Termodinâmica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 3: O trilho que entortou a sessenta e dois graus

Capítulo 3O trilho que entortou a sessenta e dois graus

Dilatação linear

Em 19 de julho de 2022 o ar do Reino Unido passou de 40 °C pela primeira vez, e num trilho de Suffolk o termômetro marcou 62 °C: o aço cresceu quatro centímetros em sessenta metros, não tinha para onde ir, e uma linha inteira fechou — este capítulo faz a conta de uma linha que prevê isso.

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O caso: o trilho de Suffolk a 62 °C

Em 19 de julho de 2022 o ar do Reino Unido passou de 40 °C pela primeira vez na história das medições: 40,3 °C, registrados em Coningsby. Naquele dia a operadora da malha ferroviária emitiu um aviso raro — "não viaje" —, uma das linhas principais entre Londres e o norte do país foi fechada, e num trecho de Suffolk o termômetro encostado no trilho marcou 62 °C. Não era o ar. Era o aço.

Vista de cima de um trecho de ferrovia sobre brita escura: dois trilhos de aço, o de baixo alinhado e o de cima serpenteando fora do eixo dos dormentes. À direita, duas colunas de termômetro lado a lado: a do ar marca 40 °C e a do trilho marca 62 °C, mais alta.
Figura 3.1 — Suffolk, 19 de julho de 2022: o ar a 40 °C, o trilho a 62 °C — e o aço, sem ter para onde crescer, saiu do alinhamento.

Um trilho ao sol chega a ficar cerca de 20 °C mais quente que o ar em volta: o aço escuro absorve a radiação, e a brita embaixo não leva o calor embora. Quando o aço esquenta, ele cresce. Um trilho preso aos dormentes, sem folga e sem tensão de projeto para segurar esse crescimento, não tem saída: o comprimento extra empurra o trilho para o lado, e ele empena. O nome técnico é buckling; a tradução visual é a curva impossível da figura. Nenhum trem passou por cima daquele trecho. O aço entortou sozinho, só de esquentar.

Este capítulo responde à pergunta que o caso deixa no ar: quanto cresce um trilho de 60 m quando o termômetro vai de uma madrugada de inverno a 62 °C? A resposta cabe numa linha, ΔL = L₀·α·ΔT, e dá cerca de quatro centímetros — a lei da dilatação linear mostra de onde vem cada fator, e a seção sobre folga e pré-tensão explica por que quatro centímetros são o bastante para fechar uma linha.

Sólidos crescem com a temperatura

O capítulo 1 mostrou que temperatura é o que se mede, e que um termômetro funciona porque alguma propriedade do material varia com ela: o volume do líquido na coluna, a resistência de um fio. O comprimento de uma barra é uma dessas propriedades. Esquente uma barra de aço e ela fica mais comprida; deixe esfriar e ela volta ao tamanho de antes. Isso vale para quase todo sólido — metal, vidro, concreto — e é a base deste capítulo e dos dois seguintes.

Uma barra horizontal de aço de comprimento inicial L zero, desenhada como fantasma claro por trás da mesma barra crescida, um pouco mais comprida; uma cota marca a diferença entre as duas pontas, chamada delta L. À esquerda, uma coluna de termômetro mostra a temperatura inicial e, ao lado, uma coluna mais alta mostra a temperatura final.
Figura 3.2 — A barra a T₀ (fantasma) e a barra a T: a diferença de comprimento é a dilatação ΔL, marcada como cota — dilatação é um número, não uma seta.

Definição

Dilatação térmica

O motivo fica para a Termodinâmica II, mas a ideia cabe em uma frase: as partículas do sólido vibram em torno de posições fixas, e quanto maior a temperatura, mais larga é a vibração — em média, cada partícula passa a ocupar um pouquinho mais de espaço, e a barra inteira fica um pouquinho maior. É pouco por partícula. Mas uma barra tem muitas partículas, e o pouco de cada uma se soma ao longo do comprimento.

