Termodinâmica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 9: A panela que ferve a cento e vinte e um graus

Capítulo 9A panela que ferve a cento e vinte e um graus

Ebulição, pressão e diagrama de fases

A mesma água de qualquer torneira ferve a 121 °C dentro da panela de pressão e a 71 °C no cume do Everest: a temperatura de ebulição não é da água — é do peso do ar em cima dela.

Neste capítulo você vai

Assista ao episódio 9

Este capítulo acompanha o episódio 9 da série no canal. Assista antes ou depois da leitura — o vídeo é público e gratuito.

Código QR que abre o vídeo do episódio 9 no YouTube

professorcanario.com.br/t1/c9/video

O caso: a panela que ferve a cento e vinte e um graus

Uma panela de pressão sobre a chama do fogão, vista de lado, com a tampa travada e a válvula soltando um jato fino de vapor. Um termômetro ao lado, com a coluna parada em 121 graus Celsius e a marca de 100 abaixo dela; um cartão diz que a pressão dentro é cerca de duas atmosferas.
Figura 9.1 — A válvula chia e a água lá dentro ferve — a 121 °C, não a 100. O que mudou foi o que está em cima da água.

A válvula de uma panela de pressão está chiando. Lá dentro, a água ferve — a 121 °C. Não a 100: cento e vinte e um. A água é a mesma de qualquer torneira. O que mudou foi o que está em cima dela: uma tampa travada e, presa pela tampa, uma atmosfera a mais de vapor. A válvula deixa escapar o excesso e segura o resto a cerca de 15 psi acima da pressão do ar — uns 103 kPa, praticamente 1 atm a mais. Somada à atmosfera de fora, a pressão sobre a água chega a cerca de 2 atm. E a 2 atm a água só ferve a 121 °C.

A série anterior mostrou que lá em cima, no Everest, a água ferve a setenta e um; aqui, o porquê. No cume — 8 848,86 m, altura oficial anunciada por Nepal e China em 2020 — a pressão do ar é cerca de um terço da do nível do mar: 253 torr medidos no topo, 33,7 kPa, cerca de 0,33 atm. Com um terço do ar em cima, a água ferve a 71 °C. O chá não fica pronto; o ovo não cozinha. Na cozinha, com uma atmosfera a mais em cima, ferve a 121 °C e o feijão fica pronto em fração do tempo.

Os dois casos são o mesmo fato lido de dois lados: a temperatura de ebulição não é da água. É do peso do ar em cima dela. O capítulo 8 mostrou a coluna do termômetro parando enquanto a água muda de fase; a primeira seção pergunta em que número ela para, a segunda responde com a pressão, e o diagrama de fases junta as três fases da água num mapa só.

A coluna que para — mas em que número?

O capítulo 8 deixou uma imagem: enquanto a água ferve, a barra de calor cresce e a coluna do termômetro não sai do lugar. Toda mudança de fase acontece a temperatura constante. O que o capítulo 8 não perguntou é em que número a coluna para. A resposta padrão, "em 100", vale para um lugar só: o nível do mar, com 1 atm de ar em cima da panela aberta.

Dois termômetros lado a lado, com a mesma escala de 0 a 140 graus Celsius. No da esquerda, rotulado cume do Everest, a coluna para em 71; no da direita, rotulado panela de pressão, a coluna para em 121. Uma linha tracejada cruza os dois na marca de 100, rotulada nível do mar, panela aberta. Sob cada termômetro, uma barra de pressão: 33,7 quilopascals à esquerda, 204,7 à direita.
Figura 9.2 — A mesma água, dois números: a coluna para em 71 com um terço do ar em cima, e em 121 com uma atmosfera a mais.

Mude o que está em cima da água e o número muda. Com um terço do ar, a coluna para em 71. Com uma atmosfera a mais, para em 121. A água que ferve é a mesma; a temperatura em que a coluna trava é um acordo entre a água e a pressão de fora.

Definição

Temperatura de ebulição

Atenção

"Água ferve sempre a 100 graus"

Não ferve. A 1 atm, sim; a 33,7 kPa, ferve a 71 °C; a 2 atm, a 121 °C. O número 100 não é uma propriedade da água sozinha — é da água sob 1 atm. Toda questão que fala de montanha, de avião ou de panela de pressão está testando exatamente isso.

