Termodinâmica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 10: A telha que se segura em brasa

Capítulo 10A telha que se segura em brasa

Condução e condutividade térmica

A telha sai do forno com o miolo a 1 200 °C e alguém a segura pelas bordas com a mão nua — porque o calor está lá dentro, mas atravessa o material a 24 watts: o fluxo de uma lâmpada fraca.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 10

Este capítulo acompanha o episódio 10 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 10 no YouTube

professorcanario.com.br/t1/c10/video

O caso: a telha que sai do forno a 1 200 °C

A porta do forno abre. O que sai de dentro é um bloco branco, quadrado e leve, e o miolo dele ainda brilha vermelho: 1 200 °C. Segundos depois, alguém segura esse bloco pelas bordas, com a mão nua. Não há truque nem luva escondida. É uma telha de proteção térmica do ônibus espacial, o material chamado LI-900: 99,9% sílica pura e, em volume, 94% ar. Ela suporta ciclos a 1 260 °C, pode ser aquecida a 1 204 °C e mergulhada em água fria sem trincar — e a energia da superfície se dissipa tão depressa que a telha, sem revestimento, pode ser segurada pelas bordas logo depois de sair do forno, com o interior ainda em brasa.

Corte de uma telha branca de proteção térmica, quadrada, segura pelas bordas por uma pinça. O miolo, no centro, está pintado de salmão e marcado 1 200 °C; as bordas, claras, estão marcadas 100 °C. Uma seta escura curta, do miolo para a borda, indica o sentido do fluxo de calor; um cartão ao lado diz: 94% ar; k igual a 0,0485 W/(m·K).
Figura 10.1 — A telha do caso: o miolo a 1 200 °C, a borda fria o bastante para a mão. O calor está lá dentro; só não consegue chegar.

Esse número, 94% ar, é a chave do caso. O calor está lá dentro, no miolo em brasa. O que ele não consegue é chegar à borda a tempo. Numa placa de cobre do mesmo tamanho, com a mesma diferença de temperatura, o calor atravessaria a placa oito mil vezes mais depressa — e ninguém a seguraria por um instante. A diferença entre a telha e o cobre não está na temperatura, que é a mesma nos dois: está numa propriedade do material, a condutividade térmica, e numa lei que diz quanto calor atravessa um pedaço de matéria por segundo.

Este capítulo abre o primeiro dos três caminhos por onde o calor se move. Começa pelos três caminhos, passa pela condução, que é o caminho da telha, chega à lei de Fourier e à condutividade de cada material, explica por que o ar preso é o melhor isolante barato que existe, resolve o velho engano da colher de metal e da colher de madeira e termina de volta ao forno, com a conta que diz por que a telha se segura.

Os três caminhos do calor

Calor é energia em trânsito: é o que passa de um corpo mais quente para um corpo mais frio enquanto as temperaturas dos dois são diferentes. Para passar, o calor usa um de três caminhos. Na condução, a energia atravessa a matéria de partícula a partícula, sem que a matéria saia do lugar — é o cabo da panela que esquenta. Na convecção, quem se move é o próprio fluido: o ar ou a água aquecidos ficam menos densos, sobem e levam energia com eles — é o ar acima do fogão. Na radiação, a energia viaja como onda, sem precisar de matéria nenhuma no caminho — é o calor do Sol, que atravessa o vácuo.

Três painéis lado a lado. No primeiro, condução: uma barra de metal com uma chama numa ponta e uma seta escura ao longo da barra indicando o sentido do fluxo de calor, da ponta quente para a fria; a barra fica no lugar. No segundo, convecção: uma panela de água sobre a chama, com uma seta azul-céu do ar que sobe acima dela. No terceiro, radiação: um sol pequeno no alto e, embaixo, o chão, sem nada entre os dois, com a legenda atravessa o vácuo.
Figura 10.2 — Três caminhos, uma só coisa que se move: energia. Na condução a matéria fica; na convecção a matéria vai junto; na radiação não precisa de matéria.