Atenção

Temperatura não é calor, nem aqui

O trilho ficou a 62 °C porque recebeu calor do Sol — calor é a energia que passou da radiação para o aço. O que o trilho tem é energia térmica maior e, por consequência, temperatura maior; o que ele faz com isso é crescer. Dizer que "o trilho estava cheio de calor" é o erro que o capítulo 1 vetou: calor é o que atravessa, temperatura é o que se mede, e a dilatação depende do que se mede.

A lei da dilatação linear: ΔL = L₀·α·ΔT

Quanto a barra cresce depende de três coisas, e cada uma entra como um fator numa multiplicação.

Três pares de barras de aço, uma sobre a outra, cada par com a barra inicial como fantasma e a barra crescida na frente. No primeiro par, a barra de 2 metros cresce o dobro da barra de 1 metro com o mesmo aquecimento de 100 graus: 2,4 milímetros contra 1,2. No segundo par, a mesma barra de 1 metro aquecida 200 graus cresce o dobro de quando aquecida 100: 2,4 contra 1,2. No terceiro par, com 1 metro e 100 graus, a barra de vidro cresce menos que a de aço: 0,83 milímetro contra 1,2.
Figura 3.3 — Dobra o comprimento, dobra a dilatação; dobra o ΔT, dobra a dilatação; muda o material, muda o número: os três fatores da lei.

Primeiro, o comprimento inicial L₀: uma barra de 2 m cresce o dobro de uma barra de 1 m, porque tem o dobro de partículas enfileiradas para dar cada uma o seu pouquinho. Segundo, a variação de temperatura ΔT: aquecer 200 °C faz crescer o dobro de aquecer 100 °C. Terceiro, o material: com o mesmo comprimento e o mesmo ΔT, o aço cresce mais que o vidro, e o alumínio cresce mais que o aço. Esse terceiro fator é um número tabelado, o coeficiente de dilatação linear α.

Definição

A lei da dilatação linear

ΔL = L₀ · α · ΔT

O comprimento final é L = L₀ + ΔL = L₀ · (1 + α · ΔT).

Uma barra de aço de 1 m aquecida 100 °C cresce ΔL = 1 × 12 × 10−6 × 100 = 1,2 × 10−3 m = 1,2 mm. A de 2 m, com o mesmo ΔT, cresce 2,4 mm. A de 1 m aquecida 200 °C, também 2,4 mm. A de vidro, 1 m e 100 °C, cresce 1 × 8,3 × 10−6 × 100 = 0,83 mm. É a figura acima em números: cada fator dobra, a dilatação dobra junto.

Atenção

Toda conta de dilatação declara três coisas antes do número

L₀ com unidade, ΔT com unidade e α com unidade — "L₀ = 60 m, de 5 °C a 62 °C (ΔT = 57 °C), α = 12 × 10−6 /°C". Sem essa linha, dois erros clássicos entram sem ninguém ver: usar a temperatura final no lugar do ΔT, e misturar metro em L₀ com centímetro em ΔL. A resposta sai na unidade de L₀; se L₀ estava em metros, ΔL sai em metros, e só depois se converte.

O coeficiente α: um número do material

O α é a fração do comprimento que o material cresce a cada grau. Para o aço, α = 12 × 10−6 /°C: a cada 1 °C, cada metro de aço cresce 12 milionésimos de metro — 0,012 mm. A unidade é "por grau Celsius", escrita /°C ou °C−1; como uma diferença de 1 °C é a mesma diferença de 1 K, o mesmo número vale em /K.