Ebulição: quando o vapor consegue empurrar o ar

Por que a pressão de fora manda na ebulição? Porque uma bolha de vapor só existe dentro da água se conseguir abrir espaço contra o que a comprime — e o que a comprime é o ar em cima da panela (mais o peso da própria água, pequeno). O vapor dentro da bolha empurra para fora com uma pressão que só depende da temperatura: é a pressão de vapor da água. A 20 °C ela é pequena, cerca de 2,3 kPa; a 71 °C já chega a 33 kPa; a 100 °C chega a 101 kPa — 1 atm.

Gráfico da pressão de vapor da água contra a temperatura, de 0 a 130 graus Celsius e de 0 a 220 quilopascals: uma curva que sobe cada vez mais depressa. Três pontos marcados sobre ela, com linhas tracejadas até os eixos: 33,7 quilopascals e 71 graus, o cume do Everest; 101,3 quilopascals e 100 graus, o nível do mar; 204,7 quilopascals e 121 graus, a panela de pressão. Um cartão diz: ferve quando a pressão de vapor iguala a pressão de fora.
Figura 9.3 — A curva da pressão de vapor. Escolha a pressão de fora no eixo vertical, ande até a curva e desça: a temperatura de ebulição é aquela.

A regra sai daí. A água ferve quando a pressão de vapor iguala a pressão de fora. Enquanto a pressão de vapor é menor que a de fora, qualquer bolha que tentasse nascer seria esmagada; no instante em que as duas se igualam, as bolhas conseguem se abrir em qualquer ponto do líquido, sobem, e é isso que se vê como fervura. A analogia da série: ferver é a água conseguir empurrar o ar para cima e abrir espaço para o vapor. Com menos ar em cima, ela consegue mais cedo; com a tampa travada, só muito mais quente.

Pressão de foraOndeFerve a
33,7 kPacume do Everest71 °C
101,3 kPanível do mar100 °C
204,7 kPapanela de pressão121 °C

Definição

Pressão de vapor e a regra da ebulição

Dica ENEM

Dica ENEM: leia a curva de baixo para cima

A prova dá um gráfico de pressão de vapor e pergunta a que temperatura o líquido ferve numa certa pressão. O caminho é sempre o mesmo: pressão de fora no eixo vertical → curva → temperatura no eixo horizontal. Quem entra pelo eixo errado lê a pressão de vapor a uma temperatura, que é outra pergunta.

Menos ar em cima: o cume do Everest

O ar tem peso, e a pressão atmosférica é o peso da coluna de ar que está em cima de você. No nível do mar essa coluna é inteira: 101,3 kPa, 1 atm. Suba, e vai ficando ar para baixo — a coluna em cima encurta e a pressão cai. No cume do Everest, a 8 848,86 m, sobra cerca de um terço: 253 torr medidos no topo, o que dá 33,7 kPa ≈ 0,33 atm.

Corte esquemático da atmosfera, fora de escala: à esquerda, uma coluna de ar inteira sobre o nível do mar; à direita, uma montanha com o cume a 8 848,86 m e, sobre ele, a coluna de ar que sobra, bem mais curta. Sob cada coluna, uma barra horizontal de pressão: 101,3 quilopascals no nível do mar e 33,7 no cume, um terço. Ao lado de cada barra, um termômetro com a coluna parada em 100 e em 71.
Figura 9.4 — Quanto menos ar em cima, menor a pressão — e mais cedo o vapor consegue abrir espaço. No cume, a água ferve a 71 °C.

Com um terço do ar em cima, o vapor só precisa de 33,7 kPa para abrir espaço, e a curva da pressão de vapor entrega isso a 71 °C (a equação de saturação dá 71,8 °C a 33,7 kPa; a série arredonda para setenta e um). A água ferve, borbulha, faz tudo o que uma fervura faz — a 71 °C. É por isso que o chá não fica pronto e o ovo não cozinha: o que cozinha o alimento é a temperatura, e a temperatura da água fervendo no cume é a de um chá morno. Não adianta aumentar o fogo: mais calor só faz mais água virar vapor; a coluna do termômetro não sobe de 71.