Definição

Os três caminhos do calor

Os três costumam agir juntos — uma panela no fogo recebe calor por radiação da chama, conduz pelo fundo de metal e espalha pela água por convecção —, mas cada um tem a sua lei. O capítulo 11 trata da convecção e o capítulo 12, da radiação. Aqui fica o primeiro caminho, o mais simples de medir: a condução.

Atenção

Calor não "sobe"

A frase "o calor sobe" está errada: calor não tem direção própria. O que sobe, numa sala com aquecedor, é o ar quente, menos denso que o ar frio ao redor — isso é convecção, e o capítulo 11 explica por quê. Na condução, o calor vai para onde a temperatura é menor, seja para cima, para baixo ou para o lado. E a radiação sai em todas as direções.

Condução: de partícula a partícula

Segure uma barra de metal por uma ponta e encoste a outra na chama. A ponta na chama esquenta primeiro; depois o trecho seguinte; depois o seguinte, até que a mão sente. Nenhum pedaço de metal andou. O que andou foi a energia: as partículas da ponta quente vibram mais, empurram as vizinhas, que passam a vibrar mais e empurram as próximas. A energia térmica caminha ao longo da barra sem que a barra saia do lugar. Isso é condução.

Uma fila de partículas desenhadas como círculos ao longo de uma barra horizontal. À esquerda, uma chama pequena e as primeiras partículas com traços curtos de vibração ao redor; à direita, partículas quietas. Acima da barra, uma seta escura da esquerda para a direita, com o rótulo fluxo de calor. Nas duas pontas, dois termômetros com colunas de alturas diferentes: 300 °C na ponta da chama e 40 °C na outra.
Figura 10.3 — A energia passa de partícula a partícula; a barra fica onde está. A seta é do fluxo de calor — do quente para o frio.

Definição

Condução térmica

Condução é a transferência de calor através da matéria, de partícula a partícula, sem transporte de matéria. Acontece sempre que duas regiões de um corpo, ou dois corpos em contato, estão a temperaturas diferentes, e o calor vai da região mais quente para a mais fria. É o caminho principal nos sólidos.

A seta da figura merece uma palavra. Neste livro, temperatura, calor e energia térmica são escalares: temperatura é a coluna do termômetro, calor é uma barra que cresce ou encolhe. A única seta que a condução ganha é a do sentido do fluxo: ela diz para onde o calor vai — e ele vai sempre do lado mais quente para o lado mais frio, nunca ao contrário. Enquanto houver diferença de temperatura, o fluxo continua; quando as temperaturas se igualam, ele para. É o equilíbrio térmico do capítulo 1, visto de dentro.

Dica ENEM

Dica ENEM: "sem transporte de matéria" é a marca da condução

Quando a questão descreve um sólido — cabo de panela, barra, parede, colher, chapa — que esquenta de uma ponta à outra, o caminho é condução, e a frase que a prova espera é "de partícula a partícula, sem transporte de matéria". Se o texto fala de ar ou água que se movem, é convecção; se fala de energia que chega sem contato, atravessando o vácuo ou o ar parado a distância, é radiação.

A lei de Fourier: quanto calor passa por segundo

Quanto calor atravessa uma parede por segundo? A resposta tem nome — fluxo de calor, Φ — e uma lei, a lei de Fourier. Imagine uma placa de área A e espessura e, com um lado a temperatura T₁ e o outro a T₂, mais baixa. Convenção declarada: Φ é o calor que atravessa a placa por segundo, contado do lado quente para o lado frio; Q > 0 é o que o lado frio recebe. O fluxo é proporcional à área, proporcional à diferença de temperatura ΔT = T₁ − T₂, inversamente proporcional à espessura, e multiplicado por um número que depende só do material, a condutividade k.

