Termodinâmica ISumário
Ilustração de abertura do capítulo 8: O iceberg que rouba calor sem esquentar

Capítulo 8O iceberg que rouba calor sem esquentar

Calor latente e mudanças de fase

Uma tonelada de gelo a zero grau, só para derreter, rouba dez vezes mais calor do que 80 kg de água fervente têm para dar — e o termômetro fincado nela não sai do zero enquanto isso. Calor que não esquenta ninguém: ele está pagando a passagem de gelo a água.

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O caso: o gelo que derrete sem subir um décimo de grau

Catorze de abril de 1912, onze e quarenta da noite, Atlântico Norte. O maior navio de passageiros da época toca um iceberg e, duas horas e quarenta minutos depois, às duas e vinte da madrugada de 15 de abril, afunda. Este capítulo não é sobre o navio. É sobre o outro personagem daquela noite: o iceberg.

Um iceberg visto de lado, com a linha d'água marcada: a parte fora da água, 8,3 por cento do volume, é pequena; a parte submersa, 91,7 por cento, é uma massa larga e funda. Ao lado, um termômetro com a coluna parada em 0 grau Celsius e uma barra de calor com o rótulo 334 megajoules por tonelada, só para derreter.
Figura 8.1 — Do iceberg se vê 8,3%; o resto está embaixo d'água. Cada tonelada dele, só para derreter, recebe 334 MJ — e o termômetro não sai do zero.

Do iceberg se vê pouco. O capítulo 5 mostrou por quê: o gelo tem densidade de 917 kg/m³ contra 1 000 kg/m³ da água, e por isso 91,7% do volume fica submerso — a ponta é 8,3%. Mas o que o gelo faz com o calor é ainda menos visível. Um bloco de gelo a 0 °C, para virar água a 0 °C, precisa receber 334 kJ por quilograma. Uma tonelada rouba de quem estiver por perto 334 MJ — e a temperatura do gelo, durante todo esse tempo, não sobe um décimo de grau.

Para ter a escala: 80 kg de água fervente, esfriando de 100 °C até 0 °C, cedem 33,5 MJ. Uma tonelada de gelo derretendo recebe dez vezes isso, sem que o termômetro se mova. E se a água que saiu desse gelo for levada até o vapor, cada quilograma pede mais 2 256 kJ.

Até aqui, no livro, todo calor mudou a temperatura de alguém: a areia, o mar, a lâmina que entra no balde. Este capítulo é sobre o calor que não muda a temperatura — muda a fase. A primeira seção dá o nome e a fórmula; a curva de aquecimento mostra o desenho que a prova mais usa; e o iceberg fecha a conta.

Calor que não muda a temperatura

Nos capítulos 6 e 7, calor entrou num corpo e a coluna do termômetro subiu; a régua era Q = m·c·ΔT. Ponha agora um bloco de gelo a 0 °C sobre a mesa, numa sala a 25 °C. Calor entra no gelo, porque a sala está mais quente. O gelo derrete. E o termômetro fincado na mistura de gelo e água marca 0 °C do começo ao fim — enquanto houver gelo, a coluna não se mexe.

Dois painéis lado a lado. À esquerda, calor sensível: uma barra de calor cresce ao pé de um termômetro e a coluna sobe de 20 para 60 graus. À direita, calor latente: a barra cresce do mesmo jeito, mas a coluna fica parada em 0 grau, e o bloco de gelo ao lado vira água.
Figura 8.2 — A mesma barra de calor cresce nos dois painéis. À esquerda a coluna sobe; à direita ela para: o calor está pagando a mudança de fase.

Esse calor tem nome: latente, do latim "escondido", porque o termômetro não o vê. Ele não está sendo perdido — está sendo gasto para desmontar a estrutura do sólido e soltar as moléculas umas das outras. Quando o gelo inteiro virou água, o calor volta a subir a temperatura; até lá, a coluna para.

Definição

Calor latente

A analogia que ajuda é o pedágio. Para passar de gelo a água, cada grama paga 80 calorias na cabine — parada. Enquanto paga, o termômetro não anda. Passou a cabine, a estrada segue e a temperatura volta a subir. E a cabine cobra o mesmo no sentido contrário: para a água virar gelo, cada grama devolve as mesmas 80 calorias — cedidas, agora, para fora.

