Termodinâmica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 6: A areia que queima e o mar que gela

Capítulo 6A areia que queima e o mar que gela

Calor sensível e calor específico

A mesma praia, o mesmo Sol, a mesma hora: a areia queima o pé e o mar está frio. O calor que chegou aos dois foi o mesmo; o que muda é quanto cada quilo precisa para subir um grau — e a água precisa de cinco vezes mais.

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O caso: a mesma praia, o mesmo Sol

Fim de tarde de verão numa praia qualquer. A areia seca, longe da água, queima a sola do pé: quem atravessa a faixa larga até a beira anda depressa, ou anda pela areia molhada. Três passos adiante, a água do mar está fria — fria o bastante para o corpo reclamar na entrada. É a mesma praia, o mesmo Sol, a mesma hora. O Sol não escolheu a areia: cada metro quadrado de praia e cada metro quadrado de mar receberam, ao longo do dia, praticamente o mesmo calor.

Uma faixa de areia e o mar ao lado, sob o mesmo Sol; sobre a areia, uma coluna de termômetro alta; sobre a água, uma coluna baixa. Abaixo dos dois, duas barras de calor iguais, marcadas como o mesmo calor recebido.
Figura 6.1 — O mesmo calor entrou na areia e no mar. A coluna do termômetro da areia subiu cerca de cinco vezes mais.

A diferença não está no que chegou; está no que cada material precisa para subir um grau. Um quilo de areia seca precisa de cerca de 800 J para aquecer 1 °C. Um quilo de água precisa de 4 186 J — cerca de cinco vezes mais (4 186 ÷ 800 ≈ 5,2). Os meteorologistas usam a mesma razão para comparar rocha e água: 200 calorias contra 1 000 calorias por quilo e por grau. Com o mesmo calor, a areia sobe cinco vezes mais de temperatura que a água. Por isso ela queima ao fim da tarde — e por isso, de madrugada, ela já esfriou enquanto o mar continua morno.

Esse número, o calor que um quilo de material precisa para subir um grau, chama-se calor específico, e é o assunto deste capítulo. Ele explica a praia, explica por que a panela esquenta antes da água que está dentro dela, explica quanto o chuveiro consegue aquecer a água que passa e explica por que a costa tem clima mais ameno que o interior. A conta é uma só, Q = m·c·ΔT, e o extrato de calor da praia mostra o que ela significa.

Calor é o que se move; temperatura é o que se mede

O capítulo 1 deixou uma régua para a série inteira: temperatura é o que o termômetro mede, o estado de um corpo; calor é energia em trânsito, o que atravessa a fronteira entre dois corpos a temperaturas diferentes. Um corpo não guarda calor. O que ele guarda é energia térmica; calor é o nome dessa energia enquanto ela passa de um corpo para outro, sempre do mais quente para o mais frio, até as temperaturas se igualarem.

Dois blocos em contato, um quente e um frio, cada um com a sua coluna de termômetro e a sua barra de energia térmica. Do quente para o frio, a barra do quente encolhe e a do frio cresce na mesma quantidade; a coluna do quente desce e a do frio sobe, até as duas ficarem na mesma altura.
Figura 6.2 — Calor é a energia que passa de um bloco ao outro: a barra de um encolhe, a do outro cresce. As colunas se encontram no meio.

Neste capítulo, o calor que entra num corpo faz uma coisa só: muda a temperatura dele. Esse é o calor sensível — sensível porque o termômetro sente. Existe outro tipo, o calor que entra sem mudar a temperatura, enquanto o gelo derrete ou a água ferve; ele fica para o capítulo 8. Aqui, todo calor faz a coluna do termômetro subir ou descer.

Definição

Calor, energia térmica e calor sensível

Toda conta de calor começa com uma declaração de sinal, do mesmo jeito que toda conta da Mecânica I começava declarando o referencial. Aqui a convenção é uma só: calor recebido é positivo, Q > 0; calor cedido é negativo, Q < 0. A areia da praia, de manhã, recebe: Q > 0. A mesma areia, de madrugada, cede para o ar e para o céu: Q < 0. É a barra de energia térmica dela que cresce e depois encolhe.