Atenção

Aumentar o fogo não sobe a temperatura da água fervendo

Enquanto ferve, a água está em mudança de fase: todo o calor que recebe vira vapor (Q > 0 para a água, Lvap = 2 256 kJ/kg), e a temperatura fica presa no valor que a pressão de fora permite. Mais chama, mais vapor por minuto — o mesmo número no termômetro. Para a água fervendo ficar mais quente é preciso mudar a pressão, não a chama.

Dica ENEM

Dica ENEM: altitude é pressão

"Numa cidade a 2 000 m o macarrão demora mais para cozinhar" é a forma clássica da questão. A cadeia é sempre a mesma: mais altitude → menos ar em cima → menor pressão → a água ferve abaixo de 100 °C → o alimento cozinha em água mais fria → demora mais. O tropeço é responder "porque o ar é rarefeito e a chama esquenta menos": a chama não tem nada a ver com o número em que a água ferve.

Mais pressão: a panela de pressão

A panela de pressão é o Everest ao contrário. A tampa trava e o vapor que a água solta ao começar a ferver não escapa: fica preso em cima dela e a pressão sobe. A válvula é o regulador — um peso ou uma mola calibrados para deixar o vapor sair só quando a pressão dentro passa de um certo valor acima da pressão de fora. Nas panelas domésticas o valor de referência é 15 psi (libras-força por polegada quadrada, a unidade do sistema inglês): 15 × 6,895 kPa ≈ 103 kPa ≈ 1,02 atm acima da atmosférica.

Corte de uma panela de pressão: a água embaixo, o vapor preso em cima, a tampa travada com a válvula soltando um jato fino, a chama em salmão sob o fundo. Uma escada de barras de pressão à direita: a atmosfera de fora, 101,3 quilopascals; o vapor preso, mais 103,4; a soma, 204,7 quilopascals, cerca de duas atmosferas. Um termômetro com a coluna parada em 121 graus Celsius.
Figura 9.5 — A tampa segura uma atmosfera a mais de vapor sobre a água. Pressão total: cerca de 2 atm — e a água só ferve a 121 °C.

A pressão que a água sente é a de fora mais a do vapor preso: 101,3 + 103,4 = 204,7 kPa, cerca de 2 atm. Na curva da pressão de vapor, 204,7 kPa só é alcançado a 121 °C — e é nesse número que a coluna do termômetro trava. A água dentro da panela fica vinte e um graus mais quente do que qualquer água fervendo numa panela aberta ao nível do mar.

Atenção

A panela não "amolece" o alimento pela pressão

Cozinha mais rápido porque a água está mais quente — 121 °C em vez de 100 °C —, não porque a pressão "amolece" a comida. Duas atmosferas são pouco para esmagar um grão de feijão; vinte e um graus a mais é muito para a química do cozimento. A pressão entra na história por um único motivo: ela é o que permite a água ficar líquida e fervendo acima de 100 °C.

Dois nomes para não confundir. Pressão manométrica é o que o manômetro (ou a válvula) marca acima da pressão de fora: os 15 psi da panela são manométricos. Pressão absoluta é a total, de fora mais a manométrica — e é ela que entra na curva da pressão de vapor: 101,3 + 103,4 ≈ 205 kPa. Esquecer de somar a atmosfera é o erro mais comum da conta: 103 kPa sozinhos dariam uma água que ferve a pouco mais de 100 °C — praticamente a panela aberta, não a panela de pressão.

O diagrama de fases da água

A curva da pressão de vapor é um pedaço de um mapa maior. Coloque a pressão no eixo vertical e a temperatura no horizontal, e cada ponto do plano diz em que fase a água está: sólida, líquida ou vapor. As três regiões são separadas por três curvas, e onde a água está sobre uma curva, as duas fases vizinhas convivem — é ali que acontece a mudança de fase.

Diagrama de fases da água, fora de escala, com a pressão no eixo vertical e a temperatura no horizontal. Três regiões rotuladas: sólido à esquerda, líquido no meio, vapor à direita e embaixo. Três curvas se encontram no ponto triplo, em 0,01 grau Celsius e 611 pascals: a de fusão, quase vertical, entre sólido e líquido; a de vaporização, entre líquido e vapor; a de sublimação, entre sólido e vapor. Três pontos marcados: 1 atmosfera e 100 graus, sobre a curva de vaporização; 1 atmosfera e 71 graus, dentro do líquido; 0,33 atmosfera e 71 graus, sobre a curva de vaporização.
Figura 9.6 — O mapa das fases. O mesmo 71 °C é líquido a 1 atm e é fervura a 0,33 atm: quem decide é a pressão.