Atenção

Durante a fusão a temperatura não sobe devagar: fica constante

Um erro clássico é dizer que "o gelo esquenta aos poucos enquanto derrete". Não esquenta nada: à pressão normal, gelo e água convivem só a 0 °C, e a mistura fica exatamente aí até o último cristal sumir. O mesmo vale para a água fervendo a 1 atm: fica em 100 °C enquanto houver líquido. Mudança de fase é a temperatura constante.

Fusão e vaporização: os dois pedágios da água

A água tem duas cabines de pedágio no caminho de gelo a vapor. A primeira, a fusão, fica em 0 °C e cobra 334 kJ por quilograma — 80 cal/g. A segunda, a vaporização, fica em 100 °C (a 1 atm) e cobra 2 256 kJ por quilograma — 540 cal/g. A segunda é quase sete vezes mais cara que a primeira: 2 256 ÷ 334 ≈ 6,8. Soltar as moléculas do sólido é barato perto de arrancá-las do líquido e jogá-las no ar.

Duas barras de calor deitadas, na mesma escala, para 1 quilograma de água. A de cima, fusão, mede 334 quilojoules; a de baixo, vaporização, mede 2 256 quilojoules, quase sete vezes mais comprida. Cada barra leva a temperatura em que o pedágio é cobrado: 0 grau e 100 graus Celsius.
Figura 8.3 — Os dois pedágios de 1 kg de água, na mesma escala: 334 kJ para derreter, 2 256 kJ para virar vapor.
Mudança de faseLem cal/g
fusão do gelo (0 °C)334 kJ/kg80 cal/g
vaporização (100 °C)2 256 kJ/kg540 cal/g

Definição

Os nomes das mudanças de fase

O sinal importa tanto quanto o número. Quando 1 kg de água a 0 °C vira gelo dentro do congelador, ele cede 334 kJ — Q = −334 kJ —, e é o congelador quem recebe. Quando 1 kg de vapor a 100 °C condensa na tampa da panela, cede 2 256 kJ à tampa. Por isso a queimadura de vapor é pior que a de água fervente à mesma temperatura: antes de esfriar um grau sequer, o vapor descarrega 540 cal por grama na pele ao condensar.

Atenção

Sinal declarado antes de toda troca

Fusão e vaporização: o corpo recebe, Q > 0. Solidificação e condensação: o corpo cede, Q < 0. O L é o mesmo nos dois sentidos; o que muda é quem paga. Numa questão de calorímetro com gelo, escreva o sinal antes de somar — a seção dos dois calores na mesma conta mostra como.

Dica ENEM

Dica ENEM: 80 e 540

A prova quase sempre trabalha em calorias e gramas: c da água = 1 cal/(g·°C), L de fusão = 80 cal/g, L de vaporização = 540 cal/g. Com massa em gramas, Q = m·L sai direto em calorias. Se o enunciado der 334 kJ/kg e a massa em gramas, converta antes: 334 kJ/kg = 334 J/g. Misturar quilograma com cal/g é o erro mais barato da prova.

A curva de aquecimento: rampas e patamares

Ponha 1 kg de gelo a −10 °C sobre uma chama e trace, no papel, a temperatura contra o calor recebido. O desenho que sai é a imagem-chave deste capítulo: uma rampa enquanto o gelo esquenta de −10 até 0; um patamar em 0 °C enquanto derrete; outra rampa, mais suave, enquanto a água esquenta de 0 a 100; um patamar longo em 100 °C enquanto ferve; e, se a chama continuar, uma última rampa com o vapor esquentando.

Gráfico da temperatura em graus Celsius contra o calor recebido em quilojoules para 1 quilograma de água que parte de gelo a menos 10 graus. Uma rampa curta sobe de menos 10 a 0 com 20,9 quilojoules; um patamar em 0 grau avança 334 quilojoules, a fusão; uma rampa sobe de 0 a 100 com 418,6 quilojoules; um patamar longo em 100 graus avança 2 256 quilojoules, a vaporização. Os trechos estão rotulados com a fase: gelo, gelo mais água, água, água mais vapor, vapor.
Figura 8.4 — A curva de aquecimento de 1 kg de água: rampa é calor sensível, patamar é mudança de fase. O patamar da vaporização é o trecho mais longo de todos.