Barras horizontais, uma por material, com o comprimento proporcional ao coeficiente de dilatação linear em milionésimos por grau Celsius: vidro 8,3; aço 12; concreto 12; cobre 17; alumínio 23. As barras de aço e de concreto têm o mesmo comprimento.
Figura 3.4 — Coeficientes de dilatação linear, todos da ordem de 10−6 /°C. Aço e concreto crescem quase igual — é por isso que o concreto armado não racha quando esquenta.
Materialα (10−6 /°C)
vidro comum8,3
aço12
concreto12
cobre17
alumínio23

Os valores de aço e vidro são os canônicos desta série; os demais são valores didáticos de tabela, arredondados. O que importa nos cinco é a ordem de grandeza: 10−6, um milionésimo por grau. O capítulo 1 do livro da Mecânica I ensinou a ler esse expoente — seis casas para a esquerda —, e é ele que faz a dilatação ser invisível a olho nu num objeto pequeno e inevitável num objeto grande.

Dica ENEM

Dica ENEM: a unidade de α

Quando a prova pergunta a unidade do coeficiente de dilatação, a resposta é /°C (ou °C−1, ou K−1): α é o que multiplica L₀ e ΔT para dar um comprimento, então ele mesmo não pode carregar unidade de comprimento. A alternativa "m/°C" está lá para quem confunde α com a inclinação L₀·α do gráfico L × T — essa, sim, é um comprimento por grau.

O coeficiente também é um jeito de escolher material. Aço e concreto têm o mesmo α, e por isso uma viga de concreto armado esquenta e esfria sem que o aço de dentro rasgue o concreto de fora. Já uma peça de alumínio presa a uma de aço trabalha: a cada verão, o alumínio quer crescer quase o dobro.

O trilho: 62 °C não é o ar, é o aço

Volte ao caso. O recorde do dia foi 40,3 °C — no ar. O trilho de Suffolk marcou 62 °C. Os dois números são verdadeiros ao mesmo tempo porque medem coisas diferentes: o termômetro meteorológico fica à sombra, ventilado, a um metro e meio do chão; o trilho fica ao sol, é escuro e é de aço. Um trilho ao sol chega a ficar cerca de 20 °C acima do ar.

Duas colunas de termômetro lado a lado, na mesma escala. A da esquerda, do ar à sombra, sobe até 40 graus Celsius; a da direita, do trilho ao sol, sobe até 62. Uma cota entre os dois topos marca cerca de 20 graus a mais no aço. Embaixo, um trecho de trilho sobre brita, com o Sol indicado por um disco em salmão no alto.
Figura 3.5 — O termômetro do ar e o termômetro do trilho no mesmo dia: cerca de 20 °C de diferença. A conta da dilatação usa o segundo.

Isso muda a conta. A dilatação depende da temperatura do aço, não da do ar, e depende da diferença entre essa temperatura e a que o trilho tinha quando foi assentado. Um trilho fixado numa madrugada de inverno a 5 °C — valor didático, usado para a conta ficar redonda — chega a 19 de julho com ΔT = 62 − 5 = 57 °C. Quem faz a conta com o ar (ΔT = 35 °C) acha 2,5 cm para um trilho de 60 m; quem usa o aço acha 4,1 cm. O trilho não sabe a temperatura do ar. Ele cresce com a dele.

Dica ENEM

Dica ENEM: o ΔT é o do objeto, e é uma diferença

Em toda questão de dilatação, procure duas temperaturas — a inicial e a final do corpo — e subtraia. O enunciado costuma oferecer a temperatura do ambiente, a do dia mais quente, a do dia mais frio; a alternativa errada usa uma delas sozinha ("62" no lugar de "57") ou usa a do ar quando o corpo está ao sol.

Folga ou pré-tensão: o aço precisa de um lugar para crescer

Quatro centímetros em 60 m. Se o trilho tivesse quatro centímetros de espaço à frente, nada teria acontecido — era só ele crescer. Foi assim que as ferrovias viveram durante um século: trilhos curtos, com uma folga de alguns milímetros em cada junta, o suficiente para o crescimento de verão. O "tec-tec" do trem antigo é a roda passando por essas juntas.