Definição

Diagrama de fases

O ponto triplo da água fica a uma pressão minúscula — 611 Pa são seis milésimos de atmosfera. Abaixo dessa pressão a região líquida não existe: o gelo aquecido passa direto a vapor, sem derreter. É a sublimação. O gelo seco, que é dióxido de carbono sólido, faz isso à pressão ambiente: o ponto triplo dele fica acima de 1 atm, então na bancada ele nunca vira líquido, só a fumaça branca de vapor que todo mundo já viu. Na água, a sublimação é rara em cozinha e comum no freezer: o gelo que some devagar de uma forma esquecida sublimou.

A leitura do diagrama é uma conta sem fórmula. Pegue o ponto (1 atm, 100 °C): está sobre a curva de vaporização, a água ferve. Desça para (1 atm, 71 °C): está dentro da região líquida, água morna, sem bolha. Agora vá para (0,33 atm, 71 °C): está de novo sobre a curva — é o cume do Everest, a água ferve. O mesmo 71 °C, dois estados; quem decide é a pressão.

Atenção

Uma curva se lê pelos dois lados

A curva de vaporização responde a duas perguntas. "A que temperatura ferve a esta pressão?" é a pergunta do Everest e da panela. "A que pressão o vapor fica em equilíbrio a esta temperatura?" é a pergunta da pressão de vapor. São a mesma linha; a prova só muda por onde você entra no gráfico. E a curva de fusão da água tem uma particularidade que vale lembrar: ela é quase vertical, porque a pressão quase não muda a temperatura em que o gelo derrete.

Evaporação não é ebulição

A roupa no varal seca a 25 °C. A poça some do asfalto sem ferver. O suor esfria a pele. Nada disso é ebulição: é evaporação, a passagem de líquido a vapor que acontece só na superfície, a qualquer temperatura. Na superfície do líquido sempre há moléculas com energia suficiente para escapar; quanto mais quente o líquido, mais delas escapam por segundo — mas escapam mesmo na água gelada.

Dois copos de água lado a lado. No da esquerda, rotulado evaporação, a água está a 25 graus Celsius, sem bolhas, e pequenos círculos deixam só a superfície. No da direita, rotulado ebulição, a água está a 100 graus Celsius e as bolhas nascem no fundo e em todo o volume, com a chama em salmão sob o copo. Um cartão diz: superfície, a qualquer temperatura; todo o líquido, só na temperatura de ebulição.
Figura 9.7 — Evaporação sai pela superfície, a qualquer temperatura. Ebulição nasce dentro do líquido, só quando a pressão de vapor iguala a de fora.

A ebulição é outra coisa: as bolhas de vapor nascem dentro do líquido, em qualquer ponto dele, e isso só é possível na temperatura em que a pressão de vapor iguala a de fora. Evaporação acontece o tempo todo; ebulição, só naquele número. A tabela separa as duas.

TraçoEvaporaçãoEbulição
ondesó na superfícietodo o líquido
quandoqualquer temperaturasó na T de ebulição
sinalsem bolhasbolhas no fundo

Definição

Evaporação

Dica ENEM

Dica ENEM: "a água evaporou" não é "a água ferveu"

Se a questão fala de roupa secando, de lago baixando na estiagem ou de suor esfriando o corpo, a resposta está em evaporação (superfície, qualquer temperatura). Se fala de bolhas, de panela ou de termômetro parado, está em ebulição. Alternativa que diz "a água precisa chegar a 100 °C para virar vapor" confunde as duas — e está errada.

Uma última leitura da curva, para o capítulo 12 desta série: em Vênus, a pressão na superfície é de cerca de 93 atm. Se houvesse água lá, ela só ferveria acima de trezentos graus — a curva da pressão de vapor a 93 × 101,3 ≈ 9 400 kPa passa dos 300 °C. A mesma curva, um ponto muito acima de qualquer panela.