Definição

Curva de aquecimento

Os comprimentos contam a história. Para 1 kg: a rampa do gelo vale 2 090 × 10 = 20 900 J; o patamar da fusão, 334 000 J; a rampa da água, 4 186 × 100 = 418 600 J; o patamar da vaporização, 2 256 000 J. Repare que a rampa do gelo é mais íngreme que a da água: o gelo tem c = 2 090 J/(kg·°C), metade do da água, e por isso sobe dois graus com o calor que na água sobe um.

TrechoQ para 1 kgFase
gelo, −10 a 0 °C20,9 kJsólido
patamar em 0 °C334 kJgelo + água
água, 0 a 100 °C418,6 kJlíquido
patamar em 100 °C2 256 kJágua + vapor

Dica ENEM

Dica ENEM: o patamar diz a fase

Numa questão de gráfico, cada trecho horizontal é uma mudança de fase e cada rampa é uma fase só esquentando. Se o gráfico tiver dois patamares, o de baixo é a fusão e o de cima é a vaporização; a temperatura de cada patamar é a temperatura de fusão e a de ebulição do material. E o L sai do gráfico: comprimento do patamar dividido pela massa.

Essa é a plantação do capítulo 9: lá, o patamar da água vai mudar de altura — 121 °C dentro de uma panela de pressão, 71 °C no alto do Everest — sem mudar de natureza. Um patamar é sempre uma coluna de termômetro que parou.

O iceberg: uma tonelada que rouba 334 MJ

Volte à noite de 1912. O iceberg está a 0 °C, ou um pouco abaixo, num mar a cerca de −2 °C. Ele não vai derreter naquela noite. Mas a conta do que ele poderia absorver mostra o tamanho do calor latente. Uma tonelada de gelo a 0 °C, só para virar água a 0 °C:

Q = m · L = 1 000 kg × 334 000 J/kg = 3,34 × 108 J = 334 MJ.

Agora o termo de comparação da abertura: 80 kg de água fervente esfriando até 0 °C. Sinal declarado: a água cede, Q < 0. Q = m · c · ΔT = 80 × 4 186 × (0 − 100) = −3,35 × 107 J: a água cede 33,5 MJ. A razão é 334 ÷ 33,5 ≈ 10. Uma tonelada de gelo derretendo engole dez vezes o que 80 kg de água fervente têm para dar — e, do outro lado da conta, esses 80 kg de água fervente derreteriam só uns 100 kg de gelo.

Extrato de calor com duas barras na mesma escala. A de cima, para uma tonelada de gelo que derrete a 0 grau, recebe mais 334 megajoules e é dez vezes mais comprida. A de baixo, para 80 quilogramas de água fervente que esfriam de 100 a 0 grau, cede menos 33,5 megajoules. Um cartão lembra a razão: 334 dividido por 33,5 é aproximadamente 10.
Figura 8.5 — O extrato: a tonelada de gelo recebe +334 MJ; os 80 kg de água fervente cedem −33,5 MJ. Dez para um.

Esse é o motivo de o gelo ser usado para conservar: ele não "faz frio" — ele recebe calor, muito calor, sem esquentar. O isopor com gelo mantém o refrigerante a 0 °C não porque o gelo está gelado, mas porque cada grama que derrete puxa 80 calorias de quem está em volta e continua a 0 °C. A colheita do capítulo 1 vale inteira aqui: não existe "frio" entrando; existe calor saindo, e o gelo é um ralo de 334 kJ por quilo.

Atenção

Temperatura não mede calor

Um iceberg a 0 °C e uma xícara de café a 90 °C: qual tem mais energia térmica? A xícara está mais quente — temperatura maior. Mas o iceberg tem uma massa milhões de vezes maior e, só para derreter, absorve mais energia do que milhares de xícaras têm para ceder. Temperatura mede o estado de cada pedaço; energia térmica soma o todo. A última seção põe números nisso.