Uma placa retangular vista de lado, com a espessura e marcada por uma cota e a área A escrita na face. À esquerda, um termômetro com coluna alta marca T₁, o lado quente; à direita, um termômetro com coluna baixa marca T₂, o lado frio. Uma seta escura atravessa a placa da esquerda para a direita, com o rótulo Φ. Um cartão embaixo traz a fórmula: Φ igual a k vezes A vezes ΔT sobre e, em watt.
Figura 10.4 — A lei de Fourier: mais área e mais ΔT, mais fluxo; mais espessura, menos fluxo; e o k diz de que material a placa é feita.

Definição

A lei de Fourier

Φ = k·A·ΔT ÷ e, em que Φ = Q ÷ Δt é o fluxo de calor, em watt (joule por segundo); k é a condutividade térmica do material, em W/(m·K); A é a área atravessada, em m²; ΔT é a diferença de temperatura entre as duas faces, em °C ou em K (a diferença é a mesma nas duas escalas); e é a espessura, em metros. Vale em regime estacionário: quando as temperaturas das faces já não mudam com o tempo.

MudançaEfeito no fluxo Φ
a área A dobradobra
o ΔT dobradobra
a espessura e dobracai à metade
k 100 vezes maior100 vezes maior

A tabela é a lei em palavras. Uma janela duas vezes maior deixa passar o dobro; uma parede duas vezes mais grossa deixa passar a metade; e trocar o material muda o fluxo pelo fator entre os dois k. O fluxo é medido em watt, a mesma unidade da potência de uma lâmpada — e é assim que o caso vai ser lido: quantos watts atravessam a telha.

Atenção

ΔT é a diferença entre as faces, em °C ou em K

Na lei de Fourier entra a diferença de temperatura entre os dois lados, não a temperatura de um lado só. E como uma diferença de 1 °C é igual a uma diferença de 1 K, o ΔT pode ficar em graus Celsius mesmo com o k em W/(m·K): 1 200 − 100 = 1 100 °C são os mesmos 1 100 K de diferença. O erro comum é converter as duas temperaturas para kelvin, somar 273 nas duas e achar que o resultado muda. Não muda.

O fluxo não é o calor: é o calor por segundo. Para saber quanta energia atravessou a placa num intervalo, multiplica-se o fluxo pelo tempo: Q = Φ × Δt. Uma janela que deixa vazar 2 500 W entrega, em uma hora, 2 500 × 3 600 = 9 000 000 J — nove milhões de joules, ou 9 × 106 J.

Condutividade: um número do material

Tudo o que está na lei de Fourier é geometria — área, espessura — ou estado — a diferença de temperatura —, menos um número: k. A condutividade térmica é uma propriedade do material, como a densidade. Cobre tem k grande; ar parado tem k minúsculo. Entre o cobre e a telha, que é quase só ar, a razão passa de oito mil. O número diz quantos watts atravessam uma placa de 1 m² e 1 m de espessura com 1 K de diferença entre as faces.

Cinco barras horizontais numa escala logarítmica, declarada no rótulo do eixo, com o valor de k escrito na ponta de cada uma: cobre 400, aço inox 16, vidro 1,0, madeira 0,12 e telha LI-900 0,0485, em W/(m·K). As barras dos metais são escuras; as dos isolantes, claras. Um cartão no canto avisa: cada divisão do eixo multiplica por dez.
Figura 10.5 — A condutividade de cinco materiais. A escala é logarítmica de propósito: em escala comum, a barra da telha teria a espessura de um fio de cabelo ao lado da do cobre.
Materialk em W/(m·K)
cobre400
aço inox16
vidro1,0
madeira0,12
telha LI-9000,0485

Os valores são aproximados, de temperatura ambiente; o da madeira é o de um pinho seco, e o do vidro, o do vidro comum de janela. Quem tem k grande é condutor: os metais, com o cobre à frente. Quem tem k pequeno é isolante: madeira, lã, isopor, ar parado — e a telha, que é quase só ar. A telha a 21 °C tem k = 0,0485 W/(m·K); a 1 093 °C, com o miolo em brasa, ele sobe para 0,126, ainda cerca de três mil vezes menor que o do cobre.