Atenção

Não existe "frio" entrando

Quando a mão pega um copo gelado, nada entra na mão. O que há é calor saindo da mão, a uns 35 °C, para o copo, perto de 5 °C (valores aproximados). Frio não é uma grandeza: é o nome que damos à sensação de perder calor depressa. Nas contas deste livro só existe uma coisa se movendo, o calor, e ele vai sempre do mais quente para o mais frio.

A conta do calor sensível

Quanto calor é preciso para mudar a temperatura de um corpo? A experiência mostra três coisas, cada uma bastante razoável. Dobrar a massa dobra o calor: dois litros de água pedem o dobro de um. Dobrar a variação de temperatura dobra o calor: subir 40 °C custa o dobro de subir 20 °C. E o material importa: um quilo de água e um quilo de areia, para subir o mesmo grau, pedem calores diferentes. Juntando as três:

Definição

A equação do calor sensível

Q = m·c·Δ*T, em que m é a massa do corpo, ΔT = T (final) − T (inicial) é a variação de temperatura e c é o calor específico do material: o calor que um quilo desse material precisa para subir um grau. No SI, c sai em J/(kg·°C); Q* sai em joules.

A equação Q igual a m vezes c vezes delta T com as três partes indicadas: a massa, quanto material; o calor específico, quanto cada quilo pede por grau; a variação de temperatura, quantos graus. Ao lado, duas barras de calor do mesmo tamanho entrando em dois corpos de mesma massa: o de c menor tem a coluna do termômetro mais alta.
Figura 6.3 — As três partes da conta. Com o mesmo calor e a mesma massa, quem tem c menor sobe mais.

Repare no sinal: ΔT é a temperatura final menos a inicial. Se o corpo esquentou, ΔT > 0 e Q > 0 — recebeu. Se esfriou, ΔT < 0 e Q < 0 — cedeu. A equação já carrega a convenção de sinal por conta própria; basta não trocar a ordem da subtração.

Um exemplo direto. Sinal: a água recebe, Q > 0. Aquecer 2 kg de água de 20 °C a 60 °C: Q = 2 × 4 186 × (60 − 20) = 2 × 4 186 × 40 = 334 880 J, cerca de 3,3 × 105 J. É calor que entrou na água e ficou lá, como energia térmica; é a mesma ordem de grandeza da energia que um carro de uma tonelada tem a 100 km/h.

Dica ENEM

Dica ENEM: ΔT é a diferença, não a temperatura final

O erro mais comum da prova é pôr na fórmula a temperatura final (60) no lugar da variação (40). Nos 2 kg de água do exemplo, isso dá 502 320 J em vez de 334 880 J — e a alternativa com esse número está lá esperando. Outra coisa que a prova gosta: uma variação de temperatura tem o mesmo valor em °C e em K, porque as duas escalas têm o grau do mesmo tamanho. Só a leitura muda (20 °C = 293 K); a diferença, não.

Atenção

Calor específico alto não é "esquenta rápido"

É o contrário. A água tem c alto — 4 186 J/(kg·°C) — e por isso demora para esquentar: cada quilo pede muito calor por grau. A areia tem c baixo e esquenta depressa com pouco calor. Quem lê "calor específico grande" como "aquece bem" inverte a praia inteira. c grande é balde grande: leva mais tempo para encher.

Do material e do corpo: c e C = m·c

O calor específico é uma propriedade do material: toda água tem o mesmo c, seja um copo, seja o mar. O corpo é outra história. Uma panela de alumínio de 200 g e uma banheira de alumínio de 20 kg têm o mesmo c, mas a banheira pede cem vezes mais calor para subir um grau. Esse "quanto este corpo pede por grau" tem nome próprio.

Definição

Calor específico e capacidade térmica

Materialc (J/(kg·°C))
água4 186
gelo2 090
alumínio900
areia seca≈ 800
aço460

Os valores da tabela são os que este livro usa em toda conta. Água é o material de c mais alto entre os comuns; metais ficam bem abaixo. É por isso que a panela de alumínio esquenta antes da água que está dentro: 200 g de alumínio têm C = 0,2 × 900 = 180 J/°C, enquanto 200 g de água têm C = 0,2 × 4 186 ≈ 837 J/°C. Para cada grau, a água pede quase cinco vezes mais calor que a panela de mesma massa.