Dois painéis. No de cima, dois trilhos curtos de aço com uma junta entre eles: à esquerda, no frio, a junta tem uma folga aberta, marcada por uma cota; à direita, no calor, cada trilho cresceu e a folga fechou. No de baixo, um trilho contínuo, sem junta, com um cartão dizendo que ele foi assentado esticado, e uma cota mostrando o comprimento que ele quer ganhar e não pode.
Figura 3.6 — Duas soluções para o mesmo problema: dar espaço (a folga da junta) ou não deixar crescer (o trilho contínuo, assentado esticado). Sem uma nem outra, o aço empena.

O trilho moderno é contínuo: centenas de metros soldados, sem junta, para o trem correr liso. Mas então onde vai o crescimento? Em lugar nenhum — e essa é a segunda solução. O trilho contínuo é assentado esticado, a uma temperatura de referência mais alta que a do dia da obra: no calor, em vez de crescer, ele apenas deixa de estar esticado; no frio, fica ainda mais tenso. É a pré-tensão. Ela funciona enquanto a temperatura do aço fica dentro da faixa de projeto. Em 19 de julho de 2022 o trilho de Suffolk saiu da faixa, o crescimento que a tensão não segurava mais precisou de um lugar, e o lugar foi o lado.

Definição

Folga e pré-tensão

Atenção

Sem folga o aço não "deixa de crescer": ele empena

A dilatação não pede licença. Um trilho, uma viga ou uma tubulação presa nas duas pontas e aquecida vai ganhar comprimento de qualquer jeito; se não há para onde ir em linha reta, ela sai do eixo, torce, racha o que está em volta. Por isso a ponte tem uma junta em cada extremidade, o oleoduto tem curvas em U de propósito e a calçada tem frisos. A folga de alguns milímetros por junta é a diferença entre um verão normal e uma linha fechada.

Dica ENEM

Dica ENEM: a folga da ponte e do trilho

A questão de folga é a lei ao contrário: "que espaço deixar entre duas peças?" A resposta é a dilatação que cada peça sofre entre a temperatura mais fria e a mais quente do lugar — ΔL = L₀·α·ΔT com o maior ΔT do ano. Se a junta fica entre duas peças iguais, cada uma empurra a junta com metade do seu crescimento; as duas metades somam exatamente o ΔL de uma peça.

Pequeno por metro, grande por quilômetro

Um metro de aço, aquecido 40 °C, cresce 12 × 10−6 × 40 = 4,8 × 10−4 m: menos de meio milímetro. É o tamanho do fenômeno na sua mesa — uma régua de aço, um talher, uma chave — e é por isso que ninguém o vê no dia a dia. Agora deixe o comprimento crescer. A Torre Eiffel tem cerca de 300 m de ferro; entre uma noite de inverno e uma tarde de verão, com ΔT = 40 °C, ela cresce 300 × 12 × 10−6 × 40 = 0,144 m — cerca de 14 cm, e o site oficial da Torre diz que ela chega a 15 cm mais alta no verão. Um quilômetro de trilho contínuo, com o mesmo ΔT, quer crescer 1 000 × 12 × 10−6 × 40 = 0,48 m: quase meio metro.

Três barras de aço fora de escala, uma sobre a outra, todas aquecidas 40 graus: a de 1 metro, com a cota de 0,48 milímetro; a de 300 metros, a Torre Eiffel deitada, com a cota de 14,4 centímetros; a de 1 000 metros, o quilômetro de trilho, com a cota de 48 centímetros. As três cotas estão em salmão, e o comprimento de cada barra em azul.
Figura 3.7 — O mesmo α, o mesmo ΔT de 40 °C: 0,48 mm por metro viram 14 cm na Torre Eiffel e 48 cm num quilômetro de trilho.