Exemplos resolvidos

Escada de barras de pressão do Exemplo 2: a barra da atmosfera de fora, 101,3 quilopascals; sobre ela, a barra do vapor preso pela tampa, 103,4 quilopascals, que veio de 15 psi vezes 6,895; a barra total, 204,7 quilopascals, cerca de 2 atmosferas, com a leitura na curva: 121 graus Celsius.
Figura 9.8 — O Exemplo 2 em desenho: a pressão que a água sente é a de fora mais a que a tampa segura.

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nas contas de pressão há um passo antes dos três: dizer se o número é a pressão de fora (absoluta) ou a que a válvula marca acima dela (manométrica). E toda conta de calor declara o sinal: aqui, Q > 0 é a água recebendo calor da chama.

Exemplo 1 — A pressão no cume, em atmosferas

No cume do Everest a pressão medida é de 33,7 kPa (253 torr). Quanto é isso em atmosferas, com 1 atm = 101,3 kPa?

Fórmula. p (atm) = p (kPa) ÷ 101,3

Substituição. p = 33,7 ÷ 101,3

Resultado. p ≈ 0,33 atm — cerca de um terço do ar em cima de você

Conferência. pela outra unidade, 253 torr ÷ 760 torr por atmosfera = 0,33 atm, o mesmo número. E na curva da pressão de vapor, 33,7 kPa se alcança a 71 °C: é a temperatura em que a água ferve lá.

Exemplo 2 — A panela de pressão

A válvula de uma panela de pressão mantém 15 psi acima da pressão atmosférica; 1 psi = 6,895 kPa. Qual é a pressão absoluta sobre a água, e a que temperatura ela ferve?

Fórmula. p manométrica = 15 × 6,895 ; p absoluta = 101,3 + p manométrica ; T de ebulição: leitura na curva da pressão de vapor

Substituição. p manométrica = 15 × 6,895 = 103,4 kPa ; p absoluta = 101,3 + 103,4 = 204,7 kPa

Resultado. p absoluta ≈ 205 kPa ≈ 2,02 atm — cerca de 2 atm ; a curva dá T de ebulição ≈ 121 °C

Conferência. 103,4 kPa sozinhos são 1,02 atm — quase exatamente uma atmosfera a mais, como a válvula promete. Quem esquece de somar a atmosfera de fora entra na curva com 103 kPa e acha uma água que ferve a pouco mais de 100 °C — praticamente a panela aberta.

Exemplo 3 — Lendo o diagrama de fases

Em que estado está a água nos pontos (1 atm, 100 °C), (1 atm, 71 °C) e (0,33 atm, 71 °C) do diagrama de fases?

Fórmula. a curva de vaporização é a curva da pressão de vapor ; sobre ela, líquido e vapor coexistem (a água ferve) ; à esquerda dela, com a pressão de fora maior que a pressão de vapor, região líquida

Substituição. (1 atm, 100 °C): a pressão de vapor a 100 °C é 101,3 kPa = 1 atm, o ponto está sobre a curva ; (1 atm, 71 °C): a pressão de vapor a 71 °C é 33 kPa, menor que 1 atm, o ponto está à esquerda da curva ; (0,33 atm, 71 °C): 0,33 atm = 33,7 kPa, igual à pressão de vapor, o ponto está sobre a curva

Resultado. (1 atm, 100 °C) fervendo ; (1 atm, 71 °C) líquida, sem bolhas ; (0,33 atm, 71 °C) fervendo, no cume do Everest

Conferência. o mesmo 71 °C deu dois estados diferentes. O que mudou entre o segundo e o terceiro ponto foi só a pressão — quem decide o estado é o par (p, T), nunca a temperatura sozinha.

Exemplo 4 — O calor até a fervura, aberta e fechada

Um quilograma de água a 20 °C é aquecido até ferver: numa panela aberta ao nível do mar (100 °C) e numa panela de pressão (121 °C). Quanto calor a água recebe em cada caso, com cágua = 4 186 J/(kg·°C)?

Fórmula. Q > 0, a água recebe ; Q = m × cágua × ΔT

Substituição. aberta: Q = 1 × 4 186 × (100 − 20) = 4 186 × 80 ; fechada: Q = 1 × 4 186 × (121 − 20) = 4 186 × 101

Resultado. aberta: Q ≈ 335 kJ ; fechada: Q ≈ 423 kJ — cerca de 88 kJ a mais

Conferência. 88 kJ são 4 186 × 21, exatamente os vinte e um graus extras. É calor sensível puro: a coluna do termômetro ainda está subindo; o calor latente só começa quando ela para, em 100 ou em 121.