Dois baldes de alturas diferentes, com a mesma marca de um grau no mesmo nível: o balde da areia é estreito e o balde da água, cerca de cinco vezes mais largo. Para chegar à mesma marca, o balde da água precisa de cinco vezes mais calor.
Figura 6.4 — Calor específico é o tamanho do balde de cada material: para subir a mesma marca, um grau, a água precisa de um balde cinco vezes maior que a areia.

A analogia do balde vale a pena guardar. Um grau é uma marca na parede do balde, a mesma para todos. O calor é a água que se despeja. Balde estreito (areia, c baixo) chega à marca com pouco; balde largo (água, c alto) pede muito. E a capacidade térmica é o balde do corpo inteiro: dois quilos de areia são dois baldes estreitos lado a lado.

Caloria e joule

A unidade de calor do SI é o joule, o mesmo da energia mecânica: calor é energia, e a energia que o atrito tira de um carro que freia vira, joule por joule, calor no disco. Mas o calor foi medido muito antes de alguém ligá-lo à mecânica, e a unidade antiga continua viva nas questões e nos rótulos: a caloria.

Definição

A caloria e a água

Uma caloria (cal) é o calor que eleva em 1 °C a temperatura de 1 g de água. Por definição, então, o calor específico da água é c = 1 cal/(g·°C). A ligação com o joule é 1 cal = 4,186 J — o mesmo número que dá o 4 186 J/(kg·°C) da água: um quilo tem mil gramas, e mil calorias são 4 186 J.

Um grama de água num pequeno recipiente, com a coluna do termômetro subindo exatamente uma marca, de 14 para 15 graus; embaixo, uma barra de calor rotulada uma caloria, igual a 4,186 joules.
Figura 6.5 — A caloria foi definida pela água: um grama, um grau. Em joules, 4,186.

A caloria é cômoda porque a água é o material mais comum das questões: com c = 1 cal/(g·°C), a conta Q = m·c·ΔT vira só massa em gramas vezes graus. Aquecer 200 g de água de 20 °C a 100 °C custa Q = 200 × 1 × 80 = 16 000 cal; em joules, 16 000 × 4,186 ≈ 67 000 J = 67 kJ. A "Caloria" dos rótulos de alimento, com maiúscula, é a quilocaloria: 1 kcal = 1 000 cal.

Dica ENEM

Dica ENEM: gramas com calorias, quilos com joules

Quando o c vem em cal/(g·°C), a massa entra em gramas; quando vem em J/(kg·°C), entra em quilos. Misturar os dois dá erro de mil vezes — e a prova sabe disso. Para converter o resultado, 1 cal = 4,186 J; algumas questões dão 4,2 J, e aí é esse o valor a usar. Nunca converta o ΔT: ele é o mesmo nas duas contas.

A areia e o mar: o extrato de calor

Volte à praia com a conta na mão. Tome um quilo de areia seca e um quilo de água do mar e dê a cada um o mesmo calor, Q = 8 000 J — o Sol não faz distinção. Sinal: os dois recebem, Q > 0. Na areia, ΔT = Q ÷ (m·c) = 8 000 ÷ (1 × 800) = 10 °C. Na água, ΔT = 8 000 ÷ (1 × 4 186) ≈ 1,9 °C. O mesmo calor faz a coluna da areia subir 10 °C e a da água, menos de 2 °C: cerca de cinco vezes menos.

O extrato de calor da praia: a mesma barra de calor de 8 000 J entra num quilo de areia e num quilo de água. A coluna do termômetro da areia sobe 10 graus; a da água sobe 1,9 grau. As duas alturas estão na razão de cerca de cinco para um.
Figura 6.6 — O extrato de calor: a mesma barra de 8 000 J entra nos dois. A areia sobe 10 °C; a água, 1,9 °C.

Essa figura é o extrato de calor, e ele vai acompanhar a série até o fim. A barra é o calor que entrou; a coluna é a temperatura que resultou. Quem tem c pequeno converte a mesma barra em muita coluna; quem tem c grande, em pouca. No próximo capítulo o extrato ganha a outra metade, o corpo que cedeu — e a soma do que um cedeu com o que o outro recebeu dá zero. Aqui basta o lado de quem recebe.