A analogia que a série usa é a do juro lento: por metro, é quase nada; mas o trilho tem mil metros e o verão tem quarenta graus, e a conta vence de uma vez, no dia mais quente. O que as aulas antigas de termodinâmica raramente diziam é que a dilatação é ao mesmo tempo pequena e inegociável — pequena por metro, grande por quilômetro, e ninguém consegue proibi-la. Só dá para prever e dar lugar. E como ΔL é proporcional a L₀, o resultado de uma peça serve para outra: se 1 m cresce 0,48 mm, então 1 000 m crescem 1 000 vezes isso, 480 mm = 48 cm — muita questão de dilatação se resolve por regra de três a partir de um único valor dado, sem tocar no 10−6.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nas contas de dilatação há um passo antes dos três: declarar L₀, ΔT e α, cada um com a sua unidade — e lembrar que ΔT é uma diferença entre a temperatura final e a inicial do próprio corpo.

Exemplo 1 — O trilho de Suffolk

Um trilho de aço de L₀ = 60 m foi assentado a 5 °C (valor didático de referência) e, em 19 de julho de 2022, chegou a 62 °C. Com α = 12 × 10−6 /°C, quanto ele cresceu?

Fórmula. ΔT = T − T₀ ; ΔL = L₀ · α · ΔT

Substituição. ΔT = 62 − 5 = 57 °C ; ΔL = 60 × 12 × 10−6 × 57

Resultado. ΔL = 0,04104 m ≈ 4,1 cm

Conferência. por metro, 12 × 10−6 × 57 ≈ 0,68 mm; vezes 60 m dá cerca de 41 mm. Quatro centímetros que não tinham para onde ir.

O Exemplo 1 em desenho: um trilho de 60 metros como fantasma claro e, na frente, o mesmo trilho crescido, com a cota de 4,1 centímetros na ponta direita, fora de escala. À esquerda, uma coluna de termômetro de 5 graus e outra, mais alta, de 62 graus, com a diferença de 57 graus marcada. Um cartão traz a conta em três tempos.
Figura 3.8 — O Exemplo 1 em desenho: L₀ = 60 m, ΔT = 57 °C, α = 12 × 10−6 /°C — e a cota de 4,1 cm que fechou a linha.

Exemplo 2 — A Torre Eiffel no verão

A estrutura de ferro da Torre Eiffel tem cerca de L₀ = 300 m. Entre uma noite de inverno e uma tarde de verão a temperatura do ferro sobe ΔT = 40 °C. Usando α = 12 × 10−6 /°C, quanto a Torre cresce?

Fórmula. ΔL = L₀ · α · ΔT

Substituição. ΔL = 300 × 12 × 10−6 × 40

Resultado. ΔL = 0,144 m ≈ 14 cm

Conferência. o site oficial da Torre diz que ela cresce até 15 cm no verão; a conta de uma linha, com um ΔT redondo, chega a 14. A ordem de grandeza é a mesma — e é o que uma conta de uma linha deve dar.

Exemplo 3 — Um quilômetro de trilho contínuo

Um trecho de trilho contínuo tem L₀ = 1 000 m de aço (α = 12 × 10−6 /°C). Quanto ele quer crescer quando a temperatura do aço sobe ΔT = 40 °C?

Fórmula. ΔL = L₀ · α · ΔT

Substituição. ΔL = 1 000 × 12 × 10−6 × 40

Resultado. ΔL = 0,48 m = 48 cm

Conferência. 1 m cresce 0,48 mm com esse ΔT; 1 000 m crescem 1 000 vezes isso, 480 mm. Quase meio metro por quilômetro — é o comprimento que a pré-tensão tem de segurar.

Exemplo 4 — Ao contrário: que ΔT faz 60 m crescerem 1 cm?

Um trilho de aço de L₀ = 60 m (α = 12 × 10−6 /°C) cresceu ΔL = 1 cm. De quantos graus foi a variação de temperatura do aço?

Fórmula. ΔT = ΔL ÷ (L₀ · α)

Substituição. ΔL = 1 cm = 0,01 m ; ΔT = 0,01 ÷ (60 × 12 × 10−6) = 0,01 ÷ (7,2 × 10−4)

Resultado. ΔT ≈ 13,9 °C

Conferência. uma tarde de sol. Com ΔT = 57 °C o mesmo trilho cresceu 4,1 cm; 13,9 é cerca de um quarto de 57, e 1 cm é cerca de um quarto de 4,1 cm — a proporção fecha.

