo sobre cada um é o mesmo: 1 000 × 10 × 0,001 = 10 N, o peso de um litro de água. O aço, com 7 800 kg/m³, pesa 78 N, quase oito vezes o empuxo, e por isso afunda quando é solto; a madeira, com cerca de 600 kg/m³, pesa 6 N, menos que o empuxo, e por isso sobe. Mas o empuxo é igual nos dois — e seria igual a 10 m ou a 100 m de profundidade, porque a diferença de pressão entre a face de cima e a de baixo só depende da distância entre elas, que é a aresta do bloco.

Definição

Lei de Arquimedes

GrandezaEntra no empuxo?
densidade do fluidosim
volume submersosim
peso ou material do corponão
profundidade, todo submersonão

A parte do fluido merece um exemplo próprio, porque é nela que o caso e o capítulo 9 se decidem. Tome o mesmo litro e mergulhe-o em três fluidos. Em água doce, a 1 000 kg/m³, o empuxo é 10 N. Na água do mar, a 1 025 kg/m³, o número do livro desde o capítulo 6, o empuxo é 1 025 × 10 × 0,001 = 10,25 N — dois e meio por cento a mais. No ar, a 1,2 kg/m³, o mesmo litro recebe 1,2 × 10 × 0,001 = 0,012 N: mil vezes menos que na água, mas diferente de zero, e a seção do balão vive desse número.

Três painéis com o mesmo bloco de um litro, em claro. No primeiro, dentro de água doce, com uma seta azul-céu do empuxo para cima rotulada 10 N e a densidade 1 000 kg por metro cúbico embaixo. No segundo, em água do mar, seta um pouco maior, 10,25 N, densidade 1 025. No terceiro, no ar, uma seta minúscula, 0,012 N, densidade 1,2. Um cartão com a fórmula: E é igual a rô do fluido vezes V deslocado vezes g — o empuxo é o peso do fluido que o corpo tirou do lugar.
Figura 8.4 — O mesmo litro em três fluidos: o empuxo é o peso de um litro de água doce, de um litro de água do mar ou de um litro de ar. O corpo não mudou; o fluido em volta, sim.

Atenção

O empuxo não depende do peso do corpo

"O bloco de aço é mais pesado, então recebe mais empuxo" é a frase errada, e está sempre entre as alternativas. O empuxo é o peso do fluido deslocado, não do corpo. Dois corpos com o mesmo volume submerso, no mesmo fluido, recebem o mesmo empuxo, pesem o que pesarem. O peso do corpo entra depois, na comparação com o empuxo — é ela que decide se o corpo sobe, flutua ou afunda, e é a próxima seção.

Dica ENEM

Dica ENEM: converta o volume antes de multiplicar

A fórmula quer o volume em metros cúbicos. A prova costuma dar litros ou centímetros cúbicos: 1 L = 10⁻³ m³, 1 cm³ = 10⁻⁶ m³, e 1 000 L = 1 m³. Um corpo de 500 cm³ tem 5 × 10⁻⁴ m³, e em água doce recebe 1 000 × 10 × 5 × 10⁻⁴ = 5 N. Quem multiplica direto por 500 acha cinco milhões de newtons — e a alternativa está lá. Há um atalho seguro: em água doce, o empuxo em newtons é dez vezes o volume submerso em litros, porque um litro de água pesa 10 N.

Flutuar: o casco desloca o próprio peso em água

Um navio é um copo virado para cima. Solte-o na água: ele afunda um pouco, e a cada centímetro que afunda desloca mais água e recebe mais empuxo. Para quando o empuxo iguala o peso — a primeira condição de equilíbrio, resultante zero, a do capítulo 1. Nesse ponto, o buraco que o casco faz na água pesa, em água, o mesmo que o navio inteiro. Se o casco fosse mais fundo, o empuxo passaria do peso e ele subiria; se fosse mais raso, o peso venceria e ele desceria. A linha d'água é a altura em que a balança fecha.