O mesmo fato pode ser visto num gráfico: temperatura no eixo vertical, calor recebido no horizontal. Como Q = m·c·ΔT, a temperatura sobe em linha reta com o calor, e a inclinação da reta é 1 ÷ (m·c): quanto menor o produto m·c, mais inclinada a reta. Um quilo de areia é a reta íngreme; um quilo de água, a reta quase deitada.

Gráfico de temperatura contra calor recebido, para um quilo de areia e um quilo de água partindo de 25 graus. A reta da areia é íngreme: com 8 000 J chega a 35 graus. A reta da água é quase deitada: com os mesmos 8 000 J chega a cerca de 26,9 graus. A inclinação de cada reta é um dividido por m vezes c.
Figura 6.7 — O gráfico T × Q: a inclinação é 1 ÷ (m·c). Areia, reta íngreme; água, reta quase deitada.

Atenção

No gráfico T × Q, leia a inclinação, não a área

Em outros gráficos deste curso a área embaixo da curva tinha significado — deslocamento, trabalho, impulso. Aqui não: no gráfico de temperatura contra calor, o que interessa é a inclinação, 1 ÷ (m·c). Reta mais íngreme, corpo que esquenta com menos; reta mais deitada, corpo de maior capacidade térmica. Quem calcula a área embaixo dessa reta calcula um número sem sentido físico.

Potência vezes tempo: o chuveiro e o oceano

Boa parte das questões não dá o calor pronto: dá uma potência e um tempo. Um chuveiro elétrico, uma resistência, um aquecedor solar entregam calor a uma taxa constante, e o calor total é a potência vezes o intervalo: Q = P·Δ*t, com P em watts (joules por segundo) e Δt em segundos. A partir daí, a conta é a mesma: Q = m·c·ΔT*.

Um chuveiro elétrico de 5 500 W com a água passando a 4 litros por minuto: a coluna do termômetro da entrada marca 20 graus e a da saída, cerca de 40 graus, uma subida de 19,7 graus. Ao lado, o mesmo chuveiro com 8 litros por minuto: a subida cai para 9,9 graus.
Figura 6.8 — Cada segundo, 5 500 J entram em 66,7 g de água: quase 20 °C de subida. Com o dobro da vazão, metade.

O chuveiro é o exemplo mais limpo. Um chuveiro de 5 500 W entrega 5 500 J a cada segundo. Se passam por ele 4 litros por minuto — 4 000 g em 60 s, ou 66,7 g por segundo —, cada segundo esses 5 500 J caem em 66,7 g de água. Sinal: a água recebe, Q > 0. Então ΔT = Q ÷ (m·c) = 5 500 ÷ (66,7 × 4,186) ≈ 19,7 °C: a água que entrou a 20 °C sai a cerca de 40 °C. Abra mais o registro, para 8 litros por minuto, e a mesma potência se divide por 133,3 g a cada segundo: a subida cai para cerca de 9,9 °C — só dez graus. É por isso que o chuveiro esfria quando alguém abre outra torneira: não é a potência que caiu, é a massa por segundo que subiu.

Dica ENEM

Dica ENEM: watts vezes segundos

Potência em watts vezes tempo em segundos dá joules. A prova costuma dar o tempo em minutos: 10 min são 600 s, e um aquecedor de 1 000 W entrega 600 000 J nesse tempo, não 10 000 J. Se o c vier em calorias, converta o calor depois, dividindo por 4,186 (ou por 4,2, se a questão der esse valor). O caminho é sempre o mesmo: potência × tempo = Q; depois Q = m·c·ΔT.

Agora amplie a escala. A maior parte da superfície da Terra é água, e a água tem o maior calor específico dos materiais comuns. Isso faz do oceano o grande amortecedor térmico do planeta. Sob o mesmo Sol, a terra firme — rocha, areia, asfalto — sobe muitos graus de manhã e perde tudo de noite; o mar sobe pouco de dia, cede pouco de noite e amanhece quase na mesma temperatura em que anoiteceu. Sinal ao longo de um dia: de manhã os dois recebem, Q > 0; de noite os dois cedem, Q < 0. A barra de calor que entra e sai é quase a mesma nos dois; a coluna do termômetro é que se move muito na terra e pouco no mar.