Definição

Condutividade térmica

A condutividade térmica k é a constante da lei de Fourier: o fluxo de calor que atravessa 1 m² de um material com 1 m de espessura e 1 K de diferença entre as faces. Unidade: W/(m·K). É uma propriedade do material — não da peça, nem da temperatura de um lado só. Materiais de k alto são condutores; de k baixo, isolantes.

Dica ENEM

Dica ENEM: comparar materiais é dividir os k

Quando a prova põe duas peças de mesma geometria e mesmo ΔT, mas de materiais diferentes, a razão entre os fluxos é a razão entre os k: cobre contra aço inox, 400 ÷ 16 = 25 vezes; aço inox contra madeira, 16 ÷ 0,12 ≈ 133 vezes. Área, espessura e ΔT cancelam. Não some nem subtraia condutividades — a razão é o que a questão quer.

Ar preso: o isolante barato

O ar parado é um dos piores condutores de calor que existem — muito pior que a madeira, pior que o isopor, que, aliás, é ar preso em plástico. O problema do ar é que ele raramente fica parado: aquecido, sobe e carrega a energia por convecção. A solução de todo bom isolante é a mesma: prender o ar em bolsões pequenos demais para que ele circule. Lã, pena, isopor, lã de vidro, o casaco de inverno e a telha do ônibus espacial fazem exatamente isso. A telha é 94% ar em volume, preso numa espuma de fibras de sílica — o que sobra de sólido é pouco, e o calor precisa serpentear por fibras finíssimas para atravessar.

Dois painéis. À esquerda, uma janela de vidro simples, com o lado de dentro marcado 20 °C e o lado de fora marcado 10 °C, e uma seta escura grossa atravessando o vidro, com o rótulo 2 500 W. À direita, uma janela dupla: dois vidros com uma camada de ar preso entre eles, pontilhada, e uma seta escura fina atravessando, com o rótulo: muito menos.
Figura 10.6 — Um vidro de 4 mm deixa vazar 2 500 W com 10 °C de diferença. A janela dupla põe ar preso no caminho — e é o ar, não o segundo vidro, que corta o fluxo.

Uma janela comum mostra o tamanho do problema. Vidro de 4 mm, 1 m² de área, 10 °C entre dentro e fora: Φ = 1,0 × 1 × 10 ÷ 0,004 = 2 500 W. Dois quilowatts e meio vazando por um único vidro, o consumo de um chuveiro elétrico pequeno. A janela dupla resolve não pelo segundo vidro, e sim pela camada de ar preso entre os dois: uma camada de poucos milímetros de ar parado tem condutividade dezenas de vezes menor que a do vidro, e é ela que corta o fluxo.

Atenção

O isolante não "faz frio" nem "segura o frio"

Não existe frio como coisa que entra. O que uma parede isolante faz é diminuir o fluxo de calor que sai de dentro para fora no inverno — ou que entra de fora para dentro no verão. Nos dois casos o calor vai do quente para o frio; o isolante só faz esse fluxo ser pequeno. Um casaco não aquece: ele reduz o calor que o corpo perde para o ar.

A mão não é termômetro: a colher de metal e a de madeira

Numa gaveta a 25 °C há uma colher de aço e uma colher de pau. Toque as duas: a de aço dá a sensação de mais fria. Mas as duas estão na mesma gaveta há horas — e o capítulo 1 mostrou que dois corpos em contato com o mesmo ambiente por tempo suficiente chegam à mesma temperatura. As duas colheres estão a 25 °C. O que a mão sente não é temperatura: é o fluxo de calor que sai dela. A mão está a uns 35 °C; o calor vai da mão para a colher nos dois casos. No aço, com k = 16, ele sai depressa e a pele esfria rápido; na madeira, com k = 0,12, sai cento e trinta vezes mais devagar, e a pele quase não sente.

Duas colheres lado a lado, sobre a mesma bancada: uma de metal, escura, e uma de madeira, clara. Sobre cada uma, um termômetro com a coluna na mesma altura, os dois marcando 25 °C. De uma mão desenhada como silhueta simples, a 35 °C, sai uma seta escura grossa para a colher de metal e uma seta escura fina para a de madeira; um cartão diz: mesma temperatura, fluxos diferentes — 133 vezes.
Figura 10.7 — As duas colheres estão a 25 °C. A mão sente o fluxo, não a temperatura: no metal o calor sai da pele 133 vezes mais depressa.