O casco em corte flutuando: a parte abaixo da linha d'água está preenchida em salmão-claro e rotulada 1 210 metros cúbicos de água deslocada. Um ponto salmão no centro de gravidade, com a seta do peso para baixo, P igual a 1,21 vezes 10 elevado a 7 newtons; um ponto azul-céu no centro de empuxo, com a seta do empuxo para cima, E igual ao mesmo valor. Um cartão: V é igual a m dividido por rô, igual a 1 210 000 dividido por 1 000, igual a 1 210 metros cúbicos; o casco abaixo da linha d'água é um buraco na água desse tamanho.
Figura 8.5 — O Vasa flutuando: 1 210 t pedem 1 210 m³ de água deslocada. A parte do casco abaixo da linha d'água é um buraco na água desse tamanho, e a água em volta o segura com o peso do que caberia nele.

Faça a conta para o Vasa. A massa era 1 210 t = 1 210 000 kg; o peso, 1 210 000 × 10 = 1,21 × 10⁷ N. Flutuando, E = P: ρ × V × g = m × g, e o g se cancela dos dois lados. Sobra V = m ÷ ρ = 1 210 000 ÷ 1 000 = 1 210 m³ de água deslocada — mil duzentos e dez metros cúbicos, uma piscina de vinte e cinco metros com o fundo a dois metros. O mar Báltico é salobro, menos salgado que o mar aberto; com a densidade do mar do livro, 1 025 kg/m³, o volume seria 1 210 000 ÷ 1 025 ≈ 1 180 m³, e a resposta verdadeira está entre os dois. A série usa o número redondo da água doce, e o capítulo também.

Definição

Flutuação

ComparaçãoO corpo
E maior que Psobe até flutuar
E igual a Pflutua parado
E menor que Pafunda

Agora o nome. Os marinheiros chamam a massa de um navio de deslocamento porque ela é medida assim: pelo volume de água que o casco desloca quando flutua, vezes a densidade da água. E há uma consequência que vale guardar para o capítulo 9: divida a massa de qualquer corpo que flutua pelo volume submerso dele e o resultado é sempre a densidade da água — 1 210 000 ÷ 1 210 = 1 000. É a lei de Arquimedes lida de trás para a frente. A densidade que decide se o navio flutua é outra, a do casco inteiro, e é o assunto do capítulo seguinte.

Peso aparente: a balança dentro d'água

A Mecânica III mostrou, no capítulo 5, que uma balança de mola não mede massa: mede a força que a mola faz, e essa força só é igual ao peso quando nada mais empurra o corpo. Dentro d'água, algo mais empurra: o empuxo, para cima. A mola precisa fazer menos força para segurar o corpo, e a balança marca menos. O número que ela marca se chama peso aparente.

Duas balanças de mola penduradas num suporte, lado a lado, cada uma com um bloco de aço azul pendurado num fio. À esquerda, o bloco no ar e a balança marcando 10 N, com a seta salmão do peso, 10 N, para baixo. À direita, o mesmo bloco dentro de um recipiente de água azul-céu, com a balança marcando 8,7 N e uma seta azul-céu do empuxo, 1,3 N, para cima. Um cartão: peso aparente igual a P menos E, igual a 10 menos 1,3, igual a 8,7 N; a massa não mudou, a balança lê a tração no fio.
Figura 8.6 — O bloco de 1 kg de aço pesa 10 N no ar. Dentro d'água, o empuxo de 1,3 N ajuda a mola, e a balança marca 8,7 N — treze por cento a menos. A massa não mudou; o que mudou foi quem segura o bloco.

Tome um bloco de aço de 1 kg, pendurado numa balança de mola. No ar, a balança marca o peso: 10 N. O volume do bloco é a massa dividida pela densidade: 1 ÷ 7 800 = 1,28 × 10⁻⁴ m³, cento e vinte e oito centímetros cúbicos — um cubo com pouco mais de 5 cm de lado. Mergulhado em água doce, ele recebe um empuxo de 1 000 × 10 × 1,28 × 10⁻⁴ = 1,28 N, cerca de 1,3 N. A mola só precisa fazer 10 − 1,3 = 8,7 N, e é isso que a balança marca: treze por cento a menos. A massa do bloco continua 1 kg; o peso, a força da Terra sobre ele, continua 10 N. O que a balança perdeu foi a parte do serviço que a água passou a fazer.

Definição

Peso aparente

A diferença entre a leitura no ar e a leitura na água é o empuxo, o peso do fluido deslocado — um jeito de medir o volume de objetos irregulares, e a conta que a prova gosta de pedir ao contrário: dá as duas leituras e pergunta o volume, ou a densidade, do corpo. O Exemplo 3 faz a conta direta; a lista do app faz a inversa.

Estabilidade: onde o peso puxa e onde a água empurra

Até aqui o navio foi um ponto: um peso para baixo, um empuxo para cima, e o equilíbrio de forças. Mas o Vasa não afundou por falta de empuxo — ele flutuava, e flutuou por 1 300 m. Ele afundou porque adernou, girou em torno do próprio eixo, até a água entrar. Girar é assunto da segunda condição de equilíbrio, a do torque, e para o torque importa onde cada força age. O peso age no centro de gravidade do navio, o CG, como no capítulo 3. O empuxo age no centro do volume submerso — o centro de gravidade da água que caberia no buraco do casco, que este livro chama de centro de empuxo, CE. No Vasa, o CG estava alto, na altura dos conveses de canhões; o CE estava baixo, dentro da água.

Dois painéis com o casco em corte. No da esquerda, o casco em pé: o centro de gravidade, ponto salmão, e o centro de empuxo, ponto azul-céu, estão na mesma vertical tracejada; a seta do peso e a seta do empuxo são opostas na mesma linha, torque zero. No da direita, o casco adernado para a direita: a parte submersa, em salmão-claro, ficou maior do lado direito; o centro de empuxo se deslocou para esse lado, e a seta do empuxo passa à direita do centro de gravidade; um arco azul-céu em volta do CG, no sentido anti-horário, indica o giro de volta, rotulado restaura.
Figura 8.7 — Em pé, peso e empuxo estão na mesma vertical e não há giro. Adernado, o volume submerso muda de forma, o centro de empuxo vai para o lado que afundou, e o empuxo, fora da vertical do CG, faz um torque que endireita o casco.

Com o navio em pé, o CG e o CE estão na mesma vertical: o peso e o empuxo são opostos, iguais e na mesma linha, e o torque é zero. Agora deixe uma rajada inclinar o casco alguns graus para a direita. O peso continua no CG, que é um ponto do navio e gira com ele. Mas o volume submerso muda de forma: o lado direito afunda mais e desloca mais água; o esquerdo sai da água. O centro de empuxo se desloca para o lado que afundou. Declare o polo antes de todo torque: torques em relação ao CG. O peso passa pelo polo e não gira nada; sobra o empuxo, que agora passa ao lado do CG. Se a linha de ação do empuxo passa do lado que afundou, o torque do empuxo levanta esse lado — gira o navio de volta. É o torque de restauração, e é ele que faz um casco voltar a ficar em pé depois de cada onda.

Dois cascos adernados do mesmo ângulo, lado a lado, com o mesmo volume submerso em salmão-claro e a mesma seta do empuxo subindo do centro de empuxo. A vertical do empuxo cruza o eixo tracejado do casco num ponto marcado M. No painel da esquerda, o centro de gravidade está abaixo de M, e a linha do empuxo passa do lado que afundou: um arco azul-céu indica o giro que endireita. No da direita, o centro de gravidade está acima de M, e a linha do empuxo passa do outro lado: um arco salmão indica o giro que tomba.
Figura 8.8 — O mesmo casco, o mesmo ângulo, o mesmo empuxo — só o CG mudou de altura. Abaixo do ponto M, o par endireita; acima, o par tomba. O Vasa tinha o CG acima.

Repare que, nos dois painéis da figura, o casco, o ângulo e o empuxo são os mesmos. A única diferença é a altura do centro de gravidade. Trace a vertical do empuxo e marque o ponto em que ela cruza o eixo do casco; a arquitetura naval chama esse ponto de metacentro, M, e o livro o cita numa frase só: se o CG está abaixo de M, o empuxo passa do lado que afundou e endireita; se o CG está acima de M, o empuxo passa do outro lado e tomba. No painel da direita, com o CG alto, o torque do empuxo gira o casco no mesmo sentido em que a rajada o inclinou — cada grau a mais pede mais graus. Esse era o Vasa: dois conveses de canhões, uma obra alta e coberta de esculturas acima da linha d'água, e embaixo lastro de menos para puxar o CG para baixo. Quanto mais alto o CG, menor a inclinação que basta para o par mudar de sinal.

Onde está o CGO par peso–empuxo
abaixo de Mendireita o navio
acima de Mtomba o navio

É a régua do capítulo 3 com outra roupa: lá, CG baixo e base larga davam margem ao bloco sobre a mesa. Aqui a "base" é o volume submerso, que muda de forma quando o casco inclina; um casco largo desloca o centro de empuxo mais para o lado e restaura mais, e um CG baixo fica abaixo de M com folga. Largo e baixo é estável — no bloco e no navio.

Atenção

Flutuar não é ser estável

Um navio pode ter empuxo igual ao peso, resultante zero, e ainda assim tombar: o Vasa é a prova. Flutuar é a primeira condição de equilíbrio; não adernar é a segunda, e ela depende de onde as forças agem, não só de quanto valem. As duas condições, sempre as duas — o capítulo 1 começou com uma balsa que tinha a primeira e não tinha a segunda, e este termina com um navio na mesma situação.

O teste dos trinta homens

O teste do verão de 1628 era um torque de prova, e dá para pôr número nele com um modelo declarado como modelo: trinta homens de 80 kg cada um, correndo juntos de um lado a outro do convés e parando a 5 m do eixo do navio. Polo: o eixo do navio, no meio do casco. A massa que se deslocou é 30 × 80 = 2 400 kg — apenas dois décimos por cento da massa do navio, 2 400 ÷ 1 210 000 ≈ 0,002. O peso dela é 2 400 × 10 = 24 000 N; com um braço de 5 m, o torque é τ = 24 000 × 5 = 1,2 × 10⁵ N·m: cento e vinte mil newton-metros de um lado.

O casco em corte, em pé, com o convés no alto. Um bloco salmão sobre o convés, à direita, representa os trinta homens, 2 400 kg, com a seta salmão do peso para baixo, 24 000 N. Uma cota do eixo tracejado do navio até o bloco marca o braço, 5 m. No eixo, na altura da linha d'água, um ponto marca o polo, e um arco salmão em volta dele, no sentido horário, indica o giro, rotulado aderna. Um cartão: torque igual a 24 000 vezes 5, igual a 1,2 vezes 10 elevado a 5 newton-metros; 0,2 por cento da massa, braço de 5 m.
Figura 8.9 — Trinta homens a cinco metros do eixo: cento e vinte mil newton-metros. Dois décimos por cento da massa do navio bastaram para adernar tanto que o almirante mandou parar na terceira travessia.

Um navio bem lastrado responde a esse torque com uma inclinação pequena, porque o torque de restauração cresce depressa com o ângulo: o CG fica bem abaixo de M, e o par endireita com folga. O Vasa adernou tanto que o almirante mandou parar depois de três travessias. A tradução é direta: o torque de restauração era pequeno demais — o CG estava alto, o M estava perto dele, e dois décimos por cento da massa a cinco metros do eixo bastavam para levar o casco a um ângulo perigoso. No dia da viagem, a rajada fez o que os homens tinham feito, com as portinholas abertas na altura em que a água entrou. Ninguém disse por quê, na época. A física diz.

Dica ENEM

Dica ENEM: torque de prova é torque como outro qualquer

Um problema de estabilidade de navio, de balsa ou de barco de pesca é um problema de torque do capítulo 1: declare o polo, escreva força vezes braço para cada força e compare. Peso deslocado para um lado é uma força a mais no diagrama, com o braço medido do polo até a linha de ação. E o que restaura é o empuxo fora da vertical do CG — nunca "a água que empurra o lado de baixo" sem conta.

O balão subiu por Arquimedes

O capítulo 4 deixou uma frase pendurada: o balão que levou uma cápsula a 38 969 m sobe porque o ar o empurra para cima com uma força chamada empuxo, e essa força é o peso do ar que ele desloca. Agora a frase tem dedução. O ar é um fluido; a pressão dele diminui com a altura, como a da água diminui rumo à superfície; a face de baixo de qualquer corpo recebe pressão um pouco maior do que a de cima; e a soma dá ρ do ar × V × g. No nível do mar, cada metro cúbico deslocado rende 1,2 × 1 × 10 = 12 N. Um balão que desloca dez mil metros cúbicos recebe 120 000 N de empuxo — e sobe se o conjunto de balão, hélio, cápsula e piloto pesar menos que isso.

Um balão de hélio, em claro, com uma cápsula pendurada embaixo. Do centro do balão sobe uma seta azul-céu comprida, o empuxo do ar, o peso do ar que o balão desloca; da cápsula desce uma seta salmão, o peso do conjunto. Um cartão: E é igual a rô do ar vezes V vezes g; cada metro cúbico de ar deslocado, no nível do mar, dá 1,2 vezes 1 vezes 10 igual a 12 N; a mesma lei da água, com o fluido trocado.
Figura 8.10 — O balão é um casco no ar: desloca ar, recebe o peso do ar deslocado, e sobe enquanto isso passa do peso do conjunto. A 39 km, com o ar a quatro milésimos da densidade daqui, o empuxo igualou o peso e a subida acabou.

O motivo de a subida acabar também está na fórmula: ρ do ar cai com a altitude, e com ele o empuxo. A 39 km, o ar tem 0,0045 kg/m³, e o mesmo metro cúbico rende 0,045 N. Quando o empuxo, com o balão todo aberto, igualou o peso do conjunto, a resultante se anulou e o balão parou — no ar, um corpo "flutua" onde a densidade do fluido em volta iguala a densidade média dele. Água e ar são o mesmo capítulo: um fluido em repouso, com pressão que cresce para baixo, sustenta qualquer corpo com o peso do fluido que o corpo tirou do lugar.

Fica uma pergunta para o capítulo 9. O Vasa era de madeira e flutuava; um navio de hoje é de aço, com quatrocentos metros e duzentas mil toneladas de carga, e flutua. Um prego de aço afunda. O aço é o mesmo. O que decide não é o peso, nem o material: é uma média — e um submarino a escolhe, enchendo os tanques de água para descer e soprando ar neles para subir.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos problemas de empuxo há uma decisão antes dos três: qual é o volume deslocado — o corpo inteiro, se está todo submerso, ou só a parte embaixo da superfície, se flutua — e em que unidade ele está. Litro e centímetro cúbico viram metro cúbico antes de qualquer multiplicação.

Exemplo 1 — O cubo do capítulo 6, agora pela lei

Um cubo de 10 cm de aresta está totalmente submerso em água doce, de densidade 1 000 kg/m³, com a face de cima a 1 m de profundidade. Qual é o empuxo sobre ele? Use g = 10 m/s².

Fórmula. E = ρ × V × g, com V = a³

Substituição. V = (0,1)³ = 0,001 m³ ; E = 1 000 × 0,001 × 10

Resultado. E = 10 N

Conferência. é o mesmo número que o capítulo 6 achou face por face, 1 110 − 1 100 = 10 N. A profundidade de 1 m não entrou na fórmula: a 5 m o empuxo seria os mesmos 10 N.

Exemplo 2 — O Vasa: quanto de água o casco deslocava

O navio tinha 1 210 t e flutuava. Que volume de água ele deslocava? Use água doce, 1 000 kg/m³, e depois a água do mar do livro, 1 025 kg/m³.

Fórmula. flutuando, E = P: ρ × V × g = m × g ; V = m ÷ ρ

Substituição. V = 1 210 000 ÷ 1 000 ; com o mar: V = 1 210 000 ÷ 1 025

Resultado. V = 1 210 m³ em água doce ; cerca de 1 180 m³ com a água do mar

Conferência. o peso do navio é 1 210 000 × 10 = 1,21 × 10⁷ N, e 1 000 × 1 210 × 10 dá o mesmo 1,21 × 10⁷ N de empuxo. O Báltico é salobro, entre os dois números; a série usa 1 210.

Exemplo 3 — O bloco de aço na balança

Um bloco de aço de 1 kg (densidade 7 800 kg/m³) está pendurado numa balança de mola e é mergulhado em água doce. O que a balança marca no ar e o que marca com o bloco submerso?

Fórmula. V = m ÷ ρ do aço ; E = ρ da água × V × g ; peso aparente = P − E

Substituição. V = 1 ÷ 7 800 = 1,28 × 10⁻⁴ m³ ; E = 1 000 × 1,28 × 10⁻⁴ × 10 = 1,28 N ; aparente = 10 − 1,3

Resultado. no ar, 10 N ; na água, 8,7 N

Conferência. a razão E ÷ P é 1 000 ÷ 7 800 = 0,128 — a balança marca 13 por cento a menos, a razão entre a densidade da água e a do aço. A massa continua 1 kg.

Exemplo 4 — O torque dos trinta homens

No teste, trinta homens de 80 kg cada um correram para o mesmo lado do convés e pararam a 5 m do eixo do navio (modelo declarado). Qual é o torque do peso deles em relação ao eixo, e que fração da massa do navio, 1 210 t, eles representavam?

Fórmula. polo no eixo ; τ = F × d, com F = m × g ; fração = m ÷ M

Substituição. m = 30 × 80 = 2 400 kg ; F = 2 400 × 10 = 24 000 N ; τ = 24 000 × 5 ; fração = 2 400 ÷ 1 210 000

Resultado. τ = 1,2 × 10⁵ N·m ; fração ≈ 0,002, dois décimos por cento

Conferência. cento e vinte mil newton-metros com dois milésimos da massa. O navio adernou tanto que o teste parou na terceira travessia: o torque de restauração era menor do que isso já em ângulos pequenos.

Dois painéis com o mesmo bloco de 2 000 centímetros cúbicos, em salmão-claro. À esquerda, o bloco totalmente submerso, seguro por um fio: a seta azul-céu do empuxo para cima, 20 N, é maior que a seta salmão do peso, 16 N; o rótulo diz solto, sobe, o empuxo vence. À direita, o bloco flutuando com 1 600 centímetros cúbicos embaixo da linha d'água e 400 fora: as duas setas têm o mesmo tamanho, 16 N; o rótulo diz flutuando, empuxo igual ao peso.
Figura 8.11 — O Exemplo 5 em desenho: submerso à força, o bloco recebe 20 N contra 16 N de peso e sobe; solto, para quando 1 600 cm³ estão embaixo d'água — oitenta por cento do volume.

Exemplo 5 — Sobe, flutua ou afunda

Um bloco de 2 000 cm³ e 1,6 kg é mantido totalmente submerso em água doce e depois solto. Qual é o empuxo submerso, o que o bloco faz ao ser solto e que volume fica embaixo d'água quando ele para? (Números de exercício.)

Fórmula. E = ρ × V × g ; comparar E com P = m × g ; flutuando, V submerso = m ÷ ρ

Substituição. V = 2 000 cm³ = 2 × 10⁻³ m³ ; E = 1 000 × 2 × 10⁻³ × 10 ; P = 1,6 × 10 ; V submerso = 1,6 ÷ 1 000

Resultado. E = 20 N, maior que P = 16 N: o bloco sobe ; para com 1,6 × 10⁻³ m³ = 1 600 cm³ submersos

Conferência. 1 600 de 2 000 são 80 por cento do volume embaixo d'água, e 1 600 cm³ de água pesam 16 N, o peso do bloco. A fração submersa, 0,8, é a razão entre a densidade do bloco, 800 kg/m³, e a da água — o capítulo 9 faz dessa razão uma regra.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo, antes de tudo, pela fórmula E = ρ × V × g — o item de hidrostática mais frequente da prova —, quase sempre com o volume dado em litros ou centímetros cúbicos e a densidade do fluido dada no enunciado. A segunda cobrança é a comparação empuxo contra peso: o corpo sobe, flutua ou afunda, e a versão qualitativa pergunta de que o empuxo depende — e planta "do peso do corpo" e "da profundidade" entre as alternativas. A terceira é o peso aparente, com a balança de mola ou o dinamômetro dentro d'água. A quarta é a fração submersa de um corpo que flutua, a razão entre a densidade do corpo e a do fluido: o iceberg, com gelo a 920 kg/m³ na água do mar a 1 025, fica com 920 ÷ 1 025 ≈ 0,90, nove décimos embaixo d'água.

Um cartão grande no alto com a fórmula: E é igual a rô do fluido vezes V submerso vezes g. Abaixo, três cartões: E maior que P, sobe até flutuar; E igual a P, flutua parado, em destaque; E menor que P, afunda. Um cartão riscado com um X em salmão: o empuxo depende do peso do corpo. Embaixo, os lembretes: V é o volume submerso, em metros cúbicos, um litro é dez elevado a menos três; corpo todo submerso, a profundidade não entra; peso aparente é peso menos empuxo.
Figura 8.12 — Pediu o empuxo? Densidade do fluido vezes volume submerso vezes g, com o volume em metros cúbicos. O que decide se sobe ou afunda é a comparação com o peso — e o empuxo não depende do peso do corpo.

Com números de exercício: um corpo de 3 000 cm³ totalmente submerso em água doce recebe 1 000 × 3 × 10⁻³ × 10 = 30 N de empuxo; se pesa 45 N, afunda, e uma balança que o segurasse na água marcaria 15 N. Se pesasse 24 N, flutuaria com 2 400 cm³ submersos, oito décimos do volume. Leia a densidade do fluido no enunciado: no mar, os mesmos 3 000 cm³ rendem 30,75 N, e a alternativa com 30 N está lá para quem usou a água doce por hábito.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: o empuxo é a diferença das pressões de Stevin, embaixo maior que em cima; Arquimedes, E igual a rô do fluido vezes V deslocado vezes g, do fluido e do volume, não do peso do corpo; flutua quando E é igual a P, e na água a balança marca o peso aparente; o empuxo age no centro do volume submerso e o peso no CG, e CG alto tomba; o Vasa, alto e pesado em cima, lastro de menos embaixo.
Figura 8.13 — O capítulo em cinco peças.
  1. O empuxo nasce de Stevin: embaixo de um corpo submerso a pressão é maior do que em cima, e sobra uma força para cima — o peso do fluido que o corpo tirou do lugar.
  2. Lei de Arquimedes: E = ρ do fluido × V deslocado × g. Depende do fluido e do volume submerso; não depende do peso do corpo nem da profundidade.
  3. Flutuar é E = P: o corpo afunda até deslocar o próprio peso em fluido, V submerso = m ÷ ρ. Dentro d'água, a balança marca o peso aparente, peso menos empuxo.
  4. Estabilidade: o empuxo age no centro do volume submerso, o peso no centro de gravidade. Adernou, o centro de empuxo vai para o lado que afundou; com o CG abaixo de M o par endireita, acima de M o par tomba.
  5. O Vasa: alto e pesado em cima, lastro de menos embaixo — flutuava, e por isso navegou 1 300 m; não era estável, e por isso uma rajada bastou.

Se for guardar uma frase só, guarde o copo virado para cima: o navio flutua enquanto o buraco que faz na água pesa, em água, o mesmo que ele — e é estável enquanto o ponto de onde a água empurra ficar do lado certo do ponto de onde o peso puxa.

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