Dois pares de colunas de termômetro, de dia e de noite: sobre a terra firme, a coluna sobe alto de dia e cai fundo de noite; sobre o mar, a coluna quase não se move entre o dia e a noite. As barras de calor recebido de dia e cedido de noite são do mesmo tamanho nos dois.
Figura 6.9 — O mesmo calor entra de dia e sai de noite. Na terra, a coluna oscila muito; no mar, quase nada: o oceano amortece o clima.

Atenção

Quem esquenta devagar também esfria devagar

O calor específico alto trabalha nos dois sentidos. A água demora a esquentar de manhã e demora a esfriar de noite; a areia faz as duas coisas depressa. É essa diferença de ritmo entre terra e mar que põe o ar em movimento na costa — a brisa do mar de dia e a brisa terrestre de noite, assunto do capítulo 11 — e é ela que o capítulo 12 vai usar para fechar o balanço de calor do planeta inteiro. O oceano é a razão de a costa ter verão menos quente e inverno menos frio que o interior.

Exemplos resolvidos

Uma panela de alumínio de 200 g com 200 g de água dentro, cada uma com a sua barra de capacidade térmica: 180 J por grau para a panela e 837 J por grau para a água, quase cinco vezes mais alta.
Figura 6.10 — O Exemplo 4 em barras: para cada grau, a água pede 837 J e a panela de mesma massa, 180 J. A panela esquenta antes.

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo há um passo antes dos três: declarar o sinal — quem recebe tem Q > 0, quem cede tem Q < 0 — e conferir se a massa está em quilos com o c em J/(kg·°C), ou em gramas com o c em cal/(g·°C).

Exemplo 1 — A areia e a água

Um quilo de areia seca (c = 800 J/(kg·°C)) e um quilo de água (c = 4 186 J/(kg·°C)) recebem, cada um, 8 000 J de calor (sinal: os dois recebem, Q > 0). Quanto sobe a temperatura de cada um?

Fórmula. ΔT = Q ÷ (m·c)

Substituição. areia: ΔT = 8 000 ÷ (1 × 800) ; água: ΔT = 8 000 ÷ (1 × 4 186)

Resultado. areia: ΔT = 10 °C ; água: ΔT ≈ 1,9 °C

Conferência. a razão entre as duas subidas, 10 ÷ 1,9, é cerca de 5 — a razão entre os calores específicos, 4 186 ÷ 800 ≈ 5,2. O mesmo calor, cinco vezes o ΔT na areia.

Exemplo 2 — A caloria

Quanto calor é preciso para aquecer 200 g de água de 20 °C a 100 °C (sinal: a água recebe, Q > 0)? Dê a resposta em calorias e em joules.

Fórmula. Q = m·c·ΔT, com c = 1 cal/(g·°C) e a massa em gramas ; 1 cal = 4,186 J

Substituição. Q = 200 × 1 × (100 − 20) = 200 × 1 × 80 ; em joules: 16 000 × 4,186

Resultado. Q = 16 000 cal ≈ 67 000 J = 67 kJ

Conferência. com a massa em quilos e o c em J/(kg·°C): 0,2 × 4 186 × 80 = 66 976 J — o mesmo número, arredondado.

Exemplo 3 — O chuveiro

Um chuveiro elétrico de 5 500 W aquece água que passa a 4 litros por minuto (sinal: a água recebe, Q > 0; c = 4,186 J/(g·°C)). Quanto sobe a temperatura da água? E se a vazão dobrar para 8 litros por minuto?

Fórmula. massa por segundo = vazão ÷ 60 ; ΔT = P ÷ (massa por segundo × c)

Substituição. 4 000 g ÷ 60 s = 66,7 g/s ; ΔT = 5 500 ÷ (66,7 × 4,186) ; com 8 L/min: 133,3 g/s ; ΔT = 5 500 ÷ (133,3 × 4,186)

Resultado. ΔT ≈ 19,7 °C com 4 L/min ; ΔT ≈ 9,9 °C com 8 L/min

Conferência. quase vinte graus com quatro litros por minuto; com oito, só dez. A potência não mudou; a massa por segundo dobrou, e a subida caiu à metade.