O mesmo engano vale ao contrário. Numa sopa quente, a colher de metal esquenta o cabo em segundos e a de madeira não — e as duas estão mergulhadas no mesmo caldo, à mesma temperatura. Metal não é "mais frio" nem "mais quente" que madeira: conduz mais depressa. Vale para o piso de cerâmica que gela o pé de manhã enquanto o tapete ao lado, na mesma temperatura, não; para o banco de metal e o de madeira na mesma praça ao sol; para o corrimão e a parede.

Atenção

"O metal é mais frio que a madeira" é erro nomeado

Dois objetos no mesmo ambiente, por tempo suficiente, estão à mesma temperatura. A sensação de frio no metal vem do fluxo de calor que sai da mão mais depressa, porque o k do metal é maior. A mão mede fluxo, não temperatura — por isso ela não serve de termômetro. Na prova, a resposta é sempre: mesma temperatura, condutividades diferentes.

Por que a telha se segura

De volta ao forno. A telha tem 15 cm de lado, então a face por onde o calor sai tem área 0,15 × 0,15 = 0,0225 m². Tome uma espessura de 5 cm entre o miolo e a borda, valor didático dentro da faixa real da peça. O miolo está a 1 200 °C; a borda, a 100 °C. Diferença: 1 100 °C. Condutividade: 0,0485 W/(m·K). A lei de Fourier faz a conta em uma linha: Φ = 0,0485 × 0,0225 × 1 100 ÷ 0,05 ≈ 24 W.

A telha em corte, com a pinça nas bordas. O miolo, salmão, está marcado 1 200 °C; a borda clara, 100 °C; a cota da espessura, 5 cm, entre os dois; uma seta escura curta, do miolo para a borda, com o rótulo do fluxo: cerca de 24 W. Ao lado, para comparar, uma lâmpada pequena com a legenda: uma lâmpada fraca.
Figura 10.8 — Vinte e quatro watts atravessando uma telha com 1 200 °C do outro lado: uma lâmpada fraca. É por isso que a borda não queima.

Vinte e quatro watts. Com mil e duzentos graus do outro lado, atravessa a telha o mesmo fluxo de uma lâmpada fraca. É esse número que a mão sente na borda — e é pouco. Some a isso o fato de a telha ser leve, 94% ar: a borda tem pouquíssima massa, guarda pouca energia, e a superfície perde para o ar em segundos o pouco que tinha. O calor está no miolo, e no miolo fica. A mesma placa em cobre daria 400 × 0,0225 × 1 100 ÷ 0,05 = 198 000 W: cerca de 200 kW, a potência de um motor de caminhão, e ninguém a tocaria. A razão entre os dois k, 400 ÷ 0,0485 ≈ 8 250, é a razão entre os dois fluxos — oito mil vezes.

Nenhum material bloqueia o calor por completo: isolante é o que faz o fluxo ser pequeno, não zero. A analogia que a série usa é a fila de baldes: condução é gente passando água de mão em mão. Metal é fila rápida; madeira é fila lenta; ar preso é uma fila de gente que quase não se mexe — e a telha é quase toda ar. Do quente para o frio, sempre, e a velocidade da fila é o k.

Dica ENEM

Dica ENEM: unidades antes da conta de Fourier

A prova dá área em cm², espessura em mm ou cm, e espera watt. Converta antes de substituir: 15 cm × 15 cm = 0,15 m × 0,15 m = 0,0225 m²; 5 cm = 0,05 m; 4 mm = 0,004 m. Com k em W/(m·K), área em m², espessura em m e ΔT em °C ou K, o resultado sai em watt. Espessura em centímetro dentro da fórmula erra o fluxo por um fator de cem.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos de condução há um passo antes dos três: declarar o sentido do fluxo — do lado quente para o lado frio — e conferir que área, espessura e ΔT estão em m², m e °C ou K. Sem isso, o watt não sai.