Sensível e latente na mesma conta

Na prova, o gelo raramente começa a 0 °C e a água raramente para em 100. O caminho completo de 1 kg de gelo a −10 °C até vapor a 100 °C tem quatro parcelas, uma por trecho da curva, e a resposta é a soma:

Total: 20 900 + 334 000 + 418 600 + 2 256 000 = 3 029 500 J ≈ 3,03 MJ. E três quartos disso — 2 256 000 ÷ 3 029 500 ≈ 0,74 — foi só para virar vapor. O gelo esquentar de −10 a 0 custou menos de 1% do total.

Uma barra de calor deitada, dividida em quatro trechos na mesma escala: 20,9 quilojoules para esquentar o gelo, 334 para derreter, 418,6 para esquentar a água e 2 256 para vaporizar. O último trecho ocupa quase três quartos da barra. Embaixo, a soma: 3 029,5 quilojoules, cerca de 3,03 megajoules.
Figura 8.6 — As quatro parcelas de 1 kg de gelo a −10 °C até vapor a 100 °C, na mesma barra: a vaporização é três quartos da conta.

A regra para não se perder: desenhe a curva antes de somar. Cada rampa é uma parcela m·c·ΔT com o c daquela fase; cada patamar é uma parcela m·L. Quem começa em −10 e esquece a rampa do gelo erra pouco; quem esquece o patamar da fusão erra 334 kJ por quilo; quem esquece a vaporização erra a maior parte.

Dica ENEM

Dica ENEM: gelo a −10 °C não derrete de graça

Se o enunciado dá gelo abaixo de 0 °C, há uma parcela sensível antes do latente — com o c do gelo, que é cerca de 0,5 cal/(g·°C), metade do da água. E se pede vapor acima de 100 °C, há outra parcela sensível depois, com o c do vapor. A alternativa que esquece uma dessas parcelas está sempre entre as opções.

A mesma soma vale para o calorímetro com gelo, o extrato do capítulo 7 com um item novo. Sistema isolado: gelo + água; antes: gelo a 0 °C e água quente; depois: um só número. O gelo recebe calor duas vezes — para derreter (m·L) e, já como água, para esquentar de 0 °C até a temperatura final (m·c·ΔT); a água quente cede o total. A soma dos calores trocados é zero, e o Exemplo 5 faz a conta. A única armadilha é conferir, antes, se a água quente tem calor suficiente para derreter todo o gelo; se não tiver, a temperatura final é 0 °C e sobra gelo.

O suor, a xícara e o gelo que guarda mais energia

Vaporizar é caro — e é por isso que o suor resfria. Cada grama de suor que evapora na pele leva embora cerca de 540 cal, e esse calor sai da própria pele, que fica com menos energia térmica. Não é o suor escorrendo que refresca; é o suor sumindo. No ar seco a evaporação é rápida e o corpo se resfria bem; no ar úmido o suor não evapora, escorre, e o calor fica. A ebulição não é necessária: a evaporação é de superfície e acontece a qualquer temperatura, uma frase que o capítulo 9 desenvolve.

Agora os números da xícara e do iceberg. Uma xícara com 200 g de café a 90 °C, esfriando até 0 °C, cede Q = 0,2 × 4 186 × 90 ≈ 75 kJ. A tonelada de gelo a 0 °C, só para derreter, recebe 334 MJ = 334 000 kJ. A razão é 334 000 ÷ 75 ≈ 4 450: seriam necessárias mais de quatro mil xícaras fervendo para derreter uma tonelada de gelo — e o iceberg da abertura tinha muito mais que uma tonelada.

À esquerda, um termômetro com a coluna curta, parada em 0 grau, ao lado de um bloco de gelo grande, e uma barra de calor comprida com o rótulo 334 megajoules, o que uma tonelada recebe só para derreter. À direita, um termômetro com a coluna alta, em 90 graus, ao lado de uma xícara pequena, e uma barra de calor curta, 75 quilojoules, o que 200 gramas cedem até 0 grau. Uma nota avisa que as barras estão fora de escala: em escala, a do gelo seria mais de quatro mil vezes mais comprida.
Figura 8.7 — Coluna alta, barra curta; coluna baixa, barra enorme. Temperatura é o que se mede em cada pedaço; energia térmica é o que o corpo inteiro tem para trocar.

É a frase que o capítulo crava: um iceberg a zero grau tem mais energia térmica que uma xícara a noventa. Temperatura não mede calor. Temperatura diz para que lado o calor vai fluir se os dois se tocarem — da xícara para o gelo, sempre. Energia térmica diz quanto há para fluir. Quando o café quente encontra o gelo, o café perde a disputa da temperatura em segundos; o gelo perde alguns gramas e continua a 0 °C.