Exemplo 4 — A panela e a água

Uma panela de alumínio de 200 g (c = 900 J/(kg·°C)) contém 200 g de água (c = 4 186 J/(kg·°C)). Qual é a capacidade térmica de cada uma?

Fórmula. C = m·c

Substituição. panela: C = 0,2 × 900 ; água: C = 0,2 × 4 186

Resultado. panela: C = 180 J/°C ; água: C ≈ 837 J/°C

Conferência. 837 ÷ 180 ≈ 4,7. Para cada grau, a água pede quase cinco vezes mais calor que a panela de mesma massa — a panela esquenta antes da água que está dentro.

Exemplo 5 — Lendo o calor específico no gráfico

Um corpo de 500 g recebeu 4 000 J de calor (sinal: Q > 0; valores didáticos) e a sua temperatura subiu de 20 °C a 40 °C, em linha reta no gráfico T × Q. Qual é o calor específico do material e a inclinação da reta?

Fórmula. c = Q ÷ (m·ΔT) ; inclinação = ΔT ÷ Q = 1 ÷ (m·c)

Substituição. c = 4 000 ÷ (0,5 × 20) ; inclinação = 20 ÷ 4 000

Resultado. c = 400 J/(kg·°C) ; inclinação = 0,005 °C/J

Conferência. 1 ÷ (0,5 × 400) = 0,005 °C/J, a mesma inclinação. Um material de c = 400 fica logo abaixo do aço (460) na tabela: é um metal, e esquenta cerca de dez vezes mais depressa que a mesma massa de água.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo com a equação Q = m·c·ΔT em contexto: água que se aquece no chuveiro, no fogão ou no aquecedor solar; comparação entre materiais, quase sempre com a praia ou o clima da costa como pano de fundo; gráfico de temperatura contra calor, com a inclinação denunciando quem tem c maior; potência vezes tempo virando calor; e a conversão entre caloria e joule. O que a prova quer ver é se você monta a conta com o ΔT certo e as unidades casadas.

Dois quilos de água aquecidos de 20 a 60 graus: a coluna do termômetro sobe 40 graus e a barra de calor marca 334 880 joules, cerca de 3,3 vezes 10 elevado a 5. Ao lado, riscado com um X, um cartão com 502 320 joules: o distrator de quem usou 60 no lugar de 40.
Figura 6.11 — Pediu o calor? Q = 2 × 4 186 × 40 ≈ 3,3 × 10⁵ J. O 502 320 J está na alternativa para quem multiplicou pela temperatura final.

A questão típica: 2 kg de água vão de 20 °C a 60 °C; quanto calor receberam? Sinal: Q > 0. Q = 2 × 4 186 × 40 = 334 880 J ≈ 3,3 × 105 J. Os distratores são sempre os mesmos: 502 320 J, de quem usou 60 no lugar de 40; 167 440 J, de quem esqueceu que são dois quilos; 80 000, de quem fez a conta em calorias com gramas e leu como joules. No gráfico, o distrator é ler a reta mais íngreme como a de maior c; é o contrário. No chuveiro, é usar o tempo em minutos.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: Q igual a m vezes c vezes delta T; c é do material e C igual a m vezes c é do corpo; uma caloria vale 4,186 joules, a água define; c grande esquenta devagar e esfria devagar; mesma energia, cinco vezes o delta T na areia.
Figura 6.12 — O capítulo em cinco peças.
  1. Calor sensível: Q = m·c·ΔT, com o sinal declarado antes — Q > 0 recebe, Q < 0 cede.
  2. c é do material, em J/(kg·°C); C = m·c é do corpo, em J/°C.
  3. 1 cal = 4,186 J: a caloria foi definida pela água — um grama, um grau.
  4. c grande esquenta devagar e esfria devagar: a água amortece o clima da costa.
  5. Mesma energia, cinco vezes o ΔT na areia: 8 000 J sobem 10 °C num quilo de areia e 1,9 °C na água.

Se for guardar uma frase só, guarde a praia: o mesmo Sol, o mesmo calor — e a água precisa de cinco vezes mais para subir um grau.

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