Exemplo 5 — O inverno: a folga que abre

O mesmo trilho de L₀ = 60 m, assentado a 5 °C, chega a uma madrugada de −10 °C (α = 12 × 10−6 /°C). Quanto ele muda de comprimento?

Fórmula. ΔT = T − T₀ ; ΔL = L₀ · α · ΔT

Substituição. ΔT = −10 − 5 = −15 °C ; ΔL = 60 × 12 × 10−6 × (−15)

Resultado. ΔL = −0,0108 m ≈ −1,1 cm (o trilho encolhe cerca de 1,1 cm)

Conferência. ΔT negativo, ΔL negativo: a mesma lei, no sentido oposto. É por isso que a folga das juntas fica mais aberta no inverno — e por isso um trilho contínuo, assentado esticado, fica ainda mais tenso no frio.

Radar ENEM

O ENEM cobra a dilatação linear de quatro jeitos, quase sempre em contexto: a lei direta (trilho, ponte, fio, viga), a folga entre duas peças, o gráfico L × T de uma barra e a comparação de materiais pelo α. Em todos, a pergunta escondida é a mesma: quem é L₀, quem é ΔT e em que unidade está cada um.

Gráfico do comprimento L de uma barra de aço de 2 metros em função da temperatura T, de 0 a 100 graus Celsius: uma reta que começa em 2,0000 metros e termina em 2,0024 metros, com a inclinação marcada como L zero vezes alfa, igual a 0,024 milímetro por grau. Ao lado, um cartão riscado com um X: 2,5 centímetros, o distrator de quem calcula a dilatação do trilho de 60 metros com a temperatura do ar, 40 graus, em vez da do aço, 62.
Figura 3.9 — No gráfico L × T a reta tem inclinação L₀·α: 0,024 mm por grau numa barra de 2 m. O '2,5 cm' está na alternativa para quem usa o ar em vez do aço.

No gráfico, o comprimento L cresce em linha reta com a temperatura: L = L₀ + L₀·α·T. A reta corta o eixo vertical em L₀ e tem inclinação L₀·α — para uma barra de aço de 2 m, 2 × 12 × 10−6 = 2,4 × 10−5 m/°C, ou 0,024 mm por grau; de 0 a 100 °C ela vai de 2,0000 m a 2,0024 m. A prova dá a reta e pede o α: basta dividir a inclinação por L₀. Os distratores? O ΔT do ar no lugar do ΔT do aço (2,5 cm em vez de 4,1 cm no trilho de 60 m); a temperatura final no lugar da diferença; o 10−6 perdido na conversão; e a ideia de que, sem folga, o trilho simplesmente "não dilata".

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: a lei delta L igual a L zero vezes alfa vezes delta T; o alfa é do material, em por grau Celsius, da ordem de dez elevado a menos seis; o trilho ao sol fica cerca de 20 graus acima do ar; folga ou pré-tensão, nunca sem espaço; pequeno por metro, grande por quilômetro.
Figura 3.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. ΔL = L₀·α·ΔT: a dilatação cresce com o comprimento inicial, com o ΔT e com o material.
  2. α é do material, em /°C, da ordem de 10−6: aço 12 × 10−6 /°C, vidro 8,3 × 10−6 /°C.
  3. Trilho ao sol fica cerca de 20 °C acima do ar: o ΔT da conta é o do aço, não o do ar.
  4. Folga ou pré-tensão — nunca "sem espaço": o aço cresce de qualquer jeito; sem lugar, empena.
  5. Pequeno por metro, grande por quilômetro: 0,48 mm por metro viram 48 cm em 1 km.

Se for guardar uma frase só, guarde o trilho: 62 °C no aço, quatro centímetros em sessenta metros — e uma linha inteira fechada porque ninguém negocia com a dilatação.

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