Atenção

Unidade em todo resultado, e a unidade certa

Q = m·L com m em kg e L em J/kg dá joules; com m em g e L em cal/g dá calorias. 1 kg de gelo a 334 kJ/kg são 334 000 J — e 1 000 g a 80 cal/g são 80 000 cal, que valem os mesmos 334 880 J. Se o resultado saiu sem unidade, ou com unidade que não combina com a pergunta, a conta não acabou.

Exemplos resolvidos

Toda conta deste livro é feita em três tempos: a fórmula, a substituição dos números (já nas unidades certas) e o resultado com a unidade. Nos exemplos deste capítulo há um passo antes dos três: declarar o sinal e a fase. Quem recebe tem Q > 0; quem cede, Q < 0; e cada parcela pertence a um trecho da curva — rampa ou patamar.

Exemplo 1 — A tonelada de gelo

Uma tonelada de gelo a 0 °C derrete e vira água a 0 °C. Quanto calor ela recebe, com L de fusão = 334 kJ/kg?

Fórmula. Q = m × L

Substituição. Q = 1 000 kg × 334 000 J/kg

Resultado. Q = 3,34 × 108 J = 334 MJ, recebidos a temperatura constante

Conferência. 1 000 × 334 kJ = 334 000 kJ = 334 MJ. O termômetro no gelo marca 0 °C antes, durante e depois.

Exemplo 2 — Os 80 kg de água fervente

Oitenta quilogramas de água a 100 °C esfriam até 0 °C. Quanto calor cedem, e quantas vezes isso cabe nos 334 MJ da tonelada de gelo?

Fórmula. Q = m × c × ΔT ; razão = Q gelo ÷ Q água (em módulo)

Substituição. ΔT = 0 − 100 = −100 °C ; Q = 80 × 4 186 × (−100) ; razão = 334 ÷ 33,5

Resultado. Q = −3,35 × 107 J: a água cede 33,5 MJ ; razão ≈ 10

Conferência. o sinal negativo diz que a água cede. Os 33,5 MJ derreteriam 33,5 ÷ 0,334 ≈ 100 kg de gelo — um décimo da tonelada.

Exemplo 3 — A curva inteira

Um quilograma de gelo a −10 °C é aquecido até virar vapor a 100 °C. Quanto calor recebe no total, com c do gelo = 2 090 J/(kg·°C), c da água = 4 186 J/(kg·°C), L de fusão = 334 kJ/kg e L de vaporização = 2 256 kJ/kg?

Fórmula. Q = m·c gelo·ΔT₁ + m·L fusão + m·c água·ΔT₂ + m·L vap

Substituição. Q = 1 × 2 090 × 10 + 1 × 334 000 + 1 × 4 186 × 100 + 1 × 2 256 000 = 20 900 + 334 000 + 418 600 + 2 256 000

Resultado. Q = 3 029 500 J ≈ 3,03 MJ

Conferência. a vaporização sozinha é 2 256 000 ÷ 3 029 500 ≈ 74% do total — três quartos da conta foi só para virar vapor.

Exemplo 4 — O chuveiro que ferve um litro até o fim

Um chuveiro de 5 500 W entrega todo o seu calor a 1 kg de água já a 100 °C. Quanto tempo leva para vaporizar toda a água, e quanto levaria antes só para trazê-la de 20 °C a 100 °C?

Fórmula. Q = P × Δt ⇒ Δt = Q ÷ P ; Q vap = m × L vap ; Q sens = m × c × ΔT

Substituição. Δt vap = 2 256 000 ÷ 5 500 ; Δt sens = (1 × 4 186 × 80) ÷ 5 500 = 334 880 ÷ 5 500

Resultado. Δt vap ≈ 410 s ≈ 6,8 min ; Δt sens ≈ 61 s ≈ 1 min

Conferência. um minuto para chegar a 100 °C e quase sete para virar vapor — o patamar da vaporização é quase sete vezes a rampa da água.