Exemplo 5 — O que a tampa segura

A tampa de uma panela de pressão tem 22 cm de diâmetro (valor didático). Com 103,4 kPa de vapor a mais por dentro do que por fora, que força o vapor faz sobre a tampa? Use π = 3,14.

Fórmula. A = π × r² ; F = p manométrica × A

Substituição. r = 0,11 m ; A = 3,14 × 0,11² = 3,14 × 0,0121 ≈ 0,038 m² ; F = 103 400 × 0,038

Resultado. F ≈ 3 900 N — o peso de uns 390 kg apoiados na tampa

Conferência. a unidade fecha: Pa × m² = (N/m²) × m² = N. É por isso que a tampa trava e que a panela só se abre depois que o vapor sai pela válvula: nenhuma mão segura 390 kg.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos, quase sempre sem conta. O primeiro é o clássico cozinhar na montanha: por que demora mais — a água ferve abaixo de 100 °C. O segundo é a panela de pressão: por que cozinha mais rápido — a água ferve acima de 100 °C. O terceiro é o diagrama de fases: dado o gráfico, identificar a região, a curva e o que acontece ao andar de um ponto a outro (aquecer a pressão constante, comprimir a temperatura constante, atravessar o ponto triplo). O quarto é evaporação × ebulição — roupa no varal, suor, lago na estiagem — e a sublimação do gelo seco.

Cartão de questão de radar: à esquerda, uma montanha com uma panela aberta no cume, um termômetro com a coluna parada em 71 e uma barra de pressão curta; à direita, uma panela de pressão com termômetro em 121 e barra de pressão longa. Entre elas, o nível do mar, com 100. Embaixo, riscados com um X, os dois distratores: chama mais fraca na montanha e pressão que amolece na panela.
Figura 9.9 — Os dois casos clássicos e os dois distratores clássicos. A resposta certa fala de pressão e de temperatura de ebulição; a errada fala de chama ou de amolecer.

Um exemplo do primeiro formato, com o texto que a prova gosta: "Um alpinista tenta cozinhar batatas no acampamento-base e nota que, mesmo com a água em ebulição vigorosa, o cozimento demora muito mais que em casa." A resposta certa diz que, na altitude, a pressão atmosférica é menor, a água entra em ebulição abaixo de 100 °C e as batatas cozinham em água mais fria. E os distratores? Um diz que "o ar rarefeito faz a chama esquentar menos" — a chama não decide o número em que a água ferve. Outro diz que "a água ferve mais quente na montanha" — é o contrário. Um terceiro diz que "a ebulição vigorosa indica temperatura alta" — indica só que muito vapor está saindo; a temperatura é a que a pressão permite.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a bolha de vapor que iguala a pressão de fora; a montanha com a coluna do termômetro em 71; a panela de pressão com a coluna em 121; o diagrama de fases com três regiões e o ponto triplo; o copo que evapora pela superfície ao lado do copo que ferve por inteiro.
Figura 9.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. A água ferve quando a pressão de vapor iguala a pressão de fora; a coluna do termômetro para nesse número.
  2. Menos ar em cima, ferve antes: no cume do Everest, a 33,7 kPa (um terço de atmosfera), 71 °C.
  3. Mais pressão, ferve depois: na panela, a cerca de 2 atm, 121 °C — cozinha antes porque está mais quente.
  4. Diagrama p × T: três regiões, três curvas de fronteira e um ponto triplo (na água, 0,01 °C e 611 Pa).
  5. Evaporação é de superfície, a qualquer temperatura; ebulição é do líquido inteiro, num número só.

Se for guardar uma frase só, guarde a panela: a mesma água de qualquer torneira ferve a 121 °C porque a tampa segura uma atmosfera a mais em cima dela.

Lista de exercícios no app

APP GRATUITO · CANARINHO

Lista completa de exercícios no app Canarinho

As 20 questões do capítulo, com correção na hora e o comentário de cada alternativa. App gratuito e aberto, sem cadastro. A teoria e os exemplos resolvidos estão todos aqui no livro; a lista é o treino.

Código QR que abre a lista de exercícios do capítulo 9

professorcanario.com.br/t1/c9/lista