Exemplo 1 — A telha

Uma telha de proteção térmica de 15 cm × 15 cm tem condutividade k = 0,0485 W/(m·K). O miolo está a 1 200 °C e a borda, a 5 cm dele, a 100 °C. Fluxo do miolo para a borda. Qual é o fluxo de calor que atravessa a telha?

Fórmula. Φ = k × A × ΔT ÷ e

Substituição. A = 0,15 × 0,15 = 0,0225 m² ; ΔT = 1 200 − 100 = 1 100 °C ; Φ = 0,0485 × 0,0225 × 1 100 ÷ 0,05

Resultado. Φ ≈ 24 W

Conferência. 0,0485 × 0,0225 ≈ 0,0011; vezes 1 100 dá 1,2; dividido por 0,05 dá 24. Vinte e quatro watts é a potência de uma lâmpada fraca — pouco calor por segundo, apesar dos 1 200 °C.

Duas placas iguais, lado a lado, com a mesma cota de espessura de 5 cm e as mesmas temperaturas, 1 200 °C e 100 °C, nas faces. A da esquerda, clara, é a telha, com uma seta escura curta e o rótulo 24 W; a da direita, escura, é o cobre, com uma seta escura grossa e o rótulo 198 000 W. Um cartão embaixo: mesma geometria, mesmo ΔT; a razão entre os fluxos é a razão entre os k, cerca de 8 250.
Figura 10.9 — O Exemplo 2 em desenho: troque a telha por cobre e o fluxo fica oito mil vezes maior.

Exemplo 2 — A mesma placa em cobre

Uma placa de cobre, k = 400 W/(m·K), tem a mesma geometria da telha do Exemplo 1 (0,0225 m² de área, 0,05 m de espessura) e o mesmo ΔT de 1 100 °C. Qual é o fluxo de calor e quantas vezes ele é maior que o da telha?

Fórmula. Φ = k × A × ΔT ÷ e ; razão = Φcobre ÷ Φtelha = kcobre ÷ ktelha

Substituição. Φ = 400 × 0,0225 × 1 100 ÷ 0,05 ; razão = 400 ÷ 0,0485

Resultado. Φ = 198 000 W ≈ 200 kW ; razão ≈ 8 250, cerca de oito mil vezes

Conferência. 400 × 0,0225 = 9; vezes 1 100 dá 9 900; dividido por 0,05 dá 198 000. E 8 250 × 24 ≈ 198 000: a razão dos k é a razão dos fluxos, porque área, espessura e ΔT são iguais e cancelam.

Exemplo 3 — A colher de metal e a de madeira

Uma colher de aço inox, k = 16 W/(m·K), e uma de madeira, k = 0,12 W/(m·K), têm a mesma geometria e estão mergulhadas na mesma sopa, com o mesmo ΔT entre o caldo e o cabo. Quantas vezes mais calor por segundo atravessa a colher de metal?

Fórmula. Φmetal ÷ Φmadeira = kmetal ÷ kmadeira (A, e e ΔT iguais cancelam)

Substituição. razão = 16 ÷ 0,12

Resultado. razão ≈ 133 — cento e trinta vezes mais calor por segundo na colher de metal

Conferência. 0,12 × 133 ≈ 16. As duas colheres estão à mesma temperatura; o que muda é a velocidade com que o calor as atravessa. A mão sente essa velocidade, não a temperatura.

Exemplo 4 — A janela

Uma janela de vidro comum, k = 1,0 W/(m·K), tem 1 m² de área e 4 mm de espessura. Dentro da casa faz 20 °C; fora, 10 °C. Fluxo de dentro para fora. Qual é o fluxo de calor pelo vidro?