Sistema isolado com um copo: antes, 100 gramas de gelo a 0 grau e 400 gramas de água a 50 graus; depois, 500 gramas de água a 24 graus. O extrato tem três barras: o gelo recebe 8 000 calorias para derreter e mais 2 400 para esquentar de 0 a 24; a água quente cede 10 400 calorias, esfriando de 50 a 24. A soma é zero.
Figura 8.8 — O Exemplo 5 em extrato: o gelo recebe duas vezes, para derreter e para esquentar; a água quente cede o total. Soma zero.

Exemplo 5 — O copo com gelo

Num copo isolado, 100 g de gelo a 0 °C são postos em 400 g de água a 50 °C. Qual é a temperatura final, com c da água = 1 cal/(g·°C) e L de fusão = 80 cal/g?

Fórmula. sistema isolado: gelo + água ; antes: 0 °C e 50 °C ; depois: T ; soma dos Q = 0 ⇒ m gelo·L + m gelo·c·(T − 0) + m água·c·(T − 50) = 0

Substituição. 100 × 80 + 100 × 1 × T + 400 × 1 × (T − 50) = 0 ⇒ 500T = 12 000

Resultado. T = 24 °C

Conferência. 400 × 50 = 20 000 cal disponíveis contra 8 000 cal da fusão: todo o gelo derrete e T > 0.

Radar ENEM

O ENEM cobra este capítulo em quatro formatos. O primeiro é a conta direta Q = m·L, quase sempre em calorias e gramas, com 80 e 540. O segundo é a curva de aquecimento: um gráfico com rampas e patamares em que se pergunta a fase de um trecho, a temperatura de fusão ou de ebulição, ou o calor latente lido do comprimento do patamar. O terceiro é a soma sensível + latente — gelo abaixo de zero até vapor, ou calorímetro com gelo. O quarto é conceitual: por que o suor resfria, por que o gelo conserva, por que a queimadura de vapor é pior.

Uma curva de aquecimento com dois patamares, de um material em que se lê a temperatura de fusão no patamar de baixo e a de ebulição no de cima. Um cartão faz a pergunta: em que fase está o material no patamar de baixo? A resposta certa diz sólido e líquido juntos, a temperatura constante. Um cartão riscado com um X traz o distrator: sólido esquentando devagar.
Figura 8.9 — No patamar ninguém está esquentando devagar: há duas fases juntas e a coluna parada. O distrator está sempre entre as alternativas.

Um exemplo do segundo formato. Um gráfico mostra 100 g de uma substância que recebe calor: a temperatura sobe, para em 0 °C durante 8 000 cal, volta a subir, para em 100 °C durante 54 000 cal. Qual é o calor latente de fusão? O comprimento do patamar de baixo dividido pela massa: 8 000 ÷ 100 = 80 cal/g. O distrator é o próprio 8 000 — quem esquece de dividir pela massa — e o outro é 54 000 ÷ 100 = 540 cal/g, quem lê o patamar errado. Na pergunta "em que fase está a substância no meio do primeiro patamar", a resposta é sólido e líquido juntos; o distrator diz "sólido, esquentando devagar", e a temperatura constante desmente.

Dica ENEM

Dica ENEM: os tropeços que o examinador coloca nas alternativas

Resumo em cinco peças

Cinco peças: Q igual a m vezes L, calor que muda a fase e não a temperatura; L de fusão do gelo 80 cal/g e L de vaporização 540 cal/g; patamar no gráfico é mudança de fase, a temperatura constante; sensível e latente somam na mesma conta; gelo a 0 grau guarda mais energia térmica que uma xícara a 90.
Figura 8.10 — O capítulo em cinco peças.
  1. Q = m·L: o calor latente muda a fase, não a temperatura — a coluna do termômetro para.
  2. Água: L de fusão = 334 kJ/kg = 80 cal/g; L de vaporização = 2 256 kJ/kg = 540 cal/g.
  3. Na curva de aquecimento, rampa é calor sensível e patamar é mudança de fase, a T constante.
  4. Sensível e latente somam na mesma conta: de gelo a −10 °C até vapor são quatro parcelas.
  5. Gelo a 0 °C guarda mais energia térmica que uma xícara a 90 °C: temperatura não mede calor.

Se for guardar uma frase só, guarde o pedágio: para mudar de fase a água paga, parada, e o termômetro não anda enquanto ela paga.

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