Fórmula. Φ = k × A × ΔT ÷ e

Substituição. e = 4 mm = 0,004 m ; ΔT = 20 − 10 = 10 °C ; Φ = 1,0 × 1 × 10 ÷ 0,004

Resultado. Φ = 2 500 W

Conferência. 10 ÷ 0,004 = 2 500. Dois quilowatts e meio vazando por um vidro — a potência de um chuveiro pequeno. É esse fluxo que a janela dupla, com ar preso entre os vidros, corta.

Exemplo 5 — A telha com o miolo em brasa

A condutividade da telha sobe com a temperatura: a 1 093 °C ela vale k = 0,126 W/(m·K). Refaça o Exemplo 1 com esse valor, mesma geometria (0,0225 m², 0,05 m) e mesmo ΔT de 1 100 °C. Qual é o fluxo, e quantas vezes ele é maior que os 24 W?

Fórmula. Φ = k × A × ΔT ÷ e ; razão = 0,126 ÷ 0,0485

Substituição. Φ = 0,126 × 0,0225 × 1 100 ÷ 0,05 ; razão = 0,126 ÷ 0,0485

Resultado. Φ ≈ 62 W ; razão ≈ 2,6

Conferência. 24 × 2,6 ≈ 62. Mesmo com o k quase triplicado pelo calor, o fluxo continua o de uma lâmpada comum — e ainda mais de três mil vezes menor que o do cobre. A telha é isolante em qualquer temperatura em que trabalha.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos. O primeiro é a lei de Fourier direta: parede, barra ou janela com área, espessura, k e as duas temperaturas dadas, fluxo pedido — ou uma grandeza dobrada e a pergunta de quanto o fluxo muda. O segundo é a comparação de materiais: colher, panela, isopor, e a razão entre os k.

Uma barra de cobre de 0,5 m de comprimento e 0,01 m² de seção, com uma ponta a 100 °C e a outra a 0 °C, termômetros com colunas diferentes nas duas pontas e a seta escura do fluxo ao longo da barra. Um cartão com a resposta certa, 800 W, e, riscados com um X, dois cartões de distratores: 200 W, para quem multiplica pela espessura, e "o cobre está mais frio", para quem confunde fluxo com temperatura.
Figura 10.10 — Pediu o fluxo? k vezes A vezes ΔT, dividido pelo comprimento. O 200 W está na alternativa para quem multiplica em vez de dividir.

Uma barra de cobre, k = 400 W/(m·K), com 0,01 m² de seção e 0,5 m de comprimento, tem uma ponta a 100 °C e a outra a 0 °C. Fluxo: Φ = 400 × 0,01 × 100 ÷ 0,5 = 800 W, da ponta quente para a fria. Os distratores: "200 W", para quem multiplica pela espessura em vez de dividir; "80 000 W", para quem esquece a área. O terceiro formato é a janela dupla e a lã de vidro, em que a resposta é o ar preso de baixa condutividade; o quarto é a sensação térmica: "o metal está mais frio" é sempre a alternativa errada — mesma temperatura, fluxo diferente. Há ainda a questão de identificar, numa cena de cozinha, condução, convecção e radiação; os capítulos 11 e 12 fecham essa tríade.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: condução é de partícula a partícula, sem transporte de matéria; o fluxo Φ é k vezes A vezes ΔT sobre e, em watt; k é do material, grande no metal e pequeno no ar preso; a mão sente o fluxo, não a temperatura; o fluxo vai do quente para o frio, sempre.
Figura 10.11 — O capítulo em cinco peças.
  1. Condução: o calor passa de partícula a partícula, sem transporte de matéria.
  2. Φ = k·A·ΔT ÷ e, em watt: cresce com a área e com o ΔT, cai com a espessura.
  3. k é do material: cobre 400, madeira 0,12, telha 0,0485 W/(m·K); ar preso isola.
  4. A mão sente o fluxo, não a temperatura: à mesma temperatura, o metal conduz mais.
  5. O fluxo de calor vai do quente para o frio, sempre — a única seta que a condução ganha.

Se for guardar uma frase só, guarde a telha: 1 200 °C no miolo, 24 W na borda, e a mão segura.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 10

professorcanario.com.br/t1/